Love at the End of the Summer
1 Capítulo 1
— Quando eu era pequeno, eu e meus pais íamos para a casa da minha avó, em Miami, para passar as férias. Eu me divertia muito, adorava a praia, o sol, e tudo mais. Bom, a história que vou contar se passa no verão de 2000, quando eu tinha onze anos, onde todos os meus problemas eram resolvidos com um abraço e uma casquinha de sorvete de menta.
— Dylan, já pegou as suas malas? Temos que ir, antes que apareçam mais carros!! — mamãe diz, completamente eufórica.
— Sim, mamãe. Elas estão no carro. Peguei tudo da lista, conferi duas vezes e li tudo de novo. Está tudo certo. — digo, antes que ela pergunte. Mamãe suspira aliviada, e vamos para o carro. Nós gostamos muito de viajar de carro, mesmo que seja cansativo e demorado; acho que dessa forma aproveitamos mais a viagem.
Bem, cerca de 19 horas depois, finalmente chegamos em Miami, a mais linda cidade da Flórida. Como sempre, a vovó estava nos esperando na porta de sua casa, com o mais lindo de seus sorrisos. Eu corri para abraçá-la, e ficamos colados um ao outro num abraço apertado por pelo menos dois minutos.
— Mamãe, eu também quero um abraço desses! — papai diz, rindo. Ele deixa as malas que segurava no chão, e abre os braços.
— Tenho abraços para dar e vender, Charlie! — ela diz e o abraça. Sorrio e vou levando a minha mala para dentro, mas a vovó me chama de volta, dizendo:
— Dylan, antes de você entrar, quero lhe dizer para ser educado com a minha visita. — diz, olhando no fundo dos meus olhos. — Sua tia Laura também veio, e a April trouxe uma amiguinha com ela.. seja legal, está bem?!
— Tá.. — digo, um pouco irritado. As amigas da April, que é a minha prima, são sempre muito chatas, birrentas, ficam mexendo nas minhas coisas e não respeitam o meu espaço. Principalmente quando digo para elas não entrarem no meu quarto. Meninas, tsc.
— Falo sério, Dylan. Ela é uma menina especial. — diz. Assinto e entro. Fico pensando o que a vovó quis dizer com "ela é especial"; o que uma menininha teria de mais?! Como não vi ninguém no andar de baixo, fui direto para o andar de cima, para o meu quarto.
Ajeito a minha cama e deito-me um pouco. Eu amo este quarto, e amo mais ainda esta casa! Eu posso correr, comer à vontade, tenho as pessoas que amo ao lado, e uma linda praia lá fora. O que mais alguém da minha idade poderia querer?!
[...]
— Acorda, Dylan!! — uma vozinha me chama, e abro os olhos, lentamente.
— April? — pergunto, um pouco confuso. O que ela está fazendo no meu quarto?! Ah é, estou em Miami, não em Chicago.
— Claro que sou eu, bobo! — ela ri alto. — Você dormiu como uma pedra, ontem. Pensei que não iria acordar, mais.
— E por que não iria? Só estava dormindo. — digo, um pouco grosso. Odeio que meninas entrem no meu quarto sem permissão, especialmente a April. Ela tem o dom da destruição, como qualquer outra criança de sua idade; não que eu seja muito mais velho que ela, mas sou bem mais maduro e sensato.
Sento-me e esfrego os olhos, e quando os abro novamente, vejo uma garotinha que nunca havia visto antes na porta do quarto. Nos encaramos por alguns segundos, até April dizer:
— Essa é a minha melhor amiga, a Enid! — ela abraça a garota. — Ela mora em Minnesota, lá é muito frio!
— Ah, legal. — digo, um pouco indiferente. A garotinha não disse nada, apenas sustentou meu olhar com seus grandes olhos verdes, e isso me incomodou. Será que ela é muda?!
— Sei que você deve estar se perguntando como nos conhecemos, e é uma história super engraçada! — April diz, já começando a rir.
— Obrigado, não quero saber. Agora saiam do meu quarto, quero privacidade!! — levanto-me e coloco as duas para fora. — Sejam educadas, batam da próxima vez! — digo, alertando-as. Como April já estava cansada de saber disso, ela simplesmente mostra a língua para mim, e eu faço o mesmo, batendo a porta em seguida.
Me arrumo e alguns minutos depois desço pronto para ir à praia. O dia está lindo, tem muito sol e quase não têm nuvens no céu, e eu que não serei estúpido de ficar dentro de casa.
— Mãe, pai, vovó, vou para a praia!! — grito, e tento sair correndo para não ter que dar satisfações e coisas do tipo, mas antes que eu consiga alcançar a porta, papai diz:
— Leve a April e a Enid, mocinho!! — respiro fundo e dou meia-volta, voltando para o meu quarto. Quando já estava na metade da escada, April me chama.
— Ei, aonde você vai?! Queremos ir à praia!! — ela diz, um pouco irritada.
— Eu prefiro ficar em casa, não serei babá de duas pirralhas! — digo, mais irritado ainda. Essas férias deveriam ser ótimas, mas April irá estragar tudo, como sempre. Eu a odeio.
— O que você disse, Dylan? — minha avó diz, no topo das escadas. — Estou muito decepcionada com você. Não achei que fosse fazer isso.
— Mas vovó... — balbucio, arrependido. Ela faz uma expressão triste, e mudo de ideia na hora. — Eu vou!! — volto correndo e puxa as duas pelo braço, arrastando-as para fora de casa. Farei qualquer coisa pela minha avó.
— Por favor, não me deem trabalho. — digo, soltando-as. — Se comportem. — April começa a falar um monte de baboseiras, e Enid apenas assente, olhando para baixo. Depois de andarmos um pouco, encontro o lugar perfeito e estendo a minha toalha. — Passem protetor solar. Especialmente você, Enid, até parece que nunca pegou sol na vida.
As duas fazem o que eu mandei, e depois vão para a água, o que só deu mais forças à minha teoria de que meninas são burras; o protetor solar sairá com a água, inteligências raras! De longe, fico observando as duas se divertindo, e sinto um pouco de...inveja. Não tenho muitos amigos lá em Chicago, e acho que eles não aceitariam viajar comigo. Fico emburrado por um bom tempo, e quando menos espero, uma mãozinha se estende na frente do meu rosto, e nela havia uma conchinha branca.
— É para você. — ouço. Olho para a dona da voz, e vejo Enid, que sorria. Puxa, seu sorriso a deixa muito fofa. Pego a concha de sua mão e fico olhando-a por alguns segundos.
— Por quê está dando para mim? — pergunto, confuso. Ela dá de ombros e diz:
— Eu só achei que isso faria você ficar feliz. — assinto e olho novamente para a concha. Quando vou olhar novamente para Enid, vejo que ela já tinha saído, e num impulso, levanto-me e grito:
— Enid!! — ela olha para trás, e instantaneamente sinto as minhas bochechas esquentarem. Por que estou com vergonha?! — Obrigado! — ela sorri e volta correndo para o mar, para brincar com April. Vovó tinha razão.. De alguma forma, Enid é especial.
É, e foi aqui que tudo começou. Eu só tinha onze anos, não estava preparado para o que veio em seguida. Na verdade, eu nem sabia direito o que estava acontecendo. Eu não podia contar que estava tendo sentimentos que não conhecia para com uma garota para os meus pais, eu achava que seria motivo de chacota, então eu estava numa fria.
— Vovó... Podemos conversar? — pergunto, entrando no quarto dela. Já era noite, e eu estava de pijama, pronto para dormir, mas simplesmente não conseguia.
— Claro que podemos. Venha, deite-se comigo. — ela disse, apontando para o canto livre em sua cama. Caminhei até lá e deitei-me, abraçando-a. — Sobre o que quer conversar, pequeno Dylan?
— Eu não sei muito bem. — digo, fazendo careta, o que fez a vovó rir. — É sobre a Enid.
— Algum problema com ela? — pergunta, preocupada.
— Sim! Não! Quer dizer, eu não sei, vovó! Estou confuso. — digo, exasperado. Vovó ficou me olhando, curiosa, e eu continuei: — Hoje, na praia, aconteceu algo muito estranho.. Eu fiquei envergonhado por estar falando com a Enid, e quando comecei a brincar com ela e com a April, eu queria impressioná-la! Eu não entendo isso! E ELA ME DEU UMA CONCHA!!
— Ora, Dylan! A resposta é simples! — ela riu, ajeitando-se na cama. — Você gosta da Enid.
— Como assim?!
— Quero dizer que está apaixonado por ela, querido. — diz, tocando a ponta do meu nariz, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Mas vovó, Enid é uma garota! Garotas são burras e infantis, não posso gostar de uma delas! — digo, pensando nas possibilidades e rejeitando cada uma delas.
— Que pensamento é esse, Dylan?! Meninas não são nada disso que você pensa! Sua mãe, eu e sua tia Laura somos burras e infantis?! — nego. — Exatamente. E somos meninas.
— É, nem todas são assim.. Mas essa não é a questão! Não posso estar apaixonado por uma garota e pronto!
— Claro que pode. Isso acontece com todos os meninos em algum momento de suas vida. — explica, pacientemente. — O seu pai se apaixonou pela sua mãe, por exemplo. Se isso não tivesse acontecido, você nunca teria nascido.
— Quando as pessoas se apaixonam elas têm filhos?! Vovó, eu não quero ser pai ainda!! Tenho muito o que viver, é muita responsabilidade, eu só tenho onze anos! Ah meu Deus, eu vou ser pai!! EU PRECISO DE DOCES!! — digo, tremendamente assustado.
— Por Deus, criança! — ela ri, alto. — Não, as pessoas não tem filhos apenas por terem se apaixonado. Mas essa conversa você terá com os seus pais, não comigo. — ela segura a minha mão, para me acalmar.
— Ufa, ainda bem... — suspiro, aliviado. — Mesmo assim, não quero estar apaixonado pela Enid. — cruzo os braços, decidido. — Estar apaixonado é idiotice.
— Não, o amor é um sentimento puro, Dylan.
— Nós estávamos falando sobre paixão, vovó. Não sobre o amor. — digo. Não estou entendendo coisa alguma!
— Mas os dois são bem parecidos e ao mesmo diferentes, apesar de tudo. Sabe por quê? — nego. — Paixão é apenas gostar de alguém, já o amor, é aceitar as diferenças e os problemas das pessoas, e mesmo assim, gostar delas.
— Ah, entendi... Pelo menos eu acho que entendi. — penso, um pouco. — Não, não entendi. Vovó, a senhora conseguiu me deixar ainda mais confuso.
— Eu sei, mas algum dia você entenderá o que quero dizer. É só parar para pensar sobre isso.
— Está bem.. Vou dormir. Boa noite, vovó. — beijo sua face e desço da cama. Quando estou prestes a fechar a porta, ela me chama novamente:
— Não se esqueça, meu pequeno Dylan: O amor é para os fortes, não para os fracos. Então é melhor que esteja disposto a enfrentá-lo. — diz, com uma expressão séria.
— Não vou esquecer, pode deixar. — ela sorri e manda-me um beijo.
— Eu amo você.
— Também amo você, vovó. — fecho a porta e volto para o meu quarto. Sinceramente, essa conversa não me ajudou muito. Tenho certeza de que não amo, e muito menos estou apaixonado pela Enid. Ela é só uma garotinha, nem deve saber ler direito; e pior, ela é amiga da April. Ou seja, tem um mau-gosto terrível! Não posso gostar de alguém assim. A vovó está errada sobre os meus sentimentos, e eu vou provar para ela.
— Eu, Dylan Kennedy, não estou apaixonado por uma garota. E isso nunca vai acontecer. — faço uma pausa. — Quer dizer, talvez quando eu tiver uns 60 anos e estiver bem velho. — digo, em frente ao espelho do banheiro.
— Puxa, eu estou muito bonito. — dou risada, olhando para o meu penteado natural. Não usei shampoo para lavar o cabelo, e agora ele está espetado, completamente bagunçado. — Eu pareço um ator de cinema. É isso, vou ser ator quando crescer! — digo, animado. — É isso ai, bonitão. Você é demais.
Saio do banheiro, apago as luzes e vou para a minha cama. Ajeito-me confortavelmente e abraço um dos travesseiros.
— Boa noite, Miami! — digo, e caio num sono profundo.
Fale com o autor