Loving Zooey
19 Fazendo tudo do jeito certo
Notas iniciais
Eu já devia esperar por isso. É óbvio que Zooey não foi nada receptiva. Uma das primeiras coisas que fez assim que ouviu minha voz foi ameaçar desligar. Precisei implorar um milhão de vezes pra que ela não desligasse. Disse-lhe que não ia demorar, que só precisar dizer uma coisa e logo a deixaria em paz outra vez. Mas ela sempre me surpreendia. Eu tinha acabado de tomar fôlego pra começar a falar antes que ela desligasse, quando ela suspirou do outro lado da linha e murmurou:
— Eu senti a sua falta.
Isso me desarmou. Como sempre acontecia quando ela me surpreendia dizendo essas coisas bonitinhas e que saíam tão naturalmente da sua boca que eu tinha certeza de que não eram planejadas antes. Ela não era como eu, não passava horas ensaiando o que pretendia dizer no futuro. Ela simplesmente dizia. Simples assim.
Senti a ausência do seu corpo junto ao meu naquele mesmo instante. Senti a falta de nossas conversas bobas, nossos almoços trancadas no banheiro, da forma como ela sempre dava um jeito de segurar a minha mão ou de estar sempre me tocando, mostrando que estava ali do meu lado. Ela sempre demonstrava o quanto se importava comigo, mesmo que isso não fosse claro pra mim na época. Mas ela sempre o fez. Sempre esteve ao meu lado. Apesar de nunca expressarmos com palavras nossos sentimentos, nós duas sabíamos que existia algo de verdade ali. Existia. Até eu estragar tudo.
Por que eu tinha de ser tão burra?
— Diz alguma coisa. Achei que você quisesse falar comigo.
Percebi então que já fazia um bom tempo desde que ela dissera que sentia minha falta. Suspirei. Eu estava morrendo de vontade de chorar. Chorar por conta de todo o peso sobre as minhas costas e por causa da saudade imensa que eu sentia da minha mãe e de Zooey.
— Minha mãe se matou. Na semana do meu aniversário. Eu lembro que estávamos planejando uma festa. Um jantar, na verdade. Eu convidaria meus amigos mais íntimos e ela disse que até compraria cerveja pros rapazes. Eu estava animada. Eu estava feliz, Zooey, realmente feliz. Depois do que aconteceu, eu passei semanas me perguntando o que eu tinha feito de errado. Como se a culpa fosse minha. Ela não deixou uma carta, uma nota de despedida. Nada. Eu cheguei do colégio e ela estava lá. Parecia até que estava dormindo e eu juro que ela tinha um sorriso nos lábios. Eu não entendia. Eu ainda não entendo.
"Você me lembra um pouco dela. O seu jeito, sabe? A forma como estava sempre por perto, o modo de falar, como cuida de mim mesmo sem se dar conta. Talvez seja por isso que eu tenha me aproximado de você e me apaixonado por ti. Eu sei que errei. E eu ainda vou errar muito daqui pra frente. Todos nós sempre vamos errar. Mas eu... Bom, eu amo você. Não sei se te amo do jeito certo. Não sei se é muito cedo — ou muito tarde — pra dizer que te amo, mas eu amo. E me perdoe, Zooey. Por tudo. Por ter sido idiota, por ter dormido com James e ter sido tão fria contigo. Não lido bem com isso. Não sei como relacionamentos funcionam. E eu tinha medo. Tenho medo. Medo de me machucar, de machucar você. Medo de que as pessoas nos julguem e não entendam o motivo de estarmos juntas. Você já parou pra pensar em como seria se nossos avós descobrissem sobre nós duas?"
Ela suspirou outra vez, e eu percebi pelo modo como o suspiro estrava entrecortado, que ela estava chorando. Senti-me burra e inútil por fazê-la chorar.
— Nunca pensei nisso. Minha vontade de estar contigo sempre foi maior do que qualquer outra coisa.
— Você me perdoa? Isso não é um pedido pra que voltemos a namorar ou pra que você volte a me ver todos os dias. Eu só quero me desculpar. Eu preciso de você, mesmo se for apenas como amiga. Não posso aguentar tudo sozinha. Fica comigo.
Ela demorou tanto pra responder que eu já estava quase desligando o telefone, pensando que ela tinha desligado ou que a ligação tinha caído.
— Eu te perdoo. Mas não somos mais namoradas. Na verdade eu nem sei se algum dia nós fomos de fato namoradas.
Aquilo dói, mas eu engulo a dor e as lágrimas porque sei que é verdade. Ela está certa. Zooey está sempre certa.
— Quero fazer as coisas certas a partir de agora, Zooey. E quis começar por você. Espero pelo menos poder falar contigo às vezes.
— Você sempre pode me procurar quando precisar, e... Eu sinto muito por sua mãe. De coração. — Sua voz era baixa. Não passava de um sussurro. Ela estava sendo sincera, como sempre era.
— Obrigada. De verdade.
E então ela desliga e nossa conversa termina. Parece que uma parte pequena do peso sobre minhas costas desaparece, como se eu estivesse aos poucos esvaziando uma mochila muito pesada.
Continuo deitada na cama por alguns minutos, repassando mentalmente cada coisa que Zooey disse e todas as que foram ditas por mim. Chego a conclusão de que foi uma boa conversa, de que as coisas se acertaram, de algum modo. Lembro que ela não chegou a dizer se amava ou não, mas eu acho que sim. Acho que Zooey me ama ou pelo menos chegou a me amar um dia. Mas talvez eu nunca vá ter certeza disso.
O telefone pesa na minha mão e decido ligar pro meu pai. Talvez seja a hora de resolver as coisas com ele.
— Pai, sou eu.
Sua voz é animada do outro lado da linha. Parece sonolento, ou talvez só esteja bêbado por conta das cervejas que está sempre bebendo quando está em casa. Ouço o ruído da televisão ao fundo. Futebol. Eu já devia imaginar.
— Posso ligar outra hora, se estiver atrapalhando.
— Você nunca me atrapalha, querida. — O barulho da televisão some. — O que quer conversar? Sou todo ouvidos.
— Quero me desculpar por ter sido terrível nos últimos meses. Por ter ido embora com vovô e por fazer com que vocês dois brigassem. Eu não queria que nada disso tivesse acontecido.
— Não foi sua culpa. Eu e seu avô nunca nos demos bem, é a verdade. Ele não achava que eu não merecia uma melhor como a sua mãe. Que não era digno dela. E ele estava certo, sabe? No fundo eu sempre soube que ele estava certo. Tanto que nós nos separamos bem cedo. Mas eu não me arrependo de nada. Amei muito sua mãe.
— Eu achei uma carta dela — disparo sem pensar no que estava dizendo.
— E o que dizia? — Sua voz também é baixa, controlada. Parece ter medo de ouvir minha resposta.
— Se desculpava por tudo e dizia que me amava. Não tinha muita coisa.
Silêncio. Aquele silêncio desconfortável. Acho que nós dois estamos pensando em alguma coisa pra dizer. Qualquer coisa. Uma palavra que conforte, uma mudança brusca de assunto. Tudo menos aquele silêncio.
— Como você se sente?
Eu continuo em silêncio. Não quero contar o que realmente sinto, então eu minto.
— Eu estou bem. Vovó cuida bem de mim e não me deixa passar fome. — Dou uma risadinha sem graça, esperando que isso melhore o clima.
— Você não vai voltar pra casa, vai?
Sinto pena dele. Como sempre sinto quando o vejo jogado em sua poltrona assistindo aos seus jogos. Aquela era sua vida, e eu não me encaixava nela.
— Eu vou. Preciso ir ao colégio. Mas assim que acabar o semestre eu volto pra cá. Não posso continuar empacando sua vida, pai. Você sabe que não combinamos juntos. Não posso viver com você. Você tem sua vida, seus hábitos e manias, e eu tenho os meus. Eles não se encaixam.
— Não me abandone, Susan. Eu tenho meus erros, mas amo você. Eu posso arrumar coisas pra fazermos juntos.
Podia sentia a dor em sua voz. Era quase um reflexo do que eu soara minutos antes ao telefone com Zooey. Isso me fez ter vontade de chorar outra vez.
— Eu vou te visitar sempre. Todos os finais de semana, se você quiser. Mas não posso e nem vou continuar vivendo com você. Vai ser melhor assim. Pra nós dois.
Desligamos minutos depois. Mais um pouco do peso sobre as minhas costas some. Sinto que agora volta pouco até que a mochila imaginária esteja completamente vazia.
Desço as escadas e encontro meus avós na sala de jantar. Comunico minha decisão: Voltarei pra casa na segunda-feira e passarei o resto do semestre com meu pai até acabar minhas aulas. Meu avô nega, é claro.
— Você só tem um dia, Susan. Eu vou te deixar voltar e buscar as suas coisas. Mas é só isso. Nós já transferimos você pra outro colégio. Chega de levar uma vida medíocre com seu pai. Acabou. Você vai morar conosco agora.
E eu sei que não adianta discutir ou argumentar. Não dá pra ganhar uma briga contra meu avô. Subo as escadas irritada, esperando que um milagre aconteça e eu consiga passar o semestre na casa do meu pai. Mas por outro lado me sinto feliz em não precisar voltar pro colégio e encarar Mia e todo o resto das pessoas. Vai ser ótima nunca mais precisar olhar pra cara dela.
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