Loveless

6 Capítulo 6 - ♫ Paranoid Doll ♪


"Não entendendo o que eu mesmo estou me tornando
Amarrado ao passado, eu repito a mim mesmo
Percebendo que foi culpa do tempo, eu digo: 'Me dê aquela fruta'
Não sendo capaz de alcançar aquela coisa desejada
As feridas nunca desaparecem, apenas aumentam
Eu percebi isso agora, deixando pra trás esse mundo desconhecido
Eu sou paranoico"

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Em uma manhã ensolarada, na mansão do Duque de Pourpre, mais precisamente no quarto de Gakupo, o mesmo se preparava ir até o tabelião verificar se ele já tinha tido algum progresso no processo de cancelamento de seu noivado com Luka. Como ainda era bem cedo, ele iria antes de tomar café da manhã, então uma das empregadas pediu para que Len levasse alguma coisa para ele comer antes de sair. Gakupo estava realmente com pressa e não quis a comida, mas ordenou que o garoto ficasse e o ajudasse a se aprontar.


— Lamento ter pedido isso à você, mas realmente não há muitos empregados homens nessa casa, e não seria uma boa idéia pedir à uma das empregadas... eu me esqueci completamente da diferença de alturas... — Gakupo dizia enquanto se sentava na cadeira mais próxima para que Len pudesse alcançar seu pescoço e ajudá-lo com a gravata
— Está tudo bem, Mestre Gakupo — o loiro respondeu com o rosto inexpressivo de sempre, enquanto tentava se lembrar de como se amarrava uma gravata. Ele havia passado tantos anos usando vestidos que às vezes se esquecia dessas coisas — Desculpe não ser alto o suficiente para alcançar o senhor...
— Ei, não se preocupe com isso, não tem como se controlar essas coisas! — Gakupo deu de ombros — Mas, deixando isso de lado, você consegue mesmo?? Está fazendo isso já tem algum tempo...
— Sim... deixa eu só... pronto, terminei — Len enfim descobriu como terminar o nó, e se afastou alguns passos para admirar seu trabalho
— É, não ficou nada mal... — o mais alto comentou, olhando-se no enorme espelho que ocupava metade de uma das paredes do quarto
— Desculpe ter demorado tanto... é que passei tanto tempo usando vestidos que às vezes me esqueço como se veste essas coisas — o mais novo falou
— Ah... sim, é verdade — só então Gakupo pareceu se lembrar desse fato, arrependendo-se imediatamente de ter pedido aquilo para ele — Bem, tem uma última coisa.... pode me ajudar com meu cabelo?
— É claro... — o loiro assentiu imediatamente, embora não tivesse entendido exatamente o que ele deveria fazer. Felizmente, Gakupo pareceu ter percebido isso e lhe deu instruções
— Sabe o que é um rabo de cavalo?
— Ahn... o senhor quer dizer... que nem quando a gente junta o cabelo todo e amarra?
— Exatamente. Pode fazer pra mim? — Gakupo pediu, voltando a se sentar para que Len fizesse o penteado
— Se o senhor deseja... — o mais novo circundou a cadeira, pegou a escova de cabelos que o maior lhe oferecia, e começou a desembaraçar as mechas de cabelos, para então juntá-las e prendê-las.


Depois de alguns minutos desembaraçando as madeixas arroxeadas, o garoto começou a juntá-las no alto da cabeça, tomando cuidado para que não ficasse torto. De vez em quando relava o dedo na nuca ou no pescoço do mais alto enquanto fazia isso, causando-lhe cócegas, e também um estranho formigamento, a partir do ponto onde ele encostava. e que parecia se espalhar pelo corpo todo. Em uma dessas ocasiões, assim que tinha acabado de prender o rabo de cavalo, ele deslizou os dedos do pescoço para os ombros de seu Mestre e, ainda que involuntariamente, Gakupo acidentalmente deixou escapar um ruído estranho pela boca. Ele arregalou os olhos, chocado consigo mesmo, e cobriu os lábios com as mãos, mas já era tarde demais, aquele som já tinha escapado e Len certamente tinha ouvido. Ele contornou o homem até parar de frente para ele, olhando-o com leve curiosidade, e perguntou:


— Esse barulho... foi um gemido?
— O que?! C-C-Como você sabe o n-nome disso?! — por um instante Gakupo esqueceu-se de se auto-repreender, de tão surpreso que ficou por ele saber o que aquilo significava. Aquele garoto tinha apenas 14 anos, não era?! Como ele podia já saber dessas coisas??
— "Como"? — Len repetiu — Bem... acabei aprendendo sobre isso muitos anos atrás... na época em que fui viver na mansão do Conde Kaito. O senhor não está me pedindo pra contar exatamente "como" eu aprendi sobre isso, não é? — ele perguntou incerto, uma pequena parte dele pedindo para que a resposta fosse "não"
— Ah... é claro... — Gakupo passou a mão pelos cabelos recém-penteados. Tinha ficado tão abalado por Len tê-lo escutado produzindo esse tipo de som que por um momento se esqueceu sobre o passado dele — Desculpe, eu esqueci que você... não, claro que não precisa me contar
— Por que o senhor fez aquele som? — o loiro perguntou, não parecendo se abalar nem um pouco com aquilo — Eu ouvi que as pessoas só fazem esse tipo de ruído quando estão excit...
— Não fale essas coisas tão facilmente, pelo amor de Deus! — Gakupo tampou a boca do mais novo com as mãos antes que ele terminasse a frase, sentindo o rosto queimar. Pôde perceber o quando os lábios dele eram macios ao fazer isso, mas tentou ignorar esse fato
— Mas... eu não entendo — o mais novo afastou a mão dele de sua boca, insistindo no assunto — Se o senhor fez aquele barulho, não é por que está... — ele fez uma pausa, lembrando que a palavra que usou anteriormente tinha deixado Gakupo perturbado, então tentou pensar em outra para substituí-la — Ahn... acalorado?
— Eu não... acalorado?! — o mais velho repetiu confuso
— Desculpe, não conheço nenhuma palavra melhor pra isso
— Aff... tudo bem — ele suspirou derrotado — Primeiro, eu sei que você passou por coisas difíceis no passado, mas saiba que não se fala desses assuntos assim tão facilmente, como se não fosse nada de mais. Você tem apenas 14 anos, não deveria nem saber dessas coisas ainda
— Certo... como quiser, Mestre — Len baixou os olhos, encarando o chão
— Ei — Gakupo chamou — Por que tenho a impressão de que você parece desapontado com alguma coisa, hein?? O que foi que aconteceu dessa vez?
— É que... quando servia ao meu antigo Mestre, ele me... o-obrigava a fazer aquelas coisas... todos os dias, o tempo todo. Eu acabei aprendendo muita coisa que não devia por causa disso — o loiro contou — Quando o senhor me comprou naquele leilão, eu pensei que seria para a mesma finalidade, mas... o senhor nunca nem sequer me tocou, nem uma única vez. E eu fico pensando porque o senhor nunca fez isso, mas... não importa o quanto eu pense, não consigo encontrar a resposta.


Gakupo piscou várias vezes, incrédulo. Sentia várias coisas nesse momento. Estava indignado por Len ter pensado essas coisas sobre ele, pasmo com o rumo que os pensamentos do loirinho tinham tomado, embaraçado com o que o garoto tinha falado, e alguma outra coisa que ele não sabia definir o que era.


— Ora... falando, assim parece até que você quer que eu faça essas coisas com você — ele respondeu por fim
— Ah... e-eu não quis dizer... n-não foi isso que eu q-quis dizer! — Len exclamou, percebendo tardiamente a conotação de suas palavras, e Gakupo se surpreendeu por ele ter alteado a voz — I-Isto é... o q-que eu quero dizer é que... b-bem, é que, como o Conde Kaito me adquiriu para essa finalidade, eu achei que eu só servia pra isso... que essa era minha única utilidade. Mas, o senhor me mandou fazer as tarefas da casa, e convenhamos que nem isso eu consigo fazer direito... sou devagar e desastrado, e já quebrei várias coisas, mas ainda assim o senhor insiste em me dar tarefas domésticas, e... não parece estar interessado em meu corpo. Por isso eu pensei... que era inútil pro senhor
— O que... você estava pensando isso esse tempo todo?! — Gakupo deu um tapa na própria testa, e suspirou derrotado outra vez. Ele achava que finalmente tinha entendido a linha de raciocínio de Len, mas o garoto conseguiu surpreendê-lo de novo. Era impossível prever o que se passava pela cabeça que alguém que foi torturado e abusado durante tantos anos afinal — Escute aqui, Len: Você não é um inútil. Mesmo que seja desajeitado, com certeza deve ter alguma coisa que só você sabe fazer, e não é aquilo que o Conde te obrigava a fazer. Sei que você passou por coisas horríveis nas mãos dele, e tem todos os motivos do mundo pra ter perdido a fé na humanidade, ou o que seja... mas, só porque você deu o azar de cair nas mãos de uma pessoa ruim, não significa que todas as pessoas são cruéis e sem escrúpulos como o Conde. Eu não sou o Conde Kaito, eu sou o Duque de Pourpre, Kamui Gakupo, seu atual Mestre. E quero que você pare de ficar me comparando com aquele homem, porque eu não tenho intenção nenhuma de fazer com você as mesmas coisas horríveis que ele fez, você entendeu?
— Sim... como o senhor quiser, Mestre Gakupo — o mais novo assentiu, voltando enfim a encará-lo nos olhos
— Ótimo... bom garoto — ele afagou os cabelos de Len, bagunçando-os — Agora eu preciso ir, porque já estou mais do que atrasado! — ele se colocou de pé num salto — Estarei de volta na hora do almoço, até logo.


Já na carruagem, a caminho do tabelião, Gakupo não pôde evitar de pensar nas palavras de seu novo mordomo. Len pensava que ele o tinha comprado com o mesmo objetivo que Kaito. Ele esperava que Gakupo fizesse com ele as mesmas coisas que o Conde de Bleu havia feito. E o fato de Gakupo não ter feito nada disso, frustrando suas previsões, era quase como se o deixasse... desapontado. Por um momento fugaz, o Duque realmente chegou a pensar que era isso que Len queria que ele fizesse, mas quando expôs seu ponto de vista, o garoto se mostrou desconcertado de uma forma que Gakupo nunca tinha visto antes. Não importa o quanto Gakupo pensasse, era completamente possível prever o que se passava na mente daquele garoto afinal.


Mas, pensando bem, Gakupo já devia esperar por isso. O garoto perdeu seus pais e seus amigos naquele terrível incêndio de cinco anos atrás, e foi separado da irmã, a única família que lhe restara, e obrigado a viver com um nobre desequilibrado e pedófilo, que se apossou dele sob o falso pretexto de querer adotá-lo. Logo que foi descoberta a farsa dos gêmeos, veio à tona também as coisas que Len estava sofrendo nas mãos de Kaito no lugar da irmã. A cidade toda, e também os reinos vizinhos, ficaram horrorizados em saber disso, é claro, mas ainda assim ninguém se prontificou para salvá-lo, visto que não achavam que valia à pena comprar briga com um nobre poderoso e influente como o Conde de Bleu por causa de uma criança órfã filha de simples Baronetes falecidos.


Por causa disso, Len foi deixado à mercê do Conde, e sofreu sabe Deus quantas torturas e humilhações nas mãos dele. Provavelmente deve ter sofrido muito mais do que deveria à princípio, justamente por ser "ele". Afinal, à princípio, Kaito queria "adotar" Rin, e não Len. Claro que ele deve ter ficado furioso quando descobriu que foi enganado, e descontou toda sua raiva e frustração no gêmeo que tinha em mãos. Aquilo deve ter deixado marcas profundas, não apenas fisicamente, como emocionalmente no pequeno gêmeo. Sua mente e seu coração haviam se distorcido de tal maneira que ele já não sabia mais diferenciar o que era e o que não era prudente dizer em voz alta, não sabia mais distinguir o que era decente do que era indecente. Len havia se tornado inexpressivo, e aparentava não possuir mais emoções, mas Gakupo tinha certeza de que ele ainda devia sofrer muito por causa disso, mesmo estando longe de Kaito agora. Afinal, cicatrizes emocionais como as que ele possuía não sumiam assim tão facilmente, talvez não desaparecessem nunca. Mesmo tendo acolhido o garoto por um pedido de Rin à princípio, agora ele realmente queria fazer algo para ajudá-lo. Queria poder cuidar dele, curar suas feridas, trazer de volta o sorriso daquela criança... ele tinha apenas 14 anos afinal, era cedo demais para ele ter um fim assim tão triste! Ele queria muito que Len voltasse a ser como antes... mas como faria isso?


— Mestre — uma voz masculina chamou, sobressaltando Gakupo. Ele olhou para os lados, assustado, e viu que era o condutor quem o chamava. A carruagem tinha parado de andar, e ele nem percebera quando — Nós chegamos
— Ah... sim, é claro. Obrigado — Gakupo suspirou, tentando se recompor, e desceu da carruagem.


Tentou afastar para longe aqueles pensamentos, pelo menos por enquanto, pois tinha outros assuntos para resolver no momento, mas não teve muito sucesso. O assunto sobre o passado de Len ficava voltando à sua cabeça de minuto em minuto, involuntariamente, e ele sacudiu a cabeça com força, como se isso pudesse afastá-los para longe. Ele precisava organizar sua cabeça e colocar os pensamentos em ordem, ou acabaria ficando paranóico desse jeito! Não... talvez ele já tivesse ficado paranóico há muito tempo.

Notas finais
Konnichiwa minna! Esse capítulo acabou ficando meio curto porque ando sem tempo pra escrever, mas... eu me diverti escrevendo ele, com o Gakupo todo abalado e confuso, então espero que tenham gostado XD Ah, e outra coisa... eu sei que devia ter dito isso há mais tempo, mas os títulos de nobreza dos personagens e seus reinos foram baseados nas cores que geralmente os representam nas legendas das músicas de Vocaloid... eu pensei em usar em inglês primeiro, mas ficaria muito óbvio, então coloquei em francês. Tentei usar outros idiomas também, mas achei que em francês soava mais bonito (o que não significa que a história se passa na França). Aqui estão as traduções: Jaune - Amarelo (reino do Len e da Rin que foi destruído) Poupre - Roxo (reino do Gakupo) Vert - Verde (reino da Miku) Rose - Rosa (reino da Luka) Bleu - Azul (reino do Kaito) Bom, acho que é isso... deixem reviews onegai e façam de mim uma autora feliz *o*