Os últimos dias têm sido muito estranhos para mim. Ainda não consegui provar para a vovó que não gosto da Enid, e eu diria até que estamos nos aproximando, virando amigos, mesmo que eu não queira.

Eu odeio isso!! digo, sem querer. Meu pai olha para mim, assustado.

Se acalme, Dylan. ele ri, recompondo-se. O filme está tão ruim, assim?

Não, papai. Eu só estava pensando alto.. digo, colocando algumas pipocas na boca. Estamos assistindo 101 Dálmatas, que April insistiu em colocar, e sinceramente, não sei como Enid aguenta os seus pitis! April é muito infantil; acho que até uma criança de três anos teria mais maturidade que ela. Tudo bem, talvez eu esteja exagerando, um pouco. Só um pouco.

Vou fazer mais pipoca. Alguém mais vai querer? tia Laura pergunta, na porta da sala. Todos nós erguemos as mãos, agitados. Tudo bem, seus comilões. ela ri. Farei muita pipoca.

Amo você, mamãe! April diz, rindo.

Eu sei disso, sua interesseira. ela manda um beijo para April e some no corredor, indo para a cozinha. Tia Laura é uma ótima cozinheira, e todos amam a sua comida, especialmente sua torta de maçã.

Estava bastante concentrado no filme, quando um "peso" cai sobre meu ombro direito, e tenho um leve sobressalto quando vejo que é a Enid. Ela pegou completamente no sono, e deitou no meu ombro. Minhas bochechas ruborizam no mesmo instante e começo a suar frio. Droga, não estou ajudando!! Tento prestar atenção apenas no filme, mas seu cheirinho doce não deixava, e seu cabelo macio também não.

Olha só vocês dois. minha mãe diz, sorrindo. Eu preciso tirar uma foto, quero registrar isso para sempre. rapidamente, ela pega seu celular e tira uma foto nossa, sem que eu possa protestar.

Mãe, apaga isso! peço, desesperado.

De jeito nenhum! Vou mandar emoldurar amanhã mesmo. ela dá uma risadinha e se senta ao lado do meu pai, entrelaçando seus braços. Lembro do que a vovó disse sobre pessoas apaixonadas terem filhos, e me levanto na hora. A pobre Enid acordou assustada, mas não fiquei para dar explicações, simplesmente saí correndo como um louco. Bati a porta do meu quarto com força, e apoiei-me nela, ofegante. Droga, eu estou perdido!! Preciso despistar essa situação urgentemente, e não sei como!

[...]

Dylan, saia desse quarto, por favor! — vovó pede, pela milésima vez. Temos um importante compromisso, e é sua obrigação ir! Hoje é o aniversário da Enid, e ela vai ficar muito triste se você não for.

Deixe que fique! Eu não me importo com a Enid! digo, sentado contra a porta.

Isso tudo é por causa da foto que a sua mãe tirou?! Isto é muita bobagem, Dylan, não deveria se importar com isso, você já está bem grandinho. ela faz uma pequena pausa. É, eu estava errada sobre você. Você não é forte para amar.

Isso é jogo sujo, vovó! Eu não sou um fracote! digo, com raiva, abrindo a porta. Odeio que me digam que sou incapaz, ou que sou fraco! Quando alguém diz isso, mágoa e raiva se misturam, e eu costumo fazer coisas precipitadas na maioria das vezes em que isso acontece; esta foi uma exceção, eu não gritaria com a minha avó, ou algo assim.

Olha só quem apareceu! — ela coloca as mãos na cintura. Agora vá tomar um banho, menino, antes que eu perca a paciência.

Não quero ir nesta festa. cruzo os braços.

E quem você acha que é para querer algo aqui?! Sou sua avó, e você deve respeitar os mais velhos. Então vá logo tomar este banho!! —. ela ordena, apontando para o banheiro.

Dou-lhe as costas e faço o que ela mandou, de má vontade. Nós fomos à tal festa, e sinceramente, foi entediante. Também não é de se esperar muito de uma festa de uma garotinha de nove anos além de muita gritaria, comida, brincadeiras infantis e doces; muitos doces. Quando a festa acabou, eu dormi em todo o trajeto até em casa, e o papai teve de me carregar até o meu quarto. Eu estava extremamente cansado por causa do tédio. O tédio acaba com todas as minhas energias.

No dia seguinte, fui acordado com uma gritaria horrível. Aparentemente, tia Laura estava gritando com April, e a mesma não parava de chorar e gritar muito mais alto que sua mãe. Era ensurdecedor. Levantei, ainda de pijama, e e fui para o andar de baixo. Me dirigi à cozinha, e encontrei minha mãe e minha avó preparando o café. Pelo visto, ainda era muito cedo.

Bom dia. disse, sentando-me à mesa.

Bom dia, meu amor!! mamãe beijou a minha bochecha e passou as mãos pelos meus cabelos. Dormiu bem? assenti.

O que tem para o café da manhã, mamãe? pergunto, sorrindo. Sou muito disposto pela manhã, puxei à minha mãe.

Para você, eu fiz panquecas. a vovó coloca um prato cheio de panquecas com calda de caramelo na minha frente. Sei que você as ama.

Obrigado!! digo, já colocando um pedaço da boca.

Coma devagar, menino! ela ri e volta para o fogão.

É, você está comendo rápido demais, e isto pode não lhe fazer bem.

Está bem, mãe. sorrio para ela, que junta-se à minha avó no fogão. Quando estou quase chegando na minha terceira panqueca, Enid aparece na porta da cozinha, vestindo um vestidinho vermelho-vinho e sapatilhas da mesma cor.

Bom dia!! ela diz. Mamãe e vovó a cumprimentam, eu fico em silêncio absoluto.

Vou acordar o Charlie, ele deve estar no sétimo sono! mamãe diz, saindo da cozinha.

O que vai querer comer no café da manhã, pequena Enid? vovó diz, docemente. Enquanto as duas conversavam, eu apenas comia em silêncio, tentando não me sujar, o que era uma tarefa bem difícil.

Vou perguntar à Laura onde está a tábua de cortar carne, ela vive trocando as coisas de lugar!! vovó sai da cozinha depressa, e ficamos apenas eu e a Enid, sozinhos.

Hey, Dylan. Enid me chama, mas não a olho, apenas solto um pequeno resmungo em resposta. Como estão as panquecas?

Boas. sorrio, comendo mais um pedaço. Que espécie de pergunta era aquela?! Panquecas não têm sentimentos, oras!! Crianças, pff. Você vai comer alguma coisa?

Vou, sim. ela diz, sorrindo. A vovó Kate vai preparar uma salada de frutas para mim!

Salada de frutas?! pergunto, incrédulo. Que tipo de criança é você?!

Como assim?

Que tipo de criança come frutas no café da manhã?! Garota, você não existe!! afirmo, espantado. Quando a vovó disse que ela era especial, ela quis dizer louca, mesmo.

Frutas são muito saudáveis, e eu não vejo problema algum em comê-las em qualquer hora do dia. ela responde, como se isso fosse óbvio.

Ah, pobre criança.. Venha, sente-se ao meu lado. convido-a, batendo a mão esquerda na cadeira ao meu lado. Ela se levanta e faz o que mandei. Ouça, comer frutas de manhã é ridículo, para começo de conversa.

Mas... ela tenta dizer algo, porém coloco o dedo indicador na frente de seus lábios, impedindo-a.

Vou te ensinar o que é bom. Agora, experimente. estendo para ela uma pequena porção, completamente mergulhada no caramelo, da minha panqueca. Mastigue devagar, saboreie. — Ela faz o que pedi, e depois de engolir, dá um largo sorriso.

É delicioso, Dylan!!

E eu não sei?! digo, sorrindo, e como outro pedaço de panqueca. Assim, começamos uma longa conversa sobre nossas comidas preferidas. Enid era de fato estranha, de todas as delícias do mundo, ela nomeou as melancias suas comidas preferidas! Eu tentei argumentar, mas ela não deu muita atenção. Menina teimosa.

Ei, você não, hum, se esqueceu de algo? ela pergunta, quando ficamos sem assunto.

Acho que não. Por que?

Sabe.. Ontem foi o meu aniversário, e todos me desejaram os parabéns...menos você.

E daí? pergunto, limpando o canto da minha boca, que estava com um pouco de caramelo. Ela fica um pouco surpresa com a minha resposta, e tenta formular alguma palavra, então diz, simplesmente:

Esqueça. ela dá um leve sorriso e começa a brincar com uma mecha de seu cabelo.

Bom, uma das coisas que me arrependi, e ainda me arrependo, foi não ter desejado um feliz aniversário e os parabéns à Enid. A data do nosso aniversário é o dia do ano mais importante para nós, e mesmo sabendo disso, não me dei o trabalho de parabenizá-la, e este foi um dos meus primeiros erros.

Adeus, Enid!! Eu nunca a esquecerei! April a abraça pela trigésima vez, chorando compulsivamente. Por Deus, ela não está partindo para uma missão de vida ou morte, ela só está indo para casa! Sinceramente, já conheci muitas pessoas dramáticas nestes onze anos de vida, mas April consegue se superar. É impressionante.

Já está bom, April. Agora é a vez do Dylan se despedir. tia Laura diz, empurrando-me para perto das duas. Era constrangedor.

Hum, tchau, Enid! Faça uma boa viagem. digo, dando um pequeno aceno.

Ah, qual é, Dylan! Seja homem, seu medroso!! Abraçar uma garota não vai te matar. tia Laura exclama. Olho para ela e depois para a Enid, nervosamente, e depois disso fico completamente paralisado. Enid abre os braços e praticamente se atira em cima de mim. Minhas bochechas ficam completamente vermelhas tamanha a vergonha que estava sentindo mas, mesmo assim, eu a abracei de volta. De repente, ouço um pequeno clic, que veio da câmera fotográfica da mamãe.

Mãe! digo, furioso e envergonhado. Ela ri e tira outra foto. Que audácia! Quem deixou a senhora tirar estas fotos?!

Eu mesma. Sou adulta, e sou sua mãe. Tenho meus direitos. ela dá um sorriso maldoso, para me provocar. Solto um grunhido e afasto-me de Enid.

Faça uma boa viagem! exclamo, depois de soltá-la.

Obrigada! ela diz, sorrindo mais ainda. De repente, ouvimos seu voo ser chamado novamente nos alto-falantes.

Chegou a hora... Vamos sentir muito a sua falta, pequenina. Especialmente o Dylan. papai diz, sorrindo.

Que mentira! Não tem nada de especial, vou sentir a falta dela como qualquer um de vocês.digo, cruzando os braços.

Pelo menos fiz você admitir. fico de boca aberta, e ele simplesmente ri da minha cara e bagunça os meus cabelos.

Não faz mal. Enid diz, sorrindo para mim. Também sentirei muito a falta de vocês.

Claro que vai. vovó sorri. Agora vamos, se não quisermos que você perca o seu avião.

Fomos todos para a fila de embarque, e ajudamos Enid com todas as informações para que ela viajasse sozinha e com segurança. Essa menina é muito independente, tenho onze anos na cara e ainda nem saí de casa sozinho! Sinto-me humilhado. Alguns minutos depois, o avião da Enid já estava nas nuvens, distante o suficiente para o perdermos de vista. Odeio admitir isso, mas desde que chegamos ao aeroporto, eu estava sentindo uma dorzinha no coração, e agora ela é apenas um grande vazio, e isto dói muito.

Bom, essa foi apenas a primeira vez que senti esse vazio, e sinceramente, acho que este está classificado como um dos que mais doeram. Eu não sabia que gostava realmente da Enid, então sentir um vazio, como se algo estivesse faltando no meu coração, era algo novo e estranho; eu não tinha uma resposta para a minha dor, e eu passei muitas semanas deprimido por causa disso.