Love as Sakura | 爱如樱
8 第8章 Pesadelo
Shi viu a dor torcer o rosto de Yan Da, parada imóvel diante dele, enquanto um fio de sangue escapava pela sua boca. Uma espécie de confusão perfurou seu coração como uma lança enquanto ele tentava alcançá-la, mas ela pendeu e caiu sem que ele pudesse dar um passo em sua direção, os olhos dela derramaram lágrimas angustiadas que ele desejava limpar com seus dedos, mas não conseguia se mexer. O vestido vermelho dela, tal como os longos cabelos com nuances rubras, espalhava-se como uma mácula de sangue no chão pálido de neve. Sua boca formou o nome dela, mas nenhuma palavra saiu, não importava o quanto gritasse, sua voz havia desaparecido.
Yan Da lhe ofereceu um sorriso triste, magoado, enquanto seu peito lutava por ar. Ele quase conseguia sentir os pulmões dela enchendo de sangue enquanto ela travava uma guerra contra o próprio corpo por oxigênio. Sua mão estendeu-se na direção dela, ele sentia os olhos ardendo, mas nenhuma lágrima caía, foi quando se deu conta que sua mão estava coberta de um líquido viscoso e, na outra, uma espada com lâmina azul brilhava em vermelho. Apavorado, Shi largou a arma enquanto olhava Yan Da, cujas forças evanesciam lentamente. As pétalas da cerejeira flutuando no ar, enchendo tudo com um cheiro suave e adocicado.
Não era possível.
Ele não podia tê-la matado.
— Yan Da!
O grito ecoou abafado dentro do quarto quando Shi abriu os olhos e sentou na cama. A parede pintada com a cerejeira tomou seu olhar e ele quase podia visualizar o corpo de Yan Da diante dela, envolto pelo próprio sangue quente. Um estremecimento abalou seu corpo de tal modo que ele mal percebeu que estava chorando. Por quê? Que espécie de pesadelo era aquele? Será que ele havia se preocupado tanto com ela a ponto de projetar aquele medo em seu subconsciente?
— Shi.
— Matei... eu... a matei... matei... — Balbuciava ele, em choque.
— Shi, olhe para mim!
— Matei... — Shi fitou as próprias mãos contemplando o líquido viscoso e escuro que impregnava sua pele. — Eu a matei...
— Shi, está tudo bem, olhe para mim! — A voz soou mais enérgica segurando as mãos dele com firmeza.
Virando a cabeça, só então ele percebeu a figura de Ka Suo sentada ao seu lado na cama com uma expressão preocupada em sua face pacífica. Atordoado pelas imagens em sua mente, Shi nem se dera conta que as lágrimas continuavam caindo até o irmão erguer a mão e, suavemente, secá-las com seus dedos. Um sorriso discreto arqueou-se em seus lábios finos e o coração de Shi encheu-se de angústia, lhe inquietava a forma como o sorriso de Ka Suo sempre chorava. Meneando a cabeça, desviou o olhar do rosto sereno do irmão mais velho e fitou a janela onde o crepúsculo pintava o céu em uma paleta de tons pastéis.
— Ge, você já chegou? Desculpe, eu acabei perdendo a hora. — Como um soco, a realidade foi se alinhando aos poucos e desprendendo-se do pesadelo vívido de minutos atrás.
— Não há problema — Tranquilizou Ka Suo. — O voo atrasou um pouco, não houve inconveniente em conseguir um táxi, vim direto para cá porque temi que algo houvesse acontecido contigo.
— Sinto muito... acho que subestimei a noite complicada que tive ontem. — Suspirou. — Fico feliz que esteja aqui, não preparei nada para você e a empregada não está...
— Shh. — Ka Suo sorriu, bagunçando os cabelos do irmão. — Não se apresse. Tem certeza que está tudo bem?
— Sim. Tudo em ordem. — Mentiu.
— Tome um banho, você parece exausto. — Aconselhou o irmão, Shi podia vislumbrar o insistente lampejo de preocupação em seus olhos. — Vou preparar o jantar.
Ka Suo deixou o quarto e Shi ergueu o olhar mais uma vez para a figura da cerejeira pintava na parede preta, seu coração comprimiu-se de tal modo que ele involuntariamente se encolheu. Pegou o celular sobre a mesa de cabeceira e ficou olhando o número de Yan Da — que ele havia pegado sem a permissão dela enquanto ela estava inconsciente, o próprio Shi se surpreendeu com sua atitude —, mas era incapaz de pressionar o botão ligar. Desistindo, e sentindo-se frustrado, levantou-se e arrastou o corpo na direção do banheiro enquanto os sons de seu irmão na cozinha compunha a trilha sonora da sua covardia.
※ ※ ※
— Yan Da, como anda a ordem que lhe dei?
Huo Yi soava impaciente do outro lado da linha e ela precisou de todo seu autocontrole para não suspirar de frustração. Fora tola ao acreditar que, com o passar dos dias, o pai deixaria de lado a ideia estúpida e sem sentido de Shuo Gang. Ainda era tola por ter esperança que ele lhe levasse a sério.
— Estou de licença médica, ninguém lhe disse?
— Quando vai parar de arranjar desculpas sempre que lhe delego uma tarefa? — Acusou o pai. — Você só me dar dor de cabeça.
— É exatamente pela dor de cabeça que estou desligando, até mais, pai.
— Não se atreva a...
Yan Da desligou o celular sentindo a cabeça latejar — e não era só por causa da concussão. Mordeu o lábio com força se recusando a deixar as lágrimas caírem. Não choraria. Não por causa do pai que era incapaz de reconhecer seu esforço. Encolhendo-se na cama, ela apoiou o queixo nos joelhos flexionados e fechou os olhos por um momento em busca de paz, mas a imagem que povoou sua mente foi o rosto de Ying Kong Shi.
Inquieta, ela fez uma careta e abriu os olhos outra vez para afastar a imagem. Odiava a forma como Shi parecia zombar dela ou mesmo o incômodo que dominava seu coração quando ele estava por perto. Mas, precisava admitir, queria vê-lo de novo, e aquele conjunto de paradoxos começava a irritá-la profundamente. Alcançou o analgésico no criado mudo, engoliu com um pouco d'água determinada a dormir e não pensar mais naquele homem enigmático que lhe causava tanto desconforto.
※ ※ ※
Quando Shi chegou à sala de jantar, Ka Suo já o esperava à mesa. O irmão mais velho lhe ofereceu um sorriso enquanto ele observava todos os seus pratos favoritos em travessas, incluindo o frango xadrez e o jiaozi que só a mãe deles e o próprio Ka Suo sabiam fazer como ele gostava. Por isso era tão angustiante que ele não sentisse a fome que esperaria diante de uma demonstração de cuidado tão preciosa, mesmo tendo comido tão mal no dia anterior.
— Está mesmo tudo bem? — O irmão insistiu.
— Eu só não dormi bem noite passada. — Ele sentou em frente ao irmão, pareciam anos desde a última vez que vira Yan Da e não apenas um dia.
— Como ficaram as coisas com a senhorita Meng?
Shi fez uma careta.
— Se as mulheres fizessem uma ideia superficial de que não tenho qualquer trato com elas me tirariam dessas famigeradas listas de herdeiros cobiçados.
— Foi assim tão ruim? — Ka Suo não pôde evitar a risada.
— Bem, pelo menos ela não é Shuo Gang. — Suspirou. — Se ele fosse uma mulher eu já estaria na primeira página por assédio sexual ainda no noticiário da manhã.
— Não posso criticá-lo, não sou melhor que você no que diz respeito ao grupo feminino. — Um sorriso constrangido fez as faces esculpidas de Ka Suo corarem.
— Quando finalmente vai falar com Li Luo? — Shi quis saber enquanto colocava uma porção de frango sobre o arroz em seu bowl. — Ela já é funcionária do nosso shopping a 4 anos e você nunca se arriscou a pedir pra sair com ela.
A expressão de Ka Suo se tornou sombria. Eram poucas as vezes que ele ficava tão sério diante do irmão e Shi reconhecia muito bem todas as camadas dele para reconhecer quando havia cruzado a linha. Ainda assim, não arrependeu-se do que disse, era incapaz de conceber a retração de Ka Suo quando se tratava do seu coração, ele era apaixonado por Li Luo desde que a viu pela primeira vez e nunca arriscava uma aproximação.
— Você sabe que não é tão simples. — Foi a resposta que recebeu.
— Por causa da diferença de status? Ge, nós dois sabemos que você está acima disso.
— Eu sim, mas nossos pais não.
Shi meneou a cabeça incapaz de retrucar. Era verdade. Nenhum dos dois permitira que Ka Suo se casasse com menos de uma herdeira de grandes posses o que, em sua visão, era ridículo e retrógrado perpetuar aquele tipo de valor arcaico. Contudo, Ying Chen Tong ainda cultivava os costumes antigos de casamentos arranjados como o seu um dia fora. Shi amava seus pais, mas não podia deixar de achar injusto a firma como eles tratavam Ka Suo.
— Ge, quando finalmente vai tomar a frente da sua vida? — Foi o que indagou com certa indignação na voz. — Vai esperar a mamãe finalmente decidir uma noiva para você?
— Shi...
— Por que apenas não entra lá e fala com ela? Qual a dificuldade?
— Eu nem saberia como agir, acabaria passando por louco ou idiota. — Passou as mãos pelos cabelos, frustrado.
— Que tal isso: entre e finja que vai comprar alguma coisa.
— Shi, percebe o que está dizendo? — A expressão de Ka Suo era um intermédio entre a incredulidade e o riso.
— O quê? — Ele parecia confuso.
— É uma loja de lingerie! — Riu Ka Suo. — Não creio que a senhorita Li seria tão piedosa quanto Yan Da para me livrar da acusação de assédio. E eu ainda prefiro cuecas a calcinhas.
— Okay, okay, foi um palpite infeliz. — Riu Shi, sentindo-se mais relaxado.
Os dois comeram em silêncio por algum tempo e, mesmo que não o olhasse, Shi podia sentir o escrutínio do irmão sobre ele. Parte dele queria evitar as perguntas que — ele sabia — Ka Suo faria, outra parte desejava contar ao irmão toda a confusão que povoava seus pensamentos. Mas termia que ele não entendesse, ainda que Ka Suo o conhecesse melhor que ninguém e, ao contrário da maioria das pessoas, nunca o julgasse.
Como se lhe desse tempo para ponderar acerca de suas repostas, Ka Suo permaneceu comendo tranquilamente e o silêncio, que entre os dois era sempre confortável e cheio do significado das palavras não ditas, perdurou até quase o fim da refeição, quando o mais velho o quebrou com sua voz acentuada e grave:
— Quer conversar sobre seu pesadelo?
Shi sabia que não lhe adiantaria mentir. Ele não respondeu imediatamente, pesando bem as palavras e tentado prever o impacto que elas teriam sobre o irmão, especialmente porque Ka Suo sempre levava tudo sobre ele muito a sério.
— Quando cheguei, você estava chamando pela senhorita Meng. — Continuou diante do silêncio do irmão. Por que acordou dizendo que a matou?
— Eu... — Ele olhou as próprias mãos outra vez como se pudesse ver o sangue que outrora parecia revesti-las como luvas. — Ge, eu...
— Há quanto tempo vem tendo esse tipo de pesadelo? — A voz de Ka Suo permanecia inalterada, mas havia uma nota de apreensão sob o tom de tranquilidade.
— Com ela foi a primeira vez. — Explicou. — Mas, ao mesmo tempo, tudo parece tão confuso, tão absurdo... eu não reconheço aquele lugar, deve ser apenas uma preocupação do meu inconsciente com a febre que ela teve.
— Sim, mas isso não explicaria a razão pela qual você acha que a matou, não é? — O olhar do irmão era afiado. — Shi, me conte exatamente o que aconteceu no seu pesadelo.
Antes mesmo que percebesse, Shi estava detalhando tudo de que se lembrava do sonho, como se um peso fosse sendo tirado de dentro dele, desintoxicando suas vias respiratórias e libertando sua alma. Em nenhum momento Ka Suo lhe interrompeu, absorvendo as palavras com uma atenção completa, a expressão indo de séria para sombria de uma maneira que Shi nunca havia visto. Quando terminou, Ka Suo entrelaçou os dedos e apoiou o queixo sobre eles ficando pensativo por um tempo.
— Você está certo. — Disse por fim. — Acredito que quase a ter atropelado deve ter sido um choque e tanto para você e a noite mal dormida não ajudou.
Havia algo errado com o sorriso de Ka Suo, mas Shi achou melhor não perguntar o que ele escondia. Confiava que o irmão lhe contaria o que achasse que ele devia saber, nunca teve motivos para duvidar de Ka Suo que sempre o protegeu e esteve ao seu lado.
※ ※ ※
— Fùqīn*, por favor, desista dessa ideia! — Implorou Yan Da. — O senhor só atrairá a ira dos céus contra nós. Não há qualquer sentido nessa guerra.
— Quem é você para me impedir?! — Bradou Huo Yi, os olhos inflamados de ódio. — Saia do meu caminho, Yan Da!
— Huo Yi! — A voz de Shi veio por trás deles. — Isso acaba aqui!
Yan Da sentiu uma mistura de ternura e medo quando o viu parado sob os espessos galhos da cerejeira, glorioso, empunhando sua espada. Instintivamente, ela se posicionou entre os dois como se pudesse evitar o confronto, Shi estava a alguns metros dela, o belo rosto fechado em uma máscara de dor e fúria, ela não podia culpa-lo por desejar a morte de seu pai, ele havia ferido mortalmente Ka Suo.
— Você não tem mais qualquer filho para absorver. — Continou Shi em grave tom de ameaça. — Vou acabar com você e vingar o meu irmão!
— Um pirralho como você não é capaz de me derrotar! — Riu Huo Yi. — Logo você estará no inferno ao lado do seu irmão idiota! Yan Da, saia da frente!
— Ying Kong Shi, por favor, nos deixe ir, não há mais nada que possa tirar de nós. Perdemos. — A voz dela tremulava enquanto mantinha os braços abertos em uma tentativa inútil de proteger o pai.
— Não perdemos! — Protestou Huo Yi. — Saia do meu caminho ou destruirei você também!
Ela percebeu que Shi hesitou, não deu um único passo na direção dela e a mão que empunhava a espada apertava com tanta força que os nós dos dedos estavam ainda mais brancos. Ele lhe olhou com um silencioso pedido de desculpas, mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa algo atravessou seu corpo.
Yan Da abriu os olhos assustada quando uma mão pressionou sua boca com força, a escuridão quase completa do quarto a impedia de distinguir as feições do invasor, seu coração encheu-se de pânico. Havia esquecido de trancar a porta? Não lembrava. Trêmula, ela não ousou se mexer, as imagens do pesadelo ainda ricocheteando nas paredes da sua mente.
— Quietinha. — Ordenou uma voz. — Se você gritar eu rasgo sua garganta, entendeu?
Sem alternativa ela apenas acenou e no fundo da sua mente — e do seu coração — se perguntou se não seria melhor que ele fizesse aquilo.
*Fùqīn [父亲] — é a palavra formal para pai.
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