Loving Zooey
9 Nunca fui beijada
Notas iniciais
Sexta-feira.
Minhas mãos suavam, minhas pernas estavam bambas, meu corpo tremia. Era como se um arrepio tivesse passado por meu corpo e se instalado ali. Nunca ia embora. Eu estava arrepiada desde a hora em que abri os olhos de manhã e percebi que dia era aquele.
Sexta-feira.
Além da minha mochila, eu levava uma bolsa com mudas de roupas e alguns objetos pessoais necessários pra que eu passasse a noite na casa de Zooey. Meu pai pareceu surpreso ao saber que eu tinha feito uma amiga e que dormiria na casa dela. Mas não foi contra e até me deu uns trocados para "emergências". Eu coloquei o dinheiro dentro da mochila, sabendo que provavelmente não precisaria usá-lo. Eu podia apostar que encontraria tudo o que precisasse na casa de Zooey.
Nós combinamos de nos encontrar a algumas quadras de onde eu morava, num outro bairro, mais tranquilo e normal. Chovia naquele dia, e eu deixei meu prédio com desânimo. Uma das alças de minha mochila pendia precariamente sobre meu ombro esquerdo, de modo que eu pudesse carregá-la e deixá-la de frente para meu corpo, abrigando-a da chuva sob o guarda-chuva. A bolsa, com minhas roupas, eu também carregava junto ao corpo, enquanto tentava manter o guarda-chuva sobre minha cabeça. Mas aquilo tudo parecia inútil. Meus sapatos estavam encharcados, e minhas meias ficavam mais molhadas e sujas de respingos de chuva a cada passo que eu dava. Mas consegui chegar ao ponto de encontro sã e salva, e pra minha sorte, minutos depois Zooey estava lá, estacionando o carro em frente a calçada. Eu pulei pra dentro do carro antes mesmo de ser convidada. Eu estava molhada e com frio, e não me importava muito com formalidades naquele momento. Ao me ver encharcada e tremendo, Zooey riu, enquanto tirava o guarda-chuva de minhas mãos e o fechava.
— Céus! Você acabou de sair do chuveiro? Lavou-se com roupa e tudo? — Eu ficaria irritada com ela se sua risada não fosse tão doce. Ela puxou um casaco pesado de dentro de sua mochila e o entregou para mim.
O casaco tinha seu cheiro. Um cheiro doce, que ela havia confessado ser de um creme que usava. E o casaco cheirava ao creme e ao cheiro da própria Zooey, o que era a melhor combinação do mundo. Fiquei com medo que meu cheiro apagasse o dela, mas eu estava tremendo de frio e acabei passando os braços pelas mangas e me enrolando com o casaco vermelho.
— Pronto. Agora está melhor. — Ela sorriu e apertou minha mão. — Eu estou animada pra hoje. Espero que o dia passe mais rápido do que o normal. Eu preparei tantas coisas pra gente fazer! — Seu tom de voz ia aumentando conforme ela ficava entusiasmada falando sobre seus planos. Eu percebi que o motorista nos olhava pelo espelho retrovisor, mas afastei meu olhar quando ele me flagrou olhando para ele. Eu não queria parecer estranha. Mas também não estava nem um pouco acostumada com aquilo.
Zooey tagarelou a viagem inteira e eu estava grata por isso. Eu estava nervosa demais pra dizer qualquer coisa, então eu apenas sorria e acenava, e aquilo parecia ser o suficiente pra que ela continuasse a falar. Ela estava mais animada do que o normal, e aquilo era ótimo. E era melhor ainda saber que toda aquela animação era por minha causa. Ou mais ou menos por minha causa. Eu queria que ela estivesse sempre daquele jeito. Eu queria poder sempre vê-la feliz e animada. Mas eu sabia que, estudando onde nós estudávamos, aquilo não seria muito fácil.
O carro nos deixou a duas quadras do colégio. Zooey não queria que a vissem saindo daquele carro e que pensassem que fosse rica. Eu a entendia. Eu deixei minha bolsa e meu guarda-chuva no carro e nós corremos pelas ruas debaixo da chuva, protegendo nossas cabeças com as mochilas. Naquele dia não estavam revistando as bolsas. O mal tempo impedia que se formasse uma fila do lado de fora do colégio pra que todos fossem revistados. Não parecia justo deixar todos plantados na chuva. Aquilo foi ótimo porque nós não esbarramos com Mia e sua trupe logo na entrada. Mas foi horrível porque vários polícias desfilavam pelos corredores, a procura de qualquer coisa suspeita. Aquele seria um longo dia.
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Não vi James naquele dia. Ouvi algumas pessoas conversando sobre ele e Mia, e uma delas disse que James não tinha nem mesmo "dado as caras" no colégio naquele dia. Eu só gostaria de poder saber o porquê. O que será que tinha acontecido?
Zooey e eu não nos escondemos no banheiro porque uma policial não deixou. Então fomos obrigadas a comer no refeitório, com Mia nos olhando a distância, mas sem ter coragem de vir mexer conosco. Aquele era o benefício de ter um refeitório com dois policiais de plantão.
Nós corremos pra fora do colégio o mais rápido possível. Lá dentro os policiais poderiam nos defender, mas do lado de fora Mia poderia fazer o que quisesse conosco. O carro nos esperava no mesmo lugar, como se tivesse ficado ali o dia inteiro. O interior do carro estava quente e agradável, mas mesmo assim Zooey segurou minhas mãos, esfregando-as para espantar o frio. Eu sorri pra ela, que retribuiu o sorriso imediatamente.
Sua casa ficava longe dali, é óbvio. Eu queria ficar logo sozinha com Zooey, fora do colégio e dos olhares de seu motorista. Queria poder finalmente perguntar por que ela estudava naquele colégio quando era óbvio que tinha dinheiro pra bancar uma escola particular. Ou até mesmo um outro colégio. Qualquer outro que não fosse aquele. Mas assim que chegamos em sua casa, ela fez questão de me apresentar para sua mãe, que parecia surpresa ao perceber que eu era branca e loira. Ela disse, dizendo que achava que Zooey apareceria ali com uma escurinha. Tentei ignorar o comentário racista.
Tomamos café com sua mãe enquanto a empregada arrumava o quarto. Eu não fazia ideia do que poderia estar sendo arrumado, mas fui paciente e tentei ser simpática com a mãe de Zooey, que tinha os cabelos escuros assim como a filha. Elas se pareciam. Um pouco. A mais velha tinha um ar cansado e olhos tristes. Diferente de Zooey que tinha os olhos azuis intensos e vivos.
— Acredito que você não vá se importar, Zooey, se eu e seu pai sairmos para comer fora hoje a noite. Como vocês duas provavelmente vão passar o tempo inteiro no quarto comendo besteiras, achei que poderia sair com o seu pai para conhecer o restaurante de uma amiga minha. — Ela sorriu para Zooey e deixou a mesa, sem nem mesmo esperar por uma resposta.
— Parece que teremos a casa só para nós! — Zooey bateu palmas, animada.
A casa de Zooey tinha dois andares. O primeiro andar era basicamente composto pelos cômodos que as visitas poderiam visitar. Uma sala de estar, com TV, belos sofás e coisas do tipo. Um banheiro, a cozinha que era imensa, uma sala de jantar e um bar, onde o pai de Zooey se reunia com seus amigos. O segundo andar era onde os quartos ficavam. O quarto dos pais de Zooey, dois quartos de hóspedes, o da empregada e — finalmente — o de Zooey. Em sua porta, que era branca, havia um enorme coração vermelho. Era a única porta enfeitada. Entrei no quarto e fiquei surpresa com o que encontrei ali. É claro que o quarto era imenso. Uma cama de casal estava arrumada com travesseiros num tom de rosa claro, cobertores e almofadas. O chão também estava cobertos com pequenos colchonetes e almofadas. Sem contar a mesa enorme cheia de cupcakes, sanduíches, biscoitos e todo tipo de coisa que eu adorava comer. Era como se ela esperasse um batalhão de meninas e não apenas eu.
— Você gostou? Diz que você amou! — Ela quase dava pulinhos ao meu lado.
— Puxa, Zooey. Isso é... Demais. — Eu sorri, tentando parecer animada.
— Eu sabia que você ia adorar! É claro que eu nunca dei uma festa do pijama antes. E bem, isso não é realmente uma festa do pijama já que eu só chamei você... Mas mesmo assim! Eu procurei na internet que tipo de coisas se fazem em festas do pijama, e quais as comidas que devemos servir e como decorar o quarto...
— Zooey, calma! — Eu ri e segurei suas mãos, tentando fazê-la parar quieta no lugar. — Está tudo perfeito. É claro que parece que você vai receber umas quinze meninas, mas está tudo ótimo. — Eu sorri e ela sorriu de volta.
++++
— Me conte uma coisa sobre você que ninguém mais sabe — Zooey pediu, enquanto limpava o glacê do cupcake que sujara seu nariz.
Eu ri observando-a se limpar. Era uma risada nervosa. Eu não sabia o que poderia lhe contar. Na verdade... Bem, eu sabia. Mas era vergonhoso demais. Eu jamais poderia contar-lhe aquilo.
— Hm... Eu babo quando durmo.
— Não! Eu quero um segredo de verdade.
Que diabos! Enquanto eu mordia meu cookie, eu repensava as coisas sobre mim que poderia lhe contar.
— Me fale sobre seus pais, então. — Ela estava impaciente.
Bem, uma hora eu teria de lhe contar aquilo. Que fosse agora então.
— O meu pai... Bem. Eu não tenho muito pra contar sobre ele. Ele trabalha muito. Sai de casa quando estou dormindo e volta tarde e só fica assistindo TV. Nós não conversamos muito. Não temos muito sobre o que conversar, na verdade. Ele adora esportes. Todos os esportes. Passa todo seu tempo livre assistindo jogos, lutas, corridas... E bebendo cerveja. — Eu ri. — E é isso.
— E sua mãe?
— Ela... Minha mãe morreu. — Eu estremeci e Zooey percebeu. Ela se aproximou de mim, me deu um abraço rápido e segurou minhas mãos.
— Eu sinto muito! Eu não imaginava, se não eu nem teria...
— Não se preocupe. Você não tinha mesmo como saber.
Ela não parecia satisfeita. Seus olhos estavam fixos em nossas mãos juntas e ela parecia pensar bem no que iria dizer a seguir.
— Eu estudo naquele colégio como castigo. Há dois anos eu fugi de casa, comprei uma passagem pra Orlando e passei dez dias na Disney. Meus pais só descobriram que eu estava lá porque eu acabei gastando todo o limite de meu cartão de crédito e não tinha dinheiro pra voltar pra casa. Então, como punição, eles me disseram que eu não teria mais o privilégio de estudar num colégio particular. — Ela riu, apertando suas mãos ao redor da minha.
— Quer mesmo saber uma coisa sobre mim que ninguém mais sabe? — Perguntei-lhe, fazendo com que ela finalmente olhasse pra mim.
— Quero.
— Eu nunca fui beijada.
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