Eis aqui uma lista de coisas que meu pai me ensinou sobre o “queto”:

1) Apesar de todos ali serem negros, nem todos eram bandidos. Eu sempre tive essa ideia errada sobre eles. Não sobre os negros num geral, mas dos que moravam em bairros como aquele. Mas pelo o que meu pai dissera, nem todos eram marginais. Pelo menos a maioria não era.

2) A maioria das famílias era realmente pobre. Não que eles passassem fome ou coisa do tipo, mas era visível a falta de dinheiro. Mas assim como a história dos marginais, nem todos eram tão pobres assim. Uma família de nossa rua até tinha um carro do ano.

3) As brigas e barracos eram frequentes por ali. E eles nunca — nunca — chamavam a polícia. E isso sempre me fazia reconsiderar toda a história sobre bandidos. Por que não chamavam a polícia se diziam que eram honestos e não tinham nada para esconder? Eu nunca conseguiria entender isso.

4) Eles xingavam mais do que o necessário. Não que eu fosse alguma puritana que nunca falasse um palavrão. Mas a coisa por ali era absurda. Numa das poucas vezes em que deixei a casa para ir até a farmácia, ouvi as crianças conversando e fiquei abismada com seu vocabulário.

A lista é enorme, acreditem. Durante todo o final de semana meu pai deixava escapar um desses itens enquanto assistia futebol.
Aquele final de semana foi uma merda. Eu não conhecia o lugar, não tinha amigos e muito menos pra onde sair. A única TV da casa ficava na sala, e meu pai estava sempre assistindo aos seus jogos. E não era como se eu me importasse com aquilo. Não tínhamos TV a cabo e eu não estava realmente interessada em assistir ao noticiário.

Passei o final de semana no quarto lendo e escrevendo. Os antigos amigos não tinham tempo pra mim. Tentei ligar para alguns deles, mas todos estavam ocupados, e alguns nem mesmo chegaram a atender ao telefone. Acho que é isso o que acontece quando sua mãe morre e você se esquece do resto do mundo. Eu só não esperava que todos fossem ser tão incompreensíveis daquele jeito.

No domingo, enquanto eu jogava fora as latas de cerveja vazias e as caixas de pizza, meu pai abaixou o volume da TV por alguns instantes e limpou a garganta, fazendo barulho, pra que pudesse chamar minha atenção.
Eu voltei até a sala, já preparada para ouvir um sermão ou mais algum item da listinha de coisas que eu deveria saber sobre aquele lugar.

— Amanhã é seu primeiro dia na escola — disse, deixando a lata de cerveja de lado.

— Sim, pai. Eu não me esqueci disso. — Ele não precisava me lembrar daquilo mais uma vez. Durante aquele final de semana nós quase não nos falamos. Como sempre, ele estava ocupado demais com a TV, e eu também não estava muito interessada em ouvi-lo falar sobre esportes.

— Eu só queria dizer que provavelmente já terei saído quando você acordar. Preciso sair cedo por causa do trabalho. — Tomou outro gole de cerveja e aumentou o volume da TV outra vez.

Eu me arrastei até o quarto. Todas as minhas coisas ainda estavam guardadas nas caixas da mudança. E do jeito que eu estava, elas permaneceriam por muito tempo ali.
Joguei-me na cama, por cima dos cadernos e das roupas que tinha separado pra usar na escola. Ainda não tinha decidido qual delas usaria, e acabaria saindo de casa de pijama.

Eu não queria nem imaginar o que aconteceria naquela segunda-feira. Pelo o que eu sabia, a escola só seria uma versão mais jovem do bairro onde eu estava morando. Não era como se eu estivesse pensando em me enturmar e fazer amigos.

Não me lembro de ter dormido, mas acordei toda dolorida e com dor de cabeça. Ótima forma de se começar o dia. Fui direto pro banheiro e estremeci sob a água quente do chuveiro. Saí do banho resmungando e emburrada. Gostaria que aquele dia nunca acontecesse. Gostaria que em algum momento eu abrisse meus olhos e estivesse no meu antigo quarto, ouvindo os suspiros de minha mãe vindos do quarto ao lado, e então percebesse que tudo aquilo não passava de um sonho idiota.
Mas idiota mesmo era desejar que aquilo acontecesse.

Abri as caixas com minhas roupas enquanto ainda lamentava os sonhos idiotas que tinha com minha mãe. Desde sua morte eu só usava preto. Minha avó detestou a ideia, mas meu pai nem pareceu notar a mudança. Eu tirei da caixa um vestido que comprara na última vez em que estive no shopping. Naquela época eu nem imaginava que um dia estaria morando num lugar como aquele.

O vestido tinha um caimento perfeito e alças finas, e eu desejei que estivesse quente o suficiente pra que eu pudesse usá-lo confortavelmente. Tive que colocar um casaco pesado por cima do vestido e calcei minhas botas de cano alto, rezando pra que aquele chuvisco que molhava a janela do quarto não se transformasse numa chuva forte.

Como eu já esperava, meu pai não estava em casa, mas eu tive uma surpresa ao chegar na cozinha. Eu estava colocando a garrafa de leite sobre a mesa quando percebi um pedaço de papel dobrado ao lado do vaso de flores. Peguei o papel, esquecendo momentaneamente do leite. “Boa sorte em seu primeiro dia de aula”, dizia o bilhete, numa letra embolada e confusa que só poderia pertencer ao meu pai.
Junto ao bilhete havia algum dinheiro, que eu presumi que fosse pra mim. Coloquei o dinheiro dentro da mochila e tomei um gole de leite direto da garrafa. Aquela demonstração de afeito de meu pai acabou me deixando sem fome.

Não sei se sou capaz de descrever o que encontrei quando cheguei no colégio. O lugar parecia uma prisão. Os alunos eram obrigados a passar por detectores de metal e tinham suas mochilas revistadas.
Eu fiquei presa na fila por meia hora. Quinze minutos até que eu passasse pelo detector de metal e mais quinze minutos até que minha mochila fosse revistada. Mas aquilo nem era o pior de tudo. Eu sabia que por ser aluna nova eu receberia alguns olhares, mas eu não estava esperando ser a única pessoa branca por ali. Isso mesmo. Eu era a única aluna branca.

Se já tinha sido ruim na fila de entrada, dentro da escola era pior ainda. As pessoas cochichavam quando eu passava por elas. Cochichavam, apontavam e alguns até mesmo riam de mim. Eu mal havia chegado e não via a hora daquele dia acabar.

Minha primeira aula era de Literatura. Eu adorava essa matéria e esperava que as aulas fossem no mesmo nível das que eu tinha na antiga escola. Mas eu não deveria criar tantas esperanças.

Sentei-me no fundo da sala, tentando me esconder dos outros alunos. Era difícil receber tantos olhares estando sentada ali. Os outros tinham que se virar pra que pudessem me olhar.
O professor não pediu pra que eu me apresentasse e anotou no quadro os livros que nós deveríamos ler durante aquele semestre. Eram livros que eu já conhecia, alguns até entravam na minha lista de favoritos. Fiquei surpresa que eles fizessem parte do programa de leitura daquela turma.

O tempo passou voando e logo todos estavam deixando a sala. Eu segui a maré de gente, esperando que eles me levassem até o refeitório. A maioria seguiu mesmo até o refeitório e a outra parte escapou para o pátio. Eu acompanhei o primeiro grupo, precisava comer alguma coisa antes que desmaiasse.
Enfrentei outra fila pra que pudesse comprar uma Coca-Cola e um pedaço de pizza. Eu podia ouvir minha mãe reclamando por causa da minha escolha de comida. Sentei numa mesa vazia e afastada, e concentrei-me em comer minha pizza e ignorar todos os olhares que recebia.

— Você não é a única branca por aqui. — Eu ouvi a voz antes de ver a menina que agora se sentava ao meu lado. Ela também era branca.

— Perdão? — Eu me lembrava claramente do que ela tinha dito, mas estava chocada demais com sua presença e não conseguia pensar em outra coisa parar dizer.

— Você não é a única aluna branca por aqui — repetiu e riu. — Mas isso você já percebeu. — Ela afastou a bandeja e limpou as mãos na calça. — Eu me chamo Zooey. É um prazer finalmente receber uma irmã de cor por aqui. — Eu achei aquilo meio racista, mas apertei sua mão e retribui o sorriso.

Mas antes que eu pudesse dizer meu nome, ou qualquer outra coisa, antes mesmo que eu pudesse abrir a boca, um grupo de meninas rodeou nossa mesa; os braços cruzados diante do peito e nenhum sinal de simpatia em seus rostos. A maior de todas, que provavelmente deveria ser a líder do grupo, descruzou os braços e deu um passo à frente.

Ora, ora ora. Parece que esse ano teremos as estrelas de As Branquelas estudando conosco.

Notas finais
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