Loveless
17 Capítulo 17 - ♫ Imitation Black ♪
"Vida ordinária retorcida num amor proibido
Um coração sincero
Pintadas em preto, um amor incompleto
o mundo negro como azeviche.
Eu sempre quis dizer para você
Há apenas uma coisa a dizer..."
~~~~~X~~~~~X~~~~~
Dois dias se passaram após o ocorrido. Por algum motivo inexplicável, Len havia sentido a "curiosidade" de saber como seria se ele fizesse com Gakupo a mesma coisa que Kaito fazia com ele, e lhe roubou um beijo enquanto ele supunha que o homem estivesse adormecido. Em contra-partida, o Duque também lhe beijou depois daquilo, com muito mais intensidade do que Len tinha feito por sinal, dando como justificativa que aquilo era uma "punição" pelo que o loiro tinha feito antes. Desde então, não falaram mais sobre esse assunto. Na verdade os dois mal se falavam depois daquele dia, apenas davam "bom dia" e "boa noite", e muito raramente Gakupo dava alguma ordem explícita ao garoto, que respondia com um "entendido" e ia cumprir a tal ordem, sem dizer mais nada.
Gakupo já não sabia mais como se portar diante dele depois daquilo, e Len também não sabia o que pensar. O loiro havia aceitado sem problemas a justificativa de que aquela fora sua punição pelo que ele fez antes, mas tinha a impressão de que era mais do que isso, como o mais velho estivesse escondendo alguma coisa dele, mas não tinha coragem de dizer isso ao seu Mestre. E Gakupo, por sua vez, tinha sentido dobrar a intensidade de seu desejo de ficar mais perto de Len, de poder abraçá-lo e tê-lo em seus braços. Aquele beijo entre eles parecia ter levado embora todo o auto-controle que ele tinha lutado pra conseguir. Para evitar que acabasse fazendo alguma besteira, Gakupo agora estava se forçando a ficar o mais distante possível do mais novo, o que era bem difícil, considerando que eles moravam na mesma casa. Sem falar que era extremamente doloroso para Gakupo se obrigar a ficar longe da pessoa que amava.
E em uma manhã ensolarada, quando Gakupo já não sabia mais que desculpa inventar para manter Len longe dele, o Duque decidiu atravessar o imenso jardim de sua propriedade e voltar ao lugar em que ficava o lago onde ele e Len pescaram juntos uma vez. O mesmo lugar onde ele tinha percebido seus sentimentos pelo garoto. Precisava colocar seus pensamentos em ordem e organizar seus sentimentos, e precisaria de calma e de tempo pra fazer isso, por isso pensou que aquele seria o melhor lugar para se refugiar. Só não esperava que alguém pudesse encontrá-lo naquele lugar deserto.
— Mestre Gakupo? — uma voz monótona, com um leve e quase imperceptível tom de preocupação chamou seu nome, sobressaltando o Duque — Está tudo bem com o senhor?
— Len... — ele arregalou os olhos em choque ao reconhecer o mais novo. Como o garoto tinha conseguido encontrar ele ali?! — O que está fazendo aqui? Ou melhor, como me achou aqui??
— O senhor me disse uma vez que esse era o seu lugar preferido da mansão, onde o senhor costuma ir pra colocar seus pensamentos em ordem... e o senhor parece meio inquieto esses dias — o garoto respondeu, surpreendendo novamente o mais velho. Gakupo só tinha dito aquilo uma vez, como ele se lembrava disso?! — Por acaso o senhor está com algum problema?
— Não... bem... m-mais ou menos — Gakupo desviou os olhos, sem saber o que dizer. Não podia contar para Len a causa de suas perturbações sem dizer a verdade para ele afinal — É mais um tipo de... problema de relacionamento, eu acho
— "Problema de relacionamento"... com a sua noiva?
— O que?! — Gakupo virou os olhos para ele de novo, surpreso — Com a Luka? Não, não mesmo! Daonde foi que tirou isso?!
— Bem, o senhor parece que não se dá bem com ela... mesmo estando prometidos um ao outro — dessa vez foi Len que baixou os olhos, e Gakupo podia jurar que ele tinha ficado encabulado por tocar nesse assunto — Por isso eu pensei... que talvez o problema pudesse ser com ela
— Eu realmente não me dou bem com a Luka, nem gosto dela. Mas nós estamos dando um jeito de nos separar, você sabe. A papelada já está até em andamento, inclusive — Gakupo esclareceu — O problema não é com ela
— Então... seria com a Miku-sama? — o mais novo arriscou — Mesmo ela sendo sua amiga de infância, o senhor parece que fica sempre irritado quando ela te visita...
— Não, não é a Miku-san... pare de tentar adivinhar, você nunca vai acertar mesmo — ele resmungou
— Como quiser — Len assentiu — Mas então, se o senhor quiser, pode me contar qual é o problema? Não sei se alguém como eu serviria de alguma ajuda, mas... Neru-neechan me disse uma vez que é bom colocar nossos problemas pra fora e desabafar com alguém, então... mesmo que eu não seja capaz de aconselhá-lo, eu gostaria de pelo menos poder ouvir o que está lhe afligindo.
Gakupo o encarou de soslaio e viu Len observando-o com aqueles olhos grandes, tão azuis quanto o mar, e tão vazios quanto o mesmo também. Como sempre, ele não demonstrava possuir grandes emoções, porém... de uns tempos pra cá, ele havia mudado, ainda que bem pouco. Muito raramente, demonstrava vagamente curiosidade, desconforto, e preocupação, e sempre eram referentes à Gakupo. Talvez fosse um sinal de que os sentimentos dele estavam retornando lentamente, o que era um bom sinal, mas o Duque sabia que ainda havia um longo caminho a ser percorrido até que Len tivesse seu coração humano de volta.
E no momento, o fato era que Len parecia realmente interessado no que quer que estivesse deixando Gakupo tão perturbado. Por um lado, isso o deixava feliz, já que gostava da sensação de Len estar demonstrando interesse por ele. Por outro lado, aquilo era um sério problema, já que Gakupo não podia contar para o garoto que ele mesmo era a causa de suas preocupações. Como Len reagiria se soubesse o que Gakupo sentia por ele? Será que entenderia os sentimentos dele? Seria capaz de correspondê-los? Ou simplesmente pensaria que Gakupo queria se aproveitar dele, assim como Kaito havia feito antes? Em certas horas, Gakupo queria muito saber a resposta para essa pergunta, mas em outras, preferia que nunca soubesse. Uma vez que contasse a verdade para o loiro, não poderia mais voltar atrás, e se Len tivesse uma reação ruim quanto à isso... Gakupo realmente não sabia o que faria depois.
— Mestre Gakupo? — Len chamou mais uma vez, vendo que o maior não respondia, e despertou o Duque de seus devaneios — Se... o senhor não quiser me contar, tudo bem. Provavelmente um mero servo como eu não é digno de ouvir suas preocupações afinal...
— Não... não é isso — o mais alto se apressou a dizer — É só que... é um problema muito delicado... e eu não sei como você reagiria se soubesse disso... nem se seria capaz de compreender
— Bom... só há uma forma de saber, não é? — Len falou simplesmente, e continuou encarando-o com aqueles olhos que lembravam tanto o azul infinito do oceano.
É, Len estava certo afinal. Não adiantava de nada Gakupo ficar se preocupando tanto e tentando imaginar que tipo de reação o loiro teria, o único modo de descobrir era contando a verdade de uma vez. O Duque respirou fundo, como se isso pudesse aumentar sua coragem, encarou o loiro de frente e resolveu falar tudo de uma vez:
— Tudo bem, vou contar então. Prepare-se, você provavelmente vai ficar chocado, se ainda for capaz disso... então, lá vai: Eu... acho que me apaixonei por você, Len. Não, eu com certeza me apaixonei... sabe, a Miku-san me descreveu uma vez os "sintomas" de uma pessoa apaixonada... e segundo ela, os sintomas de uma pessoa apaixonada são ela ficar nervosa quando a pessoa amada está por perto, e mais ainda se falar com ela; gaguejar e corar quando se está falando com a pessoa de quem se gosta; enrubescer muito mesmo e sentir seu coração dar fortes cambalhotas se tiver qualquer contato físico com essa pessoa, por menor que seja; sentir uma forte vontade de querer estar sempre ao lado da pessoa amada, mesmo ficando sempre tão nervoso e embaraçado, e ter o desejo de ajudar e proteger essa pessoa. Ela citou outros "sintomas", falou uma lista quilométrica na verdade, mas eu só consigo me lembrar desses, e me encaixo perfeitamente em todos. Logo que você veio morar aqui, e eu me acostumei a com sua presença, eu senti um desejo enorme de proteger você, seja do Conde Kaito ou de quem fosse, e de devolver o coração humano que você perdeu, se possível. No começo eu pensava que fosse apenas por piedade, por causa da sua situação, e das coisas que você passou, mas não é só isso... eu também me sinto desconcertado quando estou perto de você, fico nervoso quando nos tocamos, mesmo que seja um simples relar de mãos, e várias outras coisas... e, pra completar, teve aquela vez em que... b-bem.... e-em que nos beijamos. Ali, eu já sabia que gostava de você. E o que eu fiz não foi uma punição pelo que você tinha feito antes, eu usei a história de punição como justificativa para o que eu fiz... na verdade, eu só queria fazer aquilo porque... porque eu amo você. E não consegui mais me conter depois do que você tinha feito. Eu sei que isso não faz o menor sentido... você é um garoto, e provavelmente bem mais jovem do que eu... e com certeza você vai pensar que eu estou querendo apenas me aproveitar de você, como o Conde de Bleu fez antes, mas isso não é verdade, eu juro à você! Por isso eu... tenho me mantido afastado o máximo de você nos últimos dias, para não acabar caindo na tentação... e não fazer nenhuma besteira com você. É por isso... que tenho estado tão aflito ultimamente.
Len o encarou por vários segundos, absolutamente pasmo com tudo o que tinha ouvido. Seus olhos azuis se arregalaram levemente, e a boca estava entreaberta. Há muito tempo não ficava tão surpreso quanto tinha ficado agora, e não sabia como lidar com isso. Quando enfim conseguiu compreender o significado das palavras de Gakupo, ele baixou os olhos e encarou a grama sob seus pés, pensando no que responder. Ele ainda conseguia reconhecer que aquilo havia sido uma declaração de amor, Rin tinha lhe contado sobre isso uma vez, há muitos anos atrás. E ele conhecia a teoria do que fazer: Segundo Rin, se a pessoa também gostasse daquela que se declarou, ela aceitaria os sentimentos dela, e os dois se tornariam um casal; Se não, deveria então rejeitar a declaração da pessoa e justificar o porquê de estar recusando seus sentimentos. Mas o problema era que Len não tinha mais nenhum sentimento agora. Tinha se livrado deles há muitos anos atrás. No entanto, até uma pessoa sem vontade própria como Len era capaz de perceber que haviam acontecido pequenas mudanças dentro dele desde que fora trabalhar para Gakupo. Sentia algo que lembrava curiosidade ou preocupação quando notava que seu novo Mestre estava com algum problema, e sentia uma dor desconfortável no peito sempre que o via conversando com alguma garota, principalmente com Luka. E por um pequeno, só por um breve instante, Len teve a sensação de ter recuperado seu coração humano, que ele havia perdido há tanto tempo, e pôde sentir seu coração palpitando, rápida e intensamente, dentro de seu peito que antes parecia vazio. E isso só tinha acontecido na ocasião em que Gakupo o beijou. O loiro chegou à conclusão de que, mesmo que ele fizesse com Gakupo as mesmas coisas que Kaito fazia com ele, seria completamente diferente, e não seria ruim... e, ou ele muito se enganava, ou talvez pudesse até ser bom fazer aquele tipo de coisas com Gakupo. Len realmente gostaria de saber o que aconteceria se ele tivesse aquele tipo de relação com Gakupo... e só havia uma maneira de descobrir isso.
— Mestre Gakupo... esse assunto é realmente importante, então eu serei o mais claro e sincero possível com o senhor: Como o senhor já sabe, eu perdi meus sentimentos há muitos anos. Sou incapaz de sentir o que quer que seja por quem for... não consigo mais gostar ou desgostar de uma pessoa. Por esse motivo, não seria capaz de corresponder ao sentimento que o senhor tem por mim... além do mais, depois de tudo o que aconteceu no meu passado, eu... estou sujo e corrompido demais agora... e, mesmo se eu fosse capaz de retribuir o sentimento do senhor, eu... acabaria te contaminando também, e eu não quero isso. Não quero que o senhor fique... corrompido por minha causa... não o senhor
— Len, eu sei muito bem que você perdeu seu coração humano. Mas, independente de você ser ou não capaz de retribuir meus sentimentos, eu quero que saiba que, o que aconteceu com você não foi culpa sua. Foi culpa do Conde de Bleu, ele quem te corrompeu, e você sabe disso melhor do que ninguém — Gakupo lembrou, tentando disfarçar a dor iminente da rejeição que sabia que estava por vir, e se concentrar apenas em fazer o loiro entender que nada daquilo era culpa dele
— Eu sei disso — o menor respondeu — Mas, independente de eu ser a vítima, ou o culpado, o fato é que isso aconteceu. Por isso, não quero correr o risco de corromper o senhor também...
— Se o problema é esse, então já está resolvido — o Duque o interrompeu — Eu acabei de dizer que estou apaixonado por um rapaz, mesmo sendo um homem também, e sei muito bem o quão absurdo e inaceitável isso é, mas... ainda assim, não consigo evitar os sentimentos que tenho por você, então... acho que isso significa que estou corrompido também, não é? Por isso, não há o risco de você me corromper — Gakupo forçou um sorriso sem jeito para ele
— Bem... talvez o senhor tenha razão quanto à isso... — Len acabou admitindo, já que não sabia dizer se aquela justificativa era válida ou não — Mas, como eu lhe disse, e o senhor sabe, eu não sou mais capaz de sentir nada por ninguém há muito tempo. Entretanto, devo admitir que... naquela ocasião em que o senhor... bem... me beijou... seja qual for o motivo de o senhor ter feito isso, eu senti por um breve momento meu coração voltar a bater, como se tivesse ganhado vida novamente. Pude sentir ele palpitando outra vez, rápida e intensamente... e de um jeito que eu nunca havia sentido antes. Quando eu ainda possuía sentimentos, e morava na mansão do Conde Kaito, eu... sempre sofria quando estava com ele, ou quando ele me t-tocava, e... b-bem, o ponto é que eu não me senti desse jeito ruim e desagradável quando o senhor fez isso. Porém, esse fugaz sentimento desapareceu no exato instante em que o senhor separou seus lábios dos meus, e meu coração voltou a ficar vazio como antes, e como está agora. Eu não sei se o senhor será capaz de recuperar meus sentimentos perdidos... mas, se for para eu me sentir de uma maneira melhor do que como eu me sentia quando estava aprisionado, eu... gostaria que o senhor tentasse. E... eu não posso dizer que correspondo aos seus sentimentos... como eu disse antes, eu não sou mais capaz de sentir coisa alguma. E eu também não entendo muito bem o que é o amor... não saberia definir, talvez nem sequer perceber, caso um dia eu venha a sentir isso. O único tipo de "amor" que já senti foi o amor que tinha pelos meus pais e pela minha irmã antes de perder meus sentimentos, mas esse tipo de "amor" que o senhor está falando, de "estar apaixonado", eu não sei o que é. Mas, o que eu sei, é que o senhor não é igual ao Conde Kaito. O senhor é um homem bom, e se tivesse esse tipo de intenções à meu respeito, já poderia ter feito isso há muito tempo. E também... o Conde nunca conseguiu fazer meu coração bater tão forte daquele jeito... apenas o senhor conseguiu fazer isso, mesmo que tenha sido por um breve instante. Então, eu... acho que, se for com o senhor, talvez não tenha problema eu voltar a fazer aquele tipo de coisas de novo. Ainda é meio embaraçoso, mas não é mais de um jeito ruim... é quase como se fosse.... bom. Então, se o senhor sentir novamente vontade de fazer coisas como... me abraçar, ou me beijar, ou o que for... não precisa mais se conter. Se for com o senhor... eu não me importo em fazer isso
— Len...! — movido mais por impulso do que pelas palavras do mais novo, Gakupo o puxou para perto, envolvendo o corpo frágil do garoto em seus braços — Está tudo bem... não importa que você não me ame agora, eu prometo que farei de tudo para recuperar seu coração humano, e farei você me amar... eu vou conseguir recuperar seus sentimentos um dia eu juro à você! — ele exclamou emocionado, contendo por pouco a vontade de chorar. Sentia uma estranha mescla de emoções agora. Estava feliz, aliviado e emocionado por Len ter entendido e aceitado tão bem seus sentimentos por ele. Por outro lado, estava alfito e angustiado por Len não corresponder seus sentimentos e não amá-lo da mesma maneira como ele o amava. Claro, isso era óbvio, aquele garoto não sentia nada havia anos, não poderia simplesmente se apaixonar por alguém assim do nada. No entanto, as palavras do garoto haviam acendido uma chama de esperança no coração do Duque, que acreditava que, caso conseguisse devolver o coração que Len havia perdido uma vez, o loiro passaria a amá-lo de volta. Se fosse assim, Gakupo com certeza faria de tudo para atingir esse objetivo, que era mantido pela pequena chama de esperança acesa em seu peito, e que brilhou ainda mais intensamente quando ele sentiu o loiro levantar os braços lentamente e abraçá-lo de volta.
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