Lovers - One-Shots
1 Francis e Lola –Never Too Late
Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=lL2ZwXj1tXM

“O mundo que nós conhecíamos não vai voltar, o tempo que nós perdemos não pode voltar, a vida que tínhamos não vai ser nossa outra vez. Esse mundo nunca será o que eu esperava. [...] Talvez daremos a volta por cima, porque não é tarde demais.” –Never Too Late (Three Days Grace).
—Eu descobri que, as únicas vezes que eu realmente senti-me seguro nesse castelo, confiante, despreocupado e tranquilo, como essa criança, foi quando eu estava com você.
Eu imaginei que ele diria isso. Por algum motivo, imaginei. E eu tinha medo que ele dissesse. Meus olhos praticamente imploravam, suplicavam para que ele não falasse, um pedido mudo, mas ainda assim ele dizia. Estava ali me tentando, algo que eu não poderia e não deveria ter. Meu coração doeu. Muito. Mas eu não podia. Nunca poderia. Mary era maior que isso tudo. Eu a amava e não poderia ferir ela, mais do que já tinha ferido antes com John. Ela era madrinha do meu filho e minha amiga. Estava acima disso.
Ele me olhava, esperando que eu dissesse algo. Eu sabia o que tinha que dizer. Minha garganta tinha um nó terrível. Eu a amava, ele a amava e eu não podia deixar que qualquer outra coisa interferisse nisso.
—Francis, não. –Minha voz não tremeu e eu desviei o olhar para o berço do meu filho. As palavras tinham que ser convincentes, ele não poderia de forma alguma pensar que eu sequer cogitara em instigá-lo a continuar com aquele pensamento. –Ainda amamos Mary. E quem sabe? Quando ela encontrar forças para amar novamente, você descobrirá que não está tão livre dela como pensa.
Porque era sempre assim. Ele nunca estaria livre dela porque a amava mais do que qualquer coisa no mundo. Eles se amavam mais do que qualquer coisa no mundo e sempre voltariam. Eu amava... Eu amava os dois. Não cabia a mim entrar nisso, não novamente.
Olhei para o berço do meu filho, logo após para Francis. Sorri sem mostrar os dentes e senti o peso no meu coração ficando maior e maior e maior. Agora eu lembrei novamente porque eu queria ficar longe da Corte. Um dos maiores motivos.
—Eu vou pegar algo pra ele comer. –Murmurei encontrando o primeiro motivo pra sair dali que surgiu em minha mente, qualquer coisa pra sair dali.
~X~
—Você está estranha. –Kenna murmurou pra mim enquanto eu suspirava. Não compartilharia aquilo com ela. Não compartilharia aquilo com ninguém. Estava me sentindo extremamente suja e horrível por alguns pensamentos de ultimamente. Mary não merecia alguém assim perto dela, que o Senhor me perdoasse por isso.
—Estou com saudades da Greer, só isso. Chegamos em cinco amigas. Agora somos três e isso me afeta um pouco.
Olhei o gramado extenso pelo qual andávamos e depois encarei o belo rosto do meu filho, passando o mindinho pelos seus traços levemente. Eu conseguia ver a semelhança comigo, mas também via a do pai. Inspirei lentamente e olhei para minha amiga que tinha engolido o que eu falei. O que também não era mentira. Todas nós tínhamos passado por muito.
—Olhe onde estamos Lola. –Ela estendeu os braços pra pegar John e eu a entreguei com cuidado enquanto os nossos passos eram dados pela grama. Suspirei e me sentei ali mesmo onde estávamos e ela, mesmo achando estranho, fez o mesmo sorrindo. O contato quase direto com a planta me fez sorrir junto.
—Ainda estamos na Corte. Você com problemas com o marido, eu sendo conhecida por “amante do rei”.
—Falando nisso... –A morena mordeu os lábios levemente e encarou o céu acima de nós, extremamente azul e com belas nuvens brancas como a neve. Era um belo dia. Um dia em que eu só queria paz e por isso fui passear por fora do castelo. O palácio, com suas belas tapeçarias, peças, louças e todo o resto, era opressor com suas intrigas, fofocas e espiões. –Francis e você estão andando muito juntos, não?
—A gente conversa, claro. Ele tem andado cada vez mais com John e eu geralmente estou com John, porque talvez sejamos pai e mãe dele. –O tom da frase saiu mais irônico e agressivo do que eu gostaria. Quase como defensivo e eu não poderia parecer que estava tentando me defender. –Desculpa. É só que é justamente isso que faz com que boatos que eu seja amante do rei se espalhem. E faz com que tenham medo de sequer se aproximar.
—Algum corajoso vai aparecer Lola, não se preocupe.
Eu não estava tão preocupada porque no fundo não queria que aparecesse. Porque eu queria somente uma pessoa e ela estava tão distante de mim como o céu e suas nuvens e eu nunca poderia alcançar.
~X~
—Lorde Narcisse?! Isso é realmente sério Lola? Pensei que tinha esquecido isso na época da chantagem. Ele é chantagista, sem escrúpulos. Lola!
Olhei pra Francis estupefata. Quando ele me chamou ao quarto dele fiquei com medo de algo ter acontecido, imaginei que ele tinha brigado com Mary, afinal, eu estava dando conselhos pra ele nessa área fazia algum tempo. Qual foi a minha surpresa (e grande) a encontrar aqueles olhos me olhando de forma acusadora. Pelo visto os boatos de que Narcisse tinha me recusado quando eu me ofereci de forma vergonhosa pelo efeito horroroso do vinho que tomei tinha varrido o castelo. E o príncipe não estava nada feliz com isso. Ele sabia que aquele gesto, vindo daquele Lorde em especial, não era qualquer coisa.
—Francis! Eu e ele não temos nada, mas e se...?
—E se? Você sequer cogita a possibilidade?! –Ele parecia extremamente ultrajado pela minha frase como se eu tivesse feito alguma heresia ou algo parecido.
—Ele provavelmente é a única pessoa que não tem medo de se aproximar de mim desse palácio do sexo masculino!
—Você merece coisa melhor! Meu filho merece coisa melhor!
—Você não vai deixar de ser pai de John caso eu me case novamente, independente de quem eu escolher para fazê-lo. A principal influência do nosso filho será você, pare de se preocupar!
O loiro deu três passos em minha direção e eu recuei um como forma de segurança, em menos de um segundo. Meus olhos se arregalaram quase que automaticamente e eu logo tentei fazer com que ele não visse minha reação, que ele não percebesse o que a proximidade fazia comigo:
—Não estou preocupado só com isso Lola. Não quero que se case. Não quero que se apaixone. Lorde Narcisse ou qualquer outra pessoa, não posso permitir que aconteça.
—Já lhe falei que nada afetará o nosso filh... –A frase saiu incompleta porque a mão dele foi para minha nuca e os lábios foram colocados sobre o meu. O susto fez com que eu os entreabrisse dando passagem para o rei se infiltrar ali. Era exatamente como eu me lembrava. Ele explorava o interior dos meus lábios de forma gulosa, desesperada, com uma anciã de quem está no deserto e toma um copo d’água. Não tinha como resistir, não na minha situação. Minha mão pequena, sem pensar, foi para sua nuca entrelaçando nos cabelos loiros enquanto eu retribuía o beijo sem sequer pensar no que estava fazendo.
Eu só fui me tocar quando o ar se fez falta e eu o empurrei com a mesma força que a realidade bateu no meu rosto. Não deveria ter feito aquilo. Ele não deveria fazer aquilo comigo, nem com a Mary e nem consigo mesmo. Porque sabíamos a verdade. A verdade é que ele procurava algo pra se distrair. Mas no fim, quando Mary se recuperasse, ele voltaria pra ela e Deus sabe como ficaria a nossa amizade. Não. Minha amiga não merecia aquilo, não valia á pena.
—Eu amo a minha amiga. Eu já a machuquei o suficiente. Eu já me machuquei o suficiente. –A voz saiu levemente embargada enquanto eu lutava mais uma vez contra aquele nó na garganta inconveniente. –Você não tem esse direito. Quando você ama muito uma mulher, você não pode e não deve brincar com outra.
Respirei fundo tentando retomar meu controle. Já tinha falado demais, mais do que deveria. Apesar de tudo, a amizade com Francis era muito importante pra mim e ele saber que eu nutria algum sentimento á mais por ele poderia colocar tudo á perder e eu não queria isso.
—Com a sua licença. –Fiz uma breve reverência e saí. Conforme ia andando pelos corredores sem nem direção certa, lágrimas escorriam pelos meus olhos, silenciosas. Apenas água salgada descendo sem minha permissão. O medo de eu esbarrar em alguém que perguntasse o que estava acontecendo fez com que eu corresse para o berçário. Enxuguei as lágrimas, ergui a postura e pisquei os olhos várias vezes pra espantar qualquer resquício de lágrimas. Busquei John e mais uma vez quase corri para o nosso quarto.
Entrei no quarto olhando para o meu filho e acariciei o seu rosto. Queria tanto que ele apenas pudesse ter pais que se amassem em algum lugar menos hostil. Uma mãe que não amasse o marido da melhor amiga.
—Sua madrinha é a melhor pessoa do mundo. –Contei á ele quando nos sentamos na poltrona ao lado do berço. –Ela é linda. Ela cuida de nós mesmo quando eu a feri muito. E ela te ama mesmo quando todos dizem que ela não deve o fazer. Ela me ama também e eu a amo. E é por isso que agora eu vou tentar ficar o mais distante possível do seu pai e espero que me perdoe por não ter pais próximos. –Beijei sua testa e sua mãozinha se ergueu e tocou minha testa bem no ponto onde estava franzida de preocupação. Entendi isso como se ele falasse para eu ficar despreocupada. E eu estava. Era simples. Simplesmente ficar longe. Com o tempo as coisas voltariam ao normal, quando Mary se recuperasse.
~X~
—Lola! –Mary apareceu e sentou-se ao meu lado com um sorriso lindo. Era exatamente aquele sorriso que fazia tudo valer a pena. Eu podia amar Francis, mas eu também amava minha amiga e faria qualquer coisa por aquele sorriso.
Ela sabia que sempre que podia eu ia até os jardins, sentar com o meu pequeno naquela mureta de pedra e ficar olhando o céu, cantando pra ele. Era um dos meus passatempos preferidos.
—Mary. –Sorri e ela estendeu os braços. Entendi e depositei o bebê no colo da madrinha que sorriu para a criança e acariciou seu rosto. John abriu um sorriso pra ela em recompensa.
—Lola, eu vim pra conversar com você.
Meu coração gelou. Olhei pra ela com toda a atenção que tinha, já pensando que algum espião tinha visto o beijo que Francis me deu e eu já estava preparando o discurso pra me explicar e dizer que eu ficaria longe do marido dela.
—O que houve?
—Francis me contou. Na verdade, eu deduzi. Quer dizer, eu o deixei livre pra tentar ser feliz com outra pessoa e ele me contou que tinha achado. Mas... Que as coisas nunca poderiam ser fáceis pra ele, nem nisso. Imaginei logo que fosse você, principalmente porque eu vejo como ele fica quando está ao seu lado. –A mão dela segurou a minha e um sorriso doce cruzou seus lábios. –Sei que está fazendo isso pela nossa amizade. Mas, Lola, eu não me importo mais. Quero que ele seja feliz e não vai acontecer ao meu lado. E se você o faz feliz e ele te faz feliz por que eu iria me opor á isso?
—Mary, não. Vocês dois são o casal. Você vai se recuperar, amiga. E então as coisas vão voltar ao normal. –Sorri gentilmente pra ela. Era óbvio que isso iria acontecer isso sempre acontecia. Eles eram o típico casal que conseguiria vencer qualquer tipo de dificuldade no final e qualquer um que entrasse no meio do caminho acabaria machucado. Bash, eu e quantos mais tentassem. Já tinha aprendido isso.
—Lola... Eu não vou me recuperar. Eu amo Condé. E... Eu vou para a Escócia. Com ele. E não pretendo voltar.
Senti minhas orbes se arregalando enquanto eu a olhava incrédula com a informação. O que? Ela iria pra onde? Sairia da Corte da França? Iria voltar pra casa? Não, não, não. Isso não estava certo, o que estava acontecendo afinal? Que história absurda aquela? Mary não podia nos deixar.
—O que?
—Eu não consigo mais viver aqui. Meu lugar é na Escócia. Lá é meu país e lá é o meu trono e devo lutar lá e por lá. E se eu for poderei viver livre, com o homem que realmente amo.
—Você realmente está pensando em fazer isso? Mary...
—Eu sei, é realmente surpreendente. Mas eu tomei essa decisão faz algum tempo e á cada dia que se passa estou mais certa de que é isso que eu quero e de que é isso que eu realmente preciso. Sabe, nunca estive tão segura de uma decisão e de como eu sei que isso vai me trazer felicidade e tirar todo e qualquer peso da minha consciência. Estarei lutando pelo meu país, estarei em casa e estarei com Condé. Não posso pensar em algo melhor.
Eu via a convicção em sua voz e a verdade em seus olhos. Ela estava realmente decidida á fazer isso e iria, não importava o que dissessem. E eu queria dizer mil coisas. Queria dizer que não conseguia visualizar minha vida sem ela naquele palácio, que ela era importante pra todos e que deixaria um vazio. E que o lugar dela era ali. Mesmo que me doesse, ela era esposa de Francis! Ou seja, ela era rainha da França.
—Francis sabe disso? –Ele não sabia. Com certeza, se soubesse, já teria a convencido de desistir dessa loucura.
—Contei pra ele. Claro que ele sabe que vai enfraquecer nosso casamento perante o mundo, ele viver aqui e eu lá. Mas também sabemos como calar esse povo. Vamos dar um jeito.
—Céus, Mary... –Meus olhos se encheram de lágrimas ameaçando despencar á qualquer momento. Então era certo? Não havia como apelar pra ninguém? A decisão estava tomada? –Chegamos em cinco garotas e agora vou perder mais uma. Você é minha melhor amiga. Não sei como vai ser esse palácio sem você por perto.
—Talvez eu volte pra visitar algumas vezes. Ver como estão vocês, ver meu afilhado crescendo. Mas não quero ir embora sem saber que todos vocês estão bem. Sei que Kenna e Bash vão se resolver nem que eu tenha que dar um jeito antes de ir. Mas sobre você e Francis... Lola dê uma chance ao loiro. –Seu sorriso agora era divertido. –E faça ele muito feliz. E deixe com que ele te faça também. Ele vai cuidar de vocês.
Eu não disse nada. Apenas abracei-a com força, com cuidado pelo meu filho em seu colo, claro. Não sabia como viveria sem ela naquele castelo. Ela nem tinha ido e eu já sentia saudades. Mas ela me deixava um presente. A decisão de aceitar era unicamente minha.
~X~
Deixei meu filho no berçário e peguei uma égua domada no estábulo do palácio. Eu gostava daquela em especial, seu nome era Defina. Sempre que eu queria sair pra cavalgar, eu a pegava. E como eu adorava fazer isso com frequência, me ajudava a pensar. E era o que mais precisava naquele momento então disparei para a floresta com ela. Eu aproveitaria pra colher as amoras que John gosta, unir o útil ao agradável.
Minha cabeça estava uma confusão que nunca tinha tido antes. Tinha tantos medos, tantas dúvidas. Mary tinha dado passagem livre pra mim o que eu nunca pensei que poderia acontecer, mas... Era tão incerto, tão inseguro. E depois de Colin e de Julien eu tinha que ter cuidado. Agir pela cabeça, não pelo coração.
Ouvi trotes atrás de mim e franzi a testa. Olhei de esguelha pra trás pra ver quem estava me seguindo e meu coração subiu á garganta quando vi certo rei loiro num alazão negro atrás de mim. Minha respiração acelerou mais do que deveria enquanto eu aumentava a velocidade de Defina para que conseguíssemos uma distância. Vi que Francis também aumentou a dele e logo estávamos lado á lado, por mais que eu tentasse passar a frente.
O loiro segurou a correia da minha égua me obrigando a parar enquanto ele também parava e descia do cavalo. Suas mãos alcançaram minha cintura pra me descer e assim que ele me pegou e me desceu, nossas respirações se misturaram e antes que meus pés chegassem ao chão os lábios já estavam um sobre o outro. Nem tentei resistir dessa vez e nem foi do mesmo jeito do outro. Foi um beijo doce, tranquilo, delicado. Sem pressa, explorávamos a boca um do outro como se fosse à primeira vez, tentando conhecer cada cantinho com doçura. Sua mão desceu para minha cintura, apertando-a levemente.
Não houve empurrão daquela vez para afastar. Foi um roçar de lábios que terminou o beijo enquanto ele colava nossas testas. As respirações se misturavam enquanto os olhares se perdiam um no outro:
—Eu quero muito tentar Lola. –As palavras soaram tão sinceras que tocaram no fundo do meu coração. –Quero que fique comigo, de verdade. Quero que o meu filho veja que tem uma família de verdade, quero poder te beijar assim quando quiser. Eu sei que está com medo porque nós dois viemos de desilusões. Mas já somos uma família. Viramos sem sequer percebermos e tudo o que eu quero no momento é que minha família fique ao meu lado.
Suspirei e acabei abrindo um sorriso. Ele tinha razão. Éramos uma família, querendo nós ou não. No começo não tínhamos uma escolha quanto á isso, simplesmente aconteceu e não havia como fugir. E garanto que eu tentei sair disso, tentei sair com todas as minhas forças. Tentei correr daquela realidade e por muito tempo minha indignação em não conseguir foi grande. Mas agora eu estava escolhendo aquela família. Estava escolhendo Francis.
—Eu escolho nossa família. –Sussurrei.
—Eu escolho nós dois. –Ele completou colando nossos lábios novamente.
Notas finais
Espero que tenham gostado.
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