Lovesick
1 Love
Notas iniciais

Quando eu dei um passo a frente, fiquei encarando o espelho com um rosto que demonstrava nada além de uma expressão séria e fria. Era realmente certo o que eu estava fazendo? – parando pra pensar, bem, talvez não era certo, nem humano. Entretanto, quem decidia o que era certo ou errado? Estas coisas não mudariam dependendo do ponto de vista? Não seria hipocrisia decidir tais coisas? Ah, era incomodativo. Desviei o olhar do espelho para o chão, pois olhar pro espelho por muito tempo dava-me uma sensação de incômodo.
Bom, não era hora pra pensar nessas coisas. Balancei a cabeça e voltei a vestir o meu uniforme escolar – que consistia em uma camisa social de manga comprida, um blazer preto de botões dourados, uma saia azul de pregas com uma listra branca e meias pretas que iam até o joelho. Estava no segundo ano do ensino médio, logo minha gravata era vermelha; enquanto a do terceiro ano era azul marinho, gravata amarela significava que o estudante era do primeiro ano. Era assim que as coisas eram na escola Hisokawa, pelo menos. Nada extravagante, porém não tão simples; algumas garotas reclamavam do uniforme por ele ser muito "sério", e diziam preferir um uniforme de marinheiro. Nunca fez alguma diferença para mim, já que nunca enunciei qualquer tipo de interesse pela escola.
Como qualquer clichê, eu deveria notar que estou atrasada, pegar uma torrada, botar na minha boca e sair correndo em direção a escola. Eu não estava atrasada e muito menos com fome, logo, antes de sair de casa, apenas arrumei levemente meu cabelo. Havia cortado-o pela última vez em Dezembro do ano passado, e ele já estava grande novamente; alcançava os meus ombros e era totalmente repicado e bagunçado, tendo uma coloração rosa bebê. Minha franja era prendida por um prendedor normal; eu costumava botá-la para trás, entretanto, na quarta série, Shin sugeriu que eu prendesse-a para o lado direito, e desde então eu uso-a assim.
Arrumando minha bolsa escolar em meu ombro, caminhei em direção a porta. Eu morava sozinha há aproximadamente dois anos, portanto eu não havia ninguém para me despedir; mesmo assim, senti a necessidade de avisar. Respirei fundo e abri a boca, em alto e bom som.
— Estou saindo – Olhei para trás e vi que não havia ninguém, o que eu já sabia. Saí de casa e fechei a porta, indo em direção a escola.
O dia estava ensolarado, como sempre. Nunca gostei de dias ensolarados – no geral, não precisava ser um dia ensolarado para eu não gostar. Se houvesse qualquer resquício de sol, já não gostava – pois eram quentes e eu me sentia mal, mas não era como se eu pudesse mudar isso. Pelo menos isso. A caminhada até a escola não era longa, para o meu alívio; o sol não fazia muito bem para o meu humor.
Ao meu redor haviam algumas árvores e, nelas, haviam alguns cartazes com a foto de um garoto, seu nome e os dizeres "desaparecido", junto com algumas informações de contato com a família no caso de ele ser visto em algum lugar. É verdade, um garoto havia sido sequestrado na minha cidade; a família estava totalmente desesperada, e seus amigos estavam um tanto quanto preocupados e depressivos.
Na escola, o assunto não era diferente; independente da sala que você entrasse, havia pelo menos umas quatro pessoas murmurando sobre o garoto desaparecido, junto com alguns rumores e teorias. Nada que fosse relevante, de qualquer forma. Minha sala era a 3-2, por isso era a pior de todas, já que o garoto sequestrado pertencia a esta sala também e todos estavam falando disso, apesar de os professores terem proibido qualquer palavra sobre o assunto.
Algumas garotas carregavam uma expressão depressiva em seus rostos delicados; uma delas estava chorando, enquanto as outras aparentavam ter feito isso durante a noite, já que seus olhos estavam inchados e levemente marejados. Os garotos estavam apenas preocupados, extremamente preocupados. O garoto sequestrado era realmente adorado por todos, logo era realmente uma tragédia que tal sequestro tivesse ocorrido.
— Francamente, que tipo de monstro faria algo tão horrível e desumano como isto! Meu pobre Shin..! – A voz pueril de uma garota ecoou pela sala, antes que ela desabasse em lágrimas novamente. O jeito que ela pronunciou suas palavras irritou-me levemente, apesar de eu não ter demonstrado isso por fora. Dei um leve suspiro e fechei os olhos, sentando-me no meu lugar de sempre.
— Hanako-chan, você era... é amiga de infância do Shintaro, não é? – Uma estudante que sentava na minha frente virou-se e iniciou um assunto. Fiquei encarando-a até que fosse direto ao assunto. – Vocês deviam ser próximos, então...
— Então?
— Então! Você... talvez... – Ela não sabia o que falar, provavelmente não havia pensado nas suas palavras antes de me chamar. Estava quase chorando, também.
— Yumi, a Atsuko também deve estar muito abalada com o que aconteceu – Uma garota de cabelos longos e negros botou a mão no ombro de Yumi. – Todos estamos preocupados com o Amano...
— Como você consegue ficar calma em uma situação dessas? É como se você não... se importasse! – Yumi ignorou as palavras de sua colega e levantou seu tom de voz. Ah, pessoas que falam alto realmente eram irritantes; a escola estava um inferno naqueles dias.
— Certo, turma, silêncio – Para o meu alívio, o professor adentrou a sala antes que a tal Yumi prosseguisse com seu assunto que não havia pé nem cabeça. Eram as únicas pessoas que não falavam deste assunto a cada segundo. – Bom, foi decidido e avisado há alguns dias, entretanto devo repetir. Está proibido falar sobre o incidente de Amano Shintaro. Não queremos causar mais pânico ainda na escola. Espero que compreendam.
A sala realmente ficou silenciosa após os dizeres pro professor Hayatake, o que era o que eu mais desejava. Infelizmente, estava ciente que mesmo assim as pessoas falariam disto até o caso ser resolvido – o que não aconteceria tão cedo, se é que aconteceria.
Sem que qualquer aluno percebesse, acabei soltando um sorriso de canto que desapareceu em segundos. Talvez tenha sido apenas impulso.
O último período acabou sendo vago pois a professora de biologia estava doente e não pôde comparecer; o que significava que a sala havia voltado a ser o inferno de antes. A escola não proibia a saída de alunos no caso de período vago, logo, aproveitei a chance e retirei-me daquela sala infernal e fui para casa – era o único lugar que eu realmente sentia-me em paz. Isso não impediria as garotas e garotos, todos amigos de Shintaro, de ligarem para minha casa perguntando informações sobre o caso – mas isso não significava que eu iria atender.
No momento que botei a mão na maçaneta da porta, senti uma mão em meu ombro e ouvi uma voz familiar — não tão familiar quanto as dos meus colegas, significando que não era ninguém da escola.
— Hanako-chan? – A voz pertencia a de uma mulher bem mais velha que eu. Virei-me e era a tia de Shintaro. – Querida, sinto muito por abordá-la de forma tão súbita, mas gostaria de saber se você teve algum tipo de interação com Shin na noite do sequestro.
— Está tudo bem. Acredito que a última pessoa que Shin interagiu foi a garota que estava com ele, a Yoriko-chan – Respondi calmamente, usando as informações que eu lembrava.
— Yoriko-chan? Ela também está desaparecida, não? – Inquiriu, o que era verdade. Yoriko desapareceu com Shintaro.
— Shin me mandou uma mensagem antes do sequestro. Ele iria se encontrar com a Yoriko-chan. Foi a última vez que ele me mandou uma mensagem – Retruquei enquanto mostrava as mensagens diretamente do meu celular. – Espero que eles estejam bem...
— Entendo. Muito obrigada, Hanako-chan. Se souber de qualquer coisa, me avise! – A tia de Shin despediu-se enquanto andava mais uma vez pelo bairro, batendo de porta em porta com as esperanças de que algum vizinho soubesse do paradeiro de Shin.
Adentrei minha casa novamente e tranquei a porta; "Estou em casa!", avisei enquanto retirava meus sapatos. Sentia-me levemente preguiçosa, então deixei minha bolsa escolar ao lado dos meus sapatos e decidi ir até o porão, já que havia algo que eu precisava fazer lá em baixo.
O porão não era algo vazio, escuro e nojento, como se pertencesse à algum filme de terror; era um porão arrumado, na verdade. Poderia passar-se pelo meu quarto, já que havia cama, roupeiro e mais alguns objetos. Liguei a luz enquanto descia as escadas, e uma figura amarrada e amordaçada revelou-se.
Um garoto pálido e esguio de cabelos negros bagunçados, olhos esverdeados – que estava com algumas olheiras – encontrava-se deitado no chão e amarrado, junto com uma mordaça na sua boca para que não falasse. Aproximei-me lentamente de tal figura e agachei-me, olhando diretamente em seus olhos.
— Olá, Shin-chan – Passei minha mão por suas madeixas, afagando-o gentilmente. Sorri para Shin. – Hoje a escola estava tão chata, só falavam de você... As garotas sentem sua falta, sabia?
Shintaro não respondeu nada, e nem poderia devido a mordaça. Seus olhos estavam arregalados e estava prestes a chorar novamente. Fiz um biquinho, na esperança de parecer fofo. Voltei a sorrir enquanto afagava seu cabelo e olhava-o.
— Shin? Não tenha medo, Shin, sou eu, Hana-chan. Sua amiga de infância – Falei puerilmente para acalmá-lo, o que não funcionou. Fechei os olhos e suspirei fundo. – Você está com fome? Quer, talvez, macarronada? – Shintaro negou desesperadamente com a cabeça. – O que há de errado? Você sempre amou macarronada...
Levantei-me e dei tapas na minha saia, para limpar quaisquer resquícios de sujeira. Olhei para Shintaro por mais alguns minutos antes de ir para a cozinha.
— Sua tia veio aqui agora pouco – Murmurei, encarando suas órbitas esverdeadas. – Ela estava tão triste. Todos estão tristes, na verdade. O pessoal da escola... Mas, ei, eu acho que eles vão ficar bem mais chocados quando acharem o corpo da Yoriko-chan. Eu fiz um bom trabalho com ela, não acha, Shin?
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