Loving Zooey

5 Vestidos, sapatos e champanhe caro


O sábado chegou com chuva. Aquela chuva pesada, que fazia barulho e deixava as ruas alagadas. Por causa disso o frio aumentou, e eu agradeci aos céus por ser sábado e por não precisar sair da cama.

Aquilo estava confortável demais. O barulho da chuva batendo contra o vidro da janela, o calor que se espalhava sob meus cobertores e aquela sonolência que me dominava, deixando-me à beira da inconsciência, mas ainda ainda fazendo com que eu pudesse perceber — e apreciar — pequenos detalhes daquela manhã. Tudo estava ótimo. Ótimo demais. Fora meus suspiros, o rangido que minha cama fazia sempre que eu me mexia e o barulho da chuva contra a janela, tudo estava silencioso. Nem sinal de roncos, passos pela casa, o volume alto da TV que transmitia algum jogo ou os arrotos que meu pai dava sempre que bebia cerveja. Silencioso demais. Onde ele estava?

Gemi de frustração por ter que deixar a cama. Era sábado, quase nove da manhã e eu tinha que deixar aquele recanto confortável pra ver se meu pai não estava morto em sua poltrona. O que eu encontrei era inacreditável. Eu até esfreguei os olhos e balancei a cabeça pra ter certeza de que eu estava mesmo vendo aquilo e que não era um sonho maluco que eu estava tendo.

— Que bom que você acordou, querida! — exclamou vovó, que levantou-se rapidamente e caminhou em minha direção. — Achei que você passaria o dia todo na cama. — Ela sorriu e abraçou-me de forma carinhosa.

Veja bem, meus avós e meu pai nunca, eu repito, NUNCA se deram bem. Eles não se viam desde a morte da minha mãe. Pra ser mais exata, desde seu funeral. Eles brigaram o tempo todo e nem ao menos tiveram respeito pela ocasião. O motivo da briga era saber quem ficaria comigo. É claro que meus avós se achavam mais capasses de cuidarem da minha criação. Tinham dinheiro, uma casa grande e poderiam colocar-me em um bom colégio. Meu pai não quis nem saber. Mandou que calassem a boca, que enfiassem o dinheiro na bunda e que ele poderia muito bem tomar conta de mim. E essa foi a última vez em que vi meus avós.

Meu avô continuou sentado no sofá. Sua pose era quase cômica. Era como se ele estivesse tentando não encostar muito no sofá, com medo que pudesse pegar alguma doença ou qualquer coisa do tipo.

— Oi, vovô. — Aproximei-me dele e beijei suas bochechas, coisa que fazia desde pequena. — O que estão fazendo aqui? — Sentei-me entre vovô e vovó, que estavam super desconfortáveis naquele lugar. Era visível sua repulsa pela casa, pelos móveis e até mesmo por meu pai. Não disse nada, e apertei os lábios para controlar as palavras que estavam quase me escapando. Eu não queria começar outra briga.

— Nós viemos buscá-la.

— Pra levá-la à uma festa. — Vovó se apressou em completar ao ver como meus olhos estavam arregalados. — É sábado, e seu avô e eu fomos convidados para um coquetel na casa de um de seus amigos. Vai ser ótimo! Você precisa mesmo sair, e eu achei que seria maravilhoso se você nos acompanhasse.

Encarei meu pai. Até agora ele mal tinha se movido, e sua boca permanecia fechada. Eu sabia que ele não gostava daquilo, que a ideia não o agradava, mas eu queria mesmo sair. Depois daquela semana horrível, sair e tomar um pouco de champanhe caro era tudo o que eu precisava.

— Pai, você se importa? — Me atrevi a perguntar, temendo sua resposta. E se ele não deixasse? Será que ele seria capaz de me negar uma coisa tão simples como uma saída? Eu tinha sido perfeita naquela semana. Limpei a casa, não faltei ao colégio e meu dever de casa estava em dia. Ele não tinha do que reclamar.

— Susan... — Ele ia negar. Eu sabia. Dava pra ouvir em seu tom de voz a recusa que estava por vir. — Você pode ir. Mas eu te quero em casa amanhã, antes das nove da noite. Não se esqueça que você ainda precisa ir ao colégio na segunda.

— Não se preocupe, Richard. — Meu avô se levantou, a voz dura assim como seu semblante. — A menina estará de volta antes do jantar.

Depois de agradecer-lhe com um abraço, deixei meu pai sozinho com meus avós na sala e fui trocar de roupa. Jeans, camiseta preta e uma jaqueta. Dentro da bolsa coloquei meu melhor vestido de festa, um sapato alto que pegara do armário de mamãe e um pijama. Eu estava pronta pra ir.

Todos estavam parados na mesma posição quando voltei para a sala. Vovó sorriu ao meu ver, e meu avô levantou-se rapidamente pra que pudéssemos ir. A despedida foi rápida, não era como se eu estivesse indo embora para sempre. Em menos de 24 horas eu já estaria de volta.

Foi impossível deixar de sorrir ao ver o carro preto estacionado em frente ao meu prédio. Nos molhamos um pouco no pequeno trajeto entre a saída do prédio até o carro, mas aquilo não me incomodou, eu sabia que o aquecedor estaria ligado dentro do carro. Eu e vovó nos acomodamos no banco de trás e vovô assumiu o volante. Aquilo era mesmo maravilhoso. Mal tínhamos deixado o apartamento e eu já me sentia melhor. Tive vontade de contar tudo o que acontecera comigo durante a semana, mas fiquei calada. Se meus avós soubessem que eu estava frequentando um colégio para negros, e que quase levara uma surra de outras meninas, eles fariam um escândalo. Ou pior.

— Você precisa de um vestido, querida. Essa festa é importante demais, e não podemos deixar você ir assim. — E com um olhar de desprezo sobre minhas roupas, nós fomos às compras.

***

— Charles, é um prazer revê-lo! — A ruiva se equilibrava perfeitamente sobre os sapatos altíssimos, e seu vestido ainda era mais vermelho do que seus cabelos. Sua maquiagem era forte demais, na minha opinião, mas aquele parecia ser o jeito certo de se vestir por ali. Ela saudou meu avô com dois beijos na face e fez o mesmo com minha avó. — E você é...? Não me lembro de você.

— Essa é a minha neta, Susan. Ela resolveu nos acompanhar essa noite. — Meu avô era intimidador, e essa pequena explicação fez com que a ruiva engolisse todas as suas perguntas e sorrisse para mim.

— Ora, mas já é uma mocinha! E está linda essa noite. — Ela sorriu pra mim e logo afastou-se de nós.

Eu não estava linda. Mas estava muito mais apresentável do que o normal. Meu avô disse que eu poderia gastar o quanto precisasse no meu vestido, sapatos e qualquer outra coisa. Vovó me levou numa daquelas lojas exclusivas, onde as pessoas ficam babando nas vitrines mas raramente se davam ao trabalho de entrar e olhar os preços das roupas. Meu vestido era lindo, óbvio. Vovó e a moça que nos atendeu fizeram um ótimo trabalho. Minha única exigência foi que o vestido precisava ser preto e que não fosse decotado demais.

O vestido era longo, muito longo, arrastava no chão e tinha um caimento maravilhoso. Ele não me apertava, e eu podia respirar sem me preocupar em rasgar o tecido. Tecido esse que era leve, até mesmo nas partes onde existiam os bordados e as pequenas pedrinhas brilhantes que o enfeitava. Era sem mangas, o que no início me deixou um pouco desconfortável, mas que no final pareceu ser exatamente o que eu precisava. Um pouco acima da linha da cintura, um cinto especial fazia a separação da parte superior que era justa, e a saia folgada. Era perfeito. Era melhor do que qualquer vestido que eu tinha.

Eu também fui ao cabeleireiro. Eles lavaram, cortaram e fizeram um coque chique no meu cabelo. Sem contar a maquiagem, que não era tão forte como as das mulheres daquela festa. Eu e vovó também fizemos as unhas, e mesmo tendo tantas pessoas tocando em mim, eu me senti feliz pela primeira vez em muito tempo.

Voltando à realidade, vovô colocou uma taça de champanhe em minhas mãos e sorriu para mim. Agora que estávamos sozinhos ele parecia mais relaxado e alegre. Eu não sabia como ele conseguia sustentar aquela pose de durão por tanto tempo em frente aos outros.

— Está se divertindo? — perguntou, acariciando meu ombro. Nós nunca passamos muito tempo sozinhos. Na verdade, nós só passamos a conviver mais depois que mamãe colocou meu pai pra fora de casa. Então meus avós sempre nos visitavam, e aos domingos mamãe e eu almoçávamos na casa deles.

— Estou. Obrigada por me convidar, vovô. — Sorri pra ele. E eu estava realmente querendo sorrir. A festa era linda, apesar de todas as pessoas, eu me sentia ótima naquele vestido e não podia imaginar nada que pudesse me deixar mal enquanto eu estivesse ali.

— Charles! — Um senhor aproximou-se de nós, e com ele outras duas pessoas. Uma mulher de meia ideia, com cabelos escuros e olhos brilhantes. E uma menina, que era um pouco mais alta do que eu e que praticamente se escondia atrás da mulher. — Lembra-se de minha neta? Querida, saía daí e venha dar um oi para os convidados. Esta é minha neta, Zooey.

Notas finais
Comentem, por favor.