Loving Zooey

6 Um banheiro chique e a história de Zooey


Notas iniciais
Desculpem pela demora, e espero que gostem. xx

Eu mal podia acreditar que era mesmo Zooey ali parada de frente para mim. Meus lábios se separaram involuntariamente, a boca se abrindo diante do espanto de finalmente poder vê-la.
Ela estava linda. Mais do que linda; Zooey estava deslumbrante, maravilhosa... Ela estava perfeita. Era estranho vê-la naquele vestido luxuoso e tão bem arrumada, não que fosse desleixada no colégio, mas ela ficava muito bem vestida daquele jeito. Se todas as meninas do colégio soubesse quem Zooey era, arrancariam os cabelos e fariam de tudo para conseguir sua amizade. Ou talvez não. Talvez a inveja as motivasse a zombar e bater em Zooey outras vezes.

Zooey também estava espantada em me ver ali. Era visível em sua face, mas ela se recompôs tão rápido que eu não tive certeza de ver o espanto em seus olhos. Ela colocou um sorriso nos lábios, um lindo sorriso, e apertou a mão que meu avô estendia e beijou-lhe a face.

— Espero que esteja aproveitando nossa festinha – Zooey disse, gesticulando para o salão ao nosso redor e dando uma daquelas risadinhas que eu já ouvira mais ou menos umas sete vezes naquela noite vindas de outras mulheres. Zooey aproximou-se de mim, ainda com aquele sorriso nos lábios e também me deu um beijo delicado na face.

Eu queria arrastá-la pra longe dali. Queria perguntar se estava bem, o que tinha acontecido com ela e por que sumira da escola. O seu avô, como se pudesse ler meus pensamentos, pediu que a menina me levasse para dar uma volta pela festa.

— Mostre para nossa convidada o lugar, minha querida. Apresente-a para alguns de nossos convidados, seja gentil e lhe faça companhia enquanto converso com seu avô. – Deu-lhe um empurrãozinho em minha direção, e logo estávamos nos afastando de nossos avôs que entraram numa discussão acalorada sobre as taxas de importação de vidro.

Caminhamos em silêncio. Zooey tinha as maçãs do rosto vermelhas, mas não pela maquiagem, ela estava mesmo corando. Queria saber o motivo. Na verdade, eu tinha inúmeras coisas para lhe perguntar, e ela deveria saber disso. Ela podia ler meus pensamentos no meu rosto, e provavelmente estava fugindo disso quando me arrastou até um canto onde três mulheres e um senhor conversavam.

— Boa noite! – Zooey os saudou com aquele seu sorriso deslumbrante. Que farsante! — Está é Susan. Uma grande amiga e neta de Charles. – Não usou o sobrenome do meu avô, então presumi que ele fosse conhecido entre eles.

Todos foram educadíssimos. O senhor beijou minha mão, sorriu com gentileza para mim, mas não tinha muita coisa para me dizer. Já as mulheres, ao contrário dele, estavam tão encantadas com meu vestido e toda a minha produção, que passaram longos minutos perguntando-me sobre a loja onde eu comprara o vestido, sobre os sapatos, quem tinha feito minha maquiagem e cabelo. Fui paciente, mais do que normalmente era, e respondi a todas com o máximo de gentileza e simpatia que consegui reunir. Mas eu me sentia desconfortável. Aquele não era meu habitat natural, e eu não conseguia entender a maioria das coisas sobre as quais eles conversavam. Zooey deve ter percebido isso, pois se despediu do grupo e arrastou-me até o banheiro.

Aquele era mesmo um banheiro bem chique. Eu encontrei até perfume ao lado da pia sobre a bancada. Existia de tudo ali. Lencinhos de papel e lencinhos umedecidos, batom, perfume, loção hidratante para as mãos e balinhas de hortelã. Aquele banheiro deveria custar mais do que meu apartamento inteiro. Incluindo as mobílias.

Zooey limpou a garganta, afastando-me de meus devaneios. Levantei o rosto e encarei seu reflexo no espelho à minha frente. Ela estava parada atrás de mim, recostada contra a porta de uma das cabines onde ficavam os sanitários. Ela não sorria, mas também não parecia estar com raiva. Seu rosto estava tenso, quase apreensivo.

Eu queria ir direto ao ponto. Queria despejar pra cima dela as dezenas de perguntas que atormentaram minha cabeça durante os últimos dias, mas eu simplesmente não sabia como começar aquela conversa. Eu tinha medo de magoá-la. Eu tinha medo de fazê-la se lembrar de tudo o que tinha acontecido no colégio e que ela corresse pra longe de mim.

— Anda. Fala logo. – Ela cruzou os braços em frente ao peito e suspirou.

— O que aconteceu?

— Eu fui humilhada – ela começou a dizer, desfazendo sua postura rígida e encolhendo os ombros. Ela parecia estar lidando com conflitos pessoais, considerando se deveria ou não contar o que estava sentindo. — Eu fui humilhada, xingada, abusada e praticamente expulsa do colégio. E não pela direção. Se você acha que aquele tapa foi tudo o que Mia fez, você está errada. Ela procurou por mim... – Seus lábios estremecerem, como se estivesse reprimindo o choro ou coisa parecida.

Eu não sabia se queria ouvir aquilo. Não tinha certeza se estava emocionalmente pronta para ouvir Zooey contar o que Mia tinha feito, porque eu sabia que me sentiria culpada e triste por tudo aquilo.

— É tudo minha culpa...

— Cale-se. – Ela me interrompeu. Não alterou o som de voz, ainda falava sussurrando, mas eu me calei imediatamente. Não queria contrariá-la. — Eu fiquei dentro do banheiro até o final das aulas. Não queria me visse daquele jeito. Não queria ver o olhar zombeteiro no rosto de todos que passassem por mim, porque eu sabia que isso aconteceria. Zombariam de mim, ficariam rindo na minha cara e da minha cara. Sem contar que a maldita marca de tapa insistia em ficar no meu rosto. Aquilo não saía por nada... Então eu esperei. Esperei até que não ouvisse um ruído sequer nos corredores e deixei meu esconderijo. Caminhei apressadamente pela escola, com medo de que me achassem, com medo de que alguém ainda estivesse ali. Eu não vi você. Não vi você, nem Mia, e nenhuma de suas amigas e pensei que estava a salvo. Mas estão eu coloquei os pés pra fora do campus e lá estavam elas. Todas. De braços cruzados e sorrisos deliciados nos rostos. Pareciam até contentes em me ver, como se eu fosse uma de suas amigas!

— Zooey, eu... – Eu não queria mesmo ouvir aquilo. Eu não queria saber e conviver com o peso da culpa por tudo que Mia e as outras tinham lhe causado.

— Eu já disse pra você calar a boca, Susan! – Ela quase gritou, e eu tive medo de que as pessoas do lado de fora pudessem ouvir nossa pequena briga. Mas a música era alta, assim como as conversas, então ninguém apareceu. – Deixe-me terminar. – Ela suspirou, fechou os olhos, murmurou alguma coisa e voltou a sua história. – Mia bateu palmas assim que me viu. Acho que a marca de sua mão ainda estava estampada na minha bochecha, porque ela riu toda animada assim que passei por ela. Eu não falei nada, não respondi, porque não queria correr o risco de tirá-la do sério outra vez. “Cadê sua coragem agora, bonitinha? Será que eu a calei com meu tapa?” Suas amigas riam, e ela parecia estar explodindo de felicidade por conseguir agradar suas seguidoras com seu showzinho. E foi aí que ela veio pra cima de mim... Não só ela. Todas. Todas elas, juntas. Eu apenas fechei meus olhos e rezei pra que tudo aquilo acabasse logo. Pra que elas se cansassem, ou que alguma delas quebrasse a unha ou coisa do tipo, assim resolveriam me deixar em paz. Aquilo durou uma eternidade. Elas me xingavam e cuspiam em mim, e me ameaçavam, dizendo que eu não deveria falar sobre aquilo para ninguém. Eu tive que mentir em casa, disse que fui assaltada. Assaltada! Eu tive sorte por ter escondido o rosto, senão nem poderia estar aqui hoje. Nem toda maquiagem do mundo poderia esconder o que elas me causaram.

Eu queria chorar. Eu mordia o lábio inferior com tanta força que senti o gosto de sangue invadir minha boca. Mas até aquilo seria melhor do que chorar. Ou talvez chorar fosse bom. Talvez aquilo lhe mostrasse o quão arrependida e culpada eu me sentia. Eu quebrei a distância entre nós com três passos largos e a abracei. Achei que ela fosse me afastar ou me mandar embora da mesma forma que tinha feito no banheiro do colégio, mas para minha surpresa, ela me abraçou de volta e começou a chorar.

Não havia nada que eu pudesse lhe dizer. Nenhuma palavra seria consolo suficiente para atenuar sua dor. E eu nem me atreveria a dizer novamente que a culpa de tudo aquilo era minha, mesmo sabendo que a culpa era realmente minha, por tê-la deixado enfrentar Mia daquele jeito.

— Eu estou com medo de voltar pra lá. – Ela confessou, apertando seus braços ao redor do meu corpo.

— Eu vou estar contigo. Elas nunca mais vão tocar em você. – É claro que eu não poderia garantir nada daquilo, eu apenas queria deixar Zooey mais animada.

— Nessa segunda eu já preciso voltar. Vovô disse que um assalto não é desculpa suficiente pra que eu falte tantas aulas.

Eu queria perguntar sobre seus machucados. Se estava dolorida, se tinha hematomas ou coisas do tipo, mas mantive a boca fechada. Eu já tinha dito besteiras demais por um dia.

— Nós podemos nos preocupar com isso depois. Por enquanto nós vamos aproveitar essa festa, mesmo com todas as pessoas chatas. Vamos tomar aquele champanhe maravilhoso, fingir que somos duas patricinhas ricas e mimadas, e esquecer que Mia e sua trupe existem.

Zooey sorriu, e eu senti que era meu dever animá-la pelo resto da noite. E pelo resto dos dias que passaríamos juntas no colégio.

Notas finais
Comentem! xx