Loving Zooey
12 Correndo uma maratona
Notas iniciais
Enquanto eu beijava James, eu pensava em várias outras coisas, que acabavam tirando minha concentração do que estávamos fazendo ali. Quer dizer, fica meio difícil se concentrar num beijo quando você só consegue pensar nos pombos que ciscavam o chão, e em como seu nariz está frio e como anoiteceu rápido demais para aquela época do ano. Mas então eu afastei todos esses pensamentos e tentei apenas pensar em James e no nosso beijo.
Ele era um bom beijador. Não que eu tivesse muitos beijos na minha lista pra poder comparar (além dos beijos de Zooey), mas eu achava que ele estava se saindo bem. Seus lábios eram macios, mas também era bem mais firmes do que os de Zooey, e ele me beijava com mais vontade do que ela tinha me beijado. Talvez as coisas fossem assim. Meninas tinham beijos mais delicados e meninos eram mais vorazes, mas tentei não pensar muito naquilo.
Mas então eu comecei a pensar em Zooey. E nos beijos de Zooey. E no jeito como ela fazia carinho no meu rosto quando me beijava, e na forma que ficamos juntas na noite anterior. E então o beijo de James pareceu ruim e sem sentido, e eu o empurrei pra longe e dei o fora daquele lugar. Eu corri mesmo que minhas pernas estivessem meio dormentes por causa do frio, e eu só esperava que ele não corresse atrás de mim, porque eu não queria mesmo ter de me explicar pra ele. Meus pés escorregavam pelo asfalto molhado, e eu precisei parar de correr por alguns segundos pra que um carro passasse pela rua, apesar da minha vontade de me jogar em frente ao veículo e simplesmente morrer e não ter de encarar James ou Zooey nunca mais.
Quando eu tomei coragem pra olhar pra trás, algumas quadras depois, não vi James correndo atrás de mim, o que era ótimo. E ele também não tinha gritado meu nome nem nada do tipo, então ele provavelmente só me deixou correr pra longe dele, o que também era ótimo.
Eu encontrei meu pai dormindo na sala outra vez, com a mesma pilha de lixo aos seus pés, e eu pensei em como aquilo era deprimente, e que aquela provavelmente era uma visão a qual eu teria de me acostumar. Eu podia apostar que eu o veria daquele jeito muitas vezes.
Eu me escondi no meu quarto. Tirei todas as minhas roupas e me enfiei embaixo dos cobertores, mesmo que eu estivesse morrendo de fome e ainda não tivesse comido nada. Eu ia morrer. Não literalmente, mas mesmo assim. Eu veria Zooey na segunda-feira. E James. E Mia com James, e eu queria morrer só pra não precisar ir ao colégio naquele dia. O que eu diria à Zooey? Eu estava mais preocupada com o que lhe diria do que com a possibilidade de James vir falar comigo e questionar o que tinha acontecido entre nós. Eu só esperava que ele não pensasse que eu era sua namorada ou coisa do tipo.
***
Na segunda-feira, eu tremia descontroladamente sob meu sobretudo. Eu estava usando um vestido preto com mangas que iam até os meus pulsos, e com detalhes espelhados na gola. Era um vestido bonito, e tinha sido um presente da minha mãe. Eu andava usando todas as minhas roupas bonitas pra ir ao colégio porque eu sabia que agora não teria muitas saídas ou lugares legais para ir, então eu apenas aproveitava todas as minhas roupas e as usava na escola. Escolhi um par de meias na cor vinho que subiam por minhas pernas e terminavam depois dos meus joelhos. Sapatos fechados e meu pesado sobretudo preto. Eu andava usando muitas roupas pretas ultimamente. Mas eu não me importava.
Meu pai não estava mais em casa, mas eu encontrei uma nota de 10 dólares sob a caixa de cereal e a guardei dentro da minha bolsa. Eu não gastava quase nada do dinheiro que meu pai me dava. Eu não saía, eu não ia ao shopping ou à festas, então eu simplesmente guardava todo o dinheiro, sabendo que algum dia ele me seria útil. Deixei o nosso prédio com as pernas trêmulas, desejando estar na minha cama tomando uma xícara enorme de chocolate quente.
Estranhei a pequena fila que encontrei em frente ao colégio. Normalmente eu sempre pegava uma fila imensa, mas hoje poucas pessoas se aglomeravam ali pra passar pelo detector de metal. Espiei o relógio do rapaz que estava na minha frente, vendo que eu não estava atrasada, então aquilo só era mesmo muito estranho. Passei pelo detector de metal, que apitou quando eu passei, então eu tive de ser revistada por uma policial, que me levou pra um canto e revirou minha bolsa toda enquanto eu dizia que a máquina só tinha detectado os metais dos fechos da bolsa. Mesmo assim ela revirou tudo, e também me revistou de cima à baixo, me fazendo tirar os sapatos e o casaco. Mas ela finalmente chegou a conclusão de que não havia nada de errado comigo e me deixou ir. Tentei calçar meus sapatos o mais rápido possível, e juntei o resto das minhas coisas antes de correr pra longe dali. Não queria topar com Mia, não queria que ela me visse naquela situação e saísse espalhando boatos pelo colégio.
Não que eu realmente me importasse. É claro que todos ali sabiam quem eu era. Mas não porque eu fosse popular ou coisa do tipo. Eles me conheciam porque eu era a estranha branquela que estudava ali. A branca que invadia seu espaço. O único lugar que deveria ser apenas pra eles, e não pra gente branca. Eu sabia de tudo isso porque era o tipo de comentário que eu estava sempre ouvindo quando eu estava por perto. Eles diziam que eu não tinha o direito de estar ali. Nem eu e muito menos Zooey. "Eles já tomam nossos lugares em todo o resto de mundo, e agora vão invadir até menos nossas escolas?" Esse era o tipo de comentário que eu ouvia todos os dias.
Descobri que a falta de tantos alunos era que um de nossos professores tinha sido preso, então vários alunos resolveram ir embora como forma de protesto pelo o que tinha acontecido. O sr. McField foi preso porque estava carregando uma quantidade de cocaína grande demais pra ser considerada apenas pra uso próprio. Diziam que ele estava vendendo aquilo pra ajudar a pagar as contas, já que o salário de professor era baixo demais. Outros diziam que ele era apenas muito viciado, e que mesmo aquela quantidade toda de cocaína ainda era pouco pra ele.
Então os professores resolveram fazer greve, e os alunos circulavam livremente pelo colégio, conversando, ouvindo música e fumando seus cigarros no pátio. Aquilo era muito estranho. Quer dizer, eu não imaginava que esse tipo de greve acontecesse por ali. Me abriguei no refeitório, onde o cheiro de comida flutuava pelo ar, e onde estava muito mais quente e agradável. Poucas pessoas estavam ali, o que era ótimo, porque eu poderia ficar sentada em silêncio, sem precisar ignorar uns e outros que fariam piadinha comigo.
Eu senti sua presença antes mesmo de ouvir o barulho do banco ser arrastado ao meu lado, e sua mochila pesada caindo sobre a mesa. O perfume de Zooey, aquele cheiro adocicado que eu tanto adorava, invadiu minhas narinas, fazendo-me fechar os olhos pelos poucos segundos de paz que me restavam.
— POR QUE VOCÊ FOI EMBORA? — Ela gritou, bufando e empurrando sua mochila pra longe. Eu abri os olhos, sentindo minhas bochechas ficarem vermelhas ao ver a expressão raivosa que ela tinha no rosto. Ela ainda me encarava, as sobrancelhas erguidas, esperando por alguma explicação.
E eu não sabia o que dizer. Eu não conseguia encontrar uma forma de contar o que tinha acontecido, e explicar o motivo de ter ido embora sem lhe dizer nada. Eu dei de ombros, o que só a deixou mais irritada ainda.
— Eu não sei — respondi, baixando os ombros e fazendo uma careta rápida. — Eu só não sabia o que fazer. Quer dizer, nós... — E eu erguia as sobrancelhas sugestivamente, e foi sua vez de ficar vermelha, provavelmente lembrando de tudo o que tínhamos feito. — Tá vendo? Eu não queria que isso acontecesse. Zooey, você sabe que foi a minha primeira vez... — Eu baixei o tom de voz, olhando para os lados, me certificando de que ninguém estavam ouvindo nossa conversa.
— Quando eu acordei, eu te vi ali do meu lado e lembrei de tudo e... Eu fiquei desesperada. Eu não sabia o que faria quando você acordasse. Eu não sabia o que diria pra você, e eu fiquei tão nervosa e morrendo de medo... Então eu fui embora. Me desculpe. — Eu dei de ombros outra vez, e percebi que esse gesto deixava Zooey muito irritada.
— Vamos sair daqui — ela respondeu, ignorando tudo o que eu tinha dito. Então eu a segui até o "nosso" banheiro, e assim que chegamos lá, Zooey fechou a porta com uma força desnecessária e me beijou. Ali mesmo, pressionando meu corpo contra a porta enquanto sua boca atacava a minha, e suas mãos seguravam minha cintura com força.
E eu não podia mais me afastar. Só deixei minha bolsa cair no chão e retribuí o beijo da melhor maneira possível. Nossos corpos estavam coladas, e respirávamos o mesmo ar, o cheiro doce de Zooey me envolvendo e me deixando tonta. Ela me mordeu, puxando meu lábio e me fazendo gemer. E ela riu, selando meu lábios e envolvendo minha cintura com seus braços.
— Fica quieta! — Ela riu, beijando-me outra vez.
Apesar de estar adorando aquilo, eu estava me sentindo desconfortável. Nós nem conversamos, e ela ignorou tudo o que eu tinha dito e minhas explicações sobre a forma como fugi de sua casa naquele dia. Eu parei de me mexer e de mover meus lábios, e demorou alguns segundos pra que ela percebesse que eu já não estava mais retribuindo seus beijos.
— O que foi?
— Nós precisamos conversar. — Eu a empurrei pra longe com gentileza, sentando-me no chão logo em seguida. — Você ignorou tudo o que eu disse, Zooey. E isso não pode ficar assim. Nós nos beijamos. Nós transamos! E agora? O que acontece? O acontece com a gente?
Ela se ajoelhou de frente pra mim, suas mãos tocando meu rosto e meu cabelo, distribuindo carinhos enquanto eu pirava e jogava mil perguntas pra cima dela.
— Calma, Susan.
— Eu não consigo ficar calma! — Eu quase gritei, mas não queria que viessem até o banheiro e nos encontrassem ali. — O que acontece agora?
— Eu acho que agora nós namoramos, Susan.
E foi assim.
Sem pedidos. Sem grandes declarações.
Ela simplesmente disse que éramos namoradas.
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