Loyalty
4 IV - Leitura e lamentos
“Me ensine a ler.”
O pedido veio numa noite sombria e envolta em névoa. Foi acompanhado de uma grande ansiedade por parte de quem o fez, e uma surpresa ainda maior de quem o recebeu.
Ela não se sentia capaz de fazê-lo. Não sabia se o tempo seria suficiente. Não sabia se era seguro recebê-lo em sua casa, todas as manhãs, quatro horas por dia.
Mesmo assim, Luka aceitou o pedido de Meito. Estava em dívida com ele no fim das contas, precisava ao menos tentar; e as férias de sua escola lhe davam tempo para isso.
Mas acima de tudo, era um amigo quem precisava de ajuda, e ela não podia recusar.
— Amigo? — Os olhos claros de Meito lhe fitaram pensativos.
— Sim— ela respondeu.— Algum problema?
— Não— ele balançou a cabeça, um sorriso leve em seus lábios.— Um amigo é algo bom de se ser.
Já fazia algum tempo que ele não a via dessa forma. Quem sabe até mesmo, ele tivesse pulado a fase da amizade.
Em pouco tempo, Luka deixara de ser uma estranha que lhe ajudou num momento de desespero, para se tornar a pessoa mais importante de sua vida. Sua inocência e nobreza e seu coração gentil o conquistaram antes que percebesse, e quando Meito atentou para o fato de que ela era provavelmente a garota mais bela que ele já tinha conhecido, todos os sentimentos de afeto, carinho e desejo de posse se voltaram para ela.
Meito a amava, e tinha consciência disso. Depois da sensação inicial de desnorteio, natural para uma pessoa que nunca amou e jamais foi amado por ninguém, ele sentiu-se igualmente frustrado e confortado.
A frustração vinha da certeza de que dificilmente Luka lhe corresponderia, e ainda que o fizesse, a garota não teria muitas perspectivas de vida ao lado de um criminoso como ele. Meito a amava o bastante para decidir se afastar para sempre, caso percebesse que sua presença era nociva a ela.
E a ideia que lhe trazia conforto era a de que, pelo menos por enquanto, nada de ruim estava acontecendo. Podia permanecer ao seu lado sem lhe fazer mal. O pedido que lhe fizera não era só desculpa – Meito realmente queria, e precisava aprender a ler, caso quisesse continuar como o assassino invicto que era – mas não deixava de ser a única oportunidade de o rapaz poder estar na companhia dela. Não podia se declarar. Não podia tocá-la. Nem queria imaginar o que podia acontecer, caso um dia ela viesse a desconfiar da intensidade dos sentimentos que nutria por ela, e a menor possibilidade de sofrimento que ele lhe pudesse causar era o bastante para fazer Meito permanecer calado.
Mas podia ficar ao lado dela naquelas poucas horas, ouvir sua voz, sentir seu perfume, admirá-la, amá-la em silêncio. Era torturante sim, e maravilhoso ao mesmo tempo – provavelmente o mais perto da felicidade que ele já esteve, em toda sua vida.
A avó de Luka não demorou a notar os olhares furtivos, demorados e intensos do rapaz, e embora a garota jamais desconfiasse, ela sabia muito bem o que aqueles olhos ambarinos transpareciam.
Certa tarde ele apareceu na casa, poucos minutos antes de Luka sair para o trabalho. Ela o fitou surpresa da porta, e então sorriu. A visita inesperada era uma surpresa agradável a ela.
— Saia da neve— puxou-o para dentro, o calor da mão dela deixando-o inerte por um breve momento.
— Estou desocupado esta tarde— ele murmurou, tentando explicar a visita repentina.— Pensei se eu não podia ficar aqui estudando, até a hora que você voltar.
— Claro— o sorriso cresceu no rosto dela.— Tem livros lá dentro, e se você tiver dúvida em alguma coisa, pode perguntar a minha avó.
Aquelas visitas vespertinas foram se tornando mais costumeiras no decorrer dos dias. Luka sempre ficava mais tranqüila ao saber que Meito estava em casa. O tempo que passaram juntos a fez conhecer melhor a personalidade do rapaz, e ela agora sabia que ele era naturalmente arredio e quieto, mas também gentil; só agia com brutalidade por conta das circunstâncias de sua vida. Talvez fosse bom para ele também, estar num lugar pacífico como a casa dela, longe da violência de sua rotina. Também confiava nele para estar junto com sua avó, com quem ele, apesar de não falar muito, era sempre muito gentil e solícito.
A própria senhora tinha grande afeição pelo rapaz. Gostava de sua reserva natural e do interesse crescente que ele demonstrava pelas letras. Ela era experiente o bastante para saber que a presença de uma pessoa como ele na vida dela e de sua neta tinha o mesmo potencial para protegê-las ou arruiná-las. Bastava que a distância segura fosse mantida – a distância que separava os negócios particulares de Meito de sua presença na casa, e que delimitava os motivos pelos quais ele estava ali.
Porém, a cada vez que Luka estava distraída, e o rapaz se perdia em sua admiração por ela, a velha senhora sabia que aquela distância estava sendo ameaçada. E aquilo poderia ser ruim para todos.
Especialmente para sua neta.
A lenha estalava preguiçosamente na lareira. A noite seguia enevoada, e o vento assobiava na janela da sala.
A velha senhora estava recostada em sua poltrona, ouvindo peças de Beethoven tocarem na vitrola. Agradeceu a Meito quando ele chegou da cozinha, trazendo-lhe uma xícara de chá. O rapaz sentou-se diante dela e continuou a leitura de um volume fino – em quase um mês de letramento ele já era capaz de decifrar pequenos textos.
Ela terminou a xícara e pousou-a na mesinha de centro.
— Está indo bem?— indagou ao rapaz.
— Melhorando— ele lhe informou, a testa franzida pelo esforço.— Tenho que praticar pra melhorar, é o que Luka-san diz. Mas pelo jeito, tenho muito o que praticar ainda.
— Você é esforçado— a senhora sorriu, observando-o calmamente.— Luka admira isso em você.
Ele engoliu em seco, sentido um desconforto repentino. — Ela tem me ajudado muito.
— Imagino que sim.
O tom inexpressivo dela fez Meito baixar o olhar, um tanto intimidado. Não sabia se ela o acusava de algo, embora não acreditasse – a avó de Luka era quase tão gentil quanto ela. Mas os olhos experientes e perscrutadores da senhora estavam lhe deixando nervoso.
— Meu marido tinha um jeito estranho de ver as coisas— ela disse de repente.— Ficava me dizendo que o contrário de viver não é morrer, mas lamentar a vida que não se teve. Digo que é um jeito estranho de ver as coisas, porque ele lutou em duas guerras e voltou da segunda em um caixão. Ele nunca lamentou a vida que não teve. É uma das coisas que não se pode fazer depois que se morre, não é?
Ela sorriu um tanto amarga, os olhos contemplando algum ponto desconhecido. Meito fechou o livro e fitou-a, curioso.
— Por que está me contando isso?
— Acho que você sabe.
Ela voltou a perscrutá-lo com o olhar e Meito quase podia senti-lo trespassando sua mente. Sim, aquela bondosa velhinha devia ter alguma habilidade de bruxa.
Ou então, ele não devia ser um apaixonado muito discreto.
— É, acho que eu sei— admitiu num suspiro cansado.— Mas lamentar a vida que eu não posso viver é tudo o que posso fazer agora. É o mais seguro, pra mim... E pra todos.
— Entendo, e admiro sua boa vontade em fazer isso. Mas acho que só vontade não basta, Meito-kun. Há coisas que estão além de nosso controle, por mais que dependam de nós. E quando essas coisas dizem respeito ao nosso coração, não podemos nos dar ao luxo de imaginar que temos o controle de qualquer coisa. É ele quem manda, sempre.
— Isso não soa muito animador. Eu prefiro pensar que estou no controle de minha vida e de meus atos.
— Você pode pensar o que quiser sobre sua vida. Mas partir do momento em que suas decisões influenciam a vida de outras pessoas, é sua obrigação rever seus conceitos.
As palavras saíam tranqüilas e amigáveis dos lábios da senhora, mas Meito as sentia se cravarem afiadas em sua carne.
— E a senhora acha que estou fazendo o que não deveria?— indagou perturbado.
Ela crispou os lábios, sua expressão carregada. Gostava de Meito, e gostaria que ele pudesse se envolver com Luka sem representar um perigo para ela. Mas lamentar uma vida que não se podia ter, segundo seu falecido marido, era o mesmo que já estar morta.
—Tenho certeza— disse por fim, decidida. — Todos nós nascemos predispostos a nos deixar levar pelos nossos sentimentos, não importa o quanto nos tornemos brutos, violentos, frios. Ter um coração significa que ele pode traí-lo algum dia, e só o que você pode fazer é evitar que algo de ruim aconteça quando esse dia chegar.
“Algo ruim”, ele refletiu por um momento, desolado.
Só o seu profundo amor por Luka, e mesmo a afeição que ele sentia por aquela casa e aquela família, lhe impediram de se revoltar com as palavras da velha senhora. Pois ele sabia que era verdade, e essa certeza lhe lançou imediatamente nos mais longos pensamentos de inferioridade que já teve. Lembrou-se de sua origem desconhecida, dos orfanatos e reformatórios por onde passou. Tinha se criado em ambientes pérfidos e violentos e carregado aquela atmosfera consigo, incorporando o fardo de seus crimes a ponto de macular qualquer lugar por onde passasse. Mesmo naquela casa, onde era admitido como igual e a única que podia quase chamar de lar, ele não poderia ficar muito tempo sem manchá-la com seus próprios pecados, e no pior cenário, com o sangue de suas residentes.
Definitivamente não seria justo com elas. E ainda que admitisse isso, Meito sentia uma raiva terrível de uma injustiça muito mais antiga – a que permitia que ele e tantas outras pessoas não nascessem, mas fossem simplesmente atiradas no mundo como animais à própria sorte. Do que adiantava passar por tudo o que ele passou, para depois encontrar alguém como Luka e não ter sequer o direito de se apaixonar por ela?
A velha senhora parecia ler o que se passava na alma torturada do rapaz que, entregue ao seu próprio devaneio, teve um sobressalto ao vê-la ao seu lado, a mão pousada sobre seu ombro.
— Se quer saber, dane-se o que meu marido achava— ela murmurou pesarosa.— Eu lamento, e muito, que nossas vidas não possam ser de outra maneira.
Havia dor nos olhos dela, tanto quanto haveria em alguém que se importasse de verdade. Meito sabia, e sabia que a velha senhora prezava a integridade de sua neta antes de qualquer coisa. Era um sentimento com o qual ele se identificava bastante, e suficiente para evitar qualquer indisposição contra a senhora.
— Obrigado— ele murmurou.— Mas temos que continuar vivendo, de qualquer maneira. Como eu disse, Luka-san me ajudou muito. Ela me deu instrução bastante pra que eu possa continuar sozinho.
— Sim, e certamente continuará, na próxima semana.
Ela enfatizou as últimas palavras. Na semana seguinte as aulas matinais de Luka recomeçariam, então de qualquer modo ela não teria mais tempo para ensinar Meito. Mas ele realmente tinha sido alfabetizado o suficiente para continuar seus estudos sem necessidade de um acompanhamento intensivo. Era algo que eles vinham discutindo nos dias anteriores, pois Luka estava preocupada com sua volta às aulas e em como elas atrapalhariam os progressos de Meito. A avó sabia que ela queria pelo menos fechar a última semana adequadamente, e preferia que os planos fossem mantidos.
— Sim— Ele assentiu com firmeza.
Ia terminar aquela semana. E depois, não iria mais procurar Luka. Se possível, ia mesmo se afastar. Não o faria efetivamente, pois aquele bairro continuava perigoso e ele não confiava em deixá-las desprotegidas. Mas não precisaria estar com Luka para isso.
Todas essas coisas ele pensava enquanto olhava nos olhos claros da velha senhora, e ela o fitava de volta, como se compreendesse perfeitamente. Ao invés da agudeza intimidadora de antes, eles agora transmitiam apenas gratidão e pesar, e Meito sentiu que sim, lamentar era realmente tudo o que se havia a fazer.
— Em voz alta— ela pediu, quando Meito começou a correr os olhos sobre o trecho que ela lhe pediu para ler.
Ele olhou-a ligeiramente surpreso, e apanhou o livro com uma hesitação visível. Nunca tinha lido em voz alta, e levou minutos torturantes para terminar o primeiro parágrafo.
— Bem,— Luka disse— mais pra frente, você precisa prestar atenção na marcação das frases. Precisa fazer pequenas pausas entre elas, e não ir lendo tudo como se fosse uma frase só. Aqui, vou fazer uma nota sobre os sinais e o tipo de pausa que eles marcam no final das frases.
Ela se debruçou sobre o bloco de anotações, já quase vazio depois das dezenas de notas que ela tinha escrito e feito o rapaz prometer que estudaria.
— Ainda tem a separação das sílabas, a construção de frases...— ela suspirou e passou a mão pelos cabelos longos, frustrada.— Tanta coisa que você podia aprender, e eu não vou ter tempo de te ensinar...
— Já me ensinou mais do que eu achei que conseguia aprender— ele respondeu.
— Pois é, você é um aluno excelente. Incrível como evoluiu tanto em tão pouco tempo, e com uma instrutora como eu. Se você tivesse ao menos conseguido ir à escola e estudar da maneira apropriada...
— Não lamente o que não aconteceu— ele sorriu.— Além do mais, para alguém que não tinha ideia de como me ensinar alguma coisa, você também foi uma professora excelente.
O elogio a pegou desprevenida. Ela corou até a raiz dos cabelos, enquanto afirmava estar convicta de que seu desempenho ao instruir alguém era sofrível.
Sua avó apareceu na sala, chamando-os para almoçar. A garota seguiu Meito até a cozinha, e enquanto fitava as costas largas do rapaz, se perguntava o porquê de seu coração estar ligeiramente acelerado naquele momento.
Na semana seguinte, Meito logo encontrou ocupação bastante para impedir que seus pensamentos vagueassem demais.
Ouviu rumores de que uma gangue em ascensão na cidade parecia estar interessada nele. Decidiu então parar provisoriamente os estudos e se jogar de cabeça nas rinhas humanas, o melhor local para aperfeiçoar suas habilidades de luta. Também arranjou uma moto e, por indicação de um conhecido, passou a freqüentar um depósito abandonado no meio do deserto, onde ele podia treinar a pontaria das várias armas de fogo que vinha adquirindo. Queria se tornar um excelente assassino, alguém por quem as gangues se matariam para ter a seu serviço. E como Luka atestara, ele de fato tinha uma facilidade enorme de se aperfeiçoar no que quisesse em pouco tempo.
Ele só precisava da motivação certa. E naquele caso, sua motivação era esquecer que um dia sonhou em ter Luka ao seu lado.
Eram de mundos distintos, e deviam permanecer separados, para o bem de todos. Naqueles dias, Meito só pensava em tirá-la da cabeça, ocupando a mente com seu treinamento e mais nada. Ele só voltava a vê-la à noite, quando fazia sua vigília enquanto ela voltava para casa. Fazia questão de continuar a protegê-la, mas jamais deixou que ela o visse novamente.
Ele também sabia que, mesmo que tentasse muito, só poderia tirá-la de sua cabeça.
Porque nada no mundo a tiraria do seu coração.
Luka não demorou a notar a ausência de Meito.
Ele não voltou a sua casa, desde a última semana de estudos. A garota sentia sua presença no caminho de casa à noite, mas nunca mais o ouviu responder quando ela o chamava. O afastamento repentino e aparentemente proposital do rapaz a deixou aflita.
— Ele te disse alguma coisa?— indagou à avó certo dia. E então, uma ideia sombria e repentina lhe sobreveio. —A senhora disse alguma coisa a ele?
— Bem, dissemos muitas coisas um ao outro— a velha senhora sorriu tranquilamente.— De fato, aquele rapazinho é um ótimo interlocutor. Ninguém desconfiaria disso,vendo o jeito calado e distante dele, mas...
— Baa-san...
— Não querida, eu não sei o porquê de ele ter se afastado, se é o que quer saber. Só tenho minhas suposições do que pode ter sido.
— E o que a senhora acha?— ela indagou, ansiosa.
— Ele é um criminoso, e apesar disso se importa conosco. Use sua imaginação, Luka-chan.
A jovem pensou um pouco,e então os grandes olhos azuis ergueram-se na direção da avó, assustados.
— Estamos correndo perigo?— indagou.— Ele está fazendo isso pra nos proteger?
— Acredito que sim.
— Bem... Mas mesmo assim,— ela retorquiu agitada— ele precisava sumir desse jeito?
— Ele deve ter achado que se afastar de nós foi o mais prudente a se fazer. Ou algo assim. Não podemos saber o que se passa na mente dele afinal.
— Não— ela cruzou os braços, pensativa.— Não pode ser isso. Tem alguma coisa errada, só não sei o que é...
A avó observou a garota, temerosa por um momento, mas logo se acalmou. Sabia que, apesar de ter boa intuição, Luka não era muito perspicaz em alguns assuntos, e certamente a última coisa que pensaria ter sido motivo do afastamento de Meito seria ele estar apaixonado por ela.
O que nenhuma das duas imaginava, no entanto, era o quanto a distância do rapaz afetaria Luka no decorrer do tempo.
Ela se pegava pensando nele mais vezes que de costume. Naqueles poucos dias que passaram juntos ela já havia se habituado à sua presença calma e atenciosa, aos seus sorrisos raros e breves. Meito sempre foi um mistério para ela, com seu passado sombrio e sua vida perigosa, coisas de que nunca falava; e que ao mesmo tempo que despertavam uma curiosidade terrível em Luka, eram algo que ela sabia muito bem que não devia mencionar. Conhecia o gênio difícil dele quando era perturbado, e ela não queria perturbá-lo, por maior que fosse sua necessidade de conhecê-lo, de se aproximar mais daquele rapaz, de entendê-lo. Tinha bem poucas oportunidades de fazer isso enquanto o ajudava com os estudos, mas ainda era melhor do que nada. E com o afastamento dele, Luka sentiu a falta dele pesar em seu peito.
Queria estar perto dele. Queria vê-lo outra vez e estar com ele.
Ela olhava pela janela certa noite, depois de chegar do trabalho, enquanto respondia a um questionário da escola para o dia seguinte. Lá fora a chuva caía pesada, e ela se perguntava se Meito estaria bem. Seu coração acelerou subitamente, chegando a assustá-la. Ela pôs a mão sobre o pulôver, o rosto quente, a respiração levemente ofegante.
E então se deu conta de que o amava.
Devia ter percebido antes, mas para uma garota tímida e que jamais havia se apaixonado na vida, aquele tipo de coisa devia levar um tempo para se fazer entender. Ao menos era o que ela achava, enquanto os pensamentos se misturavam atribulados em sua cabeça e ela corria até a vidraça fria da janela, tentando ordenar a mente.
Amava Meito. Agora as coisas pareciam fazer mais sentido. Por isso não podia tirá-lo da cabeça, não passava um dia sem lembrar dele, e sentia sua falta terrivelmente. Por um tempo até achou que gostava dele, mas aquela pressão em seu peito quando pensava no rapaz lhe dizia que aquilo era um pouco mais sério que uma simples afeição. Amava-o, e sua vontade de querê-lo em sua vida só aumentava a cada minuto, a cada segundo.
Mas, e agora? Sua mão agarrou a lã do casaco. Ela estava perdida. O que iria dizer a sua avó, a quem já tinha dito que não se envolveria demais com Meito? E o que diria a ele?
Por fim, respirou fundo e procurou se acalmar. Não havia por que entrar em desespero agora. Sua avó não precisava saber de nada, e como estava difícil ver Meito aqueles dias, ela não tinha que se preocupar em contar nada a ninguém. Era um pensamento tranqüilizador.
Mas ela não estava tranqüila quando se deitou para dormir naquela noite...
Estava apaixonada. Seu coração ainda não tinha desacelerado, e a mera lembrança de Meito fazia-lhe suspirar. Ela não sabia se sorria, se chorava, se gritava; só o que sabia era que não podia ficar indiferente ao sentimento que explodia dentro dela por muito mais tempo.
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