Loving Zooey
7 Banheiros são lugares seguros. Eu acho.
O resto da noite passou tão rápido que eu mal tive tempo de planejar com Zooey o que faríamos na segunda-feira. É claro que ela ainda estava assustada com a ideia de voltar para o colégio, mas que outra opção teria ela? Eu podia ver, pelo modo como seu avô era, que ele jamais deixaria que ela saísse da escola. Mas eu ainda continuava me perguntando por que diabos ela estava naquele lugar quando era visivelmente rica.
Nós tomamos tanto champanhe naquela noite, que mesmo quando eu já estava no carro a caminho da casa dos meus avós, eu ainda podia sentir as bolhas das bebida fazendo cócegas na minha língua. Aquela era a melhor bebida do mundo. Não me surpreendia porque os ricaços adoravam beber aquilo.
Eu me deitei sobre a enorme cama que meus avós compraram para colocar em meu quarto. Meu quarto ali era praticamente do tamanho do apartamento onde eu estava morando com papai. Se eu tivesse escolha, moraria com meus avós, estudaria num colégio melhor, e nunca mais colocaria os pés naquele bairro onde meu apartamento ficava. Mas é claro que nada disso aconteceria. Meu pai ainda era novo, aparentemente não tinha nenhum problema de saúde. Ou seja, não morreria tão cedo. Não que eu quisesse que ele morresse. Eu só queria poder morar com meus avós, mas eu sabia que ele nunca deixaria.
Suspirei. Eu olhei pro teto, perguntando-me o que Zooey estaria fazendo. Desejei ter seu número de telefone, ou que ela estivesse ali comigo. Pensar nisso fez meu coração acelerar, e eu tratei de rapidamente pensar em outra coisa, evitando ter um ataque cardíaco ou qualquer coisa do tipo.
O final de semana passou rápido. Quando eu fui perceber, já estava de volta ao velho apartamento de meu pai, vestido meu pijama e comendo pizza velha.
— Como foi a festa? — papai quis saber, tendo o mínimo de educação de abaixar o volume da TV pra que pudesse me ouvir.
— Hm... — murmurei, mordiscando o canto da boca. Não sabia exatamente o que contar à ele. A festa tinha sido boa? Não exatamente. Pelo menos não o começo. Mas depois de minha conversa com Zooey e de todas as taças de champanhe que tomamos, as coisas realmente ficaram melhores. — Foi legal — eu disse, por fim, dando um sorrisinho.
— Eu fico feliz, garota. É bom saber que você se divertiu um pouco. — E então ele voltou a aumentar o volume da TV, esquecendo-se de mim.
Eu me arrastei de volta para meu quarto. Não havia muito o que fazer por ali, e eu sabia que não teria mais uma breve conversa com meu pai. Depois de trancar a porta, apagar as luzes e deitar-me na cama, eu puxei os cobertores até o meu queixo, tentando me manter aquecida.
Chovia naquela noite. Os pingos da chuva batiam contra o vidro da janela, e o som que eles produziam era extremamente reconfortante. Tudo estava muito quieto lá em baixo, na rua. Se não fosse o barulho alto da TV que vinha da sala, eu poderia jurar que estávamos no meio da madrugada. Mas ainda era cedo, e por mais que eu quisesse continuar acordada, eu sabia que precisava dormir, ou me atrasaria no dia seguinte. Mas eu não sentia nem um pingo de sono. Meus olhos estavam praticamente arregalados, fitando a escuridão ao meu redor. E enquanto eu fazia isso, eu ouvi os roncos do meu pai que provavelmente tinha adormecido na poltrona em frente à televisão. Pelo menos alguém conseguia dormir ali.
Voltei a pensar em Zooey. Eu sei que é muito idiota passar tanto tempo preocupando-se e pensando tanto em alguém desse jeito, mas não era uma coisa que eu conseguia controlar. Eu estava nervosa e ansiosa por vê-la no outro dia. Imaginei o que ela estaria usando. Era difícil imaginá-la agora com roupas casuais depois de vê-la tão linda naquele vestido de festa. Linda. A palavra ecoava na minha cabeça. Linda, linda, linda, linda... Eu não sabia se era normal uma menina achar outra menina linda, mas era isso o que eu achava de Zooey. E foi pensando nela e em seu vestido de festa que eu dormi.
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Eu passei pelo detector de metal rezando pra não encontrar Mia e sua trupe no campus. Acho que Deus estava com pena de mim e atendeu ao meu pedido, pois eu não vi sinal de Mia e nem de nenhuma de suas seguidoras. Pelo menos não até a aula de Física, onde eu esbarrei com Jess, uma menina baixinha que andava com Mia. Ela deu um sorriso zombeteiro assim que me viu. Eu aposto que ela estava pensando em alguma gracinha pra me dizer assim que tivesse uma oportunidade.
E eu só queria que a hora do intervalo chegasse logo. Eu não me importava se fosse ver Mia, suas amigas ou o diabo. Eu só me importava em ver Zooey, certificar-me de que ela estava bem e não deixar que ninguém lhe fizesse mal. Eu me sentia como uma espécie de anjo da guarda de meia tigela, que mal podia proteger a si mesmo, quanto mais a outra pessoa.
Quando o sinal do intervalo tocou, eu joguei meus cadernos dentro da bolsa de qualquer maneira e corri pra fora da sala. Eu ouvi risinhos de algumas pessoas atrás de mim e podia imaginar o que elas estavam pensando. Mas eu não ligava. E liguei menos ainda quando entrei no refeitório e vi Zooey sentada na mesma mesa onde nos falamos pela primeira vez. Seu cabelo escuro não estava mais penteado de forma elegante, e suas roupas estavam longe de serem consideradas "trajes de gala". Ela tinha voltado a ser a Zooey que eu tinha conhecido, e eu gostava disso.
— Oi. — Sorri ao sentar-me ao seu lado, e ela retribuiu meu sorriso. Meu coração batia tão rápido que eu podia ouvir seu martelar em meus ouvidos.
— Vamos sair daqui. Eu já peguei comida pra nós duas. — Ela balançou uma sacola de papel com um emblema dourado que eu não consegui identificar, mas que obviamente não vinha de nossa cantina. Zooey segurou-me pela mão, dando mais material pra que as pessoas mais próximas zombassem e dessem risadas de nós. Mas ela não deixou de segurar minha mão e muito menos diminuiu o passo. Pouquíssimos minutos depois estávamos de volta ao banheiro onde ela se escondera na semana anterior.
— Por que viemos pra cá? — perguntei, arqueando as sobrancelhas enquanto ela trancava a porta do banheiro.
— Porque eu não quero encarar Mia e suas cadelas hoje. E além do mais, eu não queria que roubassem nossa comida. — Dito isso, ela apoiou a sacola sobre o tampo da pia, tirando dali uma pequena torta de chocolate. — Eu adoro isso. — Comentou, enquanto se livrava do tampo transparente que cobria a torta.
Nós comemos enquanto conversamos sobre a festa, sobre o resto de nosso final de semana e também sobre formas de acabar com Mia. Inventamos mil apelidos para ela e suas seguidoras, mas sabíamos que nunca seríamos corajosas o suficiente para dizê-los em voz alta. Mas mesmo assim era bom poder dizer tudo aquilo, mesmo que Mia nunca fosse ouvir.
Resolvemos passar o resto do dia ali no banheiro. Ninguém procuraria por nós, isso era certo. E pra piorar, eu ainda teria uma aula com James, e ele era outra pessoa que eu não queria mesmo ter que encontrar naquele dia.
— Conte-me sobre seus pais — Zooey pediu, cruzando os braços e encostando as costas contra a parede.
Eu não queria falar sobre meus pais. Na verdade, eu não queria falar sobre a minha mãe. Não queria ter de explicar o que tinha acontecido com ela. Não queria falar sobre meu pai, seu vício por esportes e cerveja, e como nossa casa estava caindo aos pedaços. Eu tentava tanto esquecer de tudo aquilo e fugir da minha realidade, e eu mal podia acreditar que ela agora me pedia pra falar sobre aquilo.
Eu estava prestes a começar a falar quando batidas fortes ecoaram pelo banheiro. Alguém batia na porta e mandava que abríssemos a porta. Zooey fez uma careta, levantou-se e antes de abrir a porta ela sussurrou no meu ouvido:
— Sexta-feira eu quero que você vá dormir lá em casa.
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