Loving Zooey
16 Krav Maga
Eis aqui um fato sobre a minha vida que todos deveriam saber: Eu não sei brigar. Eu realmente não sei brigar. Nunca estivesse numa briga séria além daqueles tapinhas bobos que troquei com uma menina da minha turma na segunda série. Eu não sabia dar um soco, muito menos um bom tapa, e eu me arrependia por nunca ter aceitado fazer aquelas aulas de Krav Maga que vovó vivia insistindo pra que eu fizesse. Aquilo viria a calhar naquele momento.
Mia veio correndo na minha direção com tamanha rapidez que eu mal tive tempo de piscar. Eu só senti Zooey largando minha mão e se afastando de mim, e aquilo provavelmente doeu mais do que os futuros tapas que eu levaria de Mia. Eu sabia que aquilo acabaria da pior maneira possível. Eu tinha magoado Zooey, eu tinha me magoado, e agora eu iria apanhar. Talvez levar uma surra fosse bom pra que eu aprendesse a não fazer tantas merdas com a minha vida.
Mia gritava enfurecida enquanto vinha pra cima de mim. Eu senti o impacto do seu corpo contra o meu primeiro, e depois os tapas e socos que ela desferiu sobre mim enquanto caíamos no chão. Eu só pude ser rápida o suficiente pra erguer os braços, tentando proteger meu rosto dos socos. Mas ela cravou as unhas nos meus pulsos, tentando afastá-los de qualquer maneira.
— Eu quero deixar o teu rosto marcado, sua vagabunda. Assim todo mundo vai ter certeza de que você apanhou de mim. — Ninguém movia um músculo pra me ajudar. Ninguém ousaria se meter nos assuntos de Mia, e todos deixariam que ela me espancasse ali como se não fosse nada de mais.
Por um breve segundo, enquanto Mia jogava seus cabelos pra trás antes de voltar a me socar, eu vi Zooey deixando o refeitório. Ela aparecia arrasada, mas eu não podia ter certeza. Eu não podia ter certeza de mais nada porque logo em seguida o punho de Mia acertou o meu olho, e depois meu nariz, e eu desmaiei assim que senti o cheiro e o gosto de sangue.
***
Eu não queria abrir os olhos. Eu sabia que estava acordada, eu ouvia as vozes das pessoas ao meu redor, mas eu simplesmente não queria abrir meus olhos. Eu não queria saber o que tinha mesmo acontecido e nem o estado em que eu me encontrava. Aquilo era demais.
Senti o cheiro de álcool e uma dor forte no nariz. Alguém limpava meu rosto e aquilo me fez abrir os olhos, mas eu me arrependi imediatamente. Meu olho direito doía, minha visão estava meio turva e eu mal conseguia abrir minha pálpebra. Só por tentar abrir mais o olho eu sentia uma incômodo enorme que me forçava a ficar quieta outra vez.
— Está tudo bem, querida. O seu pai logo vai te levar pra casa. — Uma voz doce falava comigo, e eu abri o olho bom, finalmente vendo quem estava limpando meu nariz (que também doía sempre que era tocado). Aquela só poderia ser a enfermeira da escola, isso era óbvio. Ela usava um casaquinho branco e me limpava com movimentos delicados, provavelmente se preocupando em não me machucar. — Você teve sorte. Geralmente as vítimas de Mia ficam num estado bem pior que o seu. Sorte a sua que uma alma caridosa resolveu chamar a diretora antes que as coisas ficassem piores.
Mas quem poderia ter sido? Todos estavam no refeitório na hora da briga, eu tenho certeza disso. Ninguém se atreveria enfrentar Mia ou se arriscar chamando a diretora, sabendo que a mesma coisa poderia lhe acontecer depois. Provavelmente nunca descobriria quem tinha me ajudado, mas seria eternamente grata à essa pessoa.
Ouvi a voz do meu pai logo em seguida, e eu senti uma vontade enorme de chorar. Tudo o que eu queria era ir embora, mas não de volta pro apartamento dele. Eu queria a minha casa. Queria a minha mãe cuidando de mim e me dizendo que eu não precisaria enfrentar aquilo tudo sozinha. Eu tinha certeza de que ela saberia a coisar certa a se dizer e que ficaria do meu lado o tempo todo. Mas ao invés disso era meu pai que entrava na enfermaria, com seu uniforme de trabalho e uma expressão preocupada no rosto.
Ele não fez nenhum comentário, apenas pegou minha mochila e me ajudou a levantar, suportando quase todo o meu peso em um de seus braços. Ele não me fez nenhuma pergunta, o que foi ótimo já que eu não queria mesmo ter de me explicar. Mas eu achava que alguém já deveria ter contado o que tinha acontecido comigo. As brigas não pareciam ser um assunto muito importante ali, no final das contas. Eu tinha sido apenas mais uma das vítimas de Mia.
Queria me despedir de Zooey, mas algo me dizia que ela não queria me ver. Até porque, se quisesse, estaria na enfermaria quando eu acordei, não? E meu pai me carregou imediatamente pra fora do colégio, sem nem me dar uma chance de procurar minha namorada.
Ela também não me ligou naquele dia. Depois de tomar alguns remédios pra dor, comecei a me sentir sonolenta e pedi ao meu pai que me acordasse se Zooey ligasse. Ele fez uma careta, resmungou algo ininteligível, mas disse que me acordaria se o telefone tocasse. Eu só acordei às três da manhã, sozinha, o que dizia que Zooey não deveria mesmo ter telefonado.
Agora, sozinha no escuro do quarto, eu podia repassar todos os acontecimentos daquele dia. Ela deveria estar com ódio de mim. Meu coração se apertou só de pensar em vê-la todos os dias e não poder mais me sentar com ela, ou tocá-la. Eu caminhei até a sala aos tropeços, com os olhos cheios de lágrimas e completamente zonza por causa dos remédios. Disquei o número da casa dos meus avós de forma descoordenada, e dei uma fungadinha antes de ouvir a voz de sono do meu avô que atendeu ao telefone.
— Vovô? Sou eu, Susan. Eu posso passar uns dias com vocês?
Fale com o autor