Quando acordei, pensei que todos os acontecimentos do dia anterior tivessem sido nada além de um sonho ruim. Mas os restos do lanche de Zooey em cima de uma das caixas que ocupavam meu quarto provava que tudo tinha sido real. Gemi de frustração e me obriguei a sair da cama, tomar um banho e vestir qualquer coisa que me deixasse aquecida durante o resto do dia.

É claro que meu pai não estava mais em casa. Na noite passada mal nos falamos durante o jantar. Ele foi educado o suficiente para perguntar como tinha sido meu primeiro dia na nova escola, se eu tinha gostado do lugar e se as pessoas eram legais. Limitei minhas respostas a um curto "ok", omitindo os detalhes horríveis sobre o meu dia. Sei que pode parecer uma longa conversa, mas isso tudo não durou nem três minutos.

Não encontrei nenhum bilhete e/ou dinheiro em cima da mesa, e percebi que o que acontecera na manhã anterior era uma coisa que provavelmente não voltaria a acontecer. Mas tudo bem, eu não tinha mesmo me sentido confortável com aquela estranha demonstração de afeto.

Novamente tive que aguentar todos olhando pra mim enquanto eu me juntava à fila pra passar pelo detector de metal. Eu olhei ao meu redor, tentando ignorar os outros e procurando por Zooey. Não a vi por ali, e imaginei que ela provavelmente já estava dentro do colégio. Quando passei pelo segurança que revistava as bolsas, ele tirou uma escova de dentes de um dos bolsos internos. Eu não sabia como uma escova de dentes tinha ido parar dentro da minha bolsa, mas eu tive que me livrar dela antes de entrar no colégio. Não sei que mal uma escova de dentes poderia fazer, mas a joguei numa lixeira sem fazer perguntas.

Não vi Zooey no campus. Eu também não tinha certeza se tínhamos alguma aula juntas, então a cada nova aula em que entrava, procurava por ela. Mas não a encontrei. Eu não poderia perguntar sobre ela porque sabia que ninguém falaria comigo. Pelo menos não depois do showzinho que aconteceu no refeitório no dia anterior. Refeitório esse que estava lotado. Era como se tivesse o dobro de alunos que apareceram no primeiro dia de aula.

Comprei uma Coca-Cola e me sentei na mesma mesa que tinha dividido com Zooey. Eu esperava que ela aparecesse e me encontrasse ali. As meninas que implicaram comigo e com Zooey passaram por minha mesa e soltaram risadinhas.

— Cadê a sua namoradinha, barbie gótica? Ela te abandonou hoje, é? — A maior delas gritou, e afastou-se até outra mesa com suas seguidoras atrás.

Onde estava Zooey? Eu começava a me preocupar. Será que algo tinha acontecido com ela? Eu estava nervosa demais para beber meu refrigerante, então empurrei a lata pro lado e cruzei os braços. Tinha medo de acabar vomitando se bebesse ou comesse alguma coisa.

— Ela não veio hoje. — Uma voz masculina interrompeu meus pensamentos. O rapaz se sentou de frente para mim e deixou sua bandeja sobre a mesa. — Zooey. Ela não apareceu hoje. Nós temos aula de Biologia juntos — explicou, e deu uma mordida em sua pizza.

— Ah... — Eu não sabia o que dizer. — Que pena. Queria saber se ela está bem.

— Você parece decepcionada — ele apontou, o sorriso sumindo de seu rosto.

E eu estava mesmo decepcionada. Não sei se esse era o sentimento certo, mas eu estava triste por Zooey não estar ali.

— Não se preocupa — ele deixou sua pizza de lado e tomou um gole de refrigerante. — Ela vai aparecer.

Mas ela não apareceu. Nem na quarta-feira e em nenhum outro dia da semana. Descobri que aquela não era a primeira vez que forçavam alguém a deixar o colégio. Geralmente eram as brancas que, pelo azar do destino, acabavam caindo naquele lugar. E eu estava esperando a minha vez. Já aceitara o fato de que Zooey não voltaria; elas tinham conseguido o que queriam: Livrar-se das branquelas. E eu seria a próxima.

No fim, eu ficaria feliz por ir embora. Não teria que inventar nenhuma desculpa para contar ao meu pai. Eu simplesmente iria embora e nunca mais precisaria suportar aquele lugar. E também nunca mais veria Zooey.

Na sexta-feira, enquanto eu mordiscava minha maçã, eu me perguntava onde Zooey estava e se estava bem. Eu me sentia culpada por tudo o que tinha acontecido. E se ela tivesse mesmo deixado o colégio? Eu nunca teria uma chance de me desculpar, então? Eu me sentia péssima por pensar naquilo, e era tudo culpa minha. Se eu não tivesse falado com Zooey, ou tivesse a segurado quando foi provocada, nada daquilo teria acontecido.

— Você é sempre tão quieta e pensativa. — Ele suspirou enquanto se sentava ao meu lado. Eu não o via desde a terça-feira, e mesmo assim sua voz ainda era incrivelmente familiar. — Um centavo por seus pensamentos.

Eu me virei e sorri. Sempre que o via com seus amigos ele parecia tão alegre e brincalhão. Eu também não podia negar que ele era muito bonito. Não entendia o motivo dele deixar seus amigos para vir conversar comigo.

— Eu estava pensando em Zooey. E em quando vai chegar a minha vez. — Eu ri sem humor algum. Ele não riu, mas não deixou de sorrir.

— Como você se chama?

— Susan. — Eu não entendia seu interesse repentino, mas também não perguntei.

— James. — Ele disse, ainda sorrindo, ao perceber que eu não perguntaria seu nome.

— Por que você está falando comigo? — Eu não queria ser rude, apenas queria entender o que ele estava fazendo. Seria aquilo alguma brincadeira de mau gosto? Uma aposta? Ou talvez Mia (a líder do grupinho que batera em Zooey) estivesse pregando uma peça em mim.

— Você não quer minha companhia? — E ela primeira vez ele deixou de sorrir.

Eu sei que eu deveria me sentir mal por isso. Mas no fundo eu sabia que aquilo era a coisa certa a se fazer. Se aquilo fosse alguma brincadeira, eu deveria ficar atenta e não deixar que me magoassem.

— Não é isso — eu falei, suspirando. Não queria ter que explicar tudo o que eu estava pensando. — Desculpe se eu o ofendi. Acho que só estou um pouco amedrontada. Mas eu aprecio sua companhia. — Sorri. Eu estava fechada por dentro, preparada pra qualquer coisa ruim que pudesse me acontecer. Mas ao mesmo tempo eu coloquei um sorriso amigável em meu rosto. Se eles queriam jogar, então eu também iria entrar no jogo.

— Eu fico feliz por isso. — Ele voltou a sorrir e mordeu sua pizza. — Eu fico incomodado em te ver sozinha aqui, sabia?

O que era aquilo? Será que o objetivo daquela brincadeira era fazer com que eu me apaixonasse por James? Assim ele poderia me dar um fora depois... Agora eu podia imaginar e entender a coisa toda.

Dei de ombros e fiz uma careta, como se isso, esses gestos bobos, justificassem minha solidão.

— As pessoas aqui não gostam de mim, sabia? — Imitei seu tom de voz e sorri. — E eu prefiro ficar sozinha e meio que... Me esconder do que ter que passar por tudo aquilo de novo. — Eu não precisava explicar o que, ele sabia do que se tratava.

— A Mia... — Ele balançou a cabeça enquanto fechava os olhos. — Ela acha que vocês não deveriam estar aqui.

— Eu sei disso.

— Não é que ela odeie você — ele completou. — Ela só não entende o que vocês estão fazendo aqui. Porque, sabe... Vocês são brancas. — Ele murmurou, como se aquilo fosse algum segredo, e não uma coisa que estava tão óbvia para todos.

— Eu não pedi pra vir pra cá — deixei escapar e me arrependi na mesma hora. Agora eu teria de explicar toda a minha história, e eu não queria mesmo ter que fazer aquilo.

— Ninguém pediu — ele respondeu, simplesmente, livrando-me do meu pesadelo.

James se despediu de mim com um sorriso amigável. Além de Zooey, ele foi a primeira pessoa a conversar e ser legal comigo. Talvez ele não fosse ruim. Talvez ele quisesse mesmo ser meu amigo. Eu estava grata e contente por isso até ver James segurar a mão de Mia enquanto saía do refeitório.

Eles eram namorados? Ah, mas é claro que eles namoravam. James era lindo e Mia parecia ser bastante popular. Eu não sabia se havia uma hierarquia ali como havia em meu antigo colégio. Lá nós tínhamos a Abelha Rainha. Era a menina mais popular do colégio, amedrontava a todos e sempre namorava os meninos mais bonitos. Mia era conhecida, deixava as pessoas com medo e namorava James. Mia era a Abelha Rainha.

Eu não deixaria Mia me colocar pra fora ali. Eu não deixaria que James ou qualquer outra pessoa brincasse comigo e me magoasse. Eu continuaria ali. Continuaria ali e ganharia de Mia em seu próprio joguinho. Eu faria isso por Zooey e por todas as outras pessoas que já tiveram que deixar o colégio.

Desejei que Zooey estivesse ali. Queria poder dividir com ela meus planos e minhas ideias, e saber se ela ficaria ao meu lado, e se me daria apoio com tudo aquilo. Sei que é estranho, mas eu sentia falta de Zooey. Mesmo tendo passado pouco menos de 20 minutos com ela, eu sabia que aquela menina seria a minha única amiga por ali. Cheguei a pensar o mesmo sobre James, mas eu ainda podia me lembrar de seus dedos entrelaçados aos de Mia.

Notas finais
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