Lovely Desire
1 Memories
Notas iniciais
– Hum... Não... Pára...
– Vá lá, Sakura... Vai ser bom, prometo... Vais gostar...
Tentava não o empurrar enquanto as suas mãos vagueavam nas minhas pernas, chegando-me mais para si ao ponto de conseguir sentir-lhe todo o corpo sobre o meu. O meu coração reagia, apertado, praticamente a implorar ao meu cérebro que enviasse uma mensagem rápida aos meus músculos para que se mexessem. O meu corpo rejeitava o toque dele, dizia que já chegava, que era o suficiente para uma tarde só. Há horas que ele não me largava.
– Não, Gaara, por favor...
Fiz pressão com o tronco para me soltar. Tentava que ele largasse os meus braços, os quais fazia força para que continuassem presos na mesa enquanto me punha a mão por dentro da saia para me tocar. Da minha boca, saíam gemidos baixos, assustados. O pedido mais desesperado de alguém que está a ser obrigado a fazer algo que não deseja.
Eu e o Gaara namorávamos há cerca de 3 anos. Desde que o conhecera que sempre o achara um rapaz bastante simpático e, apesar de ele ter fama de ser bastante mulherengo na escola para a qual eu havia sido transferida quando me mudara, fora com toda a alegria e entusiasmo que eu aceitara sair com ele no primeiro dia em que ele me havia convidado para tal. Não demorara muito tempo a descobrir que estava apaixonada por ele. Dessa descoberta ao seu pedido de namoro foi um passo e é claro que eu, super feliz, aceitei.
De uma forma geral, ele era bastante querido comigo. Costumava vir buscar-me a casa para irmos juntos para a escola e ficava muitas vezes até tarde à minha espera quando eu tinha aulas suplementares. Dava-me presentes caros e eu ficava maravilhada cada vez que passavamos por algum dos amigos dele e ele me apresentava como sendo a sua “namorada”, coisa que costumava fazer as raparigas mais velhas encherem-se de inveja. Os primeiros meses com ele foram, de facto, os melhores da minha vida e eu não me arrependia minimamente de todo o tempo que havíamos passado juntos como casal.
Até ao dia em que o conheci.
Também ele era um aluno novo e tinha por hábito não dirigir a palavra a ninguém, apesar dos muitos esforços dos meus colegas por tentar saber mais sobre a sua pessoa. Era extremamente inteligente, roubava bastantes olhares às raparigas da escola devido ao seu jeito misterioso e escultural e era, de longe, muito mais dedicado às coisas do que a maioria dos rapazes que eu conhecia.
Ficámos amigos logo num dos primeiros dias dele após juntar-se à minha turma. A Ino – a minha companheira de carteira na maioria das aulas – tinha passado uma temporada doente e, como a Kurenai-Sensei já estava meio enjoada das vezes em que ela passava mais tempo a conversar com a Tenten que estava na carteira ao lado da nossa do que a estudar as matérias que ela nos dava, resolveu aproveitar a deixa para encaminhar o Sasuke para o meu lado.
Ele era muito simpático. Tinha um sorriso bonito e gostava de música. Tocava guitarra e gostava de escrever quando estava sozinho.Estávamosno segundo dia de aulas daquele mês de Novembro quando ele veio ter comigo e me pediu que lesse um dos poemas que tinha acabado de escrever. O Sasuke tinha imenso jeito com as palavras, sabia juntá-las de uma forma bela, clara e simples, de forma a que qualquer pessoa conseguisse percebê-las facilmente. Apesar de muito calado, foi fácil que nos aproximássemos, uma vez que ele era muito bom ouvinte e sabia aconselhar-me quando eu mais precisava de alguém que me desse a mão por me sentir triste ou confusa. Aos poucos,torná-mo-nos os melhores amigos, inseparáveis e mais dependentes um do outro do que talvez devêssemos ser. Mas eu sentia-me bem com isso. Ele fazia-me bem. Conseguia devolver-me todos os sorrisos que o Gaara mandava embora, quando tinha os seus acessos de ciúmes.
O Gaara e o Sasuke nunca se suportaram muito bem. Por alguma razão que eu não percebia bem qual era, o meu namorado nunca fora muito com a cara do aluno novato da minha turma, talvez porque ele lhe fizesse frente quando nós os dois nos zangávamos para me proteger, ou porque lhe roubasse a atenção que era habitual que as raparigas da escola lhe dessem. Já as razões do Sasuke... Essas eu conhecia-as perfeitamente bem.
Tinha passado um ano e dois meses desde que tínhamos começado a namorar. O Inverno tinha acabado de chegar e eu tinha apanhado uma pneumonia grave, que me impedia de sair de casa e mesmo da cama por risco de poder piorar a minha saúde. Tinha muitas vezes faltas de ar e era raro o momento em que não sofresse de febres altas e uma tosse bastante agravada. Estava há quatro dias de repouso quando o Gaara me ligou. Tinha-se apercebido das minhas ausências e queria apenas comunicar-me que iria estar fora do país nas duas semanas seguintes porque ia com o pai ver de uns prédios para expandir por causa de um dos negócios quaisquer dele. Depois de ele desligar o telefonema, recordo-me bem do quanto chorei. E ele era o único que, fora os meus pais e a Ino, estava lá para secar as minhas lágrimas com as suas palavras doces e os seus carinhos. Ele fora o único que cuidara de mim, sem nunca sair do meu lado.
Quando o Gaara voltou, decorridas as duas semanas de que falara, viera ter à minha casa com um ramo de flores enorme e a pedir-me desculpas porque não sabia que eu tinha estado assim tão gravemente doente. Dizia que a Ino lhe tinha contado e que na escola não se falara de outra coisa senão sobre a nossa “muito para breve” separação quando ele voltasse. Ajoelhou-se à minha frente pedindo perdão milhões de vezes até que eu o ouvisse, acabando de vez com a minha resolução acerca de terminar tudo o que tínhamos quando me pediu para me levar a conhecer os pais dele. Porque esse era o meu maior sonho. Que ele me amasse para sempre. E consegui-lo era tudo o que eu mais queria. Mas aquele gesto dava-me garantias. O Sasuke estava na minha casa e, apesar dos seus esforços por manter o Gaara afastado da porta do meu quarto, eu tinha deixado que o ruivo falasse comigo acerca dos seus sentimentos. Que se desculpasse por todo o mal que me tinha feito. E resolvi dar-lhe uma segunda oportunidade. O meu melhor amigo ficou destroçado.
Não demorou muito a oficializarmos completamente as coisas. Eu já conhecia os pais do Gaara e ficara super feliz porque até mesmo o pai dele parecera simpatizar bastante comigo. Estava a viver de novo o meu conto de fadas. Como qualquer princesa como aquelas que eu sempre me imaginara ser. Era a rapariga mais invejada da escola, as minhas colegas tinham inveja do meu namoro perfeito e costumavam cochichar e suspirar de desilusão quando atravessávamos o corredor juntos, de mãos dadas. Tínhamos tudo para sermos felizes, éramos apaixonados um pelo outro. Mas apenas o amor não era algo que fosse suficiente para um rapaz como o Gaara. Ele queria mais. Ele queria algo que eu nunca fora capaz de lhe dar.
A primeira tentativa dele ocorreu no meu 15º aniversário. Lembro-me que o grupo de amigos dele me preparara uma festa surpresa na sua casa. Os seus pais estavam fora e ele queria aproveitar para passarmos um pouco mais de tempo juntos. Ligara aos meus pais para pedir-lhes que eu dormisse na casa dele, alegando que estariam lá bastantes colegas nossos, além dos empregados que eram mais de dez. O meu pai acabara por deixar com bastante relutância e graças a um pequeno empurrão da minha mãe, após eu pedir-lhe para que me ajudasse. A festa até correra bem, tirando algumas confusões entre os amigos dele. Durante aquelas horas, assistira a imensos rapazes a vomitar completamente caídos de bêbados e mesmo alguns casais a comerem-se no meio da sala de estar, ali, à vista de toda a gente. Deixara de prestar atenção a tudo aquilo quando o Gaara me puxou pela mão para me levar com ele, subindo as escadas. Quando entrámos no quarto, tentou tocar-me, tirar-me a blusa. Eu pedi-lhe para parar e empurrei-o de cima de mim mal ele me pressionou com o seu corpo na cama. Lembro-me do quanto ele gritou comigo. E lembro-me do quanto chorei, noite adentro.
A segunda deu-se um mês depois. Tínhamos acabado de sair de um jantar com a família dele e ele oferecera-se para me trazer a casa no carro novo que o pai lhe havia oferecido. Quando o vi mudar de direcção na estrada, notei que ele preparava alguma coisa mas não lhe pedi para parar. Eu confiava nele, apesar de tudo. Percebi-o a travar o carro no meio de um bosque, debaixo de umas árvores enormes e com aspecto de ser bastante antigas que davam ao cenário uma aparência ainda mais assustadora àquela hora da noite. As suas mãos subiramdirectasa um dos meus seios enquanto a sua boca procurava o meu pescoço, mordendo-o ao de leve de vez em quando. Ele dizia que eu sabia bem naquele local. Que queria perceber se o meu corpo também tinha o mesmo gosto. Ainda tolerei os beijos dele mas quando o vi desapertar as calças, implorei-lhe que parasse. Ele recuou, furioso. Era a segunda vez que eu lhe dava uma nega daquele tipo. Ficara tão furioso comigo que nunca mais tentara tocar-me daquela forma. Nunca mais até àquela noite.
– Eu... Eu não estou preparada, Gaara, por favor...
– Porque é que não te cansas de usar sempre a mesma merda da mesma desculpa?!
Tremi nos seus braços quando a voz dele subiu de tom, assustada. Já tínhamos discutido algumas vezes e sempre que ele me agarrava nos braços assim, espremendo-os entre as suas mãos com toda a força, eu só me perguntava porque raio não poderia ele voltar a ser o Gaara que eu, um dia, tinha conhecido. Os seus olhos encaravam-me frios, quase mortificados, insanos.
– Fodasse! És uma mulher ou uma criança? Diz-me! Queres ser uma criança mimada a vida inteira, é isso? – Afundou mais os dedos nos meus pulsos, fazendo-os quase quebrarem-se com a pressão que lhes tecia. – Responde! É isso que queres?!
Largou-me bruscamente, fazendo-me cair no chão e embater contra a parede do quarto. As lágrimas caíam-me pela cara e os soluços faziam-se ouvir, quase num sussurro. O meu coração doía. Doía mais do que o próprio empurrão que ele me havia dado.
– Chora então! Faz o que quiseres. – Vi-o pegar no casaco e compor a camisa e as calças, olhando-me sempre da mesma forma severa. – Só não te queixes se um dia eu te espetar com um par de cornos. É o que mereces mesmo, sua cabra.
A parede estremeceu quando ele bateu com a porta à bruta. Ouvia-o descer as escadas, saindo depois sem dizer nada apesar dos esforços da minha mãe em perceber o que raio estaria a passar-se. Ouvi depois os passos dela na direcção do meu quarto, subindo o andar. Bateu à porta e, sem sequer esperar que eu respondesse, limitou-se a entrar, ficando a olhar-me por segundos antes de correr na minha direcção para abraçar-me. Ela também sabia que eu já não era feliz. Também já tinha percebido o quão falso era o meu sorriso naqueles últimos meses. Eu queria contar-lhe, queria dizer-lhe tudo, ser verdadeira com ela mas... Não podia fazê-lo. Não podia sacrificar tudo o que tinha conseguido para ela e para o meu pai até ali.
Por isso, só me restava continuar a fingir que era feliz.
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