Loveless
24 Capítulo 24 - ♫ Heat Haze ♪
"Meu amor, eu ainda não vou te deixar ir
Você estava tremendo à pouco e chorando
O dia da despedida virá um dia
Mas, por enquanto, eu vou segurar você firmemente
E te beijar ternamente
Nós ainda não precisamos de uma palavra de adeus"
~~~~~X~~~~~X~~~~~
Naquela manhã, Gakupo recebeu a notícia de que o Cirque Voix, a trupe de circo da qual Gumi participava, tinha partido do reino, agora que as pessoas que se feriram durante o incêndio já haviam se recuperado o suficiente para poderem viajar, e rumavam com o restante que sobreviveu para uma nova apresentação, dessa vez no reino de Blanc. Embora ainda sentisse muita pena das pessoas que morreram no incêndio e pela partida tão rápida de Gumi, Gakupo não teve tempo para lamentar nada disso, pois, naquela mesma manhã, uma surpreendente visita, curiosamente também vinda do reino de Blanc, chegou à casa dele.
— Mestre Gakupo — Len chamou à porta, e o Duque apareceu no hall de entrada poucos instantes depois — O senhor tem visitas.
Na porta aberta que Len ainda segurava a maçaneta, havia uma garota que devia ser alguns poucos anos mais nova que Gakupo, de cabelos prateados e compridos, presos em um frouxo rabo-de-cavalo, olhos avermelhados e tristonhos, trajando um vestido longo de mangas compridas, todo cinza, com alguns babados pretos na barra e nas mangas. Ao lado dela, havia um menino mais ou menos da idade de Len, também de cabelos prateados, só que curtos, olhos claros e bicolores, o direito verde e o esquerdo azul, trajando roupas tão ou mais brancas do que seus cabelos, com alguns detalhes em preto na calça, e os botões da camisa também pretos.
— Bom dia, Vossa Excelência — a garota cumprimentou, séria demais para alguém que estava desejando "bom dia" — Imagino que não precise me apresentar...?
— Não... claro que não, Vossa Alteza Haku — Gakupo respondeu depois de alguns segundos, ainda em choque ao ver a Princesa e o Príncipe herdeiros do trono do reino de Blanc em sua residência — Entrem, por favor — ele fez uma breve reverência, e então um gesto com o braço, indicando o caminho. Haku e o menino entraram, e enquanto se acomodavam, Gakupo ordenou que Len trouxesse algo para eles comerem, que se retirou em silêncio em direção à cozinha
— Suponho também que conheça o meu irmão mais novo — Haku falou após se sentar, indicando o menino mais novo e bem mais sorridente do que ela com a mão
— Sim, é claro. É um prazer recebê-lo em minha humilde residência, Vossa Alteza Piko — Gakupo também fez uma reverência para o garoto, estranhando um pouco aquilo, já que era mais velho do que o Príncipe
— Adorei a sua casa! — o menino exclamou, sorrindo ainda mais — É tudo tão bonito, e os quadros são todos coloridos, bem diferente do meu palácio!
— Piko — sua irmã chamou — O que eu falei antes de sairmos?
— Ah, é... é-é um prazer vê-lo também, Vossa Excelência — Piko falou, baixando os olhos, com o ar mais respeitoso que conseguiu demonstrar
— Fico feliz que tenha gostado da casa, Alteza — Gakupo sorriu para ele, e Piko voltou a sorrir, um pouco mais timidamente. Em seguida, Len retornou da cozinha, trazendo uma enorme bandeja com uma jarra de suco, um bule de chá, um prato de bolinhos, biscoitos e torradas. Depositou a bandeja com cuidado sobre a mesa e se afastou, parando de pé em um canto da sala
— Bem, sirvam-se — Gakupo sorriu, fazendo um gesto com a mão para eles se servirem — Agora, o que trás a Princesa e o Príncipe de Blanc até a minha casa? Estou realmente curioso pra saber — ele perguntou cordialmente, também se servindo de um biscoito, embora na verdade estivesse bem preocupado com aquela visita repentina
— Um assunto realmente sério. Na verdade, sério demais pra ser discutido na frente de crianças... — ela respondeu, olhando de esguelha para o irmão e para Len — Piko, por que você não deixa que o Len-kun te mostre o jardim da mansão? Você disse que tinha gostado das roseiras quando chegamos, não foi? Aproveite pra vê-las mais de perto
— Ah, boa idéia, Nee-san! — o mais novo exclamou sorridente, e levantou-se de um salto, se dirigindo à Len — Você pode me mostrar as roseiras?
— Ahn... — Len murmurou, sem saber o que responder, mas Gakupo logo respondeu por ele
— Leve o Príncipe até o jardim, Len
— Certo... entendido, Mestre — Len respondeu, curiosamente também um pouco inquieto — Então, venha por aqui, Vossa Alteza — ele indicou o caminho para o jardim, e Piko o seguiu para fora da casa. Depois que os dois saíram, Haku continuou
— Desculpe por isso, Excelência, mas é um assunto realmente delicado para o Piko ouvir... eu pretendia deixá-lo no Palácio, mas ele insistiu em vir junto, sabe como as crianças são — ela suspirou longamente, e depois continuou — Bem, o motivo de eu ter vindo aqui hoje... foi por ordem de meu pai, na verdade
— Hã? O Rei ordenou que Vossa Alteza viesse me ver?? — Gakupo repetiu sem entender
— Sim — Haku confirmou — Eu imagino que o senhor já saiba, mas... existem boatos correndo pelas ruas sobre o senhor e aquele menino, o Len-kun. Boatos ruins, e realmente preocupantes, na verdade
— Boatos, não é? — o Duque repetiu, sentindo suas piores suspeitas se confirmarem — Vossa Alteza... por acaso a senhorita já conhecia o Len?
— Ora, por favor, não há uma única pessoa no reino que não conheça o nome dele, é de conhecimento geral as coisas que aquele menino passou — a Princesa respondeu como se Gakupo tivesse perguntado algo completamente idiota — Mas... sim, eu já o conhecia antes disso. O vi uma vez, durante uma festa de aniversário dele e da irmã, há muitos anos atrás
— Certo... — o Duque murmurou, lembrando-se vagamente de ter realmente visto Piko, que era tão jovem na época que nem devia mais se lembrar da tal festa. Se o Príncipe estava lá, era provável que sua irmã tivesse ido também, já que Haku também era uma criança na época — Bem, sobre esses boatos... eu ouvi falar sim. São histórias maldosas que as pessoas inventam, já que adoram falar mal da vida alheia. Assim como a maioria dos boatos falsos que correm por aí, como a história da Viscondessa de Vert estar apaixonada secretamente pelo Conde de Bleu, já que os dois quase viraram noivos quando crianças, ou a história da irmã do Len, a Rin-chan, ter uma queda pelo seu irmão. São boatos absurdos, um mais ridículo que o outro, e completamente falsos, que são inventados por pessoas maldosas que adoram falar mal da vida dos outros e que não tem nada melhor pra fazer além de semear a discórdia. Nada disso é verdade, Alteza — ele negou o melhor que pôde a verdade evidente, por mais que aquilo doesse terrivelmente por dentro, usando como exemplo boatos que na verdade nem eram tão falsos assim
— Sim, também já ouvi falar deses boatos sobre a Viscondessa de Vert.... agora, esse sobre o Piko, eu não conhecia — Haku respondeu, um pouco mais preocupada — De qualquer forma, o boato que envolve o senhor e o Len-kun é muito mais preocupante. Creio que não precise lhe lembrar disso, mas vocês dois são homens, e aquele garoto é seu servo e bem mais jovem do que o senhor. Uma relação assim seria completamente inaceitável
— Sei muito bem disso, Alteza — Gakupo respondeu, se controlando ao máximo para não demonstrar a preocupação e a dor que sentia em seu coração — Demo nee... tem uma coisa que eu não consigo deixar de me perguntar com esse repentino assunto da senhorita: Sei sobre os boatos que envolvem o Len e à mim, mas... o mesmo tipo de boatos surgiu anos atrás, quando o Len ainda estava em posse de Sua Graça, o Conde Kaito, se lembra? Eu fico me perguntando... por que Vossa Alteza não foi interrogar o Conde naquela época, como está fazendo comigo agora?
— Bem, naquela época eu era mais jovem, e meu irmão era muito pequeno também. Entendo aonde Vossa Excelência quer chegar, e até admito que o senhor tem uma certa razão em pensar isso — a Princesa admitiu — Mas, isso aconteceu na mesma época em que o reino de Jaune foi destruído no terrível incêndio que matou não apenas os Baronetes de Jaune, como várias outras pessoas, se lembra? Então, naquela época, meu pai, o Rei, estava mais concentrado em reconstruir o reino de Jaune e cuidar dos poucos sobreviventes, que estavam seriamente feridos, e acabou deixando esse assunto meio de lado, já que os gêmeos sobreviventes tinham sido adotados e conseguiram novas famílias para cuidar deles. Quando ficamos sabendo do que tinha acontecido com o Len-kun, já era tarde demais... e, infelizmente, já não havia mais nada que pudéssemos fazer por ele. Mas não queremos cometer o mesmo erro duas vezes e permitir que a vida daquele garoto seja ainda mais prejudicada, por isso estamos aqui
— Entendo... — Gakupo murmurou, embora não concordasse nem um pouco com essa explicação, e estivesse muito longe de engolir essa história. Porém, felizmente, teve uma súbita ideia de repente — Ora, parece que o chá esfriou. Pedirei para uma empregada trazer mais, me dê um instante por favor — ele forçou um sorriso e se levantou, indo até a cozinha. Segundos depois, retornou, com uma empregada em seu encalço, trazendo uma bandeja com bolinhos diferentes dos trazidos antes por Len, uma jarra com algo vermelho-berrante, e uma caixa de chocolates. A empregada depositou a nova bandeja na mesa e retirou a que Len tinha trazido antes, levando-a de volta para a cozinha — Desculpe a interrupção. Por favor, sirva-se — ele sorriu ainda mais abertamente, e fez um longo gesto indicando a bandeja — Agora, a senhorita estava dizendo?
— Eu estava dizendo — Haku continuou, enquanto mordia um bolinho — Que meu pai me mandou vir aqui para investigar se os boatos sobre o senhor e o Len-kun são ou não verdadeiros, e... o que é isso? — ela interrompeu de repente sua explicação e apontou para o conteúdo vermelho da jarra
— Suco de morango — Gakupo respondeu sorrindo, servindo-se também de um bolinho. Haku olhou para jarra por alguns instantes, como que suspeitando do conteúdo dela, e por fim serviu-se do líquido escarlate. Pretendia beber só um gole, porém, antes que percebesse, bebeu uma taça inteira de uma vez só — Agora, a senhorita estava dizendo...?
— Ah, sim... eu estava dizendo... estava dizendo... o que eu ia dizer mesmo?! — ela exclamou, sua voz se tornando um pouco mais aguda — Ah, sim! Isso não parece suco de morango!
— Ora, eu disse suco de morango? Quis dizer que era suco de uva — o Duque respondeu, muito embora aquilo não fosse suco de coisa nenhuma. Gakupo sabia que Haku geralmente era uma pessoa muito séria e rígida, porém, felizmente, conhecia o ponto fraco dela. Haku era terrivelmente fraca para bebidas alcóolicas e, uma vez que começasse a beber, não parava mais. Sabia que era errado embebedar propositalmente uma pessoa, mas era a única saída que encontrava no momento.
Enquanto isso, no lado de fora da mansão, Piko já tinha se cansado de olhar as roseiras e agora estava sentado à beira de um lago, ao lado de Len, agitando as pernas com ar entediado.
— Vossa Alteza — Len chamou — Por acaso sabe porque a sua irmã quis vir aqui hoje?
— Humm? Haku-neesan disse que tinha algo importante pra conversar com seu Mestre... e fazia muito tempo que eu não saía do palácio, por isso insisti em vir junto — Piko respondeu sem dar importância ao assunto — Nee-san disse que tem... hum... histórias ruins... correndo pelas ruas, entre você e Sua Excelência o Duque — ele comentou, olhando de soslaio para o loiro
— Entendo... já tinha ouvido falar dos boatos — Len respondeu, sem saber o que fazer naquela situação. Imaginava que precisaria negar caso Piko perguntasse mais coisas sobre aquilo, mas não tinha tanta certeza se conseguiria fazê-lo — Foi por isso que vieram aqui hoje?
— Sim, por isso — Piko confirmou, ainda agitando as pernas no ar — Nee-san precisa descobrir se os boatos são verdadeiros ou falsos
— O que exatamente... estão dizendo? — Len indagou, levemente curioso, e quando viu Piko encarando-o com ar de incredulidade, acrescentou — Eu, humm.... não saio muito da mansão, sabe
— Ah, entendo — o Príncipe respondeu, voltando a encarar o lago abaixo deles — Bom, os boatos dizem que o Duque está... etto... — ele fez uma pausa, corando um pouco, e depois inspirou fundo, como que tomando coragem para prosseguir — Q-Que ele está fazendo com vocês as mesmas... c-coisas... que o Conde de Bleu fazia quando você vivia com ele
— isso não é verdade — Len negou na hora, porque isso, de fato, não era verdade. Kaito literalmente abusava do corpo dele e o forçava a fazer todo o tipo de coisa dolorosa e constrangedora que se possa imaginar. Gakupo, por outro lado, nunca o tocou sem o consentimento de Len, e eles apenas trocavam beijos e pequenas carícias, o que era bem diferente do que acontecia quando ele estava aprisioando na casa do Conde, então, tecnicamente, os boatos eram realmente falsos — Mestre Gakupo jamais... fez aquele tipo de coisa... comigo. Nem uma única vez
— Entendo... — Piko murmurou, embora não parecesse ter entendido muita coisa realmente — Pra dizer a verdade, eu não sei exatamente que tipo de "coisas" são essas que o Conde fazia com você. Só faço uma idéia do que seja, mas não conheço os detalhes da história, realmente... bom, acho que não tem como um menino da minha idade saber sobre isso afinal — ele riu, um pouco embaraçado
— Que idade o senhor tem?
— Doze anos! — o Príncipe exclamou, sorrindo ainda mais — E você?
— Tenho quatorze — Len respondeu inexpressivo, ainda o observando com atenção. Aquele menino era mais novo que ele, e parecia ser tão feliz e sorridente... sem nenhum problema ou preocupação para assolar seus pensamentos. Lembrava-se perfeitamente de quando ele mesmo tinha doze anos de idade, porém, naquela época, ele ainda estava aprisionado na mansão de Kaito, e já havia perdido seus sentimentos. Não era uma lembrança nada feliz. Se o incêndio de cinco anos atrás não tivesse destruído sua casa e sua família, e ele não tivesse precisado ir viver com Kaito para salvar Rin, será que ele também seria assim, feliz e sorridente como Piko? Será que também seria uma criança comum, alegre e livre de preocupações, assim como o garoto diante dele? Talvez sim, talvez não... Len não saberia dizer, e isso realmente não importava agora. No entanto, se nada disso tivesse acontecido, ele também não teria ido morar com Gakupo, não seria criado e amante dele, e o Duque não teria se apaixonado por ele. Se isso não acontecesse... embora não soubesse o motivo, Len tinha a impressão de que, ainda que fosse uma criança comum, com uma família, e livre de preocupações, ele não seria completamente feliz.
Enquanto isso, dentro da mansão, Haku falava sem parar dos assuntos mais variados, completamente esquecida do motivo que a trouxera ali, e tomando cada vez mais "suco de uva".
— ... então, o senhor entende?! — ela exclamava, com a voz mais alta e esganiçada do que o normal, entre um soluço e outro — Ninguém me entende, nem liga para o que eu quero, só porque sou uma mulher! Engraçado, me proíbem de fazer um monte de coisas porque sou uma mulher, mas meu pai não se lembrou disso na hora de me mandar vir aqui investigar a sua vida... aquele tirano abusado! — ela xingou, tomando outro gole de vinho
— Sim, concordo plenamente — Gakupo dizia, ainda sorrindo. Quando estava sóbria, Haku era muito séria, e um pouco chata, mas até que era uma bêbada bem divertida. Sem falar que, comparado aos escândalos que estava acostumado a ouvir de Miku, aquilo não era nada — Realmente estranhei Sua Majestade ter ordenado que a senhorita viesse, ao invés de um criado
— Aqui entre nós — ela se aproximou um pouco e baixou o tom de voz, falando como quem compartilha um importante segredo — Meu pai mandou eu vir porque ele está querendo que eu me case logo, e está à procura de candidatos. E o senhor, no momento, é um forte canditado ao cargo! Por isso ele mandou à mim ao invés de um criado, para eu aproveitar para conhecê-lo melhor
— E-Espera aí... está dizendo que o Rei quer que eu case com a senhorita?! — Gakupo repetiu incrédulo, quase gritando com o choque — M-Mas... mas eu sou apenas um Duque, nem sequer Príncipe sou... sem falar que eu já tenho uma noiva! — ele acrescentou, pela primeira vez na vida achando aquele seu casamento arranjado com Luka muito útil
— Sim, sim, mas todo mundo sabe que o senhor está tentando se separar da Marquesa de Rose — Haku respondeu, abanando a mão livre, como que dando pouca importância à esse fato — O que, aliás, não é permitido. Não importa se seus pais e dos dela morreram, se eles arranjaram um casamento entre os senhores, então os dois deviam se casar! Por que acha que meu pai está fazendo vista grossa quanto à essa sua separação da Marquesa?! Porque ele quer que eu me case com o senhor, é claro!
— Mas... mas eu não sou um Príncipe...
— Sim, eu já ouvi essa parte! — ela interrompeu — Mas meu pai não se dá bem com os herdeiros dos reinos vizinhos, e os aliados deles têm, ou apenas filhas mulheres, ou filhos muito novos, mais jovens que o meu irmão! Por isso o senhor foi a principal escolha. Também havia o Conde de Bleu, mas... depois que veio à tona as coisas que ele fazia com o Len-kun, é claro que meu pai descartou essa hipótese
— Ou seja, só sobrou eu — Gakupo concluiu secamente
— Exatamente — ela concordou, tomando o resto do conteúdo da taça de uma só vez — Sinceramente, pouco me importa se você tem ou não um caso com aquele menino... mas, se depois das minhas investigações eu chegar à conclusão de que não, então ele vai me obrigar a casar com o senhor. E, eu concluir que sim, então papai desistirá de eu me casar com o senhor, mas ele me arranjaria algum outro noivo de quem eu não gosto, o que de nada me serviria. Se isso acontecer, na melhor das hipóteses, a guarda do Len-kun seria retirada do senhor, e o senhor ficaria proibido de vê-lo, mas eu duvido que pare por aí. Talvez seja preso, ou tenha seu título de Duque revogado... eu não sei, isso é meu pai quem decide
— Não gosto de nenhuma das duas opções — Gakupo resmungou — Sem ofensas — ele acrescentou rapidamente
— Imagine, estou tão "feliz" com essa idéia quanto o senhor — ela respondeu sarcasticamente. Em seguida, a porta se abriu de repente, e Len e Piko entraram por ela
— Esse é o jardim mais lindo que eu já vi na vida! Você precisa ver também, Nee-san! Precisamos fazer um igual lá no Palácio! — Piko exclamou, sorridente, quase pulando de tanta empolgação
— Sim, sim, que seja... bom, acho que já chega por hoje — Ela se levantou, um pouco tonta depois de todo o vinho que tinha tomado — Vamos, Piko, está na hora de ir pra casa... voltarei em breve pra ver como andam as coisas por aqui, Vossa Excelência
— É claro, volte quantas vezes quiser, Alteza — Gakupo respondeu, forçando um sorriso — O senhor também, Príncipe — ele acrescentou
— Pode apostar que vou voltar! Aqui é tudo tão lindo, e é muito divertido conversar com o Len-kun! — o Príncipe exclamou, sorrindo mais ainda
— Já chega, Piko, vamos embora. Até Logo, Excelência — Haku se despediu, arrastando o irmão junto com ela. Depois que eles saíram, Gakupo perguntou
— O Príncipe te perguntou alguma coisa, Len? Você sabe... sobre nós?
— Não exatamente... só disse que o motivo da visita da irmã dele era interrogar o senhor sobre esse assunto, por causa dos boatos que estão correndo sobre o senhor... bem... f-fazer comigo as mesmas coisas que o Conde fazia... mas eu neguei na mesma hora, e depois ele não falou mais sobre esse assunto
— Entendo... você fez bem em negar, embora seja horrível ter que mentir assim...
— Não é mentira — Len interrompeu — Ele me perguntou se o senhor fazia comigo as mesmas coisas que o Conde fazia, e o senhor não faz. O Conde... me forçava a fazer todo o tipo de coisa constrangedora e dolorosa... e o senhor nunca fez nada parecido, nem nunca me forçou a fazer nada. Por isso, os boatos não são verdadeiros
— Entendo... é, acho que tem razão — Gakupo deixou escapar um sorriso, o primeiro sorriso sincero que dava naquele dia.
Enquanto isso, Haku e Piko caminhavam lentamente pelo jardim até a saída principal da mansão, onde uma carruagem os aguardava para levá-los de volta ao Palácio.
— E então, Piko? O que você achou?
— Do jardim? Horrível, tem flores coloridas e juntas demais, mal dá pra distinguir as cores!
— Não estou falando do jardim, seu tonto — Haku resmungou — Falo do garoto
— Ah, o Len-kun? Ele negou tudo, é claro.... e pareceu bastante sincero quando disse que os boatos eram falsos — Piko contou, com um ar mais sério — Mas, eu ainda acho que ele está escondendo alguma coisa. Só não sei o que é
— Entendo... parece que foi uma boa idéia fazer o interrogatório separados afinal — Haku concluiu — Finalmente esse seu rostinho fofo e ingênuo serviu pra alguma coisa... aposto como o Len-kun não suspeitou de nada
— Ora, o que é isso, Nee-san... falando assim, parece até que eu sou o culpado da história — Piko voltou a sorrir, porém de um jeito bastante dissimulado, ao contrário do sorriso alegre e infantil que dava antes — E você, teve alguma sorte?
— O Duque também negou tudo, é claro... mas também parecia preocupado com alguma coisa. Aposto que ele está escondendo muito mais do que apenas o que dizem nos boatos — Haku respondeu — Aliás, ele me contou um boato muio interessante do qual eu ainda não tinha ouvido falar... algo sobre estarem espalhando por aqui que a irmã gêmea do Len-kun tem uma queda por você. Sabia disso?
— É o que?! — Piko virou-se para a irmã incrédulo — Francamente, era só o que me faltava! Aquela garota brega não passa de a filha de um simples Marquês, e adotada ainda por cima! Nem morto eu iria querer alguma coisa com uma menina cafona e simplória como aquela, um Príncipe como eu pode arrumar coisa melhor!
— É, suponho que sim... como um Príncipe, acho que você deveria se casar com alguma Princesa afinal — sua irmã ponderou
— Mas é claro que sim! E, além do mais, ainda é muito cedo para se pensar nessas coisas... eu sou apenas uma criança inocente afinal, não sou? — ele completou com um sorriso irônico, mostrando apenas para a irmã sua verdadeira personalidade, tão contrastante com a de uma criança sorridente e ingênua que interpretava antes quanto seus olhos bicolores
— Aham, inocente, sei... sim, é claro — a mais velha deu uma risadinha — Ah, mas aconteceram tantas coisas além disso... e eu acabei deixando escapar que nosso pai pretende me fazer casar com ele depois que o divórcio dele e da Marquesa sair...
— Não era pra você ter contado isso, era pra ser segredo! — o mais novo exclamou — Como você foi contar uma coisa des... você andou bebendo de novo, Haku-neesan??
— Talvez um pouquinho... tinha alguma coisa suspeita naqueles bolinhos! — ela exclamou, culpando a comida, que de fato continham uma forte dose de licor em sua composição
— Nosso pai não vai gostar nadinha de saber que você contou sobre o seu possível casamento com o Duque... — Piko comentou, com ar de reprovação
— Ele não precisa saber disso! — a mais velha rebateu, de um jeito tremendamente infantil — E, seja como for, ambos temos certeza de que aqueles dois estão escondendo alguma coisa
— Ah, sim, isso com certeza estão... e nós vamos descobrir o que é, não importa quantas vezes precisemos voltar nessa mansão cafona! — Piko exclamou, voltando a sorrir, de um jeito hipócrita demais para um menino de apenas doze anos.
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