Loving Zooey

11 Latas de cerveja, pizza velha e jaqueta de couro


Assim que acordei, me senti instantaneamente desconfortável. Eu não entendi bem o motivo nos primeiros segundos, mas logo fui me dando conta do que estava acontecendo. Eu me lembrei de onde estava e com quem estava. Aos poucos, as lembranças da noite anterior inundaram minha mente e eu gemi baixinho, mas não como aqueles gemidos de prazer que Zooey e eu compartilhamos na outra noite. Era um gemido frustrado, preocupado e até mesmo desesperado. Que diabos eu tinha feito? Eu era maluca, essa era a única resposta. Transar com Zooey? Logo depois do meu primeiro beijo?

Eu ainda estava nua, assim como Zooey. Eu podia sentir seu corpo junto ao meu, os seios roçavam de leve contra as minhas costas, deixando-me levemente excitada e preocupada ao mesmo tempo. Eu me sentia culpada. Apesar de gostar dela, não sabia se o que tínhamos feito era correto. Eu sempre imaginei que depois da minha primeira vez eu me sentiria nas nuvens, e ficaria tão feliz e extasiada que não iria querer sair da cama. Mas não era isso o que estava acontecendo.

Fui me movendo aos poucos na cama, evitando acordar Zooey com meus movimentos. Não queria que tivéssemos de conversar sobre tudo o que fizemos. Não queria ter de encarar as consequências de tudo aquilo. E se nossa amizade acabasse? Ela era a única amiga que eu tinha naquele momento, e eu não estava mesmo podendo perdê-la por algo tão idiota. Vesti minhas roupas enquanto pensava no que faria à seguir. Eu ainda não queria acordá-la. Não sabia como ela reagiria, por mais que tivéssemos dormido juntas, e que ela ainda estivesse me abraçando quando acordei.

Talvez ela também goste de você, pensei, mas descartei essa ideia logo de imediato. Não era bom criar expectativas que seriam quebradas depois. Ajeitei meu cabelo da melhor maneira possível, recolhendo meus pertences e preparando-me pra sair. Antes de ir, dei uma última olhada em Zooey. Ela dormia de forma tão tranquila e serena, que eu precisei lutar pra resistir ao impulso de voltar até a cama e continuar observando-a dormir, acariciar seu rosto... Ela estava completamente nua sobre a cama, as pernas envolvidas no lençol rosa, e os seios tão convidativos que eu me amaldiçoei em voz baixa por me deixar levar com tamanha facilidade. Eu deixei o quarto revivendo todas as lembranças da noite anterior, da forma como nos tocamos e como ela parecia não sentir um pingo de timidez na hora de dizer certas coisas pra mim. Se eu pudesse, voltaria no tempo e faria tudo de novo. Por mais que essa situação acabasse destruindo minha amizade com Zooey, eu tinha certeza de que transaria com ela outra vez.

***

O motorista da família me deu uma carona, e logo eu estava entrando em casa e encontrando meu pai adormecido em sua poltrona. Percebi como ele também parecia mais tranquilo quando estava dormindo. Mesmo que ao seus pés estivesse um lixo de latas de cerveja e restos de pizzas. Ele parecia mais jovem, mais sereno e menos irritado com tudo. Na verdade, ele parecia mais com o pai do qual eu me lembrava. O que ainda morava comigo e com mamãe, que me levava ao parque todo final de semana e me deixava tomar quantos picolés de limão eu quisesse.

Eu suspirei, indo até meu quarto. Eu não sabia ao certo, mas podia apostar que meu pai tinha sofrido tanto com a morte de mamãe quanto eu. Até porque ele a amava, certo? Eu sabia que mesmo não morando mais sob o mesmo teto, ele ainda a amava, e sempre teve o cuidado de evitar as perguntas sobre os namorados de mamãe, porque eu podia apostar que ele sentia ciúmes disso. Joguei-me na cama, perguntando-me como as coisas podiam ser tão complicadas assim. Talvez, se meu pai tivesse arrumado um emprego melhor e permanecido comigo e com mamãe, ela não estivesse morta. Talvez nós ainda estivéssemos morando em nossa antiga casa, sem mofo e com vizinhos agradáveis. Eu me sentia mal com isso. Estava triste com a morte de mamãe, com a vida que estava levando, com o lugar onde morava e com minha atual situação com Zooey, por mais que eu não soubesse o que exatamente aconteceria entre nós duas.

Eu simplesmente fugi. Fugi de sua casa, dela e de uma conversa que eu certamente não estava preparada para ter. Será que Zooey e eu seríamos namoradas agora? Ou o que? Aquilo tinha sido só uma coisa entre amigas, certo? Eu sabia que algumas garotas faziam isso às vezes. Se beijavam e tocavam umas as outras só pra experimentar, pra saber como era ou simplesmente por diversão. Talvez tenha sido isso o que aconteceu entre Zooey e eu: Apenas um experimento, uma diversão entre amigas. Pelo menos eu achava.

***

Já passava das sete da noite quando eu resolvi dar uma volta. Eu sabia que ali perto havia um parquinho onde algumas crianças costumavam frequentar, e eu duvidava muito que com aquele frio elas estivessem por lá. Na verdade, eu esperava encontrar o lugar vazio. Peguei o dinheiro que tinha ganhado do meu pai no dia anterior e coloquei no bolso traseiro da minha calça, só por precaução. Eu não esperava usá-lo com nada. Ainda mais ali, onde minhas únicas opções eram gastá-lo com bebidas, cigarros ou drogas.

Meu pai não disse nada ao me ver sair. Talvez ele gostasse de ter a casa só pra ele de vez em quando. Eu deveria me lembrar que eu era a intrusa ali. Ele estava acostumado a viver sozinho, ter uma casa só pra ele e não ficar esbarrando com uma adolescente pelos cantos da casa o tempo todo. Pensar nisso também me deixava um pouco mal. Era como se a morte de minha mãe não tivesse estragado apenas a minha vida, e sim a vida de todo mundo. E aquilo era horrível.

Eu lembro que no início, dias depois do enterro de mamãe, eu não conseguia aceitar aquilo. Às vezes eu acordava durante a noite e achava que tinha visto o vulto se sua silhueta movendo-se pelo quarto, ou que tinha sentido seus dedos acariciando meu rosto e cabelos enquanto dormia, mas então eu percebia que tinha sido só mais um sono, e não conseguia mais dormir. Nesse período eu pensei em me matar diversas vezes, achando que eu apenas estaria fazendo um favor à todos se desse um fim à minha vida. Mas eu não consegui. Meus avós e meu pai já tinham perdido a minha mãe, eu não seria capaz de impôr esse sofrimento à eles duas vezes.

Quando cheguei no parque, suspirei aliviada ao ver que eu estava mesmo sozinha ali. Sentei-me num banco, enfiando as mãos nos bolsos do casaco e observando a nuvem de fumaça que escapava da minha boca sempre que eu respirava. Desejei ter algo pra comer. Droga, resmungo, sabendo que agora eu provavelmente ficaria menos tempo ali do que o esperado. Eu não aguentava ficar muito tempo sem comer quando percebia que estava com fome.

Mas eu acabei me distraindo com um pombo que ciscava o chão a poucos metros de onde eu estava sentada. Não havia qualquer coisa ali que ele pudesse comer, além de terra suja e restos de cigarro. Mas a ave permaneceu ali por alguns segundos, ciscando o chão até desistir de encontrar algo comestível ali. Antes de partir, a ave parecia ter lançado um demorado olhar em minha direção, fazendo-me estremecer, mas ela logo voou para longe, deixando-me sozinha outra vez.

— Não sabia que você frequentava esse lugar. — Uma voz masculina soou bem atrás de mim, fazendo-me estremecer outra vez em menos de um minuto. Eu conhecia aquela voz. Eu provavelmente a reconheceria mesmo se passasse anos sem ouvi-la. Eu não me virei, com medo de encarar aquele rosto conhecido. — Pensei que você pelo menos me diria um "oi".

James se sentou ao meu lado. Ele usava uma jaqueta de couro preta, mas que não lhe dava aquele ar de rebelde e roqueiro que os rapazes geralmente procuravam quando usavam esse tipo de roupa. Ele tinha um ar mais sereno, mais brincalhão. Uma touca cinza cobria-lhe a cabeça, escondendo o pouco cabelo que ele tinha e protegendo suas orelhas contra o vento frio. James era bonito. Bonito mesmo. Eu estava tão acostumada com meu antigo colégio e a inundação de alunos brancos, que só via beleza neles. Eu nunca tinha prestado tanto atenção num rapaz negro e percebido sua beleza. Mas James era lindo. E assim, tão de perto, ele parecia mais bonito ainda.

— Oi — eu o saudei, sabendo que soava fria demais. Mas também o que mais eu poderia fazer? Ele era namorado de Mia, a pessoa que tinha machucado Zooey e que planejava fazer o mesmo comigo assim que tivesse uma oportunidade.

— Céus, eu não sabia que vocês eram tão chatas assim.

— Vocês? — Eu perguntei, arqueando as sobrancelhas.

— Sim, vocês. Mulheres brancas. As negras são mandonas, sabem o que querem. Você muda de humor constantemente, e consegue ser bem chata vez ou outra.

Eu bufei, cruzando os braços e ignorando a nuvem de fumaça que saiu de minha boca.

— E o que você sabe sobre mim pra vir falando sobre minhas mudanças de humor? Nós nem nos conhecemos.

— Eu observo você. — Ele estava muito sério, e um arrepio percorreu meu corpo, e eu nem sabia dizer porque estava arrepiada daquele jeito. James sorriu, provavelmente querendo quebrar o clima de tensão e recostou-se contra o banco. — Eu gosto de te observar nas aulas, como você fica quieta e parece não prestar atenção no que acontece ao seu redor. E como você sempre escapa pro banheiro com sua amiga. — Ele parecia estar bem familiarizado com meu hábitos e meus horários no colégio.

— Bom, é melhor você não contar à sua namoradinha onde eu e Zooey nos escondemos. Você pode ser grande, mas eu posso muito bem te dar uma surra.

— Minha namoradinha? — Ele arqueou as sobrancelhas, fazendo uma cara confusa, mas a expressão logo abandonou o seu rosto, substituída por outra de entendimento. — Ah, sim. Você está falando sobre a Mia, não é? Bem, ela não é a minha namorada.

Como ela não era a namorada dele? Todos no colégio diziam o contrário, e eu sempre os via de mãos dadas e juntos durante os intervalos. Se isso não era namorar, então eu não sabia mais o que poderia ser.

— Então eu não entendo mais nada — eu resmunguei, recostando-me contra o banco, assim com ele, e cruzando os braços.

— O seu problema é pensar demais. Talvez não exista nada pra se entender. — Ele se moveu em minha direção, e eu mal notei seu movimentos até sentir seus lábios tocando os meus. James estava me beijando. Estava me beijando mesmo! Os lábios juntos aos meus, aos poucos começaram a ganhar vida e passaram a se mover bem devagar.

James estava me beijando e isso nem era o pior de tudo. James estava me beijando e eu estava deixando que ele o fizesse.

Notas finais
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