Love comes softly
5 Davi
Notas iniciais
Colocando o quepe sobre os cabelos negros e guardando a arma no coldre em sua cintura, Davi deu as costas para o espelho e pegou um novo coldre que estava sobre a cama.
O objeto de couro foi atado à sua coxa esquerda e o policial sorriu ao ver sua pastora alemã carregando sua segunda arma.
"Ei garota, já pedi para você não carregar essas porcarias na boca." A arma foi retirada dos dentes da cadela e guardada no coldre de sua coxa, enquanto Davi acariciava as orelhas do animal. "Cuide da casa, eu volto amanhã de manhã."
A cadela latiu e o policial pegou as chaves da moto e o capacete, saindo de casa e trancando a porta.
A moto estava estacionada na garagem e Davi acionou o portão eletrônico enquanto dava partida no veículo.
O centro da cidade não estava cheio, dando liberdade para a moto deslizar pelas ruas tranquilamente. Seu relógio de pulso marcava onze horas, mas o policial se apressou mesmo assim. Meu almoço com o Johan é ao meio dia, mas eu tenho um compromisso antes.
A fachada do restaurante familiar apareceu em seu campo de visão e Davi começou a desacelerar a moto, encontrando uma vaga para estacionar a poucos metros da entrada do local.
O capacete foi guardado no compartimento em baixo do banco da moto e as rodas foram travadas. Eu estou feliz com esse compromisso. Nós dois somos homens crescidos, espero que seja algo agradável.
Um barulho de sino indicou que a porta fora aberta e várias cabeças se ergueram de suas refeições, observando o policial entrar. O rosto conhecido estava sentado na última mesa do ambiente e Davi se apressou para chegar até lá.
"Bom dia Davi!" O sorriso sincero estava lá como sempre e foi impossível não retribuir.
"Bom dia Liam! Fiz você esperar demais?" Davi retirou o quepe e se sentou de frente para o homem, apertando sua mão em um cumprimento empolgado.
"Não, não, acabei de chegar. Pedi um suco para nós, tudo bem?"
"Sem problemas, obrigado." A resposta foi finalizada com um menear de cabeça.
"Faz uma semana que não te vejo e você parece estar mais musculoso. Estão dando esteroides para os policiais?" Liam riu e colocou a mão no pulso de Davi.
O moreno retribuiu o sorriso e escapou sutilmente do contato físico, coçando a cabeça e desviando o olhar.
"Esteroides não são permitidos, Liam."
"Eu sei, era só brincadeira." Liam deu de ombros e agradeceu a garçonete que apareceu trazendo uma pequena jarra com suco de abacaxi e dois copos. "Então? Qual o motivo da sua ligação ontem? Por que queria me encontrar hoje?"
"Porque eu quero deixar as coisas claras entre nós." A expressão de alegria sumiu do rosto de ambos os homens e Davi cruzou os braços. Eu sempre fui uma pessoa direta, não é agora que eu vou deixar de ser.
Liam encheu o próprio copo com suco e mexeu o conteúdo com o canudinho, fazendo o gelo se misturar com o líquido. Ele sabe sobre o que eu quero conversar, mas... Ele não parece estar incomodado.
"Você sabe que eu me importo com você, Liam." Davi começou.
"Ora, Davi, por favor, vá direto ao ponto." O homem de cabelos negros resmungou enquanto tomava um gole do suco. Os cabelos dele são parecidos com os meus.
"Eu estou gostando de outra pessoa." Se era para ser direto, então Davi seria. "Eu e você terminamos há muito tempo, mas sei que você ainda gosta de mim."
Liam não respondeu, permanecendo focado em seu copo.
"Queria deixar claro aqui que é o fim, Liam. Sou seu amigo e gosto de conversar com você, mas enquanto seus sentimentos em relação a mim ainda forem de amor, nós deveremos parar de nos ver." A frase chegou ao fim sem que a voz de Davi emperrasse em momento algum. É quase como se eu tivesse ensaiado, mas... É que eu estou muito decidido.
O homem sentado a sua frente soltou o copo e sorriu.
"Você está namorando, Davi?"
"Ainda não."
"E como você sabe que essa pessoa te quer?"
"Eu não sei. Ele não disse com todas as letras."
"E valerá a pena me expulsar da sua vida por alguém que não é uma certeza?"
Assim que Liam terminou sua frase, o som do sino da porta anunciou a chegada de outro cliente. Os olhos azuis saíram de sua companhia e captaram o olhar despreocupado de Johan. Ele já está aqui...?
"Davi?"
"Sim." A resposta veio rápida e acompanhada por um sorriso. "Não importa o que ele faça comigo, ou que o nosso relacionamento acabe em nada, valerá a pena."
O sorriso sincero de Liam foi a última coisa que Davi pode ver antes que Johan chegasse até a mesa.
"Você já está aqui? Eu pensei em vir mais cedo para recebê-lo." Foi o primeiro comentário do rapaz de cabelos castanhos.
"Eu tinha um compromisso antes. Liam, este é Johan. Johan, este é Liam, um antigo amigo." O policial sorriu e fez as apresentações, tendo a oportunidade de ver os olhos de Liam observarem Johan.
"Bom dia." Johan assentiu com a cabeça.
"Bom dia. Eu já estou de saída, então aproveitem o almoço." Liam sorriu e apertou a mão de Johan, dando leves batidinhas nas costas do rapaz. "Nos vemos por aí, Davi. Entendi o recado."
"Liam!" A voz do policial chamou a atenção de Liam e ele se virou antes de ir embora. "Eu não estou te expulsando da minha vida. Estou dando a oportunidade de você continuar a sua."
O homem de cabelos negros sorriu novamente, parecendo ainda mais sincero dessa vez. Seus olhos castanhos brilhavam e havia um ar de tranquilidade no seu jeito de andar.
"Obrigado." O homem lançou uma breve piscadela para Davi, seguido por um sorriso encorajador. Ele não está sendo falso. Liam realmente aceitou o que eu disse.
O sino da porta anunciou que Liam fora embora e só então Johan se sentou, ocupando o lugar onde o homem estivera. Os olhos azuis encontraram com os verdes.
"Então... O que foi isso?" O rapaz de cabelos castanhos começou.
"Posso explicar depois que fizermos nossos pedidos? Estou morrendo de fome." Davi sorriu e pegou o cardápio.
Johan deu de ombros e fez o mesmo, afundando em silêncio.
x
Depois que os pedidos foram feitos, Davi explicou o que ocorrera para Johan. Explicou que Liam era seu ex-namorado há um ano, mas que ambos ainda mantinham uma relação de amizade. Explicou que aquele encontro servira para colocar um fim aos sentimentos unilaterais de Liam, assim como explicou que agora tudo deveria ir para um bom caminho.
Johan ouvira a tudo em silêncio, assentindo com a cabeça de vez em quando. Ele parece ter aceitado tudo muito bem. Será que ele não se importa?
"Sabe, antes que você pergunte, não, eu não me importo. É igual você disse ontem: isso é o seu passado e eu não vou mudá-lo. No entanto, estou feliz por saber que você fez isso por mim.Verdadeiramente feliz." As bochechas de Johan estavam levemente coradas, mas ele não desviou o olhar em momento algum. Completamente adorável. "Mas ele tem razão Davi."
"Razão?"
"Eu não posso te dar garantias de que vou mudar. Ainda quer arriscar tudo por mim?"
Davi sorriu e segurou a mão de Johan, levando-a aos lábios e depositando um casto beijo em seus dedos.
"Já disse que valerá a pena."
O rapaz de cabelos castanhos corou, mas não disse nada, nem afastou a mão do contato com Davi. Embora eu ache que ele já está mais do que curioso para saber como as coisas acontecerão.
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O almoço foi agradável e eles permaneceram um bom tempo falando um sobre o outro.
Davi não conseguiu esconder o sorriso quando descobriu que Johan fora uma criança hiperativa, sempre brincando de subir em árvores e tomando broncas da mãe quando voltava sujo demais para casa. É divertido imaginar um Johan pequeno, brincando e tomando bronca da mãe.
Johan deixou que uma gargalhada tomasse conta do ambiente quando Davi disse ter caído de cara no chão, durante um treino policial, e ser pisoteado pelo pelotão, que não havia sido autorizado a parar de correr. A risada e o sorriso dele são lindos.
"Um desastrado como você entrou para a policia? Onde estão as regras?" Johan cobria a boca com a mão direita e apertava a barriga com a esquerda.
"Eu melhorei com o tempo!" Davi se deixou rir e deu um gole no suco antes de mudar de assunto. "E o pequeno Rick? Já voltou para casa?"
"Meu irmão foi buscá-lo hoje de manhã. Ele foi embora dormindo no colo do pai." Johan pigarreou e cruzou os braços, se encostando corretamente na cadeira. "De qualquer maneira, Davi, eu tenho uma pergunta para fazer."
"Claro, fique a vontade." O policial tornou a virar o copo de suco.
"Dói?" Johan continuou ao ver a sobrancelha inquiridora de Davi. "Sexo entre homens, quero dizer."
O policial engasgou e soltou o copo sobre a mesa, tossindo como se sua vida dependesse disso.
"Ontem, depois que o Rick já estava dormindo, eu fiquei curioso em relação a isso e acabei indo procurar na internet. Até assisti alguns vídeos, mas não tenho experiência alguma com isso e parece doer." Johan continuou a falar normalmente, sem gaguejar, sem corar, sem desviar o olhar. Ele está falando sério?
Davi piscou algumas vezes — depois que sua crise de tosse passou — e começou a rir. Seus lábios se moviam rapidamente enquanto suas gargalhadas chamavam a atenção de todos no restaurante. Seus olhos lacrimejavam e ele tinha certeza de que estava prestes a morrer de rir.
"O que é tão engraçado?" Dessa vez Johan corara, envergonhado pela crise de riso.
"Desculpe Johan..." O policial limpou as lágrimas dos cantos dos olhos e riu mais um pouco antes de continuar. "Só é extremamente engraçado te imaginar procurando pornografia gay na internet."
O rapaz de cabelos castanhos corou e abriu a boca para dizer algo, mas ficou em silêncio e passou a mão nos cabelos, parecendo pensativo. Eu acho que ele acabou de se dar conta do que fez.
"Depende muito." Davi se inclinou para frente, falando baixinho para que apenas Johan escutasse. "Se for a primeira vez, se for com alguém despreparado, o tamanho... Tudo isso depende. No seu caso, provavelmente doerá um pouco, e eu estou sendo sincero porque sei que você não gosta de mentiras e não existe motivo para eu mentir sobre o assunto."
Johan escutava a tudo em silêncio, parecendo analisar palavra por palavra. Ele está levando muito a sério. Também não percebeu que eu dei a entender que ele seria o passivo da relação. Davi deixou que uma risada abafada escapasse por seus lábios e isso chamou a atenção do homem a sua frente.
"Do que está rindo agora?" Johan franziu o cenho.
"Acabei de dar a entender que você seria o passivo da relação e você não percebeu."
"Eu percebi. Só não me importo. Provavelmente seria o passivo mesmo." O rapaz de cabelos castanhos deu de ombros e corou levemente, ignorando o olhar surpreso de Davi. Realmente, eu me surpreendo todas as vezes que conversamos.
Depois de um tempo de silêncio, Davi pigarreou.
"De qualquer forma, agora eu tenho uma pergunta para você." Um sorriso malicioso tomara conta de seus lábios e ele fez sinal para que Johan se aproximasse.
O rapaz de cabelos castanhos se inclinou sobre a mesa até que os lábios de Davi pudessem tocar sua orelha. O policial respirou fundo e sussurrou:
"Você ao menos ficou excitado vendo essas pornografias gays?"
Johan corou violentamente e voltou a se sentar corretamente. Seus olhos verdes estavam arregalados e seus lábios levemente separados. Ele quer protestar, mas não sabe o que dizer.
"E então? Qual a resposta?" Davi não conseguia se livrar daquele sorriso malicioso, então acabou desistindo e se deixou levar, demonstrando sua satisfação em deixar Johan constrangido.
O rapaz de cabelos castanhos abaixou o rosto e fez um sinal positivo com a cabeça, mordendo o lábio inferior. Oh! Então ele ficou excitado.
"Veja só, acabamos de derrubar uma barreira. Se você ficou excitado, as chances de você não gostar são bem menores."
"Pare de falar essas coisas em voz alta!" Johan falou baixo, mas seu tom de voz saiu sério.
"Você quem começou o assunto." Davi sorriu. "E você não parecia muito envergonhado quando fez aquela pergunta para mim."
"C-claro que não. Não eram perguntas pessoais, não havia motivo para ficar envergonhado!"
"Não era pessoal? Perguntar para um gay, se sexo entre homens dói, não é pessoal?" Havia um sorriso vitorioso nos lábios do policial e ele cruzou os braços, extremamente satisfeito.
"Sinto muito." Johan murmurou.
"Não tem motivos para se desculpar. Eu estava brincando. Fico feliz que tenha vindo me perguntar." Ele deu de ombros. "Eu provavelmente ficaria com ciúmes se soubesse que você perguntou isso para outra pessoa."
"Ciúme?" O rapaz de cabelos castanhos arqueou uma sobrancelha, completamente recuperado da crise de vergonha.
"Sim. Se fosse alguém mal intencionado, provavelmente te convidaria para descobrir se dói por experiência própria." Davi soltou um suspiro. "Eu tive que me controlar para não perguntar isso."
"Davi!"
"Brincadeira!" O policial riu e pegou a carteira. "Ou não..."
"Davi..." Johan utilizou um tom de voz como aviso e isso levou outro sorriso para os lábios do policial.
"Eu tenho que ir trabalhar, Johan."
"Quando podemos nos ver de novo?" Aquelas palavras levaram uma onda de felicidade para o corpo de Davi.
"Meu trabalho vai até de madrugada, então só amanhã. Por que você não vai para a minha casa e escolhemos algum filme para assistir?"
"Eu não sei onde você mora." Johan mordeu o lábio inferior.
"Sem problemas, eu vou buscá-lo amanhã depois do almoço." O dinheiro da conta foi deixado sobre a mesa e Davi se inclinou para pegar o quepe. "Volte com cuidado para casa."
"Pode deixar. Tenha um bom trabalho." O rapaz de cabelos castanhos sorriu e se levantou, apertando a mão de Davi como despedida. Eu queria mais que um aperto de mão...
O policial voltou a colocar o quepe e saiu do estabelecimento, ligando o rádio comunicador que estava em seu peito. Havia um chamado para um assalto a mão armada a cinco quadras de distância e isso fez Davi colocar o capacete e sair em arrancada com a moto.
Seu coração batia de alegria e isso fazia com que ele não prestasse atenção no chamado. É meu trabalho defender os civis, mas só consigo pensar no Johan. Estamos fazendo progresso e isso me anima. Algo me diz que ele sente o mesmo.
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