Loveless

13 Capítulo 13 - ♫ Fate: Rebirth ♪


"Por favor, me leve para aquele lugar
Se nosso encontro não pode ser perdoado
Então eu quero ser desintegrado até que não reste mais nada
Eu consigo lembrar do sentimento
Em minhas duas mãos
Eu realmente não posso escapar
Das garras da culpa"

~~~~~X~~~~~X~~~~~

Gakupo retornou de sua pescaria mais atordoado do que tinha ido. Perdeu completamente o apetite depois de chegar àquela conclusão e não jantou, optando por passar o resto do dia trancado em seu quarto, tentando digerir aquela informação. Também não conseguiu dormir, e passou a noite inteira pensando naquilo. Como ele podia ter se apaixonado por Len?! Como deixou que um absurdo desses acontecesse?? Pensou várias vezes se não teria chegado à conclusão errada e o problema era outro, mas não havia como negar, tudo apontava naquela direção. Segundo Miku, que tinha um ótimo faro pra essas coisas, os "sintomas" de uma pessoa apaixonada eram: ela ficava nervosa quando a pessoa amada estava por perto, e mais ainda se falasse com ela; gaguejar e corar quando se está falando com a pessoa de quem se gosta; enrubescer muito mesmo e sentir seu coração dar fortes cambalhotas se tivesse qualquer contato físico com essa pessoa, por menor que fosse; sentir uma forte vontade de querer estar sempre ao lado da pessoa amada, mesmo ficando sempre tão nervoso e embaraçado, e ter o desejo de ajudar e proteger essa pessoa. Haviam vários outros, Miku citou uma lista enorme para ele uma vez, mas esses eram os principais e os únicos dos quais Gakupo se lembrava no momento, e ele se encaixava em todos eles.


Ainda não entendia como aquilo tinha acontecido. Ele e Len não tinham nada em comum. Verdade que o garoto também já tinha pertencido à nobreza uma vez, mas isso tinha sido há muitos anos, uma série de outras coisas aconteceu depois disso. Len só estava na casa dele por um pedido de Rin, que por sinal, teria um ataque se soubesse dos sentimentos de Gakupo. E quando ela conseguisse juntar dinheiro suficiente, compraria o irmão de volta, e o loiro iria embora pra longe dele. Só aquele simples pensamento fazia o coração do Duque se contorcer dolorosamente, o que só servia como mais uma prova de que ele havia chegado à conclusão correta, embora ainda não compreendesse como isso aconteceu. Len era pelo menos cinco anos mais novo do que ele e, acima de tudo, era um garoto! Como Gakupo acabou se apaixonando por alguém tão mais jovem do que ele, e um rapaz ainda por cima?! Se fosse uma garota, ainda podia se dar um jeito, afinal, a idade não afetou em nada a decisão de seus pais de inventarem aquele seu noivado com Luka.


É verdade... ainda havia Luka nessa história. Não que nenhum dos dois já tivessem tido sentimentos um pelo outro alguma vez, mas ele ainda estava preso à ela, então não poderia assumir nenhum tipo de compromisso com outra pessoa. Luka o esfolaria vivo se soubesse dessa história... não. Ela provavelmente riria da cara dele se soubesse que Gakupo tinha se apaixonado por um garoto.


Por mais que tentasse, Gakupo não conseguia entender como isso tinha acontecido. Len era apenas seu servo naquela casa, assim como vários dos outros que ele tinha. E era um garoto tão inexpressivo, nunca ria, nem chorava, nem ficava nervoso ou com raiva, nem nunca reclamava de nada... talvez fosse o passado trágico do garoto que tenha feito Gakupo se afeiçoar à ele, sim, era bem possível... Gakupo sempre abominou essa história de o Conde de Bleu abusar de uma criança que deveria ser supostamente seu filho adotivo, e agora, mais do que nunca.


Mas agora... veja só o que ele mesmo tinha se tornado. Segundo as teorias de Miku, uma pessoa apaixonada sentiria vontade de ficar perto, dar as mãos, abraçar e beijar a pessoa amada... e ele sabia muito bem disso, mesmo sem ter precisado ouvir as teorias mais fantasiosas e mirabolantes da amiga. Portanto, isso implicava que, se ele estava apaixonado por Len, então também acabaria sentindo vontade de tocá-lo, de abraçá-lo... talvez até de beijá-lo! Agora que tinha pensado nisso, foi tomado por uma vontade louca de fazer isso agora mesmo... e o pior é que ele sabia que, se ele ordenasse, Len deixaria que ele fizesse todas essas coisas sem reclamar. Aquilo só aumentava ainda mais a vontade de sair correndo de seu quarto e ir tocá-lo agora mesmo... mas, não, ele não podia fazer isso! Não queria forçar Len a fazer essas coisas constrangedoras, desse jeito ele seria igual à Kaito! Na verdade, talvez ele já fosse igual à Kaito... tinha sido atraído pela mesma pessoa, e estava interessado em um garoto frágil e indefeso, que vivia em sua casa e obedecia todas as suas ordens, assim como havia acontecido com o Conde antes. Ele realmente era... igual à Kaito, a pessoa mais cruel e degenerada que conhecia? Ele realmente tinha se tornando uma pessoa vil e baixa, movido apenas por desejos carnais, havia mesmo decido até esse ponto?! A resposta não importava realmente, apenas aquele simples pensamento fez seu peito pesar dolorosamente, e seu coração se contorcer de culpa. O que havia acontecido com aquele desejo inicial de proteger Len? Como tinha acabado se apaixonando por ele, e sentindo essas vontades inexplicáveis e embaraçosas?!


Não... o desejo de proteger, de cuidar dele, ainda estava lá. Mesmo sentindo todas aquelas novas sensações, até então desconhecidas para ele, ainda desejava do fundo do coração poder cuidar de Len, e defendê-lo de tudo e de todos que pudessem lhe fazer mal. E também desejava poder recuperar o coração humano dele. Len havia jogado seus sentimentos fora para que não precisasse sofrer enquanto Kaito o torturava e se aproveitava dele, mas ele estava livre das garras do Conde agora. Só não havia conseguido recuperar seu coração. E Gakupo estava decidido a devolver algum sentimento, por menor que fosse, ao coração daquele garoto. Sim, isso ele poderia fazer.... e também tinha todo o direito de protegê-lo, sem se preocupar com perguntas e comentários alheios, na verdade era obrigação dele cuidar de Len enquanto o loiro vivesse em sua casa, graças ao pedido de Rin, então não haveria problema nenhum em fazer isso! No entanto.... não poderia lhe contar o verdadeiro motivo de estar fazendo todas essas coisas.


Quando chegou à essa conclusão, já tinha amanhecido, o que significava que não adiantaria de nada tentar dormir agora, embora ele muito provavelmente não fosse conseguir. Decidiu levantar de uma vez da cama, onde parecia ter passado uma eternidade pensando, vestiu-se e desceu para tomar o café da manhã, embora não estivesse com a menor fome.


— M-Mestre Gakupo! Bom dia, senhor — uma empregada cumprimentou, assustada em vê-lo de pé tão cedo — O senhor levantou cedo hoje, aconteceu alguma coisa?
— Bom dia. É, acho que aconteceu sim... mas não se preocupe com isso — ele respondeu vagamente, ainda perdido em pensamentos
— B-Bem, o café já deve estar quase pronto... eu vou até a cozinha ver como andam as coisas, com licença, Mestre — ela se curvou brevemente e saiu apressada em direção à cozinha para apressar as demais empregadas
— Ah... Mestre Gakupo. Bom dia — Len veio da direção oposta, depois que a empregada se retirou. Coçava os olhos com as costas da mão, ainda sonolento, o que por algum motivo o deixava terrivelmente fofo. O coração de Gakupo deu salto só em ouvir aquela voz suave e ver aquela expressão sonolenta no rosto dele
— Bom dia Len... — ele respondeu desviando os olhos, tentando normalizar sua respiração
— O senhor acordou cedo... vai sair de novo? Eu devo ir junto? — o menor perguntou
— Ah, não... n-na verdade...
— Len-kun! Venha aqui me ajudar, por favor! — uma empregada chamou lá da cozinha, e o garoto fez uma breve reverência e se retirou, indo ver o que a mulher queria. Gakupo soltou o ar, finalmente conseguindo respirar direito sem a presença dele. Quanto tempo mais teria que aguentar isso?!


Pelo jeito, bastante, pois, alguns minutos depois, Len retornou da cozinha trazendo uma enorme bandeja mal equilibrada em suas duas mãos. Estava tão cheia de coisas que era obviamente pesada demais para ele carregar com uma mão só. Depositou a bandeja com cuidado na mesa diante de seu Mestre, e começou a pôr a mesa, arrumando os pães, bolinhos, chá, café, torradas, geléia, manteiga, e um monte de outras coisas. Gakupo esticou a mão para pegar uma torrada, mas Len se adiantou e a segurou antes dele, fazendo suas mãos se esbarrarem. Só aquele pequeno toque já tinha feito o coração do Duque disparar feito louco, e ele ainda queria abraçá-lo?! Se fizesse isso seria um ataque cardíaco desse jeito!


— Geléia ou manteiga, Mestre? — Len indagou, alheio aos devaneios do mais velho
— Hein?! Ah... hãn... geléia — ele respondeu, com dificuldade para despertar de seus pensamentos para a realidade. Len estranhou o comportamento estranho dele, mas achou melhor não falar nada. Passou geléia na torrada e a entregou ao Duque
— Chá ou café? — ele perguntou
— Wahhh... acho que café — Gakupo respondeu, reprimindo um bocejo. Finalmente a falta de sono daquela noite tinha começado a fazer efeito nele
— O senhor dormiu mal essa noite? — o loiro indagou
— É, mais ou menos — o maior respondeu vagamente, mordendo a torrada. Na verdade ele não tinha nem pregado o olho a noite inteira — Fiquei acordado até tarde pensando em... ahn, alguns problemas... e não consegui dormir direito
— Se tiver alguma coisa que eu possa fazer para ajudá-lo, por favor, me diga, Mestre. Sabe que eu faria qualquer coisa para ajudar o senhor — o mais novo falou, e Gakupo quase cuspiu o café, sentindo seu coração dar outra poderosa cambalhota. "Qualquer coisa"... será que Len não tinha noção da conotação das palavras que ele usava?! Aquilo poderia ser interpretado de várias maneiras, sabe?! Algumas bem constrangedoras por sinal!


Gakupo olhou de esguelha para o loiro, e viu que ele havia se esquecido de abotoar alguns os botões da camisa, e como estava inclinado na direção da mesa agora, dava para ver uma parte sugestiva do tórax esguio dele. Gakupo sentiu seu rosto esquentar ao reparar nisso e desviou o olhar de volta para sua xícara de café fumegante. O Duque já tinha reparado nisso antes, mas o loiro costumava se esquecer frequentemente de fechar todos os botões da camisa, ou o zíper da calça... talvez pelo fato de que até alguns meses atrás ele não precisasse usar uniforme, nem tantas roupas. Na verdade, devia passar a maior parte do tempo sem elas. Esse mau hábito costumava causar certo constrangimento nas empregadas da mansão, e agora, em Gakupo também. Ele já tinha notado isso várias vezes antes, e nunca ficava corado assim, no máximo sentia um leve embaraço ou desconforto, mas não como agora! Parecia que o fato de ter percebido seus verdadeiros sentimentos em relação à Len tinha despertado não apenas vários novos tipos de sensações, mas estava mexendo com suas emoções também. Seus sentidos pareciam mais aguçados, agora ele podia sentir com clareza o perfume dele, o cheiro de seus cabelos loiros, a voz suave dele... conseguia até ver seu rosto, gravado em sua memória, sem precisar olhar para Len.


— Não... não se preocupe com isso, Len. Darei um jeito de alguma maneira, não precisa se preocupar — o Duque respondeu por fim, bebendo um gole de café. Estava quente e amargo... assim como ele. Ainda podia sentir seu rosto queimar só por causa da presença do loiro de pé ao seu lado, o cheiro adocicado dele entrando em suas narinas sem pedir permissão... e amargo, porque era como seu coração estava agora. Por mais que se desse conta do quanto seus sentimentos por Len eram fortes e verdadeiros, não poderia dizer isso para ele. Primeiro, ainda restava a questão de Luka: Gakupo não poderia se comprometer com nenhuma outra pessoa antes de conseguir anular definitivamente seu noivado com ela; Segundo, porque Len é um garoto, mais jovem e em uma posição social muito diferente da dele, ninguém aceitaria uma coisa dessas; E terceiro, e talvez o mais importante... porque Len não acreditaria nele. Pensaria apenas que é a mesma coisa que aconteceu antes com o Conde de Bleu, e que Gakupo queria apenas se aproveitar dele. Len provavelmente não resistiria, e faria tudo que ele mandasse como se fosse apenas mais uma ordem, mas não era isso que Gakupo queria. Por mais absurdo que fosse, o que ele queria era que Len sentisse o mesmo por ele, que também gostasse dele, que quisesse ficar ao lado dele, quisesse abraçá-lo e tocá-lo, não porque se tratava de uma ordem, mas porque ele desejava isso. Mas, como fazer um garoto traumatizado sem vontade própria nem coração se transformar em alguém capaz de sorrir, chorar, ficar com raiva, alguém que possui sentimentos... era o que Gakupo gostaria de saber agora.

Notas finais
Yoo minna! É, o nosso querido Duque está precisando de ajuda urgentemente... alguém aí por acaso conhece algum bom psicólogo dos tempos medievais? Se conhecer, apresente-o ao Gakupo, porque ele tá seriamente de um! u__u Deixem reviews onegai e me deixem feliz! *o*