Lovers - One-Shots

2 Bash e Kenna-Paradise


Notas iniciais
Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=1G4isv_Fylg

"Quando ela era apenas uma garota, ela tinha expectativas com o mundo. Mas isso voou além do seu alcance.” –Paradise (Coldplay)

—Não, eu queria que fosse seu!

Eu não acreditava nas palavras que saíam da boca dela. Tão falsa, tão cínica, tão dissimulada. Eu havia acreditado. Céus, eu havia acreditado que as coisas mudariam. Que as coisas dariam certo entre nós. Mas ela só estava me usando porque eu era sua última opção. Sua única opção naquele fatídico momento. Opção dela e daquela pobre criança que carregava.

—Pra salvar você da ruína! Salvá-la de ter o filho de um traidor. Um homem enforcado por tentar matar nosso rei.

Era isso. Se ele não fosse quem fosse, ela mandaria tudo que tivemos para o lixo. Se ele não estivesse morto provavelmente daria um jeito de implorar a Mary que tentasse a anulação do nosso casamento e iria com ele ter o filho que deveria ser nosso e a família que deveria ser nossa. Tudo isso por quê? Por causa da maldita ambição que ela carregava no seu ser, aquilo que a destruía e a tornava má por dentro. Aquilo que a fez jogar fora absolutamente tudo que tivemos como se não fosse nada.

—Bash, por favor, não me abandone. –Aquele era seu apelo de desespero. Sem mais argumentos ou discussões. Desespero. –Não posso ter esse bebê sem você.

—Se tivesse sido honesta, poderia até reconsiderar. –Porque ainda era meu casamento. Se ela tivesse me contado... Mas não. Ela mentira e me fez acreditar no que poderíamos ter sido. Ela fez questão de quebrar meu coração quando eu descobri a verdade. –Mas mentiu e tentou me enganar.

—Porque eu não vi outro jeito! –Desespero. Era apenas o que eu via. Desespero de alguém que não se importava por ter mentido para o marido. O que eu via ali era alguém que se importava apenas em salvar sua pele. –Por favor, assuma essa criança. Sabe como é nascer um bastardo. A vergonha e o desprezo.

—Pare de usar essa criança para salvar a si mesma! –Ela não se cansava de fazer isso? De usar as pessoas como coisas para conseguir o que queria? Céus, ela fazia isso o tempo todo. Com meu pai, comigo e agora até com o próprio filho. Estamos acabados.

Saí daquele quarto com a intenção de jamais vê-la novamente. Meu coração estava muito ferido. Novamente. Eu tinha essa mania terrível de me apaixonar pelas piores possíveis. Mary que era comprometida e que tinha todo o amor dela pelo meu irmão e Kenna. Kenna cuja ambição dominava seu ser e tinha quebrado absolutamente tudo que construímos com tanta dificuldade. Agora seria eu a pedir que Mary conseguisse uma anulação porque eu nunca mais seria destruído assim. Nunca mais.

~X~

Precisei de um tempo para conseguir colocar os pensamentos na minha cabeça de forma certa. E para reunir a coragem de ir atrás de Mary para pedir que apelasse junto a Igreja quanto à anulação do meu casamento. Não acreditava que seria muito difícil, afinal, a forma que ele foi feito não foi exatamente por livre e espontânea vontade. Na verdade, ela chorava enquanto meu pai nos obrigava a uma união improvável. Que de repente, depois de algum tempo, pareceu tão certo que eu nem me lembrava que começou assim. E agora, as lembranças hostis voltavam também.

A coragem demorou para me fazer levantar da cama do meu quarto. Porque a ideia de nunca mais ver aquele rosto, apesar de tudo, me apavorava. De alguma forma irracional, mexia comigo. Porque uma vez que fosse anulado, estaria feito e não havia como voltar atrás. Seria toda uma história, todo um esforço, cada sorriso, cada lágrima, cada sentimento, cada momento enterrado para sempre. E tomar uma decisão dessas, apesar de tudo, era complicado. Não era qualquer coisa.

Até que comecei a pensar nela nos braços de outro. Estando casada comigo. E isso nem era o pior, afinal, eu não tinha muita moral nesse quesito. O pior foi o momento que eu acreditei que poderíamos recomeçar. Que acreditei que meu casamento poderia voltar a ser construído e lembrar do quanto doeu quando Delphine citou a gravidez. Foi como ser esfaqueado. A mesma sensação. Quando aqueles olhos olharam para mim, apavorados, indicando culpa. Indicando que estava me usando. Afinal, esse fora o maior defeito dela sempre? A ambição dela a corrompia. Cobria todas suas qualidades. Ela sempre queria mais e mais e mais e era por isso que em algum momento eu deixei de ser bom o suficiente. Em algum momento ela queria mais do que eu.

Essa constatação me fez levantar da cama de casal. A nossa cama. O que tinha me levado a ir pra lá a acertar meus pensamentos ainda era um mistério. Um quarto aconchegante, demais para um bastardo, mas que tinha sido dado a mim e a minha esposa. Onde ela esteve em meus braços suspirando. Onde juras de amor foram trocadas e onde eu dia eu acreditei que achara o amor da minha vida. Onde Mary virou apenas uma amiga para que meu coração fosse entregado novamente a alguém, alguém que não hesitou em usar dele.

Aquele quarto definitivamente não me faria bem. Saí dele com passos decididos. Nada me pararia. Tinha acabado e a decisão não tinha sido minha. Tinha sido as mentiras e ambições dela. Ela tinha decidido que eu não era bom o suficiente. Eu só tinha sido levado por essa decisão e agora não dava mais. Estava acabado. E eu não deveria chorar por isso porque eu tinha sido a vítima daquela vez. A mentira tinha vindo pra mim. Eu tinha sido usado. Eu não deveria me sentir mal por isso.

Fui avisado que Mary estava na biblioteca. Melhor. Afinal, quase ninguém ia à biblioteca. Seria um local onde poderíamos ter privacidade. Porque ela provavelmente iria querer saber o que tinha acontecido perante a aquele pedido. E provavelmente tentaria me persuadir, de alguma forma. Mas até mesmo ela não poderia ter argumentos contra isso. Até mesmo ela teria que compreender. Teria que compreender que meu coração nesse momento tinha sido arrancado do peito e que tinha um buraco ali que doía de forma excruciante. Que ardia e queimava e eu não queria ter aquela sensação nunca mais em toda a minha vida. Porque aquela dor? Eu jamais tinha sentido uma igual antes e nunca mais queria sentir. Só queria que cicatrizasse.

Passeei pelas estantes repletas dos mais tipos de livros a procura da rainha da Escócia e França para que pudéssemos começar a planejar um fim quando ouvi soluços. Estaquei onde estava quando ouvi a voz que já conhecia tão bem e a voz que fazia queimar e doer mais, se é que isso era possível:

—Acabou Mary. Eu vi nos olhos dele. Acabou. Não posso voltar atrás. –A voz dela estava embargada, cheia de dor. E isso, por algum motivo irracional fez com que algo dentro de mim estremecesse a ponto de eu não poder sair do lugar. –E eu sabia que isso iria acontecer desde que aquela mulher entrou na vida dele. Eu sabia que ele me deixaria porque era assim que ele me olhava. Ele não sentia mais nada por mim Mary. Nada mais. Ele iria me deixar e era só questão de tempo. Foi por isso... –Um soluço a fez engasgar. –Por isso que eu precisei procurar outra pessoa. Porque eu seria alguém deixada em breve. Não era algo que eu queria Mary. Era algo que eu necessitava porque ele me deixaria.

—Como podia ter tanta certeza que ele te deixaria a ponto de dormir com outro Kenna? A ponto de engravidar de outro?

—Ele estava nos braços de outra Mary. E não havia nada que eu podia fazer. Ele ficava sempre fora de casa, longe de mim. Quando se ama, não se faz isso porque não se consegue fazer. A saudade te mata antes. A saudade me matava, mas não existia nele. Se não existia mais saudade da parte dele, não havia mais amor. Ele a colocou aqui dentro! Ele iria me deixar de um jeito ou de outro. Ele não fazia questão de mim. Nunca fez. Desde o começo, eu era o segundo plano. Ele iria me deixar. Eu estava desesperada, eu precisava garantir minha vida. Porque no momento em que pedisse a anulação do nosso casamento, eu seria alguém deixada pra sempre rondando por esses castelos sendo fadada a ver o homem que ama todos os dias com outra. Eu não podia deixar que isso acontecesse.

—Kenna, acalme-se! Mas ele aceitou você de volta depois, não aceitou?

—Não pensei que o faria. Eu estava desesperada e tentei apenas para ter a consciência limpa pelo meu filho e dizer que eu tentei e fiquei muito surpresa por ele querer um recomeço e céus... Por alguns momentos eu fui a mulher mais feliz do mundo. Por alguns momentos eu pensei que tudo daria certo e que eu poderia ter uma família, assim como sonhei quando cheguei aqui.

—Eu... Eu sinto muito Kenna. Não sei como deve estar se sentindo agora. De verdade, eu não sei.

—Dói muito. –A voz dela estava arrastada. –Eu o amo. Deus, eu o amo. Mas não sou o suficiente pelo visto. Eu errei ao mentir, mas eu tinha uma chance nas mãos. Eu tinha uma chance de estar com ele, como eu poderia arruinar tudo contando do bebê quando eu tinha a chance de uma família nas minhas mãos? Quando eu tinha a chance do meu sonho. Quando eu podia ter meu filho e o homem que eu amo? Eu tive medo. Eu tive muito medo. Então por favor, só me abrace.

Eu não conseguia mais ouvir nada. Eu não podia ouvir mais nada. Porque aquela dor que estava me consumindo por dentro apenas tinha aumentado e de repente minha garganta se fechava como a dela por conta de lágrimas que eu nem percebia que estava segurando. Porque ela conseguia parecer que o monstro ali era eu e não era. Deus, não era. Eu precisava fazer isso. Era uma questão de princípios. Só não era o melhor momento de pedir agora.

~X~

Ver o rosto dela em todo o momento nos meus pensamentos só sentia para me torturar. Momentos após momento palavras circundavam na minha cabeça enquanto eu rolava na cama onde supostamente eu deveria dormir .Porque minha cabeça não conseguia parar de criar momentos torturantes e ficar repetindo frases e frases na minha cabeça.

Ele não sentia mais nada por mim.

Eu sabia que ele me deixaria porque era assim que ele me olhava.

Não era algo que eu queria.

Ele estava nos braços de outra.

Quando se ama, não se faz isso.

Eu tive medo.

Eu o amo.

Não conseguia parar de pensar na mulher cheia de sonhos. Alguns cheios de grandeza, mas em sua maioria eram só sonhos. Kenna queria uma vida. Ela sonhava com uma vida. Queria viver e não somente sobreviver. E nem mesmo meu pai ou a Corte tinha conseguido sufocar aqueles sonhos. Mas pelo visto eu havia conseguido. Porque do jeito que ela falara, os sonhos tinham ido embora. Agora ela só buscava sobreviver. Assim como eu que com essa dor, estava sobrevivendo.

Não era justo. Ela tinha mentido. Ela tinha me usado. Ela tinha escondido a gravidez. Por que eu estava me sentindo tão culpado? Eu estava longe de casa por muito tempo e a deixava sozinha por muito tempo sim. Mas... Isso não significa que eu não sentia saudades. Eu sentia, o tempo todo. Sentia falta dela a todo o momento, tanto que quando chegava tudo que eu queria era vê-la. Era beijar ela e estar com ela a cada segundo que eu podia. Eu tinha demonstrado isso, não tinha? Tudo bem que eu não expressava isso em voz alta, mas não é possível que ela não soubesse. Ela tinha que saber. Porque era só nela que eu pensava a cada segundo que estava fora.

E em momento algum eu pensei em acabar com ela. O que era até estranho porque em um momento tínhamos traição mútua e mesmo assim eu não pensava em anular o casamento com ela. Nunca tinha pensado até o momento em que descobri que ela tinha mentido pra mim porque ela pisara nas minhas esperanças. Porque eu tinha certeza, por algumas horas, de que pertencíamos um ao outro. Mas... Ela não tinha dito pra Mary que ela também tinha essa certeza e por isso mentira?

Minha cabeça estava naquele nó gigante que eu não conseguia desbaratar de forma alguma quando a porta do meu quarto foi aberta de supetão. Lola estava ali, me encarando juntamente com Mary e Greer. As três me olhavam de olhos arregalados e tinham respiração arfante como se estivessem acabado de correr. Levantei-me de uma vez com aquela invasão de privacidade de repente.

—O que...?

—Ela vai embora! –Mary não me deixou terminar a frase. –Ela está indo em direção a uma carruagem agora mesmo! E ela não vai voltar Bash. Você vai mesmo a deixar fazer isso? Vai mesmo a deixar ir?

Demorou alguns segundos para milhões de pensamentos diversos correrem pela minha cabeça. Quando Mary falou que ela estava indo embora eu não consegui entender. Como assim ela iria embora? Para onde ela iria? Não era o palácio a casa dela, por acaso? E então eu entendi que ela iria embora e não importava para onde. Minha garota cheia de sonhos estava indo embora com um filho na barriga pra sempre. Pra sempre. No momento em que ela entrasse naquela carruagem estaria acabado. Nunca mais a veria e eu teria acabado com tudo. Ela estaria sozinha. Estaria sozinha porque eu não consegui admitir que a nossa relação havia sido destruída não só por ela. Eu também tinha causei aquilo, causei aquilo porque não quis ceder em nada. Causei porque a deixei sozinha sem nunca ter demonstrado que não queria. Causei porque fui eu quem traiu primeiro, movido por um ciúme quase doentio. Causei porque eu também não quis ceder. Eu também tinha ajudado a destruir o que tínhamos. Mas se não fizesse nada, perderia ela pra sempre. E no último segundo percebi que aquela queima no coração era porque não suportaria estar longe dela.

Pulei da cama de uma vez correndo pela porta. Consegui ouvir a animação das meninas que respiravam aliviadas e agradeceria a elas depois. Depois porque naquele momento eu corria pelos corredores do castelo como se a minha vida dependesse disso e dependia. Eu precisava chegar ao corredor ao tempo. Precisava conseguir. Precisava chegar. Precisava impedir que fosse embora. Precisava pedir pra que ficasse. Implorar se necessário. E se aquela carruagem já tivesse ido, eu encontraria outra para encontrá-la.

Quando finalmente senti o ar bater contra o meu rosto indicando que estava próximo vi que a carruagem em que ela subia. Vi também a hesitação e as lágrimas que escorriam como cascata pelo belo rosto. Vi o medo de entrar ali. Vi que suas mãos tremiam. E aí eu corri mais. Porque se dependesse de mim, não veria aquelas lágrimas nunca mais.

—Kenna! –Consegui falar arfando. Minha respiração estava acelerada pelo quanto corri naquela quantidade de tempo, mas estava perto da carruagem que ela já estava dentro. E isso era o suficiente porque a morena ainda estava ali. Ela não tinha ido. E por isso eu teria corrido muito mais.

Seus olhos brilhando pelas lágrimas olharam para os meus, confusos. Piscaram duas vezes seguidas quando minhas mãos alcançaram sua cintura e a ergueram da carruagem a colocando no chão perto de mim. Por alguns segundos eu apenas a olhei, pequena em relação a mim, com o rosto que pra mim era o mais bonito do mundo. Nada se comparava a aqueles olhos. Olhos que me olhavam sem compreender o que estava havendo. Mas é que eu precisava por alguns segundos apenas olhar pra ela e tocar seu rosto pra ter certeza de que estava realmente ali e que não era tarde demais.

—Não entre aí. –Colei minha testa na dela fechando os olhos sentindo seu cheiro e sua respiração no meu rosto. –Nós temos um filho crescendo aí dentro e um casamento e você não vai deixar tudo isso pra trás porque não posso existir num mundo em que você não exista.

Os olhos caramelo foram arregalados enquanto ela parecia absorver as palavras. Não suportei ver aquilo por mais tempo então apenas pressionei meus lábios contra os dela. Suas mãos correram automaticamente para os meus cabelos enquanto retribuía o beijo. Minhas mãos que ainda estavam na sua cintura a tiraram do ar e a giraram enquanto ela me olhava com um sorriso de quem ainda não tinha compreendido exatamente o que estava acontecendo, mas tinha gostado:

—Bash...

—Vamos reviver seus sonhos, Kenna.

Notas finais
Quando eles se casaram eu estava cética sobre o casal. Eu nunca tinha pensado neles juntos e sinceramente, fiquei chocada e não gostei no casamento. Meu ceticismo foi ao chão logo nas primeiras cenas deles como um casal. Esse casal me apaixonou, do fundo do meu coração. Nunca pensei que aconteceria, mas paguei língua e não aceito o fim. Apenas, não aceito o fim.