Lovers on the sun
1 Bloody Mary em chamas
Angie estava andando pela calçada de seu bairro, em Detroit. Era cerca de onze horas da noite. Fazia esse trajeto todos os dias durante dois anos, voltando para casa de seu trabalho em um detestável escritório de advocacia.
Seus fones estavam pulsando em seus ouvidos uma música lenta, melódica. Pensou em mudar a estação e pegou seu celular no bolso de seu jeans. Mudou a estação para uma que estava tocando Jessie J. Gostava dela, então resolveu guardar seu celular novamente.
Continuou andando em um ritmo lento, despreocupado, distraído. A música ajudou ainda mais em sua distração, fazendo-a tropeçar nas pernas de um homem de terno que estava sentado na calçada, apoiado em uma vitrine de uma loja de roupas, loja que por sinal, ela nunca havia notado.
Retirou os fones e se abaixou, pedindo desculpas ao homem.
— Está tudo bem, eu acho – ele respondeu, com uma voz grossa, firme.
Ele levantou seu rosto, que estava sujo de uma poeira escura, como se tivesse acabado se sair de um prédio em chamas. Suas roupas estavam nas mesmas condições.
— O que você está fazendo aqui? Precisa de ajuda?
— Isso depende, está disposta a me ajudar?
— Se eu puder... – respondeu, gentilmente.
— Eu adoraria uma companhia até a minha casa, se não for incomodo.
— Aonde você mora? – perguntou. Devia estar se sentindo amedrontada, pois seu rosto não parecia muito confiável, e a sujeira não ajudava muito. Mas algo nele a atraia.
Sua imagem tremeluziu, como se ele fosse um holograma, ou ela estava apenas delirando, já que não dormia bem a dois dias. Ela se levantou, sem saber o que fazer. Fechou os olhos fortemente o os abriu instantes depois. Ele havia sumido, como se não houvesse ninguém ali e todo esse tempo ela estivesse falando sozinha.
Decidiu continuar seu caminho, estava quase chegando. Preciso dormir, pensou.
Continuou andando, aturdida. Seus passos estavam mais rápidos e firmes.
Chegou no prédio onde morava e pegou o elevador. Normalmente ia pelas escadas, mas não hoje. Estava cansada demais para isso. Apertou o botão do quinto andar e as portas se fecharam automaticamente. Se apoiou nos fundos do elevador, que estava vazio. As portas não demoraram a se abrir, revelando o corredor com 6 portas. Seguiu até a última, que era seu apartamento. Seguiu até seu quarto, tirou seus tênis e seu casaco e se lançou em sua cama, dormindo rapidamente.
Acordou assustada algumas horas depois, sem saber porque. Se sentou na cama e olhou para o fundo de seu quarto, que estava totalmente escuro. Notou uma silhueta idêntica à do homem que supostamente havia encontrado na rua antes. Ele irradiava um brilho vermelho fraco, sútil. Esfregou seus olhos e olhou para ele novamente. Havia sumido, mais uma vez.
Olhou para seu relógio, no criado-mudo. Eram exatamente duas horas da tarde. Levantou-se em um salto. Estava atrasada. Devia entrar as duas hoje. Tomou um banho rapidamente e se vestiu. Nem sequer se deu ao luxo de uma refeição decente. Pegou em pacote de salgadinho que estava no balcão da cozinha e desceu correndo pelas escadas.
Se perguntava como podia ter dormido tanto. Para ela pareceram apenas alguns minutos.
Ao chegar na calçada correu em direção ao prédio onde trabalhava, quatro quadras adiante.
Chegou no trabalho e olhou para seu chefe, ofegante. Ele lhe lançava um olhar de insatisfação, como fazia todos os dias. Ela se sentou em sua mesa, ao lado da porta e ligou o computador.
A partir de então o tempo passou muito lentamente entre um e-mail e outro. Seu telefone nem ousou tocar nesse dia. Ainda bem.
Estava chegando a hora dela sair para comer quando seu chefe a chamou. Ela seguiu lentamente até sua sala.
— Lamento Angelique, mas está demitida – disse, rapidamente.
— Mas, porque, eu... – sua voz falhou, estava chocada.
— Estamos passando por uma quebra no nosso orçamento e infelizmente temos que demitir alguns de nossos funcionários. Antes de ir, por favor aceite essa carta de recomendação, com ela poderá entrar facilmente em um outro escritório. Boa sorte e adeus.
— Adeus, e obrigada – disse.
Saiu furiosa do prédio e segui até sua lanchonete favorita, na outra quadra. Ao entrar na lanchonete sentou-se na mesa onde sempre sentava. A última mesa, ao lado da janela.
A garçonete chegou logo em seguida para anotar seu pedido.
— Eu quero um cheeseburger com o dobro de queijo, uma coca e um drink, o mais forte que você tiver, por favor.
A garçonete estava aparentemente de mau humor. Se retirou rapidamente da mesa.
Estava olhando fixamente para a porta, sem saber exatamente o porquê, quando o mesmo homem que andava atormentando sua mente entrou por ela. Vestindo o mesmo terno da noite anterior. Agora que ela olhou para seu rosto limpo, ficou surpresa com sua beleza. Era um homem alto, imponente e musculoso. Seus cabelos eram curtos e loiros, seus olhos eram grandes e verdes e tinha uma barba a fazer, que acentuava suas feições. Para sua surpresa ele foi até a sua mesa, tendo muitas outras vazias na lanchonete.
— Posso lhe fazer companhia? – disse ele, com a mesma voz que ele havia ouvido anteriormente.
— Fique à vontade – respondeu, surpresa.
Ele se sentou.
— Obrigado. Meu nome é Jake e ahn, eu sou um demônio.
— Direto ao ponto então – disse, sem saber ao certo como continuar a conversa – Meu nome é Angie e eu sou só uma pessoa, eu acho. Mas definitivamente não acredito nesse tipo de coisa então...
O pedido dela chegou, nas mãos de outra garçonete. Na bandeja havia uma Coca-Cola pequena, um drink Bloody Mary e seu sanduiche, que abocanhou ferozmente enquanto ele a observava.
— Eu deveria provar a você então? – disse ele, com um sorriso.
— O que? Vai me mostrar seus chifres? Seu rabo? – ela retornou seu sorriso e tomou um gole de sua bebida, deixando o drink de lado. Geralmente, alguém, qualquer um, acharia essa conversa um tanto quanto estranha e sem sentido aparente, mas não ela, não hoje, não depois de tudo o que já passou.
— Bom, isso eu não posso fazer aqui, na verdade, talvez mais tarde, em algum lugar mais privado.
— Acho que não. Mas, então, o que você vai fazer?
— Posso tacar fogo em seu drink.
— Isso é fácil, não conta.
— Sem as mãos – acrescentou, rapidamente.
— Boa sorte.
Ele pegou o seu drink e o colocou no centro da mesa. Colocou suas mãos enormes em cima da mesa, longe do copo, e estalou os dedos. Automaticamente o começou a pegar fogo. Uma expressão de surpresa tomou o rosto de Angie. O fogo se apagou antes que as pessoas notassem.
— O que você é? – disse, ainda surpresa – Um ilusionista ou algo do gênero?
— Quem me dera – respondeu – Sou um demônio, como eu disse.
— Você está realmente decidido a me provar que é um demônio, então?
— Definitivamente, embora eu não devesse estar fazendo isso.
— Demônio seguem regras então? – disse ela, em tom sarcástico.
— Apenas uma. Jamais se envolver com humanos a menos que seja a “trabalho” – ele disse trabalho como tivesse um enorme ódio por essa palavra e ao que ela se refere.
— Então, porque está quebrando ela?
— Sinceramente não sei. Nunca senti isso antes. É como se alguma coisa me puxasse direto pra você.
— Estou lisonjeada – disse, com um sorriso envergonhado. A esse ponto, qualquer pessoa teria desistido da conversa, se levantado e ido embora. Mas não ela, não hoje.
Ela terminou seu lanche e sua bebida em silêncio. Ele ainda a observava.
— Sobre o lugar mais privado ao qual se referiu – disse ela, com um interesse tão repentino que até ela se assustou – Tem alguma coisa em mente?
— Bom, minha casa está uma bagunça – disse ele – Que tal a sua?
— Por mim tudo bem.
Definitivamente, se a pessoa ainda não houvesse ido embora nas outras duas oportunidades, essa era a hora de sair correndo a chamar a polícia. Mas não ela, não hoje.
Ele se levantou e seguiu até a porta. Ela o seguiu, deixando uma nota de cinquenta dólares na mesa. Ao chegar perto dele, ele segurou a sua mão firmemente, surpreendendo ela mais uma vez. Ele era muito quente. Saíram do restaurante e ela o guiou até a sua casa.
Angela Maria Ramírez jamais faria tal coisa, levar um homem totalmente estranho que se intitula como um demônio a sua casa. Especialmente após ter supostamente visto esse homem algumas vezes. Mas algo nele a cativava, chamava sua atenção. Seu rosto transmitia confiança, sinceridade. Coisas as quais chamavam sua atenção em qualquer um.
E Angela, após ser demitida, estava tão desolada e desesperada em relação a sua faculdade de relações públicas que estava cursando que ainda havia mais dois meses de aulas, o que significa mais duas mensalidades, mensalidades essas que não tinha mais como pagar que decidiu que nada mais poderia dar errado. Além do mais, caso Jake decidisse fazer algo com ela, ela saberia muito bem se defender. Ser filha de professor de artes marciais tem seus privilégios, que são muito poucos.
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