Loving Zooey
20 Coisas inesperadas acontecem
Notas iniciais
Aquilo tudo era ridículo. R I D Í C U L O. Um dia era um espaço de tempo curto demais pra que eu pudesse me organizar e fazer todas as coisas do jeito que eu tinha pretendido fazer. Eu só tinha um dia pra tirar todas as minhas coisas da casa do meu pai e "me despedir dos meus amigos" (palavras do meu avô). Não que eu tivesse uma tonelada de coisas na casa do meu pai. Só algumas caixas de roupa e itens pessoais que foram tirados do meu quarto na casa de mamãe e que nunca deixaram sua caixa na casa do meu pai. A verdade é que eu nunca me senti muito à vontade lá. Eu não sentia que aquele quarto era o MEU quarto, por isso nunca me dei o trabalho de encher o armário com minhas roupas e decorar o quarto com meus pertences.
Às oito da manhã um motorista chamado Jefferson estaciona o carro do meu avô em frente ao pequeno prédio onde meu pai mora. Vovô está no trabalho e pediu que Jefferson me trouxesse até aqui. Ele costuma trabalhar as vezes pro meu avô. Geralmente quando ele precisar ir à todos aqueles jantares de gala e negócios, onde bebe e não pode dirigir depois. Jefferson é um cara legal. Parece ter uns trinta anos, por aí, e é bem alegre e simpático. Sempre me pergunta se estou gostando da música, se quero que ele troque a estação de rádio ou se preciso que ele diminua/aumente a temperatura do carro.
Eu permaneço dentro do veículo por mais tempo do que o necessário, encarando o prédio com a fachada antiga que se estende ali do outro lado da calçada. Acho que Jefferson interpreta minha demora como um sinal de que estou esperando que ele abra a porta do carro pra mim, e ele corre dando a volta no carro, abre a porta e estende a mão pra mim. Eu a segura apenas como apoio, como se buscasse encontrar naquele breve aperto a coragem que me falta pra subir até o apartamento do meu pai e definitivamente ir embora dali.
É tudo tão difícil.
Estremeço enquanto dou os primeiros passos vacilantes em direção à entrada, com medo do que encontraria quando entrasse no apartamento. É claro que meu pai não estaria lá. Nesse horário ele já está no trabalho, ocupado demais pra se lembrar que eu existo. Esse pensamento já não me machuca tanto como fazia antes. Agora eu entendo que ele tem um trabalho pesado e que seria difícil pra ele ficar pensando na filha idiota enquanto precisa realizar suas tarefas.
Subo os lances de escada com o coração martelando sob meu peito. Parece que a cada degrau meu desespero aumenta. E eu nem sei o motivo de estar tão nervosa. Não é como se eu estivesse sendo obrigada a ir embora dali (mas eu estava). E essa não era a melhor coisa a se fazer? Não seria infinitamente melhor pra mim e pro meu pai se eu fosse embora e deixasse que ele cuidasse de sua própria vida quando meus avós se encarregavam de cuidar da minha?
Mas ao mesmo tempo eu me sentia mal e muito culpada por estar fazendo isso. Era como se eu fosse a minha mãe e estivesse abandonando-o. As pessoas viviam dizendo que eu era a cópia exata da minha mãe quando ela tinha a minha idade. Às vezes penso que meu pai só me quer vivendo com ele porque também me acha parecida com ela na época em que eles se conheceram e se apaixonaram. Isso é um absurdo, mas nunca se sabe o que se passa na cabeça das pessoas.
Quando abro a porta do apartamento tenho uma surpresa. Meu pai está ali. Sentado — como sempre — em sua poltrona. Mas a televisão está desligada e a sala parece estranhamente limpa. Não há latas e garrafas de cerveja pelo chão. Não há caixas de pizza apodrecendo sobre a mesa de centro. Não há jogos passando na televisão. Apesar de achar tudo muito estranho, não digo nada. Não quero aborrecê-lo com minhas perguntas idiotas.
— Eu não sabia que você estava em casa.
— Seu avô me ligou. Falou que você estava vindo pra cá pra pegar as suas coisas. — Seu tom de voz é ressentido. — Achei que você ficaria aqui, Susan. Pensei que você ficaria pelo menos pelo resto do semestre. Você mentiu pra mim! Você sempre mente e só pensa em você!
Cada palavra me atingia e abria um buraco no meu peito. Meu pai agitava as mãos e falava tão alto que logo uma vizinha colocou a cabeça pra fora da porta de seu apartamento pra ver o que estava acontecendo. Ali era sempre assim. As pessoas se juntavam nos corredores onde as brigas aconteciam, sempre ansiosas pra ter um vislumbre exclusivo de um soco, tapa, facada ou qualquer tragédia que pudesse acontecer.
— Você está bêbado e eu não quero conversar com você quando você só fica gritando comigo.
Finalmente entrei em casa e fechei a porta com força, esperando que aquilo espantasse a vizinha fofoqueira.
— Eu não bebi, Susan! — Ele continua berrando. — Eu pedi um dia de folga no trabalho porque contei a todos que minha filha finalmente estaria voltando pra casa e que queria limpar tudo e deixar tudo organizado pra que ela se orgulhasse de mim e visse que eu posso e vou mudar por causa dela. Mas parece que as coisas não vão ser como eu queria que fossem!
Aquilo é tão difícil. Tudo é tão difícil. Eu me sinto muito idiota por magoar meu pai, mas o que mais eu poderia fazer? Costumo pensar que tudo seria tão mais fácil se eu tivesse morrido junto com a minha mãe.
E é então que eu começo a chorar.
Não é um choro bonito, e eu sinto as lágrimas escorrendo por todo meu rosto e deixando meus lábios molhados e salgados.
Eu estou tão triste. Por tudo. Por causa de Zooey, por causa de James, por causa dos meus avós e do meu pai, e por causa da minha mãe que nunca vai poder estar ao meu lado em momentos como aquele, onde tudo o que preciso é de um abraço.
Sinto braços envolvendo meu corpo e então choro mais ainda ao perceber que meu pai está me reconfortando. É tão estranho. Não me sinto confortável abraçando-o, mas ao mesmo tempo não quero soltá-lo. Aquilo era tudo o que eu precisava, afinal. De um abraço. Um carinho. E de ouvir alguém dizendo que tudo vai ficar bem, da mesma forma que meu pai faz naquele momento.
Eu finalmente me solto, limpando minhas lágrimas com a manga do casaco e tentando dar um sorrisinho que saiu torto demais e acabou se transformando numa careta. Meu pai volta a se sentar e eu me sento ao seu lado no sofá, suspirando e tentando acalmar meus olhos que insistem em produzir lágrimas.
— A culpa não é minha. Vovô não quer que eu fique aqui. Eu ia mesmo passar o resto do semestre, mas ele não deixou. — Percebo que ele está prestes a me interromper e então ergo as mãos, pedindo silêncio. — Eu sei que ele não manda em mim. Eu sei que legalmente você tem a minha guarda ou qualquer coisa do tipo, mas você realmente não quer brigar na justiça com meu avô só pra me fazer morar com você. Eu sei — nós dois sabemos– que ele vai ganhar. Ele sempre ganha. E isso pode até ser bom pra mim. Eu vou pra um ótimo colégio e meu avô disse que pode pagar a faculdade que eu quiser. Não é isso o que você quer? O melhor pra mim?
Ele fica em silêncio, provavelmente considerando todas as coisas que eu lhe disse. Ele não ia mesmo querer enfrentar meu avô só pra que eu pudesse morar com ele. Por mais superficial que isso possa soar, meu pai nunca vai poder me dar um bom futuro. Eu acabaria confinada ali, em seu apartamento minúsculo e caindo aos pedaços, trabalharia numa lanchonete e provavelmente nem poderia ir pra faculdade. Não quero isso. Quero um bom futuro. Quero estudar, quero me formar e ter uma profissão que me garanta um ótimo salário e uma casa enorme.
— Eu não quero tirar sua chance de ter um ótimo futuro, mas... Seu avô poderia fazer todas as coisas com você morando aqui.
— Não vamos iniciar uma briga por causa disso, pai. Já está decidido. Você sabe que meu avô nunca muda de opinião em relação a nada. Exceto daquela vez em que pensou que eu não seria capaz de arrancar meu próprio dente.
Nós dois rimos lembrando do episódio em que eu tentei — e consegui — arrancar meu dente de leite que estava prestes a cair.
Depois disso o clima fica mais agradável entre nós dois. Meu pai me ajuda a recolher as roupas que tinham sido tiradas das caixas e a recolocá-las no lugar. Eu elogio a limpeza na sala e digo que seria ótimo se ele conseguisse manter a casa desse jeito. Eu o lembrei de que o visitaria todos os finais de semana e que gostaria muito de vê-lo se cuidar melhor, e também de cuidar um pouco mais da casa. Ele me promete que vai, aos poucos, reformar a casa e trocar alguns móveis antigos.
— Isso é ótimo, pai. Esse é o lugar onde você vive, come e dorme. Precisa cuidar melhor do seu lar.
Ele me ajuda a carregar as caixas com minhas coisas até o carro. É um carro espaçoso, então não temos muito trabalho em acomodar todas as coisas lá dentro. Digo a Jefferson que ele pode voltar pra casa dos meus avós e deixar minhas coisas lá. Eu almoçaria com meu pai e passaria o resto do dia ali. Ele poderia me buscar pela manhã.
— Seu avô não vai gostar muito disso, senhorita Susan.
— Eu me entendo com o meu avô depois.
E após trocarmos sorrisos, ele se vai.
Meu pai me leva à uma lanchonete que fica a poucos quarteirões de distância dali. É um lugar bem confortável e com uma decoração super-colorida que parece nos forçar a ficarmos alegres. Nós escolhemos uma das mesas que ficam ao lado da "parede" de vidro, e poucos segundos depois uma garçonete sorridente vem nos atender. Ela é loira, alta e magra, e masca chiclete enquanto exibe um sorrisinho super alegre. Percebo o modo como meu pai olha pra ela, mas não digo nada. Me sinto envergonhada por vê-lo cobiçando uma mulher daquele jeito.
Fazemos nossos pedidos e ela se vai, ainda com aquele sorrisinho. Eu elogio o lugar, só pra iniciar a conversa e mostrar que estou disposta a conversar. Isso parece ser bom porque ele logo começa a contar a história daquele lugar. Ele diz que se lembrava de quando começaram a construir aquela lanchonete. Ele era menino e costumava passar horas parado em frente à construção, achando tudo bonito demais. Na época não faziam muitas construções naquele bairro, em parte por causa de toda a população negra concentrada ali. As lanchonetes eram todas muito distantes e caras. Mas aquela parecia se encaixar perfeitamente ali. Ele fala sobre a inauguração, e em como ele passou horas na fila com sua família pra que pudessem conseguir comer hambúrguer e fritas.
— Era o melhor hambúrguer que eu já tinha provado na vida! — exclama, com um sorriso alegre nos lábios enquanto relembra sua infância.
Só então me dou conta de que não sei muito sobre a infância do meu pai. Eu conheci meus avós paternos, é claro. Gente simples e humilde, mas super carinhosos comigo. Meu pai nunca foi de falar muito. Sempre foi calado e na dele, preferia ouvir do que falar.
— Isso é muito bom, pai. Quero dizer, isso o que estamos fazendo. Acho que devemos fazer algo diferente sempre que eu vier visitá-lo. O que acha disso?
Ele acha ótimo e nós combinamos que sempre que eu for visitá-lo, contaremos histórias sobre nossa semana e ele me levaria pra comer fora, ou prepararíamos o jantar juntos. Eu era uma péssima cozinheira, e ele também, então imagino que nossos jantares seriam pizza ou comida chinesa.
Eu peço licença e digo que vou ao banheiro. A lanchonete é grande. Preciso dar a volta no salão pra conseguir achar o banheiro. Entro no espaço que cheira a produtos de limpeza e espirro assim que sinto o cheiro. Há duas cabines no banheiro e percebo que ambas estão vazias. Entro em uma e faço xixi antes que qualquer outra pessoa entre ali. Odeio fazer xixi quando sei que tem alguém escutando.
Quando saio da cabine, ajeitando minhas roupas, dou de cara com a última pessoa no mundo que eu queria ver.
Mia.
Ela me encara, os olhos ferozes, como se estivesse prestes a me atacar de novo.
É como se eu pudesse sentir seus socos atingindo meu rosto, e involuntariamente ergo minhas mãos até a altura do rosto, como se pudesse evitar apanhar, ou como se eu quisesse tocá-lo só pra ter certeza de que ele não estava dolorido como ficara depois dela me acertar diversas vezes.
Mia dá uma risada alta e debochada, e então cruza os braços, bloqueando a porta.
Eu lavo minhas mãos rapidamente, sempre olhando pra ela, querendo manter meus olhos atentos a qualquer movimento que indique que ela vai me bater.
— Eu não vou te bater, garota. Caso esteja pensando nisso. — E lá está de novo, a risada debochada, a expressão de superioridade. — Eu te vi quando passou por mim. Quase não te reconheci fora dos trapos que usa pra ir ao colégio.
— O que você quer comigo, Mia?
Eu estava tão cansada. Mia era uma das últimas — se não a última — pessoas que eu queria ver naquele momento. Sei que jurei que faria todas as coisas do jeito certo e que arrumaria minhas bagunças, mas não existia nada pra ser arrumado entre Mia e eu.
Exceto que muita coisa precisava sim ser esclarecida entre nós duas.
Mas eu sabia que ela não me daria ouvidos. Mia nunca perderia seu tempo me ouvindo falar. Era capaz de me bater assim que eu abrisse a boca. Eu não podia explicar que tudo tinha sido culpa de James, até porque a culpa também era minha. Eu quis transar com ele. Eu deixei que ele me levasse pra cama, que me beijasse e todo o resto. Não posso jogar toda a culpa pra cima dele quando também não fui uma boa pessoa.
E logo quando estou prestes a pedir pra que ela me dê licença e me deixe ir embora, a coisa mais inesperada — e estranha — do mundo acontece.
Mia me beija.
Ela
me
beija.
E é um beijo agressivo e que machuca meus lábios. Ela segura meus braços com força, empurrando-me contra a pia pra que eu não consiga fugir. É desesperador. Sua língua invade a minha boca e toca a minha de um jeito descontrolado.
É molhado demais.
É brusco demais.
Eu me sinto sem fôlego e começo a me mexer descontroladamente, tentando empurrá-la pra longe de mim, mas ela é mais forte e quase não se move sob seus protestos.
Então eu faço a única coisa que me resta: Mordo sua língua.
Eu mordo com tanta força que sinto o gosto do sangue enchendo a minha boca. Ela me solta, urrando e gemendo de dor, levando as mãos até a boca que expelia sangue. Ela parece me xingar, mas suas palavras são confusas já que ela quase não pode mover a língua. Eu cuspo no chão, tentando me livrar do gosto do seu sangue e abro a porta. Antes de ir embora, me viro pra vê-la desesperada, sem saber o que fazer com a língua machucada.
— Nunca mais se aproxime de mim.
Eu me sinto estranha.
Eu me sinto forte.
É como se eu fosse capaz de fazer qualquer coisa.
Eu venci. Eu venci Mia. Ainda sinto o gosto do seu sangue em minha boca quando me sento na mesa de frente pro meu pai. Não ficamos muito tempo ali e logo estamos caminhando de volta pra casa.
— Eu preciso fazer uma coisa, pai. Eu te encontro mais tarde.
Estamos em frente ao prédio e meu pai parece satisfeito e feliz. Ele sorri e acarícia a barriga protuberante enquanto admira o céu.
— Posso perguntar o que você vai fazer?
— Vou me despedir de James.
Ele me olha de um jeito estranho. Parece que tenta ler minhas intensões, mas eu continuo fazendo o que minha avó chama de "cara de paisagem", e ele logo me dispensa com a mão enquanto volta a sorrir.
— Sempre desconfiei que vocês dois tinham um caso.
Faço uma caminhada rápida até a casa de James. Sua mãe me atende com uma expressão de desgosto, me dizendo que posso encontrá-lo em seu quarto.
Isso não seria fácil.
James sorri assim que me vê. Parece tão feliz por me ver ali, e logo corre pra fechar a porta do quarto e pega minhas mãos, beijando-as e me puxando consigo até a cama.
— Não estou aqui pra transar com você.
Ele congela. Senta-se na cama, fazendo o colchão balançar sob seu peso.
— O que você veio fazer aqui, então?
É incrível como parece que só aquilo importa pra ele. O sexo. Os beijos. Qualquer tipo de contato físico entre nós dois. Talvez ele e Mia se mereçam.
— Só vim me despedir de você, James. Eu estou indo morar com meus avós. Vou amanhã mesmo. Já fui transferida do colégio e nós dois provavelmente não nos veremos mais.
Ele tem as sobrancelhas arqueadas. Parecia duvidar de mim e do que eu dizia.
— Mas você não vem visitar seu pai? Vai abandoná-lo? Você não é assim. Aposto que vai estar aqui o tempo todo. Nós vamos poder nos ver sempre que você vier.
— James. Não.
Eu suspiro, buscando palavras que me ajudem a fazê-lo compreender o que estou sentindo e pensando.
— Não vamos ser amigos?
— Não, James. Nós nunca fomos amigos, entende? Nós conversamos umas vezes e transamos. Foi isso. Apenas isso. Não temos nada em comum. A gente não combina. Nossos gostos não se parecem e eu não vejo como uma amizade entre nós dois poderia dar certo. Vamos encarar a realidade. Nunca seremos amigos.
— Podemos ser qualquer outra coisa. Não precisamos ser necessariamente amigos. Podemos só nos ver e...
— Transar? — Eu completo pra ele. — Você pode transar com qualquer outra menina, James. Pode transar com Mia que é tão louca por você que me encheu de socos pra comprovar isso. E além do mais...
Aquele era o momento.
Eu finalmente ia dizer aquilo em voz alta e confirmar as suspeitas que todos do colégio sempre tiveram sobre mim.
— Eu gosto da Zooey.
Não foi tão difícil quanto eu pensei que seria. James e eu decidimos que seria melhor assim: Não manter uma amizade que nunca existiu. Ele se despediu dizendo que sempre se lembraria de quando transou comigo, e eu dei um risadinha sem graça, correndo pra longe dele em seguida.
Agora só faltava mais uma coisa a ser feita pra que tudo fosse resolvido do jeito certo.
Eu precisava me encontrar com Zooey.
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