Loving Zooey
17 Esse não é o meu lugar
Notas iniciais
Quando meu avô atendeu o telefone, ele tinha aquela voz rouca de sono que as pessas têm quando acabam de acordar. Ele me perguntou se algo estava errado e eu imediatamente comecei a chorar. E isso foi desesperador pra ele, é claro. Meu avô nunca gostou de ver nenhuma de nós (eu, minha mãe e vovó) chorar. Ele começou a pedir pra que eu me acalmasse, mas eu não conseguia. Comecei a chorar desesperadamente, e eu soluçava em silêncio, morrendo de medo de acordar meu pai.
–- Vovô, por favor, venha me buscar. -- E ele foi. No outro dia, quando acordei, ele já estava à minha espera. Saí do quarto e o encontrei sentado na poltrona surrada do meu pai, com uma expressão aborrecida no rosto. Meu pai também estava ali, é claro, parecendo bastante desconfortável com tudo aquilo. Ele e meu avô nunca se deram muito bem.
E então, quando meu avô olhou pra mim, realmente olhou pra mim e viu o que estava errado, o pandemônio começou.
–- O QUE FOI QUE ACONTECEU? O QUE SÃO ESSAS MARCAS NO SEU ROSTO? VOCÊ ANDOU BRIGANDO? -- Eu nunca tinha visto meu avô sequer elevar o tom de voz, e agora ele berrava tanto que eu jurava que ele acabaria acordando todos os nossos vizinhos. -- VOCÊ PODE ME EXPLICAR O QUE ACONTECEU? -- E virou-se em direção ao meu pai, que continuava sentado como se nada tivesse acontecido.
–- Susan apanhou no colégio.
–- Apanhou? APANHOU? Ela é espancada e é desse jeito que você reage?! -- Vovô estava tão furioso que todo seu rosto estava vermelho, e ele apertava as mãos com força, como se estivesse se controlando pra não dar um soco bem no meio da cara de papai.
–- Susan, arrume suas coisas agora. Eu vou te levar embora desse lugar.
Meu pai estacou. Estava com a xícara de café à caminho dos lábios e simplesmente cessou os movimentos que fazia, apenas movendo a cabeça pra encarar meu avô e depois a mim. Eu corei de vergonha, esquecendo-me de que não havia lhe dito sobre a ligação da noite anterior. Mas depois daquele telefonema eu fui pra cama tão constrangida por tudo, que não queria que meu pai soubesse o que estava acontecendo.
–- Você não vai levar a minha filha embora.
–- Isso é o que nós vamos ver.
Foi uma briga tremenda. Meu pai e meu avô gritaram um com o outro por meia hora, e quando eu finalmente consegui separar umas roupas e arrumar minhas coisas pra que pudéssemos sair dali, alguns vizinhos já estavam no corredor, atentos, apenas esperando que algo mais grave além dos gritos acontecesse. Meu pai gritou com todos, mandou que eles cuidassem de suas vidas e foi bufando atrás de mim e do meu avó até a saída do prédio.
–- Susan, você não pode ir. Esse aqui é o seu lar agora.
Ele parecia tão... Não sei explicar. Indiferente. Era como se ele só estivesse dizendo isso da boca pra fora. E eu não entendia mesmo porque ele poderia querer que eu ficasse ali. Eu não tinha mais dinheiro do que ele, minha mãe não me deixara qualquer tipo de herança. Não havia nada pelo o que ele pudesse se interessar.
Eu tinha tantas coisas pra lhe dizer, mas ao mesmo tempo eu não queria dizer-lhe nada e apenas entrar no carro e ir embora. Trocamos um rápido olhar, e eu esperava que aquilo fosse o suficiente pra que ele entendesse que eu estava fazendo a coisa certa. Eu não me encaixava ali. Aquele não era meu lugar.
Meu avô me empurrou gentilmente pra dentro do carro e dois minutos depois nós estávamos indo embora. Meu pai continuou parado no mesmo lugar, com os olhos arregalados, como se não acreditasse que eu estava mesmo indo embora.
***
Eu precisei contar toda a história pro meu avô. E depois pra minha avó, que parecia ainda mais preocupada do que ele. É claro que eu omiti algumas coisas. Como meu namoro com a Zooey, por exemplo. Mas precisei contar sobre o James, porque só isso explicaria a furia de Mia. Eu disse que James tinha me dado um beijo no parque, nada de mais, e que Mia tinha descoberto e me dado uma surra por causa disso. Parecia uma explicação bem aceitável pra que agora meu rosto estivesse coberto de manchas roxas.
Minha avó tinha passado a manhã arrumando o meu quarto, deixando-o ainda mais bonito (como se fosse possível) e enchendo-o de flores e perfume. Pediu pra que eu me deitasse e começou a colocar umas coisinhas gosmentas e geladas no meu rosto, mas que aliviaram a dor dos machucados na hora.
–- Eu não acredito que eu deixei você ir morar com aquele troglodita -- vovó explodiu, começando a chorar. -- Eu sei que era a vontade da sua mãe, mas eu... Seu avô... Nós não podíamos. Você ficaria melhor aqui, você poderia ir pro melhor colégio... Nós erramos tanto. Eu sinto muito, Susan, querida.
Eu segurei suas mãos entre as minhas, apertando-as com força, querendo passar-lhe alguma confiança que eu não seria capaz de passar com o olhar já que meus olhos estavam cobertos com aquela coisa gosmenta.
–- Vovó, não diga isso. Nada disso é sua culpa. Eu acho que não deveria ter deixado o James me beijar, afinal. -- E não era só isso. Eu deveria ter sido esperta o suficiente pra me afastar dele no mesmo instante em que percebi que ele e Mia eram próximos. Eu não me importava se eram namorados ou apenas amigos, mas eles eram próximos o suficiente pra que ela me quebrasse a cara por causa dele.
Estremeci só de pensar em voltar pro colégio. Eu não fazia ideia do que aconteceria agora. Se eu começaria a viver com meus avós e trocaria de colégio, se teria de voltar pra casa... Eram tantas coisas que eu nem queria pensar nisso agora. Mas só a ideia de nunca mais ver Zooey foi tão ruim, tão dolorosa que eu comecei a chorar outra vez. Vovó pensou que fosse por causa de suas próprias lágrimas e disse que eu não precisava chorar por ela. E logo depois ela me deixou sozinha no quarto, lamentando a perda de Zooey.
Eu pensei em ligar pra ela. É claro que eu pensei. Havia um telefone no meu quarto e eu o peguei tantas vezes, pensando em discar seu número e ligar, mas ainda me faltava coragem. E eu apostava que ela nem mesmo queria falar comigo. Mas naquele dia, mais tarde, meu pai ligou. Perguntou como eu estava, se meus avós estavam cuidando bem de mim (como se ele não soubesse disso) e disse que James tinha ligado perguntando por mim. Maldito James. Será que ele nunca me deixaria em paz? Meu pai me passou um número de telefone dizendo ser o que James tinha lhe pedido pra me passar, mas eu nem fiz questão de anotar. Pra mim James já era um caso encerrado. Eu não queria mais ter nenhum contato com ele.
–- A Zooey não ligou? -- Eu não consegui me controlar e acabei fazendo a pergunta que mais me interessava naquele momento: A Zooey ligou? Ela me odeia? Nós ainda somos namoradas?
Mas ela não tinha ligado, pelo menos não enquanto meu pai estava em casa, e eu comecei a pensar que talvez fosse uma coisa boa eu ter ido pra casa dos meus avós, afinal. Me doeria muito se eu não visse Zooey nunca mais, mas eu aprenderia a viver com isso. Só que depois eu me lembrei de que nossos avós eram amigos e que provavelmente nos encontraríamos uma hora ou outra, e então eu comecei a chorar outra vez.
***
Passei um dia inteiro na cama. Eu não queria comer, eu não queria sair do quarto, conversar e nem mesmo tomei banho. Meu estado era deplorável. Meu avô apareceu no quarto, dizendo que eu precisava me recompor, mas minha avó brigou com ele e mandou que me deixasse ela paz. "Ela precisa de um tempo pra superar esse trauma", foi o que ela disse. E sim, eu precisaria de muito tempo pra superar isso.
***
James's POV
Eu me sentia ótimo. Realmente ótimo. O motivo disso era Susan. Susan, com sua pele alva, os cabelos claros e aqueles lábios que me hipnotizavam e pareciam implorar pra que fossem beijados. Eu me encantei por ela assim que a vi pela primeira vez, sentada sozinha no refeitório, toda encolhida como se algum mal pudesse lhe acontecer. Se não fosse por Mia, eu provavelmente não teria reparado tanto assim nela. "Olhe só aqueles cabelos", "E que bocão horrível é esse que ela tem?" Eram comentários maldosos que apenas me fizeram ver toda a beleza que existia em Susan. E eu nem acreditava que nós tínhamos transado.
Quando cheguei no colégio, fui correndo encontrar Peter e contar-lhe o que havia acontecido. Peter era quieto e discreto, eu lhe contava tudo. Erámos amigos desde sempre e não existiam segredos entre nós. E ele já sabia sobre meu interesse pela loira.
–- Você e a sapatão?! Ah, mas eu não acredito, Jamie! -- Sim, a sapatão. Era assim que ele e todos os outros estudantes chamavam Susan e Zooey. Era horrível, mas depois de um tempo você acaba se acostumando.
–- Eu e Susan... Sim, nós transamos. E foi incrível. Ela é incrível.
Fui pra aula com alegria renovada. Mal podia esperar para vê-la na hora do almoço. Eu ainda não sabia o que faria, só queria poder estar ao seu lado e beijá-la quantas vezes conseguisse. Na frente de todo mundo, eu não me importaria.
O sinal do intervalo foi uma benção, mas o professor me pediu pra recolher todos os livros, e xingando mentalmente o homem que só atrasava minha vida, comecei a juntar os benditos livros. Dez minutos depois eu estava saindo da sala, outra vez sorrindo, novamente feliz com a ideia de vê-la. Mesmo ao longe eu já ouvia a barulheira que vinha do refeitório e apressei meus passos pra que pudesse ver o que estava acontecendo.
No meio do caminho esbarrei em Zooey. Literalmente. Nossos corpos se chocaram graças a falta de atenção dos dois que corriam pelo corredor escuro.
–- Ah. É você. Que bom, por que não vai ajudar a sua namoradinha?
–- Do que você está falando? -- Zooey parecia irritada, mas ao mesmo tempo triste. Tinha lágrimas nos olhos. -- A Mia andou zombando de você outra vez? Eu já pedi pra que ela parasse com iss...
–- Eu? Não. Ela não fez nada comigo. Ao contrário de Susan. -- Ela deu uma risadinha sarcástica e cruzou os braços. -- Todo mundo já tá sabendo que você e a Susan andaram trepando por aí. E é por isso que a minha está dando uma surra nela. Por que você não vai lá ajudar?
Mia batendo em Susan? Isso não era bom. Não era nada bom. Eu sabia muito bem o que Mia era capaz de fazer quando estava furiosa.
–- E VOCÊ NÃO FEZ NADA? SIMPLESMENTE FOI EMBORA SEM IMPEDIR QUE ISSO ACONTECESSE? -- Agora quem estava furioso era eu.
–- Não fiz nada porque não estava disposta. Adeus, James. -- E saiu caminhando pelo corredor como se nada tivesse acontecido.
Eu corri até o refeitório só pra ver se aquilo era mesmo verdade. E vi ao longe uma Mia furiosa desferindo socos no rosto de uma Susan desacordada. Aquilo era covardia e eu sabia que Mia não iria parar tão cedo. Corri outra vez, dessa vez até a direção, implorando pra que fossem até o refeitório parar uma briga. Disse que Mia estava envolvida e que a outra pessoa estava desacordada, e eles foram rapidinho parar a briga.
Eu me escondia na enfermaria porque sabia que era pra lá que levariam Susan. E eu me senti horrível por vê-la daquele jeito. Seu rosto estava completamente sujo de sangue, uma coisa grotesca. E aquilo era tudo culpa minha. Segurei sua mão entre as minhas, beijando-a delicadamente enquanto ninguém estava por perto.
Encontrei Mia saindo do refeitório, com um sorriso satisfeito no rosto enquanto se gabava com suas amigas sobre o que tinha feito. Eu agarrei seu braço com força, arrastando-a pra longe das amigas, os dentes trincando de fúria.
–- Nós precisamos conversar. E muito sério.
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