Loving Zooey
8 Recados numa folha de papel
Notas iniciais
Era quarta-feira e eu ainda não tinha resolvido se iria ou não dormir na casa de Zooey na sexta-feira. Não que eu tivesse outra escolha. Zooey disse que eu iria de qualquer forma, nem que ela fosse me buscar na minha casa. E essa era uma das coisas que eu jamais deixaria acontecer. Se dependesse de mim, Zooey jamais veria o lugar onde eu morava.
Sei que pode parecer fútil da minha parte sentir vergonha da minha casa, mas eu tinha e nada mudaria isso. Eu estava acostumada a morar num lugar apresentável, e não num apartamento minúsculo e caindo aos pedaços. Eu nunca poderia levar Zooey ali.
Na terça-feira, Zooey e eu nos trancamos novamente no banheiro. Dessa vez ela levou cupcakes e latas de refrigerante, e eu comi agradecida por ela ser tão gentil. E porque eu não tinha dinheiro pra comprar nem mesmo uma garrafa de água.
É claro que eu tinha cogitado a hipótese de pedir dinheiro aos meus avós, mas com certeza meu pau descobriria, e eu aposto que ele ficaria magoado com isso. Eu sentia pena dele. Não era sua culpa se ele não tinha um emprego melhor. Eu só tinha que me acostumar a isso. E me acostumar a estar sempre sem dinheiro.
De volta ao presente, eu me encontrei parada em frente à sala de aula. Era ali que eu tinha as aulas de História. Era ali que eu encontraria James.
Eu tinha acabado de me despedir de Zooey, e seu cheiro doce parecia estar grudado em minhas roupas, e isso me deixava um pouquinho mais confiante. Zooey não sabia sobre James, é claro. Eu não tinha coragem — e vontade — de lhe contar o que tinha acontecido, e muito menos queria mencionar sua "ligação" com Mia. Zooey não precisava saber disso.
Suspirei e encontrei na sala. Era como se a vida quisesse mesmo que eu me fodesse. O professor chamou minha atenção, irritado com o meu atraso e pediu pra que eu fosse me sentar.
O único lugar vago era ao lado de James.
Eu suspirei outra vez, mentalmente xingando a vida por ter feito aquilo comigo. Enquanto eu caminhava até a mesa, uma menina colocou um de seus pés no meio do caminho e eu tropecei, fazendo a turma rir. Só não caí de cara no chão porque me apoiei na primeira mesa que encontrei pela frente: A mesa vazia ao lado de James. Como se tudo aquilo já não fosse humilhante o suficiente.
Eu me senti como Bella Swan em Crepúsculo. Só que James não era um lindo vampiro que se apaixonaria por mim. Ele era o namorado de Mia e provavelmente só queria ajudá-la a zombar de mim.
— Tudo bem aí? — ele perguntou, arqueando uma de suas sobrancelhas.
— Sim. Tudo ótimo — respondi, com uma pitada de sarcasmo na voz. Rolei os olhos, sentindo a raiva se espalhar por meus corpo. Eu só queria que aquele dia passasse logo.
— Você não parece muito bem — James sussurrou, tentando não atrapalhar o professor que já dava sua aula.
— Por que você se importa?
— Pensei que fossemos colegas. — Ele deu de ombros. Graças a Deus ele não tinha dito "amigo".
— Engraçado você pensar isso. Não me recordo de ter dado a entender que quisesse ser sua colega.
— Nossa, você não parecia ser tão ranzinza assim na primeira vez que conversamos. — James fechou a cara e parou de me dar atenção.
Eram coisas desse tipo que me faziam esquecer quem era a pessoa com quem James namorava. E se... E se ele não fosse mau caráter como Mia? Nada me garantia que ele não fosse exatamente como ela. Mas eu nunca iria descobrir se não parasse de agir feito uma idiota e lhe desse uma chance. Por outro lado, eu morria de medo do que poderia acontecer caso ele fosse da mesma laia que sua namoradinha.
A vida às vezes era mesmo um saco.
Arranquei uma folho do meu caderno e escrevi a caneta "me desculpe", e em seguida empurrei a folha na direção de James. A principio, ele pareceu não reparar a folha, mas eu logo percebi seu olhar caindo sobre o papel, e ele apenas ignorou. Mas poucos segundos se passaram até que eu ouvi seu suspiro, enquanto ele finalmente pegava o papel.
Tentei esconder meu sorriso quando senti a folha tocando meu cotovelo que estava apoiado sobre a mesa. Eu não queria que ele pensasse que eu tinha algum tipo de distúrbio bipolar ou coisa do tipo. Mesmo que eu mesma já estivesse duvidando da minha sanidade.
"O que há de errado com você hoje?"
A letra de James era bem bonitinha se comparada com a letra de outros garotos.
"TPM", respondi com os dedos trêmulos.
Ouvi sua risada baixa assim que ele leu minha resposta. Ao invés de me responder, James deslizou sua mão pra debaixo da mesa, encontrando a minha e apertando-a com gentileza. Quando eu tomei coragem pra deixar de encarar nossas mãos juntas em baixo da mesa e ergui o rosto para fitá-lo, James estava sorrindo e piscou para mim, como se fosse a coisa mais normal do mundo ele segurar minha mão daquela maneira.
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Fiquei aliviada ao ver que Zooey esperava por mim no mesmo lugar de sempre. E também percebi que as pessoas pareciam evitar a mesa onde nós nos sentávamos. Não que isso fosse um problema para mim. E eu podia aposta que também não era um problema para Zooey.
Sentei-me ao seu lado, e para a minha surpresa, hoje ela não estava segurando uma de suas bolsas com comida comprada fora dali. Eu achei que ela manteria o ritual de levar algo para comermos no banheiro, e por causa disso eu não tinha levado nem um centavo comigo para o colégio. Meu estômago roncou, como se soubesse o longo dia que teríamos pela frente.
— Não se preocupe, eu tenho dinheiro. Compraremos algo pra comer — Zooey disse, dando risadas baixas ao ouvir meu estômago roncar.
— Está tudo bem. Eu esqueci de colocar o dinheiro na carteira... — Eu tinha certeza de que estava corando. Podia sentir minhas bochechas esquentarem a medida que Zooey continuava dando suas risadinhas.
— Deixa de ser boba. Eu não tenho nada mais importante pra fazer com esse dinheiro mesmo. — Ela me puxou pela mão até a fila onde os alunos esperavam impacientes para serem atendidos. Quando paramos atrás de Mike (um dos rapazes que estava na minha aula de Biologia), Zooey me deu um abraço rápido e piscou pra mim. Eu ainda não estava acostumada com todo aquele carinho que ela, sem nenhuma timidez, não se cansava de demonstrar.
É claro que toda aquela demonstração de afeto (os abraços, os risos, ela segurando minha mão enquanto caminhávamos até o banheiro) só faziam crescer os boatos sobre nós duas dentro do colégio. Mia agora já não nos chamava de "Branquelas" e sim de "Sapatas", arrancando gargalhadas de suas amigas.
Eu não me importava muito com os boatos, nunca fui de dar muita importância pro que diziam de mim, mas eu temia por Zooey. Eu ainda podia me lembrar do que tinha acontecido da última vez em que ela resolvera enfrentar Mia. Aquilo não poderia acontecer novamente. E então, eu vergonhosamente rezava pra que Zooey controlasse seus atos quando estávamos juntas, esperando que Mia finalmente nos deixasse em paz.
Enquanto Zooey comprava nossa comida, eu avistei James entrando no refeitório e saindo logo depois acompanhado de Mia. Não pude deixar de notar como ela o abraçou de forma possessiva, quase arrastando-o pra fora dali.
Voltamos para a mesa e Zooey tagarelava sobre uma festa que aconteceria em breve. Eu não estava muito ligada ou com vontade de ouvir sobre festas, mas deixei que ela falasse. Qualquer coisa seria melhor do que ficar revivendo o abraço de James e Mia.
— E então, você vai, né?
— Oi? — Eu finalmente tinha parado pra ouvir o que ela estava falando, e percebi que não fazia ideia de sobre o que se tratava.
— Na sexta. Minha casa. Você vai dormir lá, não vai? — Ela arqueava as sobrancelhas, e tinha aquele tom autoritário que usava quando queria conseguir alguma coisa. — É melhor você ir.
Não tinha jeito. Eu não tinha escolha. Suspirei enquanto dava de ombros, dando-me por vencida.
— Eu vou, Zooey. Sexta-feira eu dormirei na sua casa.
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