Loveless
5 Capítulo 5 - ♫ Cruel Clocks ♪
"Ei, me diga
Porque meu tempo parou
Eu não consigo entender essa dor estranha
Perfurando o meu peito
Eu acreditava, que isso
Era uma ilusão que nunca se tornaria real"
~~~~~X~~~~~X~~~~~
O resto do dia se arrastou, e a Marquesa de Rose só deixou a casa do Duque no fim da tarde, quando o sol já estava se pondo. Durante a longa discussão dos dois, eles enfim pareciam ter encontrado uma brecha no acordo de casamento entre eles feito por seus falecidos pais, e tinham encontrado alguma esperança em conseguir cancelar o matrimônio indesejado. Luka prometeu levar os fatos apontados pelo Duque até um tabelião para ele examinar melhor os documentos, e disse que voltaria a entrar em contato depois que tivesse uma resposta. Durante todo o tempo em que eles conversaram, Miku continuou nos arredores da casa, espiando os dois como sempre fazia, dessa vez acompanhada por Len que, ao contrário da Viscondessa de Vert, estava muito longe de se empolgar com aquilo. Não que ele já tivesse demonstrado qualquer emoção ou entusiasmo com o que quer que fosse, mas dessa vez ele estava definitivamente incomodado, muito embora ele mesmo não soubesse o motivo.
Logo depois que Luka deixou a casa, Miku também foi se despedir deseu anfitrião, no entanto, curiosamente mais séria do que geralmente ficava após espionar as visitas da Marquesa. Por mais interessada que estivesse em espiar seu casalzinho preferido, ela não pôde deixar de notar que alguma coisa havia mudado em Len durante a espionagem.
— Tente falar com ele mais tarde — ela cochichou para Gakupo, colocando-se na ponta dos pés para alcançar seu ouvido. Olhou de esguelha para o loiro, que esperava por ela à porta, para ver se ele não a estava escutando, mas viu que ele tinha voltado a assumir o jeito inexpressivo de antes — Ele estava com uma cara estranha enquanto espiávamos você e a Marquesa, e ficou fazendo um monte de perguntas...
— Ah, então você finalmente admite que fica nos espionando, não é? — Gakupo a interrompeu
— Isso não vem ao caso agora! — ela replicou — Estou falando sério, ele ficou muito estranho desde então! Continua com a mesma cara de antes, mas o jeito dele está diferente, como se estivesse incomodado com alguma coisa, ou... chateado com alguém... eu não sei, não o conheço direito pra saber porque ele ficou assim, mas alguma coisa aconteceu!
— Mesmo se você estiver certa, por que eu deveria falar com ele?! — o mais alto rebateu
— Porque foi você quem o tirou daquele buraco onde ele estava quando o comprou no leilão! — Miku lembrou — Você o tirou daquele poço de trevas e trouxe alguma luz de esperança pra vida desse garoto... você é o salvador dele, é sua responsabilidade!
— O que?! E-Eu não sou salvador de ningu...
— Bem, eu preciso ir agora, Gakupo-san! — ela se afastou e voltou a falar sorridente como antes, como se aquela conversa nunca tivesse acontecido — Depois me conta como foi, viu?! Tchauuzinho! — ela acenou alegremente, o que só irritou ainda mais o mais alto — Me acompanha Len-kun?
— É claro, Miku-sama — o mais novo abriu a porta e deu espaço para a garota passar, que saiu saltitante para fora da casa, sendo seguida pelo loiro.
Poucos segundos depois, Len retornou, dessa vez sozinho. Gakupo estava sentado em uma poltrona, pensando no que Miku disse. Seria mesmo possível que a visita de Luka tivesse mexido com ele tanto assim? Gakupo não notou nada de diferente, pra ele, o garoto continuava com ma mesma cara inexpressiva de sempre... mas, pensando bem, Miku tinha passado mais tempo com Len do que ele naquele dia. Como era possível que alguém que mal falou com ele tivesse mexido tanto com Len? Por que motivo ele teria ficado supostamente abalado? Seja lá qual fosse, Gakupo não tinha como saber, a não ser perguntando diretamente à ele.
— Ei, Len — Gakupo chamou, sem ter a menor idéia do que dizer à seguir
— Pois não, Mestre — ele parou diante do mais velho depois de fechar a porta. Como Gakupo não disse mais nada, acrescentou — Deseja alguma coisa?
— Bem, eu... etto... queria te fazer uma pergunta — ele continuou, pensando em como raios perguntar uma coisa daquelas — Bem, a Miku-san me contou que vocês ficaram espiando minha conversa com a Marquesa, e...
— Perdão, Mestre — antes que ele falasse qualquer outra coisa, Len ajoelhou-se diante dele e abaixou a cabeça, tanto até que seu nariz tocasse o chão — Sei que não deveria ter feito isso. Não tenho o direito de escutar as conversas particulares de meu Mestre, eu sei disso... é que, a Viscondessa insistiu em escutar o que os senhores diziam, e insistiu pra que eu ficasse junto dela, então...
— Ei, levante-se — Gakupo mandou, interrompendo-o — Não estou bravo com você. Já esperava isso da Miku-san, inclusive não é a primeira vez que ela arrasta outras pessoas pra essas espionagens dela. Sei que não foi sua culpa, acalme-se
— Ah.... certo — ele voltou a se levantar, um tanto receoso — Então, se não está bravo... o que o senhor queria me falar?
— Bem, sobre isso... como eu digo... bom, a Viscondessa me contou que você pareceu.... ahn, incomodado com a presença da Marquesa aqui, é verdade? Por acaso você... não gostou dela ou coisa assim?
— Não sei dizer. Eu não gosto nem desgosto de quem quer que seja há muito tempo... não sinto absolutamente nada por ela — o loiro respondeu vagamente
— Ahh céus, já vi que vai ser difícil — o mais velho resmungou — O que eu quero dizer é que... bem, ela disse que você começou a agir estranho por causa da presença da Luka. Então eu pergunto... você sentiu algo de diferente quando ela chegou, ou... alguma coisa nela te incomodou, ou coisa do tipo?
— O que o senhor diz não faz sentido... eu já não sou capaz de sentir mais nada há muito tempo — Len contou — Entretanto... devo admitir que tive uma sensação estranha quando vi o senhor conversando com ela. Mais precisamente quando ela disse que era... sua noiva. Uma sensação ruim, como se estivessem esmagando meu peito, e me faltasse o ar... uma sensação de vazio, muito maior do que qualquer outra que já tenha sentido antes. Mas não sei o que significa. Talvez eu só esteja com fome, ou tenha comido alguma coisa estragada...
— Isso não tem nada a ver com comida estraga, Len — Gakupo o interrompeu, contendo a vontade de rir da ingenuidade dele — Acho que você simplesmente não gostou mesmo da Luka
— Mas não há motivo pra isso, ela não me fez nada — o mais novo inistiu, confuso — É só que... quando ela disse que era sua noiva, eu acho que... enfim percebi qual era o meu lugar. Isto é... como cheguei aqui há poucos dias, o senhor tem me dado um pouco mais de atenção do que aos outros empregados, por eu não saber direito ainda como funcionam as coisas... acho que isso me subiu à cabeça. Eu sinto muito, parece que esqueci qual era o meu lugar. Não há motivo para receber tratamento especial do senhor, eu sou apenas mais um de seus criados afinal
— Deixe-me te explicar uma coisa, Len — Gakupo suspirou, pensando em como explicar aquilo pra ele — Como você já sabe, a Luka, tecnicamente é minha noiva sim. Meus pais e os dela decidiram isso há muito tempo, quando éramos crianças. Mas não significa que eu concordo com essa idéia, e o mesmo vale pra ela. Desde pequenos que nenhum de nós deseja se casar um com o outro, e agora que, tanto meus pais quanto os dela faleceram, não há mais quem possa nos obrigar a casar sem nos gostarmos. Entretanto, os pais dela foram mais precavidos e arrumaram um contrato de casamento para o caso de algo assim acontecer... eram os papéis que ela trouxe para eu ver hoje. Nós estamos examinando aqueles documentos e tentando procurar uma brecha nesse contrato, para nos livrar desse noivado e ficar livre um do outro. Nós encontramos uma pista muito boa hoje, e ela disse que levaria os documentos para um tabelião ver e dar uma opinião profissional do assunto. Seja como for, eu posso estar noivo dela agora, mas nós não vamos nos casar, você entendeu?
— Então... o senhor não vai mesmo casar com ela...? — Len repetiu, e o maior acenou a cabeça, confirmando — Que estranho... aquela sensação incômoda que eu tinha aqui passou — ele contou, levando a mão ao peito — Mas, Mestre... por que o senhor está me dizendo essas coisas? O senhor não tem porque me dar satisfações, por que está me explicando isso?
— Ahn... b-bem, porque... err... — ele titubeou, sem saber o que responder — É pra que você não fique pensando bobagens, é claro que foi por isso! Seria ruim pra mim se você saísse comentando por aí que eu ando tendo encontros românticos com a Luka ou coisa do tipo, isso diminuiria minhas chances de me separar dela! Por isso é importante que você entenda bem esse assunto, é isso! E nada de ficar comentando sobre esse assunto por aí, ouviu?! Não conte à ninguém sobre isso!
— Certo... como quiser, Mestre — o loiro assentiu. Ele levou a mão ao peito de novo, dessa vez parecendo confuso — Que curioso... agora, não apenas a dor que eu tinha antes aqui sumiu, como também foi substituída por outra coisa
— Pelo quê?
— Não sei explicar. Alguma coisa... boa — ele respondeu, incapaz de encontrar uma definição melhor para aquilo — Parecido com a sensação que eu tive quando o senhor me deu aquelas balas. Eu nunca senti nada parecido quando estava na casa de meu antigo Mestre
— É, imagino que você deve ter sentido coisas bem diferentes por lá... — Gakupo resmungou, mais alto do que pretendia, mas Len não pareceu se incomodar com o comentário, e apenas assentiu
— Foi lá que eu perdi meu coração humano. Originalmente, quem deveria ter ido era a minha irmã, mas eu a convenci a trocar de lugar comigo, e fui no lugar dela para tentar protegê-la. Achei que eu ficaria bem indo no lugar dela, já que sou um garoto — ele relembrou aquele dia que parecia ter acontecido há milhares de anos atrás — Eu não fazia idéia... de que aquilo era possível, mesmo entre dois garotos...
— Por acaso você... se arrepende de ter feito a troca? — o Duque soltou a pergunta antes que pudesse refrear sua língua
— Não... se não tivesse feito isso, minha irmã é quem teria sofrido tudo aquilo, isso seria muito pior. Mas nunca mais tive notícias dela depois daquilo, então não sei se valeu à pena
— Sua irmã foi adotada pelo Barão no seu lugar, conforme vocês combinaram — Gakupo contou — Com o tempo, eles acabaram descobrindo a troca, é claro... mas, quando aconteceu, o Barão e a Baronesa já tinham se afeiçoado tanto à ela que nem sequer cogitaram destrocar vocês. Sua irmã tem vivido muito bem desde então
— Entendo... isso é bom. Muito, muito bom mesmo... pelo menos não foi tudo em vão... — os lábios de Len tremeram, e Gakupo sobressaltou-se, sem saber dizer se ele estava tentando se lembrar de como se sorria, ou se estava prestes a chorar
— Ei, Len... você está bem?? — o Duque se levantou e segurou o rosto do mais novo entre as duas mãos, erguendo-o para poder encará-lo nos olhos — Está chorando?
— Não senhor. Eu me esqueci de como se chora — o loiro respondeu, voltando a assumir o rosto inexpressivo de sempre. Gakupo sentiu um aperto no coração ao ouvir aquilo. Será que ele não tinha noção do quanto eram tristes as coisas que ele dizia?! Talvez o fato de ele ter se tornado desprovido de sentimentos fosse uma forma de se proteger das maldades que sofria, mas aquilo era muito triste para quem via de fora
— Você gostaria... de ver a sua irmã? — Gakupo perguntou incerto, soltando o rosto dele. Len demorou vários segundos pra responder, parecendo estar pensando com cuidado em cada palavra da pergunta do mais velho, até que enfim formulou uma resposta
— Não... é melhor não. Minha irmã sempre foi uma menina inocente e pura... e eu estou sujo demais pra chegar perto dela agora. Não quero corrompê-la
— Len, não diga isso... não foi culpa sua o que aconteceu...
— Não interessa de quem é a culpa, o fato é que me tornei corrompido demais pra chegar perto de alguém tão pura quanto a minha irmã. Ela vai ficar melhor longe de mim
— Sabe, eu encontrei a Rin-chan outro dia — Gakupo contou antes que pudesse se refrear — Ela ainda é a sua cara... e me pediu pra te mandar um recado: Disse que ela está bem onde está agora, e que o seu sacrifício não foi em vão
— Que bom... que a Onee-chan está bem — ele levou a mão inconscientemente ao peito de novo — Ué... meu peito voltou a doer
— Talvez isso signifique que vocês deveriam se ver — Gakupo insistiu — Deve estar com saudades dela
— Acho que não — ele teimou — Não se preocupe, Mestre Gakupo... provavelmente é só indigestão...
Mas Gakupo não estava mais prestando atenção nas desculpas absurdas do loiro. Tinha parado de escutar ao ouví-lo dizer seu nome.
— Você... disse meu nome...
— O que? — Len repetiu confuso
— Você disse "Mestre Gakupo". É a primeira vez que você diz meu nome
— Ah... — Len repassou mentalmente as últimas palavras que tinha dito — Tem razão. É a primeira vez que digo seu nome, Mestre Gakupo. E essa é a segunda. Quer que eu pare de dizer seu nome, Mestre Gakupo? Ah, é a terceira...
— Pff... hahahahahahahaha! — antes que pudesse responder, Gakupo tinha explodido em gargalhadas. Mesmo depois de tudo que ele passou, Len ainda conseguia ser incrivelmente... fofo — Não precisa... ahahahahaha.... n-não precisa parar. Pode dizer meu nome quantas vezes quiser, eu não me incomodo — antes que percebesse o que estava fazendo, Gakupo afagou os cabelos loiros do mais novo, como se ele fosse um cachorrinho fofo
— Está bagunçando meu cabelo, Mestre Gakupo...
— Ah, desculpe! — ele afastou a mão dos cabelos de Len — Espere aí, por que estou me desculpando?! Eu sou seu Mestre, não preciso me desculpar! Agora vá pegar alguma coisa pra eu comer, eu estou faminto!
— Hai... como quiser, Mestre Gakupo — ele se rumou em direção à cozinha, deixando um Mestre bem mais atordoado, e curiosamente mais feliz à sua espera.
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