Lovesick
2 Childhood
Notas iniciais

Acredito que o amor seja um dos sentimentos mais difíceis de se explicar – algo tão intenso e forte é complicado de se explicar com meras palavras. Nunca consegui explicar apropriadamente para Shin, e acredito que tenha sido por isso que ele não me olhou de outra forma durante esse tempo todo. Shin olhava-me com os olhos – eu olhava-o com o coração.
Conheci Shintaro Amano no dia 14 de Abril de 2006; um garotinho miúdo, pálido e frágil foi transferido para a escolinha Arai. Mal falava com outras pessoas e aparentava ser sensível, estando quase sempre com suas órbitas esverdeadas marejadas – como se estivesse sentindo falta de algo. Nunca fui uma criança extrovertida ou que tivesse muitos amigos, na verdade, passava a maior parte do meu tempo sozinha. As outras crianças praticamente pressionavam Shintaro a contar sobre seu passado, família e derivados – o que deixava-lhe claramente nervoso.
A professora Yui notou que Amano não aparentava estar bem e decidiu levá-lo para a enfermaria; a sala voltou ao normal e continuou quieta, ainda que com alguns sussurros sobre o garoto, e eu ainda estava um pouco preocupada em relação a ele. Naquele tempo, eu ainda não entendia o que eu estava sentindo, afinal, "preocupação" era algo que eu nunca havia sentido, portanto classifiquei como curiosidade. Pedi para ir para a enfermaria também, fingindo estar mal, e ela acreditou.
Kaya-san, a enfermeira, não estava presente na enfermaria, presumivelmente estava conversando com a diretora ou algo do gênero – não era relevante para mim, de qualquer forma. Shintaro estava encolhido na maca, escondido em baixo das cobertas, mesmo assim eu conseguia ouvir seu choro falhado. Nunca fui próxima de crianças, logo eu não soube como aproximar-me dele sem assustá-lo.
— Você... está bem? – Murmurei, ainda sentada na maca próxima a de Shintaro Amano. Seu choro parou por alguns segundos e, então, o silêncio permaneceu na sala, como se estivesse fingindo dormir. – Amano-san. Eu ouvi você chorando.
— Eu... sinto falta dos meus pais... – Admitiu entre soluços. – Minha tia... ela cuida de mim agora. Meus pais morreram em um acidente há alguns dias... Então vim pra cá – Ele realmente sentia falta dos seus pais, e era por isso que chorava tanto. Imaginei-me sem meus pais por alguns momentos, entretanto não senti nada; nem tristeza, nem saudade, nem melancolia.
— Você não gosta das outras crianças? – Inquiri e vi Shintaro virando-se para mim. Quietamente, assentiu com a cabeça e eu murmurei um "hum". Ele entendia-me. – Eu também não. Elas falam alto. Elas são irritantes. – Roboticamente, repetiu o mesmo movimento de antes.
— Você parece ser legal... Qual... Qual seu nome? – Shintaro ainda soluçava um pouco. Dentro de mim, algo estranho se formava; um sentimento bizarro que fazia meu coração sentir-se um pouco aquecido.
— Hanako Atsuko. Quando você estiver se sentindo melhor, podemos voltar para sala – Sugeri enquanto cruzava minhas pernas em cima da maca. Amano parecia um pouco mais calmo. – Ou podemos ficar aqui.
— Hana-chan... – Era a primeira vez que alguém havia dado-me um apelido. Sem notar, arregalei meus olhos e minha boca abriu-se levemente. – O que foi? Eu... falei algo errado?
— Não, Amano, está tudo bem – Retruquei, afinal, não queria que ele começasse a chorar de novo.
— Não me chame pelo sobrenome. Você parece séria. Parece a professora Yui – Escondeu-se um pouco em baixo das cobertas brancas. – Já que somos amigos, eu te dei um apelido. Escolha um para mim – Falou com uma voz levemente mais animada.
— Shinta... ro. Shintaro... Shin... ta... Shin? – Nossos dez anos de amizade tiveram muitos momentos difíceis, todavia, esse foi um dos mais difíceis; nunca tive amigos, por isso eu não sabia como dar apelidos. Mesmo sendo algo patético e simples, Shintaro sorriu, aprovando o apelido.
— Você está melhor, Hana-chan? – Shin perguntou.
— Eu estou bem. Pedi para a Yui me trazer aqui para que eu pudesse ficar com você – Também admiti. Shin sentou-se em sua maca e ficou me encarando; limpou suas lágrimas e abriu um sorriso.
— Obrigado, Hana-chan...! – Ele levantou da maca e sentou-se ao meu lado, em seguida ajoelhou-se e pediu para que eu sentasse encarando-o.
Inclinei a cabeça para o lado, um pouco confusa, entretanto concordei. Botei minhas mãos abaixo das minhas coxas, abraçando minhas pernas, e Shin pôs suas mãos em minhas madeixas de coloração rosa.
Meu cabelo era rosa e longo na época enquanto minha franja era presa para trás; meu cabelo sempre crescia rápido, não importava o quão curto eu cortasse, nos meses seguintes estaria longo de novo, logo eu prendia bastante minha franja para trás. Naquele dia, Shin mudou algo.
Retirou a presilha de minha franja, deixando-a cair sobre meu rosto e, então, prendeu-a para o lado direito e sorriu para mim. Fiquei um pouco curiosa. Havia um espelho na parede e Shintaro estava cobrindo-o, e saiu da minha frente para que eu pudesse me ver. "Você fica bem melhor assim, Hana-chan!" – O garoto falou enquanto sorria e, pela primeira vez, me senti bem comigo mesma.
Obrigada, Shintaro. Obrigada. Você me proporcionou tantos momentos bons – você fez eu descobrir que dentro de mim, há um oceano de sentimentos intensos que quando estou perto de você, não consigo reprimir; durante tanto tempo, estivemos grudados toda hora, de mãos dadas. Diziam que éramos inseparáveis, não? "Shin-chan, você pretende casar com a Hana-chan, não é?" – você vivia respondendo "sim", sem pensar duas vezes, e eu não fazia nada além de sorrir porque eu acreditava nas suas palavras.
Mas, por algum motivo, com o passar do tempo, você foi fazendo novas amigas, Shin-chan. No início eu tentei entender, "humanos não podem conviver sozinhos, Hana-chan, eles necessitam de contato físico" – era o que me diziam.
No meu tempo sozinha eu lia livros que deveriam ser complexos demais para minha idade, afinal, eu queria entender a tal necessidade humana de manter contato sempre. Shin-chan, eu nunca entendi os humanos muito bem; pelo menos não até eu te conhecer. Desde então, não consigo imaginar o que seria do mundo sem você.
Suas palavras sempre significaram muito para mim, Shin-chan. Você dizia que ia casar comigo... Então por que você insistia em ter outros amigos? Eles eram apenas pessoas irritantes e que falavam alto, o que você odiava! Nos entendíamos perfeitamente, Shintaro, fomos feitos um para o outro! Tínhamos gostos semelhantes, estávamos sempre juntos, de vez em quando falávamos a mesma coisa ao mesmo tempo... Não há como o nosso encontro ter sido apenas uma simples coincidência. Sou grata aos seus pais por terem te botado no mundo, Shin-chan, e sou extremamente grata pela morte deles também; caso contrário, nunca teríamos nos conhecido.
Você só precisava entender que esse é o único jeito! Não é certo você estar com essas garotas irritantes e que falam alto. Elas não se importam com você como eu me importo e nunca vão se sentir sobre você como eu me sinto, e mesmo assim... você ainda estava sempre sorrindo perto delas. Por que? Seu sorriso, tão precioso para mim, você estava mostrando para esses pedaços de merda insignificantes que não mereciam estar perto de você.
Todavia, ei, vamos nos acalmar. Está tudo bem agora, Shin-chan, está tudo bem. Eu pretendia confessar-me para você na quinta-feira, mas soube que você ia ter um encontro com a Yoriko-chan. É claro que tinha que ser a Yoriko-chan, não? Tão perfeita! Uma garota educada, inteligente, simpática, adorada por todos – não há como você não se apaixonar por ela, não é? É uma pena que vocês não tenham sido feitos um para o outro. Talvez na próxima vida...
É claro que não. Shintaro, você é meu e só meu. Nosso destino é estarmos juntos; você sabe disso muito bem, não é? Algumas circunstâncias trágicas ocorreram para que nos encontrássemos nessa vida, entretanto nos encontramos mesmo assim, e você vai ser meu para sempre. "Para sempre" é algo muito patético, na verdade, nossa vida é limitada e provavelmente não vamos viver tanto, mas na próxima vida você também vai ser meu. E na próxima, e na próxima, na próxima... É esse o meu significado de para sempre.
— Shin-chan, hora de comer! – Desci as escadas com dois pratos de macarronada em minhas mãos. Para falar a verdade, havia algum tempo desde que Shintaro comeu algo; o sequestro ocorreu há uns dois dias, aproximadamente, e passei um bom tempo cuidando do corpo precioso de Yoriko-chan, então não tive muito tempo sobrando. Sinto muito, Shin-chan!
Novamente, sentei em frente ao corpo esguio e firmemente amarrado de Shintaro Amano. Devo dizer que eu estava preparada para as consequências de meu "crime", afinal, eu havia trocado todos os vidros das janelas para vidros a prova de som, desse jeito não haveria problemas quando eu tirasse a mordaça da boca de Shin.
Todavia, era claro que o pobre garoto estava sem quaisquer forças para gritar. Carregava uma aparência cansada e que implorava por algo para comer – e mesmo assim, era o meu Shin-chan. Afaguei seu cabelo novamente e sorri enquanto usava a outra mão para retirar a mordaça de sua boca.
— Seja um bom garoto, tudo bem, Shin-chan? – Sorri para o menino que ainda aparentava estar com medo. Usei o hashi para pegar uma porção da macarronada que eu havia feito e botei suavemente na boca de Shintaro; apesar de estar numa situação que, normalmente, seria considerada "assustadora", aparentava estar um pouco feliz por causa da comida. – Está bom, não está? – Comi uma pequena porção também.
— Hana-chan... Por que você está fazendo isso? – Indagou após engolir a comida, e vi lágrimas saindo de seus olhos. – Você nunca me machucaria, então...
— Meu amor... – Passei minha mão pelo seu rosto macio, delicado e níveo; meu Shin era real, e tão perfeito... Era difícil convencer-me que ele era real, as vezes. – Eu não quero te perder. Eu te amo tanto e eu enlouqueceria completamente se te perdesse.
— Mas Hana-chan, você não me perdeu em dez anos... Por favor, me deixe ir – Começou a chorar. Isso lembrava-me o dia em que nós havíamos nos conhecido; ele chorava exatamente assim. – Hana.
— Shin-chan, você estava tentando estragar a ordem natural das coisas. – Meu dedo fez um passeio pelo seu rosto pálido e molhado, devido as lágrimas. – Você é meu e só meu. Alguém tenta te tirar de mim, eu... mato. Certo? – Puxei levemente seus lábios para que forçassem um sorriso. – Vamos, sorria! Vamos ficar juntos pela eternidade.
Amano estava prestes a responder algo, até que meu celular vibrou; uma mensagem havia sido recebida. Retirei meu celular do bolso do blazer e segurei em minha mão, deixando o prato de comida de lado. Uma das minhas colegas, Hitomi, tinha me mandando uma mensagem de áudio num aplicativo de conversas. Essa desgraçada interrompeu minha adorável conversa com Shin-chan....
Suavemente, abri minhas conversas com Hitomi e não eram nada além de "Atsuko-chan, quando é a prova de geometria?", "Atsuko-chan! Você tem a matéria de semana passada?" e derivados. Apertei para ouvir o áudio recebido, apesar de que a voz dela era uma das últimas coisas que eu gostaria de ouvir. Tão alto e irritante!
— Atsu... Atsuko! Meu Deus do céu...! – A voz de Hitomi estava totalmente falha, indicando que estava chorando. – Algo horrível aconteceu! O corpo... ou o que era pra ter restado... da Yoriko-chan foi encontrado! Está tão horrível, Atsuko-chan! Meu Deus. É tão cruel e desumano... Apenas um monstro seria capaz de fazer algo assim. O Shintaro não foi encontrado ainda, mas sabemos que a Yoriko está morta agora. Eu vou ter pesadelos com o que vi. Rezo pela segurança de Shin...!
— Hana... Você não fez isso... fez? – O silêncio no áudio de Hitomi, do qual ainda não havia terminado, foi atrapalhado pela voz de Shintaro, que aparentava estar mais apavorado do que antes. – Oh, meu Deus...
— Ouvi dizer que a Yoriko foi encontrada perto de você mora. Rezo pela sua segurança também. A polícia da cidade vai investigar o caso... Se cuide! – E o áudio finalmente acabou. Encarei Shintaro com uma certa calma.
— Eu gostaria de te dizer qual foi a sensação de dilacerar os órgãos de Yoriko-chan lentamente enquanto ela ainda estava viva – Comentei, deixando meu celular de lado e pegando o prato de comida novamente. – Mas é hora de comer agora. Abra a boca, Shin-chan!
Shintaro continuou chorando, ainda amarrado. Mesmo assim, talvez por medo que eu o machucasse, abriu a boca.
— Bom garoto.
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