Love as Sakura | 爱如樱
9 第9章 Entrelaçados
Uma risada explodiu em algum lugar do quarto e o corpo de Yan Da relaxou ao reconhecer o som. As luzes foram acesas e a figura de Pian Feng com um sorrisinho sádico apareceu diante dela, a mão dele ainda sobre sua boca e, ao fundo, uma Chao Ya incontrolável gargalhava. Levou apenas um segundo para toda tensão abandonar Yan Da e ela chutar o agente de sua amiga para fora da cama. Pian Feng caiu com um baque surdo no chão protestando com a dor da joelhada dela em suas costelas.
— Chao Ya! — Censurou Yan Da. — Que tipo de brincadeira sem graça é essa?!
— Você mereceu por deixar a porta de casa aberta! — A outra não conseguia parar de rir. — Precisava ver a sua cara agora pouco! Hilária!
— Isso não foi nada engraçado. — Reclamou ela, colocando o robe de seda preta e prendendo os cabelos com um elástico. — E você, Pian Feng, não devia colocar juízo na cabeça dela ao invés de corroborar com essas atitudes infantis?
— Da'er*, você sabe que a Chao Chao é um espírito livre. — Ele se levantou massageando as costelas.
— Yan Da, quem é você para falar sobre "atitudes infantis"? Não sou eu que aos vinte e seis anos ainda coleciono podcasts de jogos MMORPG. — Acusou Chao Ya.
Yan Da fez uma careta.
— Se a sua inteligência fosse além da notação musical você não subestimaria jogos de MMORPG, eles tem mais histórias que as suas músicas sem sentido. — Deu de ombros. — Agora caiam fora daqui pra que eu possa me vestir.
— Músicas sem sentido?! — Gritou Chao Ya, insultada. — Repita isso se tiver coragem!
— Ah, ah, Chao Chao, vamos lá, saindo. — Pian Feng segurou os braços da sua estrela levando-a para fora enquanto Yan Da esboçava um sorriso vitorioso.
— Ela disse que minhas músicas não tem sentido! — Argumentou ela para o agente, profundamente ofendida. — Você ouviu o que...
A porta foi fechada e, antes de se mexer, ela deu uma risada baixa. As duas se tornaram amigas na faculdade, Chao Ya cursava música e Yan Da, administração. Foi com uma ajudinha de Yan Da que ela conheceu Pian Feng, um talentoso agente musical que a colocou no mundo glamoroso e estressante da fama, a voz angelical e o rosto vendável de Chao Ya garantiram vaga nos principais concursos musicais até seu primeiro álbum solo "Yè jiāoxiǎng qǔ"*. Era uma das poucas pessoas com quem Yan Da podia contar e com quem podia conversar desde Peng Peng, ainda que as duas se vissem muito pouco graças às constantes turnês da amiga.
Ela lavou o rosto várias vezes, ainda incomodada com o pesadelo de minutos atrás. Não apenas as roupas estranhas que usava, mas o rosto de Ying Kong Shi preenchendo o do homem com quem ela sonhava desde a infância. Em geral, ele sempre estava de costas ou seu rosto oculto pelos longos cabelos prateados, era a primeira vez que ele tinha um rosto real e frustrava Yan Da que fosse justamente o rosto do causador de problemas da empresa concorrente. Em um canto no chão ainda residia o terninho maligno que ela usara no dia anterior, lançou-lhe um olhar de esguelha antes de deixar o banheiro. Que péssima impressão ela havia tido dele a ponto de não conseguir afastar suas feições da cabeça? Colocou uma roupa leve e deixou o quarto, ao aproximar-se da sala de estar pelo pequeno corredor, entreouviu uma conversa entre a amiga e o agente, de quem Yan Da aprendeu a gostar também.
— Talvez eu tenha pegado um pouco pesado com ela. — Resmungou Chao Ya.
— Talvez? — Ele parecia estupefato. — Depois do que aconteceu com Peng Peng foi um milagre ela não ter tido um ataque de pânico.
— Ai, tiān de! Esqueci completamente do Peng Peng! — Chao Ya levou a mão à boca, chocada. — Tanto que ela me falou sobre ele.
— Chao Chao, quantas vezes já te disse para pensar mais de uma vez antes de agir? — Pian Feng censurou-a. — Mas também tenho minha parcela de culpa por ter concordado em te ajudar nessa ideia maluca.
— Hǎo de hǎo de*... — Retrucou ela, chateada. — Já entendi. Não precisa se empenhar tanto para me fazer sentir culpada.
Yan Da apareceu nesse momento e os dois se calaram. Ela estivera tão absorta com o pesadelo e toda a confusão das últimas horas — que mais pareciam anos — que sequer tivera chance de associar a brincadeira da amiga à Peng Peng, coisa que teria certamente acontecido em outra situação. Pensar em Peng Peng ainda era muito difícil para Yan Da, seu coração comprimia-se pela dor da saudade e da culpa. Fingindo não ter ouvido nada, ela caminhou até uma poltrona e, colocando um travesseiro no colo, fitou seus convidados com uma expressão séria:
— O que estão fazendo aqui, afinal?
— Aya*, é bom te ver também, miss simpatia. — Reclamou Chao Ya. — Aquilo foi sua punição por ser desatenta! Quantas vezes eu já disse para trancar a porta?! Se esquece tanto, deveria colocar uma trava eletrônica com senha, o que faria se fosse um assalto de verdade?
— Se eu me esqueço de trancar a porta qual a probabilidade de lembrar a senha? — Ironizou ela.
— Acho que a concussão deve ter invertido seus hemisférios cerebrais! — Provocou Chao Ya.
— Espere aí, como você sabe sobre isso?
— Dã, eu tentei te ligar pelo menos mil vezes desde que pousei na cidade e ou seu maldito telefone caía na caixa postal ou dava ocupado. — Explicou. — Vim direto pra cá ver se você ainda estava viva ou se tinha virado outra noite resolvendo os problemas de Shuo Gang porque é só isso que você faz quando não está jogando ou ouvindo podcasts de jogos.
— Telefonei para sua secretária na Huo. — Contou Pian Feng. — Ela me disse que você tinha tirado licença médica. Ficamos preocupados.
— Shuō ba*! — Ordenou Chao Ya. — E nem venha com histórias sobre cair da escada ou bater a cabeça no box do banheiro, quero os detalhes emocionantes.
Yan Da revirou os olhos reprimindo a vontade de atirar a almofada contra a amiga. A presença de Chao Ya serviu para distraí-la e relaxar um pouco mais seu espírito, faziam meses desde a última vez que se viram e ela estava realmente feliz com a inesperada visita. Precisaria de todo apoio que pudesse para reerguer seu ânimo outra vez.
— Feng'zi* — Chao Ya olhou o agente com um sorriso provocante —, acho melhor você fazer chá, parece que vai ser uma longa história.
Pian Feng fez uma careta diante da provocação.
— Chá! — Resmungou irritado. — Em plena hora do jantar, hunf!
— Pare de chama-lo assim, Ya'mèi*. — Brigou Yan Da. — Você não tem qualquer juízo para chamar alguém de maluco. — Feng'ge, eu quero comer o jiaozi que você faz.
Ele sorriu para Yan Da e levantou indo em direção à cozinha do apartamento não sem antes oferecer uma carranca para Chao Ya.
※ ※ ※
A presença de Ka Suo deixou Shi mais tranquilo. Ele sempre se sentia mais seguro quando o irmão estava por perto e o simples fato de saber que ele estava no cômodo ao lado ajudou-o a dormir de forma quase instantânea. Ele esperava não ter mais pesadelos, sentia-se tão cansado que só queria mergulhar no nada e afastar-se de qualquer espécie de pensamento. Foi exatamente o que aconteceu quando Ka Suo abriu a porta do seu quarto e fitou-o sereno em um sono sem sonhos. Ele se aproximou e acariciou os cabelos do irmão com ternura antes de deixar o quarto e sair até a varanda.
— Wáng. — A figura ajoelhou-se ao lado de Ka Suo com o braço sobre o tronco e a mão em punho sobre o coração. — Trago notícias sobre a investigação que me confiou.
— Como estão os movimentos dela? — Ka Suo olhava o céu estrelado.
— Vossa majestade estava certo, ela está interferindo. Não está agindo sozinha e temo que seu objetivo seja despertar a lótus escarlate.
O rosto de Ka Suo permaneceu inalterado e apenas Shi teria conseguido perceber a veia de preocupação mover-se de modo quase imperceptível em sua testa ou a fúria contida que brilhava em seus olhos.
— Aquelas pessoas já chegaram?
— Sim, meu rei, estão olhando por sua alteza.
— Tudo está prestes a se alinhar, não posso permitir que ela interfira.
— Wáng, apenas Xin Jiu sabe onde a lótus escarlate está escondida, ele não permitirá que ela a encontre.
— Traga Liao Jian de volta. — Ordenou.
— Shì*, wáng.
Ainda ajoelhada, a figura fez uma breve reverência e levantou pronta para cumprir a ordem. Com um breve movimento de sua espada, um portal foi aberto e, da mesma forma que surgiu, a figura desapareceu. Ka Suo suspirou, a linha entre a verdade e a ruína parecia tênue e quebradiça em suas mãos, havia tanto a ser feito e em tão pouco tempo. Ele direcionou o olhar para o local onde sua companhia havia acabado de desaparecer e ergueu a mão direita, o gelo fez uma curva do chão até acima da grade de proteção, quando ele fechou a mão em punho, a camada gelada explodiu em pedaços e desapareceu no ar deixando um sopro de ar glacial à sua volta.
※ ※ ※
Quando Shi acordou na manhã seguinte se sentia bem melhor. Era como se tivesse dormido pelos últimos oito anos e não oito horas, podia ouvir os sons vindos da cozinha onde Ka Suo preparava o café da manhã. Não havia como explicar, mas estar perto do irmão afastava dele qualquer sentimento de tensão, medo ou preocupação. Tomou um banho rápido e colocou um terno azul marinho e checou se tudo que precisava estava na sua pasta. Quando alcançou a sala de estar observou o irmão mais velho concentrado no preparo da comida e sorriu, eram poucas as pessoas que tinham o privilégio de ver aquele lado de Ka Suo, mesmo que tentasse afastar o pensamento, Shi ainda se inquietava com a expressão do irmão na noite anterior, quando lhe contou sobre o pesadelo que tivera com Yan Da. Havia dentro dele a certeza que Ka Suo estava escondendo alguma coisa, algo que o estava deixando preocupado e — por mais absurdo que fosse o pensamento — com medo.
Shi quase riu de si mesmo por pensar aquilo. Conhecia Ka Suo melhor até mesmo que a mãe deles. Não havia uma única coisa capaz de colocar medo em seu irmão mais velho. Bem, talvez uma, mas considerando todos os agravantes, era improvável que algo do tipo acontecesse. Afastando o pensamento, ele deixou a pasta sobre o sofá e caminhou até a cozinha onde foi recebido por um cordial sorriso.
— Você acordou, que bom, parece mais descansado.
— Ge, zǎo*! — Shi devolveu o sorriso. — Dormi muito melhor ontem, e você? Dormiu bem?
— Muito bem. Sempre descanso melhor aqui que em casa.
— Já disse que deveria se mudar pra cá, nossos pais vão acabar sufocando você. — Resmungou.
— Não quero invadir seu espaço. — Argumentou Ka Suo.
— Fèihuà*! — Cruzou os braços. — Falando assim, qualquer um pensaria que eu sou um Casanova que vive trazendo mulheres pra casa. E, mesmo que fosse o caso, você sempre pode alugar um apartamento no prédio.
Ka Suo deu uma risada baixa.
— Você devia ter se formado em direito, que desperdício de talento. — Provocou.
— Que maus modos a América te ensinou pra estar me provocando já a essa hora da manhã?
— Bom ver que suas energias estão carregadas. — Anuiu satisfeito. — Agora coma ou vamos nos atrasar.
— Não que eu goste de descumprir minhas obrigações, mas ainda temos duas horas de folga do nosso horário, qual a pressa? — Ergueu a sobrancelha para o irmão.
— Ora, esqueceu que está responsável por entrevistar os novos candidatos?
Os olhos de Shi se arregalaram e ele murmurou uma imprecação enquanto Ka Suo ria e colocava um jianbing* no seu prato.
※ ※ ※
Yan Da acordou quando o braço de Chao Ya parou em cima do seu rosto. Como só havia um quarto de hóspedes, Pian Feng ficou com ele e as duas, que estavam acostumadas a dividir a cama, acabaram dormindo juntas. Porém, ela havia esquecido o quanto a jovem estrela podia ser inquieta enquanto dormia. Com um suspiro ela direcionou o olhar ao relógio na cômoda e viu que havia acordado duas horas antes do horário habitual. Sabendo que não seria capaz de dormir de novo, decidiu levantar e tomar banho.
Parte de si se sentia culpada pelo que ia fazer, ela não queria tomar parte naquele plano infundado e desonesto do pai, não obstante, sua lealdade filial lhe obrigava a seguir as ordens dele. Encarou o famigerado terninho maligno ainda no chão do banheiro em dúvida se o queimaria ou jogaria no lixo. Soltou uma lufada de ar e ignorou-o, depois decidiria o que fazer com ele.
Chao Ya ainda dormia quando ela deixou o quarto após fixar um post-it no abajur informando que saíra para trabalhar. Por um lado era melhor assim, as duas haviam conversado sobre a situação na noite anterior e, mesmo solidária, a amiga se mostrou preocupada com Yan Da e o turbilhão de sentimentos que a cercava.
— Isso é tão injusto! — Reclamou Chao Ya. — Seu pai não pode te forçar a fazer isso. Shuo Gang é ridículo, ele acha que está gravando algum drama? Não sei o que é pior, ele te forçar a se infiltrar na empresa alheia ou a dar em cima do herdeiro.
— Argh, quando você coloca dessa forma parece ainda pior! — Yan Da pressionou o rosto contra a almofada.
— Da'er, você é tão talentosa, não sei por que ainda se sujeita a trabalhar pro seu pai. — Disse Pian Feng. — Está na cara que ele não dá o valor que você merece.
— É o meu pai, afinal... — Retrucou ela com um muxoxo.
— Aya, não faça essa cara! — Chao Ya se aproximou e segurou as mãos da amiga. — Jie*, não dizemos essas coisas para deixar você triste, nos preocupamos com você.
— Eu sei. — Suspirou. — Queria ser menos covarde e ir atrás dos meus sonhos, mas quando penso no caos que seria deixar tudo de verdade no controle de Shuo Gang...
— Bem, se você for mesmo fazer o que seu pai quer, ele vai ter uma ideia bem nítida do imprestável do seu irmão gerindo a empresa. — Comentou Pian Feng.
— Mas me conta, Ying Kong Shi é tão bonito quanto nas fotos? — Chao Ya quis saber.
— Do que diabos está falando? — Yan Da desviou o olhar para a janela.
Pian Feng e Chao Ya trocaram um olhar conspirador e começaram a rir.
— Você está corando! — Apontou Pian Feng.
— Tian de! Você está corando sua encrenqueira! — Provocou Chao Ya. —Quão lindo ele é? Conta, conta!
Yan Da afastou a lembrança enquanto esperava o elevador. Se tivesse sorte, nunca mais teria que ver Ying Kong Shi outra vez e, brevemente, o rosto dele seria apenas um borrão na sua mente. Ela admitia que, em algum lugar dentro de si, desejava encontrá-lo novamente, mas o temor que a ideia gerava — por alguma razão que ela ainda não era capaz de entender — drenava qualquer alegria que a possibilidade poderia trazer. Seu coração doía tanto quando o via que ela chegava a pensar que, em outra vida, ele a tivesse matado.
Tão logo o apito do elevador soou arrancando-a de seus devaneios, as portas se abriram para revelar as figuras de Ka Suo e Ying Kong Shi, ao mesmo tempo que os dela, os olhos dele também esgazearam quando se olharam e ela sentiu seu rosto arder. Ka Suo olhou o irmão corar e conteve uma risada.
— Meng xiaojie, eu suponho. — Dirigiu-se a Yan Da, mantendo a porta do elevador aberta. — É um prazer finalmente conhecê-la.
— Zhang xiānshēng. — Ela forçou a voz a sair controlada e natural.
— Está descendo? — Perguntou ele, mesmo que fosse óbvio, ainda mantendo a risada presa no fundo da garganta. — Por que não se junta a nós?
— Claro.
Yan Da lutou para manter sua dignidade altiva enquanto caminhava para dentro do elevador pensando consigo mesma se aquele novo terninho seria também marcado como símbolo de um dia azarado. Ela parou ao lado de Shi, já que Ka Suo estava em frente ao painel do elevador e — ela suspeitava — encostara-se de propósito na barra para impedi-la de ocupar seu lado. Shi, por sua vez, mantinha a cabeça reta olhando as portas fechadas e as mãos firmes segurando a pasta com força. Discretamente, Ka Suo cutucou-o com o cotovelo fazendo sinal para que ele falasse com ela.
O silêncio dentro do elevador era tão forte que quase parecia palpável. Os andares pareciam arrastar-se e Ka Suo fazia um esforço cada vez maior para não rir dos companheiros. Por fim, após longo tempo, Shi finalmente reuniu coragem para dizer alguma coisa:
— Espero que a sua saúde esteja em ordem, Yan... Meng xiaojie.
Yan Da ergueu o rosto para ele, chocada, quando ele quase a chamou pelo nome e percebeu o riso baixo que Ka Suo tentava disfarçar.
— Estou me recuperando muito bem, obrigada, Ying xiānshēng. — Enfatizou, com alguma dureza na voz, as últimas palavras.
Nesse momento o elevador deu um solavanco e Yan Da perdeu o equilíbrio sobre os saltos, Shi a segurou bem no momento que o corpo dela pendeu para frente e, no momento que suas mãos a tocaram, seus olhos se encontraram e foi como se eles fossem sugados pela mesma lembrança.
— Ying Kong Shi, você disse que me retribuiria por salvar sua vida, mas quantas foram as vezes que me salvou? — Os olhos de Yan Da encheram-se de lágrimas. — Pode me dizer o que eu sou para você no seu coração?
O rosto de Shi se manteve impassível, uma máscara de gelo. Seus olhos eram afiados como estalactites quando fitaram Yan Da sem qualquer tipo de sentimento:
— Uma inimiga.
— Impossível... então por que me ajudou?
Shi esboçou uma risada curta e debochada.
— Eu te ajudei porque me tratou com sinceridade. Porque eu te usei e abusei da sua confiança em mim.
— Não! — Protestou ela, não conseguia acreditar naquilo. — Me diga, por favor, me diga que está mentindo pra mim!
— Vou te perguntar de novo, o que está fazendo aqui?
— Você é realmente egoísta? Só existe espaço para o seu irmão dentro de você?
E antes que ela sequer notasse, um raio de gelo a atingiu e Yan Da caiu na mais completa escuridão.
Foi uma fração de segundo. Os dois caíram no chão, ela por cima de Shi e Ka Suo ajudou-os a levantar. Yan Da não percebeu, mas ela chorava, o rosto de Shi era uma máscara de angústia enquanto a fitava com uma mistura de confusão e ternura, ele não sabia quão doloroso era ver as lágrimas de alguém até contemplar o rosto aquoso de Yan Da. Ela se afastou dele, assustada, nunca antes tivera um sonho lúcido como aquele, havia tanto desespero, tanta dor...
— Meng...
— Fique longe de mim! — Ela afastou a mão quando Shi fez menção de se aproximar.
— Meng xiaojie, está tudo bem. — Ka Suo tentou acalmá-la.
O elevador voltou a se mover e, assim que as portas se abriram para o saguão, Yan Da saiu correndo, seus saltos ecoando pelo lugar enquanto Shi parecia petrificado no lugar. Ka Suo olhou o irmão mais novo com compaixão, queria poder tirar aquele sentimento ruim dele, mas era algo que Shi precisava vencer sozinho. Ele levou os dedos com suavidade ao rosto do irmão e secou-lhe as lágrimas que caíam sem que ele sequer notasse.
— Zǒu ba*.
Por um momento, Shi não se mexeu, mas quando o irmão segurou seu pulso, ele forçou as pernas a se moverem. Embora não conseguisse explicar, dentro do seu coração havia uma vontade férrea de encontrar Yan Da, de lhe pedir perdão — embora ele não soubesse por que — as imagens ainda cercavam sua mente como predadores a uma presa. Ele não conseguia esquecer. Como um martírio eterno que lhe fora imposto.
"O que eu sou para você em seu coração?"
"Uma inimiga."
— Shi. — A voz de Ka Suo era como um eco longínquo lhe trazendo de volta à realidade. — Está tudo bem.
— Ge...
— Você está aqui, agora. Esse é o presente, Shi, não importa os erros do passado, você constrói aqui o futuro que quer ter, então olhe para frente, sempre. Me ouviu? — Ka Suo segurou os ombros do irmão e o fez olhá-lo.
— Isso foi real? — Shi olhou para o irmão, naquele instante, Ka Suo não passava de um borrão aquoso.
— Não precisa ser... não mais. — Ele secou as lágrimas do rosto angustiado.
— Eu não entendo...
— Vai ficar tudo bem, Shi, eu prometo. — Sorriu. — Vamos agora, tudo bem?
Shi assentiu. Ao ver o sorriso de Ka Suo todas as suas dúvidas se diluíam, mesmo que seu coração permanecesse comprimido e cada batida doesse como uma punhalada, ele acreditava no irmão. Tudo ficaria bem. Seja quem for aquela pessoa que tinha seu rosto não era ele, não podia ser. Shi nunca agiria de maneira tão cruel. Ele esperou no carro enquanto o irmão ia até uma cafeteria próxima e, o tempo todo, o rosto choroso de Yan Da povoava seu pensamento, ele a encontraria de novo. Não importava o que acontecesse, ele descobriria a verdade e colocaria as coisas no lugar.
Pareceu levar uma eternidade até finalmente chegarem à ZhangYing. O prédio estava lotado com os candidatos às vagas de emprego, em sua grande maioria eram jovens recém saídos da universidade tentando a sorte em uma grande empresa. Os candidatos eram separados por setores, Shi estava responsável por entrevistar aqueles que ocupariam os cargos de marketing e relações públicas, uma das secretárias veio ao encontro dos irmãos e os cumprimentou formalmente, Ka Suo se despediu e tomou o elevador para a sala da presidência onde teria uma reunião com o pai sobre os acordos em Los Angeles.
— Ying xiansheng, essas são as candidatas pré-selecionadas por currículo para a entrevista antes do senhor chegar.
Informou a secretária apontando para um grupode vinte pessoas. O coração de Shi pulou uma batida quando seus olhos pousaramno grupo e, entre elas, ele avistou a pálida figura de Yan Da.
Notas:
*Er [儿]— em mandarim, esse ideograma significa "filho(a)", criança, jovem, mas junto de outro nome é usado como um sufixo carinhoso de uma pessoa mais velha para uma mais jovem. Seria mais ou menos o equivalente ao nosso 'inho (a)' usado em nomes próprios.
*Yè jiāoxiǎng qǔ [夜交响曲] – em mandarim sinfonia da noite
*Hǎo de [好的] — é o equivalente ao nosso "okay".
*Aya [啊呀] — É uma interjeição chinesa, seria o equivalente ao "oh".
*Shuō ba [说吧] — Fale, diga, conte. O shuō [说] é o verbo falar, contar, dizer e o ba [吧] funciona aqui mais ou menos como um complemento nominal sem tradução.
*Feng'zi — está grafado assim porque aqui Chao Ya faz um trocadilho com o nome de Pian Feng. Em mandarim Pian Feng [片风] quer dizer vento pacífico, o feng [风] é vento, aqui ela faz um trocadilho com o adjetivo fengzi [疯子] que significa louco, lunático. Esse outro feng [疯] significa louco.
*mèi [妹] — irmã mais nova, aqui é usado sem ligação sanguínea como um tratamento para mostrar o grau de intimidade e proximidade entre Chao Ya e Yan Da.
*Shì [是] — Esse é o verbo ser em mandarim, contudo ele assume outros papéis em diferentes contextos. Aqui, ele funciona como "sim". E para o caso de terem esquecido, wàng [王] é rei.
* zǎo [早] — em mandarim, 早 é cedo. Nesse caso, Shi usa uma "abreviação" do cumprimento Zǎoshang hǎo [早上好] que quer dizer "bom dia".
Fèihuà [废话] — Bobagem, besteira, absurdo.
*jianbing [煎饼] é uma espécie de crepe frito, é feita de massa de trigo e farinha de grãos, frita numa frigideira e depois coberta com coentro, cebolinha, molhos e baocui, que é um tipo de biscoito fino frito.
*Jiě [姐] — irmã mais velha
* Zǒu ba [走吧] — vamos
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