Notas iniciais
Oi, gente! Bem, antes de qualquer coisa, eu gostaria de agradecer aos comentários que recebi nos outros capítulos que postei. Gostei MUITO de ler os elogios, e de saber que vocês estão gostando e acompanhando. E também gostaria de me desculpar pela demora em postar um novo capítulo. Ando muito atarefada, e com alguns problemas pessoais que aparentemente nunca vou conseguir resolver, então acabo sem tempo e paciência pra vir postar aqui. Ainda mais que escrevo tudo no caderno pra passar depois pra cá. Enfim. Me desculpem. Sem mais delongas, aqui vai o terceiro capítulo. Espero que gostem. ♥

A escola era uma zona de guerra. E eu dizia isso quase literalmente. O refeitório era uma prova viva de que qualquer movimento errado podia resultar numa briga imensa. E eis aqui uma lista de motivos que justificavam minha vontade de ser negra:

1) Da mesma forma que os negros sofrem preconceito quando estão em uma "comunidade de gente branca", os brancos também sofrem na comunidade negra.

2) Muitas meninas ali descoloriam seus cabelos na esperança de atingir um tom de loiro, e meu cabelo naturalmente claro parecia causar inveja em alguns delas.

3) Todas as meninas pareciam ter uma grande experiência em brigas, enquanto eu mal sabia dar um soco.

4) Última justificativa pra eu querer ser negra: Se eu fosse negra, as seguintes coisas não teriam acontecido.

Ser chamada de "branquela" não agradou muito Zooey. Ou pelo menos era o que parecia. Se você reparasse bem em Zooey, ela parecia ser bem durona. Seu cabelo preto estava preso num rabo-de-cavalo, e suas roupas, apesar de não fazerem o estilo de roupa que as outras meninas ali usavam, refletiam bem sua personalidade. Ela usava jeans e botas escuras, e uma jaqueta azul que cobria a camiseta branca.

Ela revirou os olhos e empurrou sua bandeja de comida pra longe enquanto se levantava. Eu não podia imaginar Zooey brigando com a líder daquele grupo, e imagina se todas as outras resolvessem ir pra cima dela? E pior ainda, e se elas quisessem ME bater?

A comida parecia estar presa na minha garganta enquanto eu assistia a grandalhona se aproximar de Zooey.

— O que foi, branquela? — A menina riu, como se chamar Zooey de branquela fosse realmente engraçado. — Vai defender sua namoradinha?

— Vou sim, se você continuar abrindo essa boca podre só pra falar merda. Você não tem nenhum pau pra chupar não? — Zooey estava visivelmente irritada. Suas mãos estavam coladas junto ao seu corpo e tremiam muito. Fiquei apreensiva por ela. Por nós. Se todas aquelas meninas resolvessem nos bater, eu provavelmente voltaria pra casa num saco preto.

— É melhor você tomar cuidado com o que fala, aberração. Uma hora dessas você pode ter os dentes quebrados pra aprender a ter bons modos. — E logo depois de falar isso, a menina estapeou o rosto de Zooey. Sua pele clara imediatamente assumiu um tom avermelhado onde o tapa lhe atingiu. Eu pensei que ela fosse revidar. Já estava esperando que ela começasse a bater na outra, mas ela apenas afagou o lugar onde levou o tapa. Isso deu mais motivos ainda pra que as outras meninas rissem dela.

— Fracote! — Uma delas gritou por sobre as risadas enquanto o grupo se afastava de nós.

Todos no refeitório pareciam ter parado todas as suas atividades pra que pudessem assistir a briga. E aos poucos os cochichos começaram a ecoar pra todo lado, e eu puxei Zooey de volta para a mesa. Eu não fazia ideia do que poderia dizer pra reconfortá-la. Não conseguia me colocar em seu lugar e me imaginar passando por uma situação como aquela. Algumas pessoas olhavam e apontavam para nós, as branquelas, as deslocadas e indesejadas. Guardei em minha bolsa o resto de nosso lanche que era possível carregar e segurei no braço de Zooey, levantando-a do banco. Ela permanecia calada, os dedos esfregando o pedaço de pele vermelha em sua bochecha.

Arrestei Zooey comigo até o banheiro. Levei longos minutos até encontrar o banheiro, e entrei em uma das cabines com Zooey. Não me importei se ela fosse achar que aquilo era estranho, ou se outras meninas chegassem e nos encontrassem ali. Zooey não estava bem e eu não poderia deixá-la exposta no refeitório.

— Zooey, senta — pedi, a voz soando mais baixa do que eu planejara. Eu ainda segurava em seu braço e a ajudei a se sentar. — Vai ficar tudo bem. Falei automaticamente, abaixando-me pra que pudesse ficar quase da mesma altura que ela. E então ela começou a chorar. Um choro silencioso e envergonhado. Ela cobriu o rosto com as mãos, os soluços abafados pelas mãos que cobriam a boca.

— Vá embora! — soluçou, e limpou as lágrimas que inundavam seu rosto. — Vai! Eu não quero e não preciso de sua ajuda! — Ela se levantou e empurrou-me pra fora do cubículo.

— Zooey, por favor... Me desculpe. — Era tudo culpa minha. Eu não deveria ter dado assunto pra ela, não deveria ter me misturado. Acima de tudo, eu nunca deveria ter ido parar naquele colégio.

Deixei o banheiro com um aperto no coração. Aquele era só o primeiro dia e eu já tinha sido xingada, feito uma amiga, visto uma amiga sendo agredida e perdido tal amiga. Será que o dia poderia ficar pior?
Tudo aconteceu rápido demais, e ao mesmo tempo era como se horas tivessem se passado desde que eu ouvira a voz de Zooey pela primeira vez. O intervalo havia acabado e eu forcei meus pés a se moverem até a sala de aula. Apesar de toda a merda que tinha acontecido, eu ainda tinha mais duas aulas pela frente. Que Deus me desse forças.

Na sala de aula encontrei 17 rostos ansiosos que me encaravam sem nenhuma discrição. Tive vontade de fazer cara feia, xingar, mostrar-lhes o dedo do meio e pedir que parassem de olhar pra mim. Mas assim como na aula anterior, eu apenas caminhei até o final da sala, sentei-me na última carteira e tentei ignorar os cochichos e os olhares que se voltavam pra mim.

Eu não vi Zooey quando troquei de sala, e também não a vi no estacionamento e do lado de fora do colégio. Cheguei a checar o banheiro antes de ir embora, mas ela também não estava lá.
Eu me sentia um lixo. Por sorte não tive que encarar meu pai quando cheguei em casa. Coloquei um pedaço de pizza do dia anterior no microondas enquanto pensava em Zooey e no que teria acontecido com ela. Só podia desejar e esperar que ela estivesse bem.

Notas finais
Comentem! (E desculpem pelos erros, não tive tempo de revisar)