Loving Zooey
15 Uma tremenda dor de cabeça
A segunda-feira chegou, e com ela veio uma dor de cabeça terrível que me deixou tonta no mesmo instante em que ergui o corpo da cama. Aquela poderia ser a desculpa perfeita pra que eu não fosse ao colégio naquele dia, mas eu não podia perder um dia inteiro de aula por causa de uma bobagem tão pequena quanto ter: 1) Usado minha namorada; 2) Transado com James e; 3) Traído minha namorada. Não era nada de mais, afinal. Aquilo acontecia todos os dias.
Era uma sorte eu só usar roupas pretas, assim eu já me vestia de acordo com o meu humor naquele dia. Eu estava mau humorada e com um humor ácido, pronta pra revidar qualquer gracinha que escutasse pelos corredores do colégio. Aquele não era mesmo um bom dia, e eu tinha pena de quem teria de me aturar durante o dia.
A primeira coisa que encontrei assim que entrei no pátio do colégio foi Zooey. Esperando por mim com uma cara de quem não estava nem um pouco feliz por me ver. Mas é claro que ela estaria assim. Ela tinha me ligado umas quatro vezes no domingo, e meu pai atendeu o telefone todas as vezes e deu desculpas esfarrapadas pra eu não precisar atender o telefone. Eu lhe disse que eu e ela tínhamos brigado por causa de um menino, e isso pareceu ser o suficiente pra que ele não pedisse por mais detalhes.
— Olha só quem resolveu aparecer — ela disse num tom sarcástico, dando um sorrisinho amarelo.
Bom, eu estava mesmo ferrada.
Antes que nós começássemos a brigar ali mesmo no pátio, eu arrastei Zooey comigo até o "nosso" banheiro, e fiquei observando-a enquanto ela cruzava os braços. Eu não tinha nenhuma desculpa boa o suficiente pra lhe dar, então só continuei parada, esperando que ela dissesse alguma coisa, ou que fosse embora.
— Por que você foi embora sem se despedir?
— Eu não sei. Acho que eu estava envergonhada por causa de... Você sabe o que.
— Isso não é desculpa. Nós já transamos outra vezes. Você não tinha motivos pra se envergonhar. — Ela ainda soava irritada, mas eu podia vê-la cedendo aos poucos, suspirando e relaxando a tensão em seus ombros. Zooey aproximou-se de mim e me abraçou, sua cabeça descansando no espaço entre meu ombro e meu pescoço. Eu tinha me esquecido de como ela era carinhosa comigo. E isso só fez com que eu me sentisse ainda mais culpada por ter transado com James.
Eu precisava contar o que tinha acontecido. Eu não podia esconder aquilo dela. Eu e James nos beijamos uma vez, e depois outra, e depois transamos. Aquilo não era demais pra se esconder de uma namorada? Mas eu não queria machucá-la. Por mais idiota que eu fosse, eu não queria fazer Zooey sofrer, e alguma coisa me dizia que se eu lhe contasse o que tinha acontecido, ela ficaria triste e as coisas entre nós não terminariam bem.
— Susan, eu tenho medo de perder você.
— Deixe de bobeira, coisa pequena. — Dei-lhe um beijo estalado nos lábios e a arrastei pra fora do banheiro. Eu já estava atrasada pra primeira aula e não queria continuar ali discutindo relação com ela.
O dia passou devagar. Os dois primeiros tempos de aula foram uma chatice pura de Biologia, matéria que eu detestava. Eu passei a aula inteira pensando em mil e uma formas de contar a Zooey toda a verdade sobre o que tinha acontecido, e também de fazer com que James me deixasse em paz de uma vez por todas.
Mas eu era uma covarde. Eu nunca conseguiria fazer nada daquilo, e eu já podia me imaginar levando uma vida dupla, onde namorava Zooey as escondidas e transava com James nos finais de semana. Aquilo nunca daria certo.
E não daria mesmo, pois eu amava Zooey. Eu realmente a amava. Sempre que eu a via esperando por mim, meu coração acelerava, e minhas mãos suavam tanto que parecia que eu tinha acabado de correr uma maratona. E o que eu sentia por James nem se comparava à isso. Eu só era muito atraída fisicamente por ele. Ainda mais depois de termos transado. Mas eu pertencia à Zooey. Talvez eu tenha me apaixonado por ela desde o primeiro momento em que nos falamos, quando ela se sentou ao meu lado na primeira semana de aula. Se não fosse por ela, sabe-se lá o que seria de mim naquele lugar.
Eu a amava, e nenhuma atração física poderia mudar aquilo.
Eu estava disposta a pedir a James que se afastasse de mim e que não voltasse mais a me procurar. Eu não queria nem mesmo sua amizade. Eu tentaria ser uma namorada melhor para Zooey. Talvez até mesmo começasse a me enxergar realmente como sua namorada, coisa que eu ainda não fazia. Ela merecia minha atenção e dedicação. Eu não poderia continuar tratando-a daquela maneira.
A turma saiu pro intervalo, e eu estava até mesmo sorrindo enquanto caminhava pelos corredores apinhados de gente. Minha namorada estaria esperando por mim no refeitório. Tudo ficaria bem.
E como esperado, ela estava sentada em nossa mesa de sempre, segurando um saco de papel que provavelmente continha nosso almoço daquele dia. Ela sorriu, e aquele sorriso iluminou todo o seu rosto, deixando-a ainda mais linda.
— Se não estivéssemos no meio do refeitório, eu te beijaria agora — ela sussurrou no mesmo instante em que eu me sentei ao seu lado. Éramos muito reservadas com nossos relacionamento, apesar dos boatos que se espalhavam pelo colégio. Todos diziam que éramos namoradas, e mal sabiam eles que estavam certos.
Eu queria beijá-la. Beijá-la ali mesmo no meio de todo o refeitório e confirmar aquelas fofocas idiotas que andavam espalhando sobre nós duas. Talvez aquilo fosse a maior prova de amor que eu poderia lhe dar. Mas nós escondíamos nosso relacionamento por um motivo muito bom: Muita gente ali não tolerava homossexuais. E não falo só sobre os gays. Lésbicas também. Eu já tinha ouvido histórias sobre um rapaz que tinha sido espancado no estacionamento por uns outros dez rapazes, que lhe diziam que tinham nojo dele por ser um "maldito viadinho". Ele nunca mais voltou ao colégio. E uma outra menina, lésbica, que resolveu se assumir, teve todo o cabelo cortado porque assim se pareceria mais como o macho que ela realmente era. Histórias horríveis que faziam com que eu e Zooey permanecêssemos no armário. Ou melhor, no banheiro.
— Quer comer no banheiro hoje? Talvez eu até te deixe me dar um ou outro beijo enquanto comemos... — Fingi um ar de desinteresse, mas ela pulou pra longe da mesa, arrastando-me atrás dela pelo refeitório.
Estávamos próximas à saída quando eu ouvi uma pessoa gritar.
— EI, SUA SAPATÃO INFELIZ! — A princípio, pensei que a pessoa estivesse falando com Zooey. Geralmente ela era a mais xingada por causa das roupas que gostava de usar. Mas assim que nós nos viramos, encontramos Mia do outro lado do refeitório, com uma expressão furiosa, como se estivesse prestes a matar alguém. Ou melhor, nos matar.
— VOCÊ MESMO, SUA MARIA MACHO! — E apontou o dedo em minha direção, fazendo-me arregalar os olhos. — JÁ NÃO BASTA CHUPAR A BOCETA DESSA AÍ, AGORA TAMBÉM VAI FICAR FODENDO COM O NAMORADO DAS OUTRAS?
O tempo pareceu passar bem devagarzinho e várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Eu vi James entrando no refeitório bem naquele momento, carregando uma lata de refrigerante nas mãos, os olhos se arregalando assim que ele ouviu o que Mia estava dizendo; Zooey apertando meus dedos com força; as pessoas no refeitório prendendo a respiração enquanto Mia apontava o dedo pra mim.
— Que história é essa, Susan? — Zooey murmurou, apesar de ter precisado levantar um pouco ouvir pra que eu pudesse ouvi-la.
Um murmurinho agora tinha dominado o refeitório, e Mia ainda trazia uma expressão raivosa no rosto. Aquilo ainda não tinha terminado.
— EU QUERO UMA RESPOSTA! FALA PRA TODO MUNDO QUE VOCÊ É UMA SAPATÃO IMUNDA, UMA LADRA DE NAMORADOS! — E então todo o refeitório ficou em silêncio e Mia correu pra cima de mim.
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