Loveless
12 Capítulo 12 - ♫ Setsugetsuka ♪
"Meu coração tem sido confundido por você mais do que você imagina
Ao ver a neve, a lua e as flores, eu penso em você.
Eu era incapaz de desviar os olhos, pois eles haviam sido capturados
Por sua figura encantadora com um leque, em uma das mãos
Quando eu vou encontrá-lo, pássaro engaiolado?
Nesta noite fascinante de lua cheia"
~~~~~X~~~~~X~~~~~
Mesmo no dia seguinte Gakupo ainda não conseguia suportar a indignação sentida em seu breve encontro com o Conde Kaito. Saber que Kaito pretendia recuperar a posse Len e que estaria disposto a qualquer coisa parta fazê-lo tirou completamente a atenção do Duque de qualquer outro assunto que ele tivesse a tratar. Ele chegou a visitar o Barão, o pai adotivo de Rin, e lhe alertou sobre as intenções que Kaito tinha de se apossar da filha dele, ao que o Barão agradeceu muito e dobrou a segurança da garota, não permitindo nem que ela saísse na rua sem estar acompanhada de pelo menos meia dúzia de seguranças, mas mesmo depois disso Gakupo ainda não conseguia se livrar de toda a raiva que sentia de Kaito. Nem mesmo a dificuldade em cancelar seu noivado com Luka ou os interrogatórios frequentes de Miku pareciam ter mais importância diante desse fato. Em uma tentativa de se livrar desses pensamentos frustrantes e extravasar um pouco a raiva, ele decidiu passar a manhã fora, em uma espécie de jardim oculto com um lago do outro lado do bosque localizado em seu imenso jardim, por alguma razão decidindo levar Len junto. Não que ele temesse que Kaito simplesmente invadisse sua casa enquanto ele estava longe e sequestrasse o garoto, mas alguma coisa lhe dizia que seria melhor se Len estivesse ao lado dele nesse passeio.
— Por que me trouxe até esse lugar afastado, Mestre Gakupo? Aonde nós estamos? — o loiro indagou, admirando as enormes árvores ao redor deles, realmente surpreso e encantado com a beleza do lugar embora não conseguisse demonstrar isso com palavras ou expressões faciais
— Como assim "aonde"? Estamos no meu jardim, é claro! — Gakupo exclamou como se ele tivesse perguntado algo completamente óbvio — O jardim dos fundos, na verdade, localizado atrás da propriedade principal
— Esse lugar enorme é seu jardim? É... realmente lindo — Len comentou sinceramente, esforçando-se para demonstrar isso, sem muito sucesso — Então... por que o senhor me trouxe aqui?
— Estou com aborrecimentos demais na cabeça, preciso distrair minha mente um pouco — ele respondeu, reprimindo uma careta ao se lembrar do motivo de seu aborrecimento. Sentou-se então na beira do lago e começou a abrir a enorme mala retangular que tinha trazido
— Eu... ainda não entendi porque o senhor me mandou vir junto...
— Por que eu quis. Algum problema com isso? — Gakupo resmungou, irritado. Na verdade não eram nem as perguntas de Len que o aborrecia, e sim o fato de ele mesmo não saber o porquê de ter mandado Len acompanhá-lo
— N-Não, imagine... não tenho porque questionar suas ordens — o loiro apressou-se em responder, recuando um passo. Gakupo suspirou, tentando se acalmar. Não queria que Len tivesse medo dele de jeito nenhum, muito embora o garoto não parecesse ser mais capaz de sentir medo ou qualquer outra coisa. Questionou-se várias vezes se deveria contar à Len sobre os planos de Kaito, mas no final acabava sempre concluindo que era melhor não fazê-lo, pois não queria despertar memórias ruins no garoto, muito embora talvez fosse melhor pelo menos avisá-lo para ter cuidado e não acabar sendo raptado por Kaito ou coisa parecida
— Venha aqui — o Duque mandou, tentando afastar esses pensamentos da cabeça, e Len se aproximou alguns passos. Ele tirou uma vara de pescar da maleta retangular que tinha trazido e mostrou ao mais novo — Você sabe pescar?
— Não... nunca fiz isso antes
— Então sente aqui, eu vou te ensinar — Gakupo mandou, e Len já ia perguntar de novo porque raios um Duque estava se preocupando em ensinar um de seus criados a pescar, mas lembrou-se de que tinha acabado de levar uma bronca e achou melhor não questionar as ordens sem sentido de seu Mestre outra vez e apenas obedecer em silêncio — Primeiro você enrosca o anzol na linha, e depois coloca a isca no anzol. Geralmente usa-se uma minhoca, mas pode usar outro tipo de isca se quiser — ele explicou, demonstrando como prender a isca no anzol. A minhoca na verdade fez com que Len se lembrasse de outras coisas mais desagradáveis para ele, e sentiu seus ombros tremerem levemente, mas achou melhor não dizer isso, nem Gakupo percebeu nada — Vamos, agora tente você — ele entregou outra vara de pescar para o loiro, que tentou fazer como ele tinha explicado, embora estivesse tendo dificuldades. A vara era pesada demais para seus braços frágeis, embora ele estivesse se esforçando para segurá-la, e até que conseguiu prender o anzol na linha, mas quando chegou na parte de prender a isca no anzol, as lembranças ruins retornaram, a mão que segurava a minhoca começou a tremer compulsivamente, e o animal escapuliu de sua mão, caindo na grama e rastejando pra longe — Ahh cuidado! Você deixou ela fugir! — o Duque exclamou, notando então que o garoto ainda tremia, os olhos focados na palma da mão que antes estava segurando a minhoca — Ei Len, você está bem?? Você... tem algum problema com vermes ou coisa assim?
— N-Não senhor... não tenho nenhuma problema com qualquer tipo de animal, mas... é q-que... — ele gaguejou com dificuldade, sem encarar o mais velho — Bem, é que eu acabei me lembrando de uma coisa... ruim.... por isso deixei ela escapar sem querer. Desculpe
— Está bem... — Gakupo murmurou, começando a entender a linha de raciocínio do loiro. Ele pegou outra minhoca e prendeu no anzol para Len — Bom, você não precisa olhar pra ela de qualquer forma, ela vai ficar mergulhada na água afinal. Agora, continuando... pode-se pescar na beira de um rio ou lago, ou em um barco, no centro dele. Se tivesse um barco aqui seria melhor, na verdade...
— Acho que é melhor ficar na margem do lago — Len comentou
— Por que?
— Bem, é que... se ficássemos em um barco, ficaríamos cercados por água e, bem... eu não sei nadar
— Ah, é claro que não sabe — Gakupo deixou escapar uma risadinha. Não saber fazer esse tipo de coisas simples era mesmo típico de Len — Bom, não importa, podemos ficar na margem do lago mesmo. Agora é só lançar o anzol na água, e esperar que os peixes mordam a isca. Quando acontecer, você tem que puxar com toda a força que tiver, entendeu?
O loiro assentiu, e ambos lançaram o anzol na água ao mesmo tempo, esperando que os peixes o mordessem. Poucos minutos se passaram e o primeiro mordeu o anzol do Duque. Ele puxou a vara com força, e colocou o primeiro peixe na cesta de palha ao lado dele. Pouco mais de dez minutos depois, aconteceu a mesma coisa. De poucos em poucos minutos os peixes pareciam vir como mágica para a vara de pescar do mais velho, e logo ele já tinha enchido seu cesto. Len não tinha tido tanta sorte, conseguiu apenas três, e no último o peixe resistiu tanto em ser fisgado que quase puxou o garoto pra dentro do lago, então Gakupo achou melhor encerrar a pescaria por ali.
O sol já estava à pino, então Gakupo resolveu almoçar ali mesmo antes de voltar. Disse que Len podia comer junto com ele, embora o garoto tivesse recusado várias vezes, até Gakupo dizer que aquilo era uma ordem e ele não teve escolha além de aceitar. Depois do almoço, Gakupo pegou um cacho de uvas na cesta de piquenique, e já ia começar a comê-las, quando Len teve a "brilhante" idéia de lhe dar as uvas na boca em agradecimento pelo almoço.
— Mas o que você está dizendo agora, Len?! — o Duque quase engasgou ao ouvir aquilo, sentindo um incômodo constrangimento
— Bem, é que o senhor acabou dividindo sua comida comigo sem necessidade... eu sou apenas seu servo afinal, não tem porque eu comer da mesma comida que o senhor — o garoto explicou, abaixanndo um pouco a cabeça — Então acho que isso é o mínimo que posso fazer para agradecer
— Você não tem que me agradecer por nada, eu fiz aquilo porque quis — Gakupo virou o rosto para o lado, tentando disfarçar o embaraço
— Mas, Mestre... desse jeito vai parecer que estou abusando da sua boa vontade. Por favor me deixe fazer isso
— Já disse que não preci...
Antes que o Duque completasse a frase, Len o puxou com uma rapidez impressionante em sua direção, apoiando a cabeça do maior em seu colo. Gakupo piscou várias vezes, surpreso em de repente estar encarando os olhos azuis do loiro do alto.
— Isso... é tão ruim assim para o senhor? — Len indagou, e por um momento fugaz Gakupo pôde detectar um leve tom de tristeza em sua voz
— Não, não é ruim — ele respondeu por fim, desviando os olhos dos de Len — Talvez não tão faça mal... fazer isso no fim das contas — ele voltou a encará-lo e, ou estava muito enganado, ou viu a leve sombra de um sorriso perpassando a face do mais novo.
Len começou a tirar as uvas do cacho e a depositá-las na boca de seu Mestre, roçando ocasionalmente os dedos nos lábios dele. Repetiu essa ação várias vezes, e quanto mais uvas o loiro lhe dava, mas Gakupo era obrigado a admitir que adoraria poder ficar assim pra sempre. Não comendo uvas, e sim deitado no colo de Len, perto dele, sentindo seu cheiro... aquilo era tão agradável, tão aconchegante, que Gakupo se perdeu imaginando como seria poder ficar assim pra sempre, e sobressaltou-se ao escutar a voz do mais novo:
— Seus cabelos são tão bonitos, Mestre... — ele comentou distraidamente, e Gakupo percebeu de repente que Len estivera enrolando os dedos da mão livre em suas mechas de cabelo há sabe-se lá quanto tempo e ele nem tinha notado — São tão macios e bem cuidados... tão longos, e escuros, assim como essas uvas — ele comentou, notando que as uvas tinham o mesmo tom arroxeado que o cabelo de Gakupo — Ah, me desculpe! E-Eu não devia estar... m-mexendo assim nos cabelos do senhor sem permissão, sinto muito... é só que...
— Está tudo bem — o mais velho interrompeu — Não me importo de você mexer nos meus cabelos de vez em quando — ele voltou a se sentar, sentindo seu corpo repentinamente frio e desconfortável sem o calor do corpo de Len junto ao dele — Bom, acho que chega de uvas, eu já comi até demais. Você não quer um pouco?
— Ah, não.... já estou satisfeito, obrigado — Len apressou-se a dizer, guardando o restante das uvas na cesta de piquenique. Coçou então os olhos com as costas da mesma mão que antes estivera enroscada nas madeixas do Duque, podendo sentir um resquício do cheiro agradável do cabelo dele
— Está cansado?
— Ah, está tudo bem... é só que... eu sempre fico meio sonolento depois do almoço — o loiro respondeu, lutando para manter os olhos abertos
— Eu vou pescar mais um pouco, e você... bem, parece que não leva muito jeito pra isso — Gakupo comentou, tentando conter uma risada — Então pode dormir um pouco se quiser
— Então... só um pouquinho... — Len ainda teria resistido mais, talvez até insistido em tentar pescar novamente, mas estava com tanto sono agora que não conseguiu fazer isso, e apenas recostou-se ao tronco de uma árvore e fechou os olhos, dormindo quase instantaneamente.
Gakupo sorriu, admirando aquele rosto infantil adormecido por vários segundos, esquecendo-se completamente da pescaria. Aquele garoto era tão delicado, tão indefeso... como alguém podia pensar em fazer mal à ele? Como alguém poderia ter a capacidade de fazer mal àquele garoto tão frágil, que nunca tinha feito nada pra merecer nada daquilo?! Só de pensar em todas as coisas horríveis que Len já tinha sofrido, sua raiva e indignação já voltavam com força total... não era à toa que ele havia ficado com essa personalidade distorcida, incapaz de demonstrar um sentimento sequer! Depois de sentir tanta dor e sofrimento por tantos anos, qualquer um preferiria livrar-se de suas emoções para não sentir mais dor. Gakupo não podia deixar que Kaito colocasse as mãos nele de novo, não mesmo! Teria que mantê-lo protegido e seguro até o dia em que tivesse que devolvê-lo para Rin. Mas... ultimamente, sempre que pensava nisso, seu coração contorcia-se dolorosamente, cada vez com mais intensidade. Não queria se separar de Len. Não queria ter que entregá-lo para Rin, nem para Kaito, nem pra ninguém. Queria que o loiro ficasse apenas ao lado dele, para sempre e sempre. Mas... por que? Essa era a pergunta para a qual ele nunca conseguia encontrar a resposta. Por que ele não queria se separar de Len? Por que sentia esse desejo tão forte de protegê-lo afinal?!
Antes que chegasse à uma conclusão, Len escorregou da árvore para o chão, batendo com a cabeça nas pernas dobradas dele. Mexeu-se um pouco e resmungou alguma coisa, mas continuou dormindo, com a cabeça apoiada no colo de Gakupo. O maior arquejou e piscou várias vezes, sentindo o rosto queimar, entre perplexo e embaraçado. Ele não era pesado, de modo algum. Na verdade era tão leve que Gakupo poderia carregá-lo nos braços com facilidade. E tinha um cheiro tão bom, tão doce... assim, de perto, Gakupo pôde perceber que ele de fato era muito mais frágil do que aparentava. Seus braços eram finos, a pele era pálida, provavelmente por causa dos muitos anos que passou trancado sem ver a luz do sol, e ele era baixo demais para alguém de 14 anos, devia ter quase a mesma altura que Rin, mesmo sendo um garoto. Gakupo teve um impulso de tocá-lo, e antes que pudesse perceber o que estava fazendo, sua mão se moveu, e ele viu-se acariciando os cabelos loiros do mais novo. Len moveu-se minimamente, e murmurou:
— Mestre... Gaku... po
Aquilo fez o coração do Duque dar um poderoso salto, e ele afastou a mão do cabelo do garoto tão depressa quanto o tinha tocado. E então, de repente, uma luz pareceu se acender no interior de sua cabeça. O porquê de ele querer proteger Len, de não querer entregá-lo para ninguém, de sentir tanta raiva quando pensava nas coisas que Kaito havia feito com ele... e porque não conseguia explicar isso para ninguém. Era tudo tão óbvio, como ele não percebeu antes?! Sim, era óbvio demais... e no entanto, muito preocupante também, e provavelmente errado.
— Essa não... — Gakupo murmurou incrédulo, passando os dedos pelos próprios cabelos nervosamente — Eu... me apaixonei por ele.
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