Agora que vocês já entenderam e já conheceram o início da história, vou pular alguns anos no futuro. Eu tinha dezessete anos, e estava no terceiro grau do Ensino Médio. Minha vida nunca esteve tão boa, era tudo muito simples; eu não me envolvia em brigas, e era uma das pessoas mais, digamos, populares no colégio, todos me conheciam, e eu tinha muitos amigos.

— Caramba, Dylan! Eu não acredito que você vai me abandonar nas férias! Nós tínhamos vários planos! — minha namorada, Isadora, diz, indignada. Estávamos no meu quarto, e ela estava me ajudando a arrumar as malas, mesmo que de má vontade.

— Não estou te abandonando, meu bem. — rio, abraçando-a. — Só vou viajar por algumas semanas, logo estarei de volta.

— Você só vai voltar quando as férias já tiverem acabado, e não teremos mais tempo juntos. — diz, com um pouco de raiva.

— Não exagere, Isa. Nós ainda teremos muito tempo juntos, depois que eu voltar. Eu te garanto. — toco seu rosto e ela olha para mim, um pouco triste. — não fique assim.. A culpa não é minha. — beijo seus lábios suavemente.

— Eu sei que não é, mas você poderia pedir aos seus pais que deixassem você ficar..

— Depois do que aconteceu no ano passado?! Tenho sérias dúvidas de que eles deixem. — digo, referindo-me às férias de verão do ano passado, quando eles me deixaram sozinho em casa. Digamos, hum, que eu tenha tido alguns probleminhas técnicos, e a casa quase tenha pegado fogo. Juro que a culpa não foi totalmente minha, já que foi a porcaria da churrasqueira elétrica que resolveu ter um curto-circuito.

— É verdade. Lembra que você me ligou gritando porque não sabia o número dos bombeiros?! Foi hilário! — ela ri. Sorrio e balanço a cabeça.

— Lembro, sim, e também me lembro que você me passou o número errado, senhora Isadora.

— Eu achei que você estivesse brincando! Quem faz um churrasco às quatro horas da manhã, Dylan? — pergunta, limpando algumas lágrimas. É muito fácil fazê-la chorar de rir, sinceramente.

— Está olhando para ele. — rimos. — Tudo bem, vamos só esquecer esse pequeno incidente e vamos terminar de arrumar a minha mala.

— Tudo bem. — Isadora diz, cabisbaixa. Continuamos a separar e dobrar algumas roupas, e em mais ou menos vinte minutos estava tudo pronto. Levo as duas malas para o carro, já que vamos viajar amanhã de manhã, e vou correndo para o escritório do meu pai.

— Pai, já está tarde, posso levar a Isadora para casa de carro? — pergunto, um pouco animado. Eu adoro dirigir, mal posso esperar para ter o meu próprio carro. Não falta muito, estou juntando dinheiro há anos.

— Pode. — faço uma breve comemoração, dança da vitória, para ser mais específico, e pego as chaves na sua mesa. — Encha o tanque quando estiver voltando.

— O.k! — saio de seu escritório e encontro Isadora no hall de entrada, me esperando.

— Tenho que ir, Dylan..

— Eu sei. Vou te levar. — mostro as chaves para ela, que sorri. — Prometo não nos matar.

— Estou contando com isso! — rimos e saímos. Durante todo o caminho, rimos, fizemos brincadeiras e conversamos, além de cantarmos algumas músicas, como "All by Myself" e "Wouldn't it Be Nice". Quando chegamos à porta de sua casa, nos beijamos intensamente, e Isadora chorou.

— Vou sentir muito a sua falta, Dylan. Eu amo você. — diz abraçando-me. — Prometa que vai manter contato.

— Eu prometo. — abraço-a com força. — Amo você, Isa. — beijo seu rosto e limpo algumas de suas lágrimas, com carinho e delicadeza. — Tente se distrair, quando perceber, eu estarei de volta.

— Vou tentar. — ela sorri, limpando as lágrimas, numa tentativa falha de controlá-las. — Faça uma boa viagem. Estarei te esperando no aeroporto. — nos beijamos mais uma vez e ela sai do carro, indo para casa. Espero ela entrar para finalmente ir, e quando isso acontece, deixo duas ou três lágrimas caírem. Sentirei a falta dela, também.

[...]

— Finalmente! — tia Laura exclama, quando chegamos na casa dela. Nestas férias, combinamos de nos reunir em São Francisco ao invés de Miami, pois a vovó queria viajar um pouco. Eu não fui completamente contra a ideia, mas também não estava à favor.

— É, chegamos! Que saudade! — mamãe a abraça, empolgada. Fazia muito tempo que nós não víamos a tia Laura.

— Dylan, é você mesmo?! — ela pergunta, depois de abraçar a mamãe. — Meu Deus, eu perdi um ano ou cinco da sua vida?! Você está enorme! — dou risada e a abraço.

— É, cresci bastante. — afirmo. — A April está? Nunca achei que diria isso mas, até que senti a falta dela. — tia Laura cai na gargalhada.

— Ela está no porão, tocando bateria. Ou pelo menos pensando que está tocando. Ela é horrível nisso. — ela brinca. — Vá falar com ela, depois você pega as suas malas.

Assinto e passo por ela, entrando em sua casa. Obviamente, esta não era a primeira vez que eu visitava a casa da tia Laura, então sabia exatamente onde ficava o porão. Desço as escadas e encontro a April olhando alguma coisa no celular, sem perceber a minha chegada.

— E aí, como é que vai? Não vai cumprimentar seu primo? — digo, sorrindo. April leva um grande susto ao me ver, e quase cai do banquinho em que estava sentada. Ela arregala os olhos e diz:

— Puta que pariu.. É você mesmo, Dylan?! — ela sorri e se levanta, deixando o celular de lado. Nos abraçamos fortemente, e depois nos soltamos, sorrindo.

— Você parece um pouco maior ou é impressão minha? — pergunto, fingindo analisar a sua altura. — Com certeza é apenas impressão. — April revira os olhos, e rimos, juntos.

— Não é culpa minha se você cresce como uma girafa! Você está quantos metros mais alto? — pergunta, brincando.

— Uns vinte centímetros. Estou com um metro e oitenta — respondo, passando as mãos pelos cabelos. — Mas não se preocupe, ainda estou te vendo perfeitamente, não vou pisar em você sem querer.

— Ah, cale a boca! — ela empurra meu ombro, rindo. — Estou com um metro e setenta e dois, então não há pessoas baixinhas aqui. Tenho o tamanho perfeito para o meu peso.

— Eu sei, estou só brincando. — Vamos lá para cima? Os meus pais devem estar morrendo de saudade de você. — passo o braço direito pelos seus ombros e conduzo-a para o primeiro andar. Nestes anos que passaram, April ficou mais inteligente, criou caráter, e não é mais uma pirralha irritante como antigamente; agora ela é apenas irritante. April abraçou os meus pais, conversou por um tempo e nos ajudou a levar as malas para os nossos respectivos quartos, o que foi bem impressionante.

— Nós não nos falamos há um ano, Dylan, me conte as novidades! Como está o namoro com a Isadora?! Por favor, não me diga que vocês terminaram, isso seria embaraçoso. — diz, sem parar para respirar, e fecha a porta atrás de si, para termos mais privacidade para conversar.

— Vá devagar, April! — sorrio com seu entusiasmo. Nos tornamos mais próximos, nos últimos anos, também. — E ainda estou namorando com a Isadora, se quer realmente saber.

— Que bom! — ela sorri. — E sem querer ser indiscreta, mas já sendo... Vocês já chegaram no agora ou nunca? — pergunta, entusiasmada.

— "Agora ou Nunca"? Isto é sério? — ela assente e continua como mesmo sorriso animado. — April, isto não é um assunto que você tenha com um primo.

— E por que não?! Temos praticamente a mesma idade, e esse assunto não é novidade para mim! E eu não vou te perguntar os detalhes sórdidos, não quero ter pesadelos. — ela explica.

— É estranho e constrangedor, April! — digo, mudando o olhar. — Esse é, realmente, um assusto que nunca quero ter com você.

— Virgens! — ela ri, debochando da minha cara.

— Isso não significa que sou virgem! — digo, pronto para dizer algumas coisas em minha defesa, porém, antes que isso aconteça, percebo qual a sua intenção, então fico calado.

— Não vai falar mais nada? — pergunta, ainda com o seu sorrisinho esperançoso na cara. Nego com a cabeça, e ela suspira, derrotada. — Está bem, então. Prometo não tocar mais no assunto.

— Obrigado. — digo, aliviado. Seria muito estranho ter uma conversa desse gênero com minha prima; acho que ainda não estou preparado psicologicamente para isso, e provavelmente nunca vou estar.

É, eu estava errado quanto à isso. Eu e April conversamos sobre vários assuntos bizarros todos os dias, sem pudor algum, e eu acho completamente normal. Enfim, esta é só a primeira parte da história. Agora é que tudo começa a ficar interessante...

Abro a porta do meu quarto e fecho o zíper do meu casaco; afinal, não sou mais uma criança, não posso mais andar sem camisa por aí. Assim que fecho a porta do quarto, ouço algumas vozes vindas da sala, e vou até lá espiar. Dependendo de quem for, coloco uma roupa mais apresentável. Quando chego mais perto, reconheço a voz da minha avó, e vou até lá cumprimentá-la.

— Vovó! Eu não achei que a senhora viria hoje! — exclamo, assim que a vejo. Ela sorri, surpresa, e nos abraçamos. — Eu estava com muita saudade!

— Eu também!! — ela diz, empolgada, e eu a giro no ar, o que a fez rir. — Dylan, eu estou muito velha para você fazer isso.

— Velha?! A senhora está na flor da idade!

— Quem me dera, meu bem. Quem me dera. — diz. — Ah, Dylan, eu estou muito feliz em vê-lo! E olha que milagre, você saiu cedo da cama, e está vestido! — todos na sala rimos. — Bem, é muito bom viajar, e é melhor ainda ver vocês aqui, felizes.

— É muito bem vê-la também, mamãe. — tia Laura diz, sorrindo.

— À propósito, eu lhes trouxe uma surpresa muito agradável. — anuncia, sorrindo para mim. — Espero que ainda a reconheçam. — ela olha para a porta, e uma jovem de cabelos escuros e compridos entra, carregando duas malas nas mãos, e uma mochila nas costas.

— Enid?! — April exclama, extremamente surpresa. A garota sorri, e olha para cada um de nós. Não pude deixar de reparar em seus grandes e lindos olhos verdes, como eram os da pequena Enid. Aquela garotinha não pode ser essa moça tão crescida.

— Olá, pessoal. — a garota diz, suavemente. — Sou eu mesma, Enid! Há quanto tempo!

— O que você está fazendo aqui?! — April pergunta, no meu lugar. Eu estava terrivelmente chocado. Que palhaçada era aquela?!

— A dona Kate me convidou.. Sua mãe também disse que não tinha problema.. — ela explica, constrangida. O que houve entre as duas? A April que eu conheço não falaria assim com sua melhor amiga de infância.

— E não há nenhum problema, querida! — tia Laura diz, correndo para abraçá-la, que retribui gentilmente. — Inclusive, vocês duas dormirão no mesmo quarto. — diz, depois de soltá-la.

— Ah, mas eu não estou acreditando nisso, mesmo!— April ri, sem o menor pingo de humor em sua voz. — Ótimo! Bem-vinda de volta, piranha! — ela mostra o dedo do meio e sai, puxando-me pelo braço

— Ei, o que raios aconteceu aqui?! — pergunto, curioso e mais chocado ainda. Isto não pode ser real!

— Qualquer dia eu explico. — diz, com raiva, entrando no meu quarto. — Feche a porcaria da porta, por favor! — pede, como as mãos na cabeça. Faço o que ela pediu, e sento-me com ela na minha cama.

— Se acalme, e respire fundo. — digo, calmamente. April revira os olhos e olha par outra direção.

— Estas serão as piores férias de toda a minha vida! — diz, cabisbaixa. — Por favor, Dylan, não deixe aquela mocreia ficar perto de mim. — pede, visivelmente abalada. Algo muito sério aconteceu aqui, e não vou descansar até eu descobrir. O que raios Enid pode ter feito de tão sério para April ficar assim?! Ela não é de brigar com amigos... Deve ter sido realmente muito grave, e eu vou tentar resolver esta situação, mesmo que isso faça com que eu tenha que me aproximar da Enid, como nos velhos tempos.