fazem dois dias que April está dormindo no meu quarto, e isto já está me irritando. Ela realmente tem que falar com e Enid, e não evitá-la constantemente, como tem feito.

— April, precisamos conversar! —digo, enquanto ela arruma sua cama. — Eu preciso do meu espaço pessoal, e você precisa falar com a sua amiga.

— Amiga? Que amiga? — ela finge-se de desentendida. — Até onde eu sei, nesta casa só tem a minha família, e um pequeno problema com um rato. — diz, sem olhar para mim.

— Você está sendo infantil. — resmungo, revirando os olhos.

— Infantil?! Eu estou sendo infantil?! — ela ri, sem o menor pingo de humor. — A Enid, a queridinha de todo mundo, roubou o meu namorado!

— Como assim?! — pergunto, espantado. Eu não posso acreditar! A Enid não faria algo assim, faria?...

— Você ouviu muito bem, Dylan, não me faça repetir. Eu.. Eu os vi se beijando no quintal da casa dela. Foi o pior dia da minha vida, e você sabe que eu já passei por alguns bem ruins. — diz, magoada.

— Eu sei que isso é horrível, eu mesmo odiaria ter que passar por isso, mas você deveria ouvir o lado dela... Acho que a Enid não faria isso com você, vocês eram melhores amigas. — digo. Pelo menos, é nisso que eu quero acreditar...

— Não quero ouvi-la. Ela nem insistiu tanto para me pedir desculpas, ou para me explicar, o que significa que ela não se arrepende. — diz, olhando para mim com os olhos enchendo-se de lágrimas. — Eu não estou pronta para ter essa conversa com ela, então é melhor eu nem chegar perto da mesma. Essa é a melhor opção.

— Tudo bem... Me desculpe por tocar no assunto, deve ter sido traumatizante. — digo, vagamente, abraçando-a. Depois de soltá-la, vou atrás da Enid, e encontro-a na sala, mexendo em seu celular.

— Enid. — chamo-a, que me olha, curiosa. — Podemos conversar?

— Sobre o quê? — pergunta, levantando- se.

— Venha comigo, primeiro. — conduzo-a para fora de casa e vou andando, com ela logo atrás de mim. Alguns minutos depois, chegamos em frente à um parquinho, e eu entro, sentando-me num dos balanços; Enid faz o mesmo, e diz:

— O.k, sobre o que vamos conversar? — pergunta, sorrindo. Engulo em seco e começo a falar:

— A April me contou o por quê de vocês não estarem se falando. — seu sorriso morre instantaneamente, e ela olha para outra direção. — Quer falar algo a respeito?

— Sinceramente, não, mas é preciso... — ela suspira e se balança, devagar. — O que a April viu não é exatamente o que realmente aconteceu. Quero dizer, realmente nos beijamos, mas não era para ter acontecido.

— Vá falando. Sou todo ouvidos. — digo, interessado por sua versão do ocorrido. — ela olha para mim e continua:

— April não estava namorando aquele garoto seriamente, e eu sabia disso, tudo não passava de um paixão platônica. — quando eu ia dizer algo em defesa da minha prima, ela me cortou e prosseguiu com a sua história: — Ele foi até a minha casa, deu um em cima de mim, e eu recuei, em respeito à April e porque não queria envolvimento algum com ele, mas ele me beijou mesmo assim. — explica.

— E você retribuiu, não é? — pergunto, visivelmente desapontado. April não teria ficado tão chateada com isso se não tivesse certeza do que aconteceu.

— Não, não exatamente. — confessa. — Ele me forçou a beijá-lo, então tenho certeza de que pareceu que eu estava retribuindo, para April. — diz, triste. — Ela não deve ter visto eu tentando empurrá-lo, ou tentando chutar alguma parte do corpo dele. E ele também colocou a maior parte da culpa em mim, então não fiquei surpresa quando ela resolveu me ignorar por completo.

— E por que você não explicou para ela?!

— Acredite, eu tentei algumas vezes, mas ela sempre tentava me bater, e duas vezes jogou coisas em mim. Não a culpo, eu também ficaria bem chateada com a situação.

— Você poderia ter obrigado ela a te ouvir, a amizade de vocês acabou por causa disso! — digo, exasperado.

— Não sou de fazer isso. — ela sorri, triste. — Resolvi deixá-la em paz, até perceber que não sobreviveria sem ela.

— Fale isso para ela, então, não para mim! Se isso ajudar, estarei lá com você, eu a obrigarei a te ouvir. E se ela não quiser, eu mesmo digo. — sorrio, confortando-a.

Seria ótimo, Dylan, obrigada. — ela sorri, aliviada, e aquilo me deixou feliz. E não confunda as coisas, apenas sinto um extremo carinho por ela, por ela ter sido o meu primeiro amor. É, confessei mesmo, não tem como negar. — Já faz muito tempo que nos vimos pela última vez, não é?

— Sim, já fazem seis anos. — digo, depois de fazer o cálculo, mentalmente. Ela assente. — O que fez nestes últimos anos, Enid?

— Ah, diversas coisas! Me mudei de Minnesota, conheci pessoas novas, viajei bastante, dei o meu primeiro beijo, tive o meu primeiro namorado.. Coisas assim. E você? — perguntou, animada.

— Quase as mesmas coisas.. Só não dei o meu primeiro beijo, não me mudei de Chicago, e não tive a minha primeira namorada. — Enid faz uma expressão de choque.

— Como assim?! Que tipo de adolescente é você?! — diz, e eu me lembro do nosso momento fofo na cozinha, quando a fiz comer as minhas panquecas. É, me julgue à vontade, depois de alguns anos eu comecei a achar fofo, mesmo. — Ouça, assim que eu fizer as pazes com a April, vou te ensinar a viver, pobre menino...

— Enid, estou brincando. — digo, dando risada. — Na verdade, não estou brincando, eu realmente não fiz, e não tive essas coisas. Eu tive o meu primeiro beijo e a minha primeira namorada com oito anos.

— Que bom, achei que teria que te ensinar tudo o que eu sei, e isto seria muito embaraçoso, se é que você me entende. — diz, sorrindo, mudando o olhar de direção.

— Qual é, Enid! Sou um homem, e somos precoces, não acredito que você pensou que eu realmente não tivesse tido uma namorada, ou até mesmo ter beijado alguém. Você é muito ingênua. — digo, mudando de assunto, para não ficar constrangedor. — Eu sou lindo de morrer, então não seria uma possibilidade.

— Meninas também são precoces! Ou você beijou e namorou um menino? — nego, com a cabeça. — Exatamente. E não sou nem um pouco ingênua, você não sabe nada sobre mim!

— Sei que melancia é a sua fruta favorita. — digo, erguendo uma das sobrancelhas.

— Tudo bem, nisto você está certo, mas muitas coisas mudaram no meu caráter, desde aquela época. — diz, tentando esconder sua surpresa por eu ter lembrado. Na verdade, eu nunca esqueci, mas não posso contar isso à ela; afinal, ela era a minha paixão platônica, e não fazia, e nem faz ideia de que eu gostava dela.

— É, imagino... — não apenas, o caráter, posso dizer. Enid, mudou muito fisicamente desde aquela época, não posso negar. Seu cabelo está muito mais comprido, ao contrário de seu penteado chanel de quanto tinha nove/dez anos, por exemplo. Mas não foi só isso. Seus olhos verdes estão mais escuros, mais intensos; sua boca está mais vermelha, sua pele mais clara, ela está bem mais alta, obviamente, e... seus seios cresceram muito. Não que eu esteja reparando, mas não posso esconder, é a verdade!

— Me conte mais sobre as suas aventuras e experiências, Dylan. — pede, visivelmente interessada.

— Ah, são muitas coisas, não quero deixá-la entediada. — ela insiste, e eu não consigo dizer 'não'. — Tudo bem, mas só as coisas mais marcantes... Quebrei uma perna, aprendi a surfar, e, hum, perdi a virgindade. — digo, sem olhá-la.

— Droga, você não coopera, mesmo! — Enid cai na gargalhada, e eu faço uma cara de dúvida. — Desde que eu cheguei, não consigo te ver senão como um surfista de filme, sabe? Loiro, pele bronzeada, malhado e com um abdômen tanquinho de morrer, e uma tatuagem tribal no braço, e agora você me diz que sabe surfar?! — sorrio, agradecendo mentalmente por ela ter ignorado a informação "eu perdi a virgindade"; seria muito constrangedor se ela fizesse alguma pergunta sobre isso.

Bom, ainda não estou completamente malhado e não tenho a tatuagem, mas é uma ótima ideia! — digo. Ela continua rindo, e chego à conclusão de que sua risada consegue ser ainda mais contagiante quanto antigamente, o que me fez sorrir. Estranhamente, sua risada me fez sentir saudade da Isadora. Gostaria de ter ela comigo, agora.

— Já estou até vendo como você vai ficar. — diz, sorrindo, controlando sua crise de risos. — Com certeza você daria um bom surfista, ou até um salva-vidas.

— Obrigado, mas já tenho outra carreira em mente. — assim, começamos a conversar sobre o futuro, sobre os nossos sonhos e etc, e sinceramente, Enid não mudara tanta coisa, assim. Além disso, conversamos sobre coisas aleatórias, como músicas favoritas. Ficamos mais algum tempo no parquinho, até que algumas crianças chegaram e ficou impossível conversar, além de que ficamos incomodados por estarmos impedindo-as de usarem os balanços; depois disso, voltamos para a casa da tia Laura e eu fui para o meu quarto.

— Aonde você e a Enid foram, Dylan?! — April pergunta, jogando um tênis em minha direção, que acaba batendo na parede, e não na minha cara, para a minha sorte. — Seu traidor! Vai me trocar por ela, também?! — diz, chorando.

— Claro que não, April! Você é a minha prima, é insubstituível. Eu apenas fui esclarecer esse conflito entre vocês duas. Não fomos muito longe, e nem em um lugar especial. — digo, aproximando-me devagar. Ela abraça as pernas e esconde o rosto, chorando muito. — Ei, está tudo bem...

— Não, não está! Eu não aguento mais as pessoas me trocando, já chega disso! — diz, com a voz abafada. Sorrio e sento-me ao lado dela, abraçando-a.

— Não a troquei, e se quer saber, nem trocaria. Você é muito chata, mas gosto de você, mesmo assim. — faço uma pausa. — Bom, sem querer estragar a surpresa, a Enid vai conversar com você em breve, e eu vou estar junto, caso você precise. — na verdade, só vou participar da conversa por dois motivos: o primeiro é porque gosto de discussões; e o segundo é porque quero que elas se acertem logo.

Não quero conversar com ela, e você sabe disso! — diz.

— Sim, mas agora eu também sei da versão da Enid, e creio que você vai querer escutar. E como você me conhece muito bem, sabe que eu não estaria te falando isso se não fosse verdade. — April ergue a cabeça e limpa as lágrimas, fungando.

— Está bem, eu falo com ela... Mas só por sua causa. Confio em você. — diz, olhando-me, um pouco desconfiada.

— Você não vai se arrepender. — sorrio, transmitindo confiança. — E por favor, pare de chorar, você fica horrorosa chorando, parece o patinho feio. — ela ri e me mostra o dedo do meio. — Era este sorriso que eu estava esperando.

— Você é um idiota, mas eu ainda te amo. — diz, soltando-se dos meus braços. — Ah, me desculpe pelo tênis. Não vai se repetir.

— Obrigado. — digo, ironicamente. Ela sorri e se levanta, pegando o tênis do chão e o colocando num canto.

— E antes que eu me esqueça... Obrigada, Dylan, por ter compartilhado o seu quarto comigo. — diz, timidamente. — Se tudo der certo, volto para o meu quarto amanhã mesmo.

— Só amanhã?! — exclamo, desapontado. Eu estou louco para poder dormir sozinho novamente, ninguém merece dividir o quarto; quero meu espaço, quero poder sair nu do banheiro e ficar me olhando no espelho!!

É, ainda estou chateada com a Enid, e não quero que você se sinta solitário. — ela brinca, mandando-me uma piscadela.

— Tudo bem, eu te aguento por mais um dia. — digo, revirando os olhos. Mesmo estando um pouco irritado, ainda ri da situação com a April. Família é tudo de bom.