Estava cantarolando trechos de La Vie En Rose no meu quarto enquanto penteava os cabelos, quando a porta foi aberta bruscamente, e uma April com uma cara de dúvida entrou, sem rodeios.

— April, a que devo a sua visita? E tudo bem, não estou zangado por você não ter batido na porta. — sorrio, com uma pontada de ironia. Apesar de sua atitude mal-educada, não estou mesmo com raiva; meu humor nunca esteve tão bom. Agradeça à Enid, ela é a dona da minha felicidade.

— Tudo bem, vocês não me enganam. — ela diz, batendo a porta. — Você não é o verdadeiro Dylan, você teria brigado comigo, e provavelmente você estaria nu depois de tomar banho, não usando uma toalha na cintura. — comenta, apontando para a tolha branca que usava.

— E qual o problema disso? Conheço você, apenas percebi que não deveria mais fazer isso fora de casa, se eu não quiser que alguém abra a porta de repente. — dou de ombros. Em parte, isso é verdade, a morte seria bem melhor que saber que a April já me viu sem roupas.

— Sei... Bom, isso ainda é suspeito, sabe por quê?! O verdadeiro Dylan não usaria... — ela se aproxima, farejando algo no ar. — creme para pentear. Ele deixaria o cabelo secar naturalmente, e ele ficaria extremamente bagunçado, mas fofo. É a sua marca registrada!

— Eu sei, mas o creme deixa o meu cabelo brilhante. — digo, analisando a minha aparência no espelho. — E passar o creme não quer dizer nada, ainda gosto do meu cabelo bagunçado. Olha só. — passo os dedos entre os fios e os puxo para cima, sorrindo.

— Você e a Enid estão muito estranhos... Posso saber o que está acontecendo nesta casa?! — pergunta, exasperada.

— Claro que pode! Nós estamos namorando. — brinco, para ver a sua reação.

— O quê?! E ninguém me contou?! Dylan, isso é fantástico! — ela sorri, animadíssima.

— Estou brincando, não viaja. — seu sorriso morre. — Ainda não estamos namorando.

— Ah, eu sabia que vocês estavam mais felizes que o normal! — diz, sorrindo, com as mãos na cintura. — Eu deveria ter desconfiado, mas nunca achei que isso poderia ser uma opção. Eu gosto muito da ideia de vocês dois juntos!

— April, se controle, criança! — dou risada. — Nós só nos beijamos umas 20 vezes, talvez 30, não é nada sério.

— Eu vou ter um ataque epilético neste exato instante... Você só pode estar de brincadeira com a minha cara! Sério?!

— Claro, e juro para você que ela só fugiu umas cinco vezes do seu quarto, no meio da noite, para ficar comigo. — digo, pensativo.

— Eu vou desmaiar. — ela diz, apoiando-se na minha cama. — Estão usando proteção, não é?! Não estou pronta para ser a babá dos seus gêmeos.

— Óbvio que não! — digo, e ela fecha os olhos, fazendo sinal de uma estaca sendo cravada em seu coração. — Não estamos fazendo nada demais. Apenas dormimos juntos.

— Ufa... Achei que teria que gastar minha preciosa mesada com fraldas para vocês, seus adolescentes irresponsáveis! — diz, levantando-se. — O.k, agora estou bem.

— Que bom.

— Primo, eu apóio muito vocês... — diz, sorrindo, juntando as mãos. — Mas se você tocar uma mãozinha suja na minha amiga sem a permissão dela e a minha, eu arranco seus membros um por um, lentamente. O recado foi dado. Tchau, por enquanto. — ela sai do meu quarto, como se nada houvesse acontecido.

— Maluca. — sorrio e vou me vestir. Hoje, o dia vai ser ótimo.

[...]

— ADAM!! — April grita, de repente. — Olha gente, é o Adam! — ela aponta para o garoto magro, baixinho e de cabelos castanhos.

— Nós já vimos, April. — Enid ri, com as mãos nos ouvidos.

— Venham! — ela corre e alcança Adam, abraçando-o. Já fazem mais ou menos uma semana que não o vimos, então ela está bem animada. Troco olhares com Enid, mas a seguimos.

— Dylan, Enid. — Adam diz, com um meio sorriso. — É bom ver vocês. Esta é minha amiga, Alicia. — ele apresenta a garota loira ao seu lado, que sorria. Ela tinha o mesmo tamanho que ele.

— Oi, gente! — ela cumprimenta, apertando as nossas mãos ao mesmo tempo, balançando-as várias e várias vezes. — O Adam me contou algumas coisas sobre vocês. Estou feliz em conhecê-los.

— Acho que já está bom, Alicia. — Adam diz, controlando a risada.

— Ah, desculpe. — ela ri, colocando uma mexa do longo cabelo louro atrás da orelha. Muito observador? Talvez.

— Está tudo bem. — sorrio. A garota parecia ser completamente o oposto de Adam; estava sempre sorrindo, era animada, e etc. É até estranho saber que eles são amigos.

— O que vocês fazem por aqui? — Adam pergunta, com os olhos crispados por causa do sol forte.

— A vovó nos mandou comprar algumas coisas. — April responde. — Temos muito o que fazer, então, tchau gente! — diz, nos puxando pela mão, depressa, sem deixar que Adam e Alicia se despedissem. Quando já estávamos longe, a Enid perguntou:

— Por que a pressa, April? — ela franze as sobrancelhas, confusa. — Você estava tão animada em ver o Adam, por que saiu tão rápido? Nem pudemos dizer adeus!

— Quero voltar logo para casa. — ela dá de ombros. — E eu não suporto saber que estou respirando o mesmo ar que o da Alicia, ela é louca e irritante!

— Eu achei ela legal... — comento.

— Você não a conhece! — April revira os olhos. — Nem sei como o Adam a aguenta!

— April, tem certeza que você não está apenas com ciúmes? Observei vocês há algum tempo, e não parece que você vê o Adam apenas como mais um amigo. — Enid diz, sorrindo.

— Não viaja! O Adam é meu amigo e nada mais. E aliás, ele só tem quatorze anos. — explica.

— Só quatorze?! — pergunto, visivelmente assustado. Aquele garoto não pode ter apenas essa idade!!

— Sim, ele é muito inteligente, já até acabou o ensino médio. — diz, sorrindo. — Mas falando em ciúmes... Enid, você não está nem um pouco incomodada com o Dylan ter gostado da Alicia? — ela muda de assunto.

— Só por que eu a achei legal, não significa que eu gostei dela! — defendo-me.

— Exatamente, e por que diabos eu sentiria ciúmes do Dylan? — ela ri. — Somos apenas amigos, e você sabe muito bem disso.

— Amigos que se beijam, você quis dizer. — diz, fingindo uma tosse. Enid fica de boca aberta, e April segura o riso. — O que foi? Achou mesmo que eu não fosse descobrir?

— Como ela sabe? — Enid perguntou, olhando para mim.

— Eu contei, achei que não tivesse problema. — digo, dando de ombros. Enid trinca o maxilar e continua andando, sem falar mais nada.

— Ei, não fique ofendida, eu estou feliz por vocês! — April diz, passando o braço pelos ombros da amiga. — Vocês podem se beijar?? Tipo, agora mesmo?!

— Como assim? Ficou maluca?! — Enid perguntou, e eu fiquei um pouco vermelho.

— Qual é, é só vocês fingirem que eu não estou aqui, será a mesma coisa! Eu só quero mais provas de que isso é real, mesmo. — diz, sorrindo, alternando o olhar entre eu e a Enid.

— Aqui não. — respondo, envergonhado.

— Está bem. — April bufa e solta a amiga. Fomos até o mercado mais próximo, compramos tudo que havia na lista, e voltamos para casa. Foi uma tarefa cansativa, já que o meu pai estava com o carro, e a tia Laura não quis emprestar o dela; tivemos que andar bastante.

— Dylan, Enid, quero que vocês ouçam a minha nova música! Venham comigo, sim?! — April nos chama. Levantamos do sofá, esgotados, mas a seguimos até o porão, onde se encontrava a sua bateria. — Agora, apreciem. — diz, pegando as baquetas, começando a tocar. Não estava tão ruim, confesso, mas não era um som agradável aos meus ouvidos. — O que acharam? — pergunta, ofegante.

— Eu não gosto muito de rock, então... Não, desculpe. — digo, arrumando uma desculpa. — Mas seu eu gostasse, sua batida seria fantástica.

— Eu até que gostei. — Enid diz, sorrindo.

— Obrigada, obrigada. — ela sorri. — Ei... Acho que mereço um beijo, vocês não acham?? Quero dizer... Mereço que vocês se beijem. — explica, corrigimdo seu pequeno erro. Troco olhares com a Enid, e fico vermelho. — Ah, por favor, não custa nada!

— Tudo bem! — Enid diz, se aproxima e encosta os lábios nos meus, de forma suave.

— Ah, um selinho não vale! — April diz, cruzando os braços. — Não vou deixar vocês saírem daqui até que eu veja um beijo de verdade. — ela sorri.

— Vamos dar logo o que ela quer. — sorrio, um pouco envergonhado. Enid não discorda, apenas dá um leve sorriso e fecha os olhos. Aproximo-me lentamente e a beijo, lenta e apaixonadamente. Ela coloca as mãos no meu rosto, e eu coloco a mão esquerda na sua cintura.

— Oh meu Deus, é real mesmo. Espero que essa sua mão não esteja em lugares inapropriados, Dylan. — ela diz, e nós sorrimos durante o beijo, para depois aprofundá-lo; ou seja, demos um beijo de língua na frente da minha prima. — Sinto-me uma vela, e também sei que estou atrapalhando, mas isso é tão fofo. Tudo bem, podem parar. Pessoas? Dylan, sou sua prima, isso é estranho. Enid, eu nunca achei que veria você beijar alguém.

— April, eu te amo, mas dá pra você calar a boca?! — Enid diz, rindo.

— Ai, sua grossa! Está bem, eu fico segurando vela para vocês em silêncio, foi eu que pedi por isso, mesmo. — ela cruza os braços, fingindo estar chateada.

— Ótimo. — Enid diz, e volta a me beijar. A April segurou vela por muito tempo, se você quer saber, e achou tudo aquilo o máximo, o que foi bem estranho. Bem, quando anoiteceu, eu estava deitado na minha cama, pensando nos últimos dias que passei com Enid, quando a mesma apareceu, de fininho.

— Dylan? Ainda está acordado? — pergunta, sentando-se na cama.

— Sim. Deite-se comigo. — convido-a. De mansinho, ela se aconchegou ao meu lado, entrelaçando os nossos dedos.

— April me pediu para dormir aqui, hoje. — ela diz, sorrindo. — Não fez muita diferença, eu viria, mesmo.

— Que bom. — sorrio, beijando sua testa.

— A April é muito sonhadora. Ela coloca muita fé na nossa relação. — diz, depois de alguns segundos em silêncio.

— E você não? — pergunto.

— É claro que sim!... Eu te explico melhor amanhã. — diz, mudando o olhar de direção. Ela ficava linda com a luz da lua iluminando-a.

— Está bem. — sorrio. Enid solta a minha mão e faz eu virar de barriga para cima, deitando em cima de mim em seguida.

— Gosto de ficar com você, Dylan. — ela encosta o ouvido no meu peito. — Seu coração está acelerado. Espero que não esteja tendo pensamentos... Errados. — ela ri.

— Não, só estou feliz em ter você por perto. — explico.

— Eu também estou feliz. — Enid sorri.

— Eu sei. — sorrio, pousando as mãos levemente em sua cintura e em suas costas.

— Nunca achei que diria isso em voz alta, mas... Eu amo você. — ela suspira, fechando os olhos.

— Amo você, também. Sua personalidade, sua voz, seu cheiro, seus beijos... Seu corpo... — digo, envergonhado, e ela ri.

— Obrigada. — ela respira fundo e cai num sono profundo, depois de algum tempo. Fiquei a maior parte do tempo acordado, aproveitando o tempo ao seu lado, mas dormi algumas horas mais tarde. É realmente muito bom tê-la por perto, eu me sinto completo e inteiramente feliz. Eu a amo como nunca amei outra pessoa.