Love as Sakura | 爱如樱

74 第61章 Recomeço - Parte I


Hu Bing entrou correndo no hospital e, ignorando os pedidos das enfermeiras por quem passava quase derrubando, não parou até alcançar o quarto onde Yan Da estava internada. Tão logo recebeu a ligação de Pian Feng anunciando que a irmã havia acordado, o coração do juiz encheu-se de incontida felicidade, depois de todo acontecido com a irmã no passado, ele estava constantemente em alerta, preocupado que mais uma vez se visse a ponto de perdê-la. As lágrimas quentes já ardiam seus olhos quando entrou no cômodo e encarou uma resmungona Yan Da sendo teimosa para que a enfermeira tirasse de uma vez aquele incômodo cateter intravenoso.

Sem hesitar ou anunciar sua chegada, ele correu até o leito e a abraçou cheio de ardoroso afeto, mas mantendo o cuidado que a condição dela pedia. Passada a surpresa inicial, ela envolveu-o com os braços e murmurou pedidos de desculpas por tê-lo preocupado daquela maneira. Sabia que Hu Bing não lembrava do seu passado como príncipe do fogo, ele era apenas um humano comum preocupado com a irmã caçula cujo destino parecia ter particular interesse em destruir. Afastando-se brevemente dela, seu olhar aquoso a escrutinou procurando qualquer sinal de ferimentos, patologias ou hesitação.

— Estou bem, da ge*[1], é sério. — Insistiu. — Sinto muito por tudo isso...

Shagua, não precisa se desculpar de nada. — Ele sorriu acariciando o rosto dela. — Só você poderia ser tão azarada para sofrer de exaustão severa dentro de um cruzeiro, não é?

— O que posso fazer, tenho talento em todas as vertentes da má sorte. — Retrucou, sarcástica. — Sei que está assustado, mas te garanto que não vou quebrar tão facilmente, depois de tudo que passamos já devia saber disso.

— Ei, deixa eu me preocupar com você. — Sorriu e ela enxugou suas lágrimas. — Alguém precisa fazer isso, já que você sempre pensa em todo mundo menos em si mesma.

— Entre você e Pian Feng tenho dúvidas em quem é pior. — Sorriu. — Vou acabar insuportável de tão mimada.

— O mínimo que você merece, Da’er. — Ele beijou sua cabeça abraçando-a mais uma vez. — Sabe que não conseguiria viver se alguma coisa te acontecesse, Yan Da... quase te perdi uma vez, não suportaria passar por isso de novo.

— Não queria te assustar... — Ela escondeu o rosto no peito do irmão ouvindo seu coração agitado. — Prometo a você, da ge, não vou a lugar nenhum.

— Só quero que você seja feliz. — Apertou-a um pouco mais. — Se você estiver feliz, xiao wu*[2], nada mais no mundo é capaz de me abalar.

Ela queria prometer que seria feliz, mas havia um buraco no seu peito tornando-a incapaz de entender aquilo que bloqueava sua felicidade. Faltava algo, mas não sabia o que era. Mesmo suas memórias estavam com lacunas inexplicáveis e ela sentia-se exausta por tentar preenchê-las. Pian Feng reiterara várias vezes para não se forçar daquela maneira, no momento certo voltariam, mas Yan Da não desejava esperar, seu coração urgia por respostas. Porém, mesmo que não pudesse prometer ser feliz, havia algo que podia prometer sem medo: tentar. E ela tentaria. Hu Bing, Pian Feng e Chao Ya eram sua família, a única que ela tinha e se a felicidade dela refletia sobre eles, se agarraria a isso com todas as forças para também vê-los felizes.

※※※

Shi ficou fechado em seu apartamento por vários dias desde que Huang Tuo lhe dissera sobre as memórias de Yan Da. Não desejava se render, mas ao mesmo tempo se perguntava se não seria melhor assim, ela havia tido tanto sofrimento naquela vida com Peng Yan, a família sem caráter e, adicionado a isso, o mal que ele lhe fizera no passado, talvez ficar longe e deixá-la viver sua vida, buscar a felicidade e reconstruir seus sonhos fosse a melhor coisa a fazer.

Mentiroso. A voz na sua mente gritou. Ele sabia que era ridículo pensar assim, não seria capaz de deixar Yan Da seguir sozinha, ele queria fazer parte da felicidade dela, ter a chance de construir todo o futuro que foi vetado a eles. Mas como podia fazê-lo quando mal sabia lidar com a própria vida naquele momento. Não, desistir de Yan Da não era uma opção. Passou as mãos pelo rosto e cabelos numa vã tentativa de amenizar a frustração, não era capaz de mentir para si mesmo, estava magoado por ela ter se esquecido dele, contudo, era o mínimo que merecia depois de tudo que fez com ela.

O som da trava eletrônica da porta sendo aberta fê-lo passar a mão pelo rosto e tentar parecer o menos deprimido possível. Ka Suo apareceu no apartamento parecendo surpreso por encontrá-lo ali, ficou estático por um instante antes de conseguir formular uma frase coerente.

— Desculpe... só vim cozinhar. — Disse, erguendo sacolas do mercado. — Huang Tuo me disse que sua empregada se demitiu.

A mãe da empregada de Shi não mostrara muito progresso e, por já ser uma senhora de idade, a mulher decidiu ficar em sua cidade natal para cuidar dela e acabou procurando emprego por lá. O empresário ainda não havia conseguido — ou tido cabeça — para procurar uma nova. Desse modo, apenas anuiu dando ao irmão a permissão de ficar.

— Tomei a liberdade de pedir a Xia Lin que entrasse em contato com uma agência para conseguir outra empregada para você.

— Obrigado. — Respondeu de modo lacônico.

Satisfeito por pelo menos ter recebido alguma resposta, Ka Suo não disse mais nada, começando a lavar os vegetais em silêncio. Shi permaneceu na sala, quieto e perdido em seus pensamentos, o clima entre eles ainda não estava dos melhores e, aquém do que Huang Tuo lhe dissera, Ka Suo não tinha muita confiança que melhoraria. O clima silencioso durou por vários minutos até a refeição estar pronta, durante todo esse tempo, Shi não se mexeu e somente quando o irmão mais velho estava prestes a sair foi que o ouviu falar outra vez.

— Você já comeu?

Ka Suo paralisou, um fio de esperança prendeu seu coração.

— Ainda não.

— Fique.

Soava um tanto quanto imperioso, mas ele não se importou. Tentou não parecer muito animado, lembrava-se que Shi ainda estava furioso com ele pelo acontecido à Yan Da. Contudo, agora que a princesa havia sido encontrada, talvez o coração de Shi amenizasse a raiva e fosse capaz de perdoá-lo. Os dois foram para a mesa e começaram a comer em silêncio.

— Xia Lin disse que você não vai à empresa a algum tempo. — Comentou.

— Não tive cabeça para muita coisa desde que voltei para cá. — Admitiu. — Mas voltarei ao trabalho amanhã mesmo.

— Shi... o feitiço de invocação em Yan Da está ativo mesmo que tenhamos perdido a magia. — Lembrou-lhe. — Ela vai lembrar de você.

— E o que acontece depois? — Um sorriso amargo arqueou-se em seu rosto. — Ela ainda vai me escolher?

— Você sabe que sim. Nada do que fez foi em vão e vai ser recompensado no fim.

Não houve resposta e os dois voltaram a comer, emudecidos. Diante da situação, conhecendo o irmão como conhecia, Ka Suo sabia que nenhuma palavra seria capaz de consolá-lo. Pensou em maneiras de ajudá-lo, encontraria uma saída que o fizesse ver, ele ainda tinha direito à felicidade tal como Yan Da. Antes de qualquer coisa, precisava da ajuda dos amigos e não hesitaria em contar com eles mais uma — e provável última — vez.

Passado mais tempo de silêncio constrangedor, os dois já haviam terminado a refeição, Ka Suo começou a tirar a mesa e Shi surpreendeu-o mais uma vez ao ajudar, enquanto trabalhavam o jovem empresário disparou:

— Desculpe.

Ka Suo parou o prato que havia pego no ar, chocado com a retratação repentina. Antes que conseguisse recobrar a razão para formular uma resposta coerente, Shi continuou:

— Com isso não quero dizer que concordo ou aceito o que você fez a Yan Da. — Emendou. — Independente de ter sido ou não um pedido dela.

— Foi uma exigência na verdade. — Murmurou.

— A decisão ainda foi sua. — Disparou. — Mas minha fúria me impediu de ver que estava sendo hipócrita ao agir daquela maneira com você. No passado, a decisão de mentir para ela também foi minha, mais tarde tentei usar o mesmo argumento distorcido para conseguir perdão, não tenho qualquer tipo de moral para justificar seu comportamento.

— Sei que não devia ter escolhido você diretamente sem pensar nela. — Admitiu. — Protegi você sem levar em conta as variáveis que existiam e também ocultei a lótus escarlate dentro de você todo o tempo. Poderia ter calculado melhor. Me perdoe, Shi.

— Ela está bem agora, é só o que me importa, não quero ficar perdendo a vida inteira que não tenho mais me ressentindo, ge. — Suspirou. — Nós dois não devemos mais nada um ao outro, continuarei sendo seu irmão e amigo, mas é hora de seguirmos nossos caminhos sem depender um do outro.

Ka Suo sorriu com olhar marejado, era igualmente bom e doloroso ver o irmão tão crescido daquela forma. Shi era real, livre de obsessões e dono dos próprios sentimentos. Ele abraçou o irmão mais novo com o coração apertado e um sorriso de completa felicidade no rosto.

— Tenho muito orgulho de você, Shi. — Disse baixinho com voz embargada. — Obrigado por sobreviver a tudo isso e por ter se tornado a pessoa que é hoje. Yan Da vai se lembrar de você e vão ter uma vida feliz juntos, tenho certeza. Não importa o que aconteça ou onde esteja, sempre que precisar de mim, estarei aqui para você.

Abraçado ao irmão, Shi sentiu-se confortável e mais leve. Chao Ya tinha razão, o perdão era a forma mais difícil de amar alguém, esperava que Yan Da conseguisse perdoá-lo um dia por todo mal que causou ao seu coração. Ele e Ka Suo agora podiam continuar suas vidas como irmãos e amigos sem perigos à espreita e sem mais sacrifícios, igualmente, Shi desejava que o irmão fosse feliz, mas se concentraria na sua própria felicidade, cada um era responsável pelo próprio destino, Shi esperaria Yan Da voltar à cidade e a procuraria, estava disposto a não perder a chance de tê-la em seus braços e sua vida pelo resto dos dias que o esperavam naquele mundo.

Lutaria por ela cada segundo da sua eternidade finita.

※※※

Hu Bing cuidou da burocracia necessária para alta de Yan Da, mas surpreendeu-se quando a irmã afirmou que não desejava voltar para Guāng Chéng*[3] ainda. Para maior conforto dela, ele alugou um apartamento em um condomínio no centro de Pequim onde ela e Pian Feng podiam morar até que ela estivesse à vontade para voltar para casa. Fazia muito tempo que não a via tão cheia de vida e ávida por conhecer coisas novas, aquém de todo pandemônio dos últimos meses com o processo judicial envolvendo a família Meng, Yan Da parecia ter nascido de novo apesar de, algumas vezes, ele perceber certa melancolia contemplativa em seu olhar.

De sua parte, Yan Da estava não apenas feliz por se livrar do hospital, mas animada por passar uma temporada em Pequim, gostava da cidade que lhe enchia de inspiração e desejava revisitar lugares aos quais foi em sua primeira visita ali, ainda com a mãe, quando era criança. Pian Feng estava sempre por perto e, tal como o irmão, parecia disposto a cumprir mesmo os mais triviais dos seus caprichos. Mesmo que eles sempre tivessem sido deferentes em relação aos desejos dela, sempre que os via tão cegamente solícitos daquela maneira se sentia estranha.

— Não me interessa se o advogado precisa de mais tempo. — Reclamava Hu Bing em um inglês impecável ao telefone. — Ele vai ser condenado aí ou aqui, é minha decisão final. E veja que eu disse condenado. Não me interessa se é perpétua ou capital, aqui será capital de toda forma. É a única benevolência que estou disposto a mostrar.

Yan Da se encolheu diante do tom severo do irmão e Pian Feng segurou sua mão em sinal de que estava tudo bem. Hu Bing nunca havia levantado a voz para ela, mesmo quando precisava repreendê-la sempre o fazia com carinho, medindo cada palavra. Mas quando o via irritado daquela forma não podia deixar de pensar que ele parecia muito com o pai deles. Ainda que, ela bem sabia, o irmão só usava a fúria para proteger aqueles que amava ou não podiam se defender.

— Sim... — Fez uma pausa ouvindo a pessoa do outro lado da linha. — Sim, eu sei que ele tem cidadania americana pelo casamento. Não estou dizendo que a lei americana seja ignorada, mas já apresentei provas suficientes e quero a concretização da justiça. Samuel é um criminoso e merece ser punido como tal pelo crime que cometeu.

Samuel era o nome americano de Ya Xing. Apenas nesse momento ela descobriu que ele estava discutindo, com a embaixada americana, o destino do irmão, preso nos EUA pelo crime de arquitetar a morte de Peng Yan, lavagem de dinheiro, sonegação de impostos e fraude. O inquérito da morte do melhor amigo, contudo, corria em conjunto com o governo chinês e, como juiz responsável pelo caso, Hu Bing estava pessoalmente lidando com o processo para decidir se ele seria julgado nas terras americanas ou mandando de volta à China. O juiz estava disposto a conseguir pena máxima para todos os envolvidos na morte de Peng Yan e no sequestro de Yan Da. Quando desligou o telefone, suspirou e sentou na poltrona ao lado do sofá onde a irmã e Pian Feng estavam, o agente de Chao Ya lhe ofereceu uma xícara de chá e os três permaneceram em silêncio por algum tempo, o juiz sentia-se culpado por discutir aquelas coisas na frente da irmã, sabendo que podia lhe trazer lembranças ruins, contudo, também lhe parecia errado deixá-la alheia ao processo uma vez que ela estava diretamente envolvida.

— O advogado de Ya Xing quer amenizar a pena dele. — Contou. — O estado americano se comove fácil na maioria das vezes. Se não me satisfizer com a pena, vou mandar enviá-lo para cá. Ou perpétua ou capital, não quero menos que isso.

Da ge...

— Não, não, xiao wu. — Objetou antes que a irmã continuasse. — Conheço você muito bem para saber que é generosa o suficiente para interceder por aquele criminoso achando que estou sendo rígido demais. Não posso perdoar o horror que você viveu naqueles malditos 29 dias e daria o que fosse para poder apagar aquilo da sua mente.

— Cuidado com o deseja. — Pian Feng disse baixinho com um muxoxo irônico.

— Peng Yan era um garoto inocente, mas foi usado para te atormentar e teve uma morte horrenda. — Continuou após um olhar estranho para o agente. — Todos eles vão pagar por isso com todo o rigor da lei. Vou passar por cima de todos os advogados, nenhum deles merece sua indulgência assim como você não merecia passar por aquilo.

Os olhos de Yan Da encheram-se de lágrimas ao lembrar de Peng Peng, a última vez que se viram na Montanha Kunlun, o beijo que trocaram, o sofrimento dele por ela e pelo pai no Diyu, não entendia como ainda conseguia sentir compaixão pelas pessoas que a magoaram tanto. Talvez, no tempo que viveu no submundo, tenha aprendido que vingança não leva a lugar nenhum, nada poderia trazer Peng Peng de volta para sua vida, mas não podia dizer nada daquilo ao irmão. Hu Bing se abaixou diante da irmã e enxugou suas lágrimas com os dedos, Pian Feng passou o braço sobre os ombros de sua fadinha sentindo o coração despedaçar ao vê-la daquela forma.

— Vou fazer justiça à vocês dois, Da’er. — Prometeu. — É o mínimo que posso fazer por você e pelo que lutei durante todos os anos que vivi fora do país e sequer podia falar com você direito. Não quero mais me separar de você, tampouco quero que continue vivendo assombrada por Huo Yi ou Shuo Gang.

Ela apenas anuiu, sem conseguir dizer nada. Sentia-se agradecida ao irmão por tudo que fizera por ela, não tinha qualquer dúvida do amor de Hu Bing. Ela forçou um sorriso, sabendo o que sua tristeza provocava neles, segurou as mãos dos dois e deu um beijo em cada um, sentindo-se abençoada pela família que tinha.

— Vou precisar voltar para Guāng Chéng em alguns dias. — Informou. — Shuo Gang está dizendo absurdos sobre você ter feito aqueles ferimentos nele, como se isso fosse possível, o advogado está tentando usar isso para alegar insanidade e diminuir a condenação.

— Um absurdo! — Pian Feng, com todo cinismo e um olhar conspirador para Yan Da. — Como minha fadinha ia queimar o rosto dele daquele jeito? E mais, quebrar a cabeça que ele usa. Shuo Gang deve estar mesmo desesperado.

— É o que estou dizendo. — Hu Bing meneou a cabeça, rindo. — Ele fica balbuciando maluquices como as mãos dela estarem incandescentes e coisas do tipo. Além de ter acusado uma das herdeiras mais dignas do país de tê-lo torturado com agulhas.

— Ahn... que herdeira? — Yan Da perguntou.

— A senhorita Yue. — Contou ele. — Herdeira de uma rede prestigiada de hotéis cinco estrelas. Um argumento ridículo, uma dama delicada e digna como ela envolvida nesse tipo de trama sórdida.

Yan Da pensou em Yue Shen e se esforçou para não rir sobre o pensamento do irmão. Pian Feng sorriu para ela fazendo um gesto negativo com a cabeça, para todos os efeitos era melhor mesmo que a pose delicada da ex-envenenadora continuasse em voga. Hu Bing deu um beijo na testa da irmã e se pôs de pé.

Da ge, posso te pedir um favor?

— Da’er, você sabe que pode me pedir qualquer coisa. — Ele sorriu acariciando o rosto dela.

— Quero ficar em Pequim por um ano. — Anunciou. — Há um curso de design e desenvolvimento de jogos digitais que desejo fazer e aqui tem a melhor escola do país. Estive pensando nisso por muito tempo, agora que vendemos a Huo Enterprises, preciso tomar um rumo diferente e quero fazer algo que me deixa feliz.

— Você pode fazer o que quiser, minha princesa. — O juiz estava extasiado diante da decisão da irmã. — Com a sua inteligência e talento, não duvido que vai fazer nome no mercado. Sabe que não precisa se preocupar com nada, faça o que quiser e me avise se precisar de qualquer coisa. Antes de voltar à Guāng Chéng cuidarei da sua matrícula, me diga o nome da escola e se precisa de um apartamento mais perto de lá.

— Obrigada, da ge! — Sorriu ela, animada.

Hu Bing saiu para tratar de algumas coisas a respeito do processo do pai e irmão, parecia que Yan Da finalmente dava passos para construir sua vida e ele estava satisfeito com isso. Precisaria contratar um bom advogado para representá-la na corte, não desejava que ela fosse presencialmente ao julgamento, pouparia-a de todo o constrangimento e mal estar envolvendo as pessoas que infernizaram sua vida. Quando alcançou o saguão do condomínio, seu celular tocou mais uma vez, era um número desconhecido.

— Meritíssimo Meng Hu Bing? — A voz grave do outro lado perguntou.

— Ele mesmo, quem fala?

— Sou o advogado Liao Jian. — Informou. — Estou ligando porque desejo representar sua irmã, Meng Yan Da, no julgamento envolvendo a morte de Peng Yan.

※※※

— Você quer o quê? — Lin Chao encarou o filho com espanto. — Ficou louco Ka Suo?

— Sinto muito por não ser o que você esperava de mim, mas não vim em busca da sua aprovação, pai. — Disse ele, categórico. — Estou aqui informar minha decisão.

Era a primeira vez que o filho mais velho impunha-se daquela maneira, Lin Chao estava, ao mesmo tempo, feliz e triste. Apesar de gostar do espírito passivo de Ka Suo, parte dele se incomodava com a postura sempre condescendente do filho, ele sempre aceitava as ordens sem questionar e nunca pensava ou dizia algo que realmente queria. Contemplar aquela convicção em seu rosto, como se nada fosse capaz de demovê-lo da ideia, fez o homem vibrar internamente, mas por fora apenas suspirou e anuiu.

— Convoque uma reunião para amanhã logo cedo. — Ordenou. — E vá você mesmo contar à sua mãe sobre isso.

Ka Suo sorriu, satisfeito.

— Obrigado, pai.

Tinha consciência que Chen Tong não ficaria nada feliz ao ouvir as novidades, mas não estava preocupado de verdade com isso, acima de qualquer coisa eles desejavam que os filhos fossem felizes, fora para eles que construíram o império e lutaram contra as adversidades, mas não podiam nem iam prendê-los sob suas rédeas, quando descobrissem o que desejavam para si mesmos, como Ka Suo naquele momento, era hora de apoiá-los e apenas deixá-los ir. Tinha orgulho dos seus dois meninos, sabia que os criara bem e que eles cresceram em inteligência, desenvoltura e, sobretudo, bondade.

Permaneceu na sala de estar apreciando seu chá enquanto, no andar superior da mansão, a voz alterada e nada feliz da sua esposa soou pela casa em protestos lamuriosos. Ela, mais que Lin Chao, tinha planos de ter Ka Suo para sempre na barra da saia, além do mais queria controlar o destino do filho já planejado em detalhes desde que ele nasceu. Imaginou que, em breve, a esposa desceria as escadas com passadas furiosas e exigiria explicações para a loucura que ele permitiria o filho fazer.

— Lin Chao! — Como esperado, ali estava ela. — Que absurdo é esse que acabei de ouvir?! Eu o proíbo, escute bem, Ka Suo, eu o proíbo de fazer essa estupidez!

— E o que vai fazer, mulher, acorrentá-lo à cama? — Indagou ele, cansado. — Deixe-o viver a vida dele.

— Perdeu a cabeça?! — Gritou ela, histérica. — Ele não é qualquer garotinho, é o primogênito, tem o dever de...

— Chen Tong, por favor. — Lin Chao levantou e segurou as mãos da esposa delicadamente. — Realmente, Ka Suo não é mais um garotinho. Ele é um homem feito, finalmente quer seguir o próprio caminho, vamos apoiá-lo nisso, tudo bem? Temos dois filhos, mas nenhum é nossa propriedade, são pessoas com desejos e sonhos que independem de nós.

Ela mordeu o lábio, lágrimas de frustração despontaram em seus olhos e Lin Chao fez um discreto sinal com os olhos para o filho ir embora, Ka Suo agradeceu silenciosamente antes de sair e deixar os pais sozinhos. O homem beijou a testa da esposa, mesmo que não gostasse de admitir sabia que o marido estava certo, ela não podia controlar a vida dos filhos daquela forma decidindo onde eles iam trabalhar, com quem se casariam, o que deveriam vestir ou que sonhos deviam ter. Abraçando-a apertado, o empresário deixou que ela chorasse com a certeza de que a dor ensinava melhor que qualquer palavra.

Do lado de fora, Ka Suo parou diante do seu carro e contemplou o céu por um momento, o sol estava forte no alto, nuvens brancas se arrastavam vagarosas na imensidão azul, pela primeira vez na vida, sentiu-se livre.

※※※

Yue Shen sentiu que algo estava errado tão logo entrou em casa e percebeu que os sapatos de Huang Tuo não estavam na sapateira. Tentando ligar para o marido, o celular acusava estar desligado algo que, por causa do hospital, o médico nunca fazia. O coração dela disparou dentro do peito imaginando o que podia ter acontecido ao marido e já cogitando pedir ajuda aos amigos quando, próximo à cozinha, viu alguma coisa vermelha no chão. Aproximou-se descalça para não fazer barulho e encarou um papel com uma seta apontando para as escadas que levavam ao primeiro andar. Erguendo a sobrancelha, tentou se convencer que era uma brincadeira de Huang Tuo, pensar naquilo ajudava a manter o lado racional do seu cérebro funcionando corretamente.

Fixadas na parede ao lado da escada, várias pinturas mostravam desde o momento que se conheceram, quatro mil anos atrás, até o fim do ano anterior, quando, em meio aos turbulentos dias assombrados pelo fantasma de Lian Ji, eles decidiram ficar juntos. Yue Shen encarou a si mesma pelos olhos de Huang Tuo no dia em que apareceu no meio da madrugada em sua casa após recobrar as memórias do passado. As pinceladas do médico eram fortes e cirúrgicas em toda a composição dos cenários ricos em detalhes, mas delicadas quando a retratavam, com esmero e suavidade sem, contudo, omitir a força imponente que ela demonstrava. Os olhos arderam, mas não deixou nenhuma lágrima cair.

Subindo mais um pouco, ela entrou no corredor que levava ao quarto onde dormia com o marido, todas as portas estavam abertas dos dois lados e papéis vermelhos com interrogações fixados nelas. Yue Shen meneou a cabeça se perguntando o que Huang Tuo estaria aprontando, o aniversário do relacionamento deles, ela lembrava, era apenas dali dois dias, mesmo sabendo que ele era obcecado com todas as datas relacionadas aos dois, ela não conseguia imaginar a razão de tudo aquilo num dia comum.

— Huang Tuo? — Chamou sem obter resposta.

Chegando ao quarto do casal, várias pétalas de rosa estavam espalhadas pelo chão, em um manequim parado diante da cama, um exuberante hanfu vermelho com detalhes em dourado e branco podia ser visto, o padrão imperial dos desenhos, especialmente o padrão de fênix, não deixava dúvida do tipo de roupa que estava diante dela. Yue Shen estava, ao mesmo tempo, chocada e emocionada enquanto encarava a vestimenta, mas não havia qualquer sinal do marido no quarto. Virou-se para sair e um sobressalto a fez saltar ao ver Huang Tuo ajoelhado diante dela com um brilhante sorriso segurando uma caixinha com um anel. Ela cobriu a boca com a mão e as lágrimas que não caíram antes casqueteavam pelo seu rosto agora.

— Quatro mil anos atrás, nossos planos foram frustrados pelas circunstâncias. — Começou. — Um ano atrás concordamos em esperar por solidariedade a Shi, mas eu não quero mais esperar, Yue Shen. Sei que sou meio bobo às vezes e, na maior parte do tempo, faço piada para esconder meus sentimentos. Sei também que você não gosta de festas e nem de ser o centro das atenções, mas se puder relevar isso só uma vez, será a maior das honras para mim leva-la até um altar e fazer de você minha esposa e, espero, brevemente mãe do meu time de basquete. — Brincou e ela riu, emocionada. — Yue Shen, você aceita esse médico paspalho pelo resto da sua vida?

Nenhuma resposta que pudesse dar conseguiria estar à altura do gesto daquele diante dela, Yue Shen ria e chorava com um misto de sentimentos explodindo no seu peito. Por fim, tudo que conseguiu balbuciar, com voz trêmula, antes de se jogar nos braços dele e caírem no chão, foi um sim maravilhado. Huang Tuo riu e, segurando a mão da amada, deslizou o anel em seu dedo e beijou-o. Enxugando as lágrimas da, agora, noiva, o médico sorria extasiado, ela acariciou o rosto dele e franziu o cenho por um instante.

— Espera um pouco, que história é essa de time de basquete?

— Por que, prefere vôlei? — Provocou. — Lacrosse? Handball?

— Teremos dois times — ela sorriu ficando por cima dele e dando um selinho em seus lábios — quando você der a luz às crianças!

Huang Tuo apenas deu uma sonora gargalhada enquanto abraçava a esposa apertado com a certeza de nunca mais precisar ou temer soltá-la.

※※※

Pian Feng continuou ao lado de Yan Da na sala de estar, para ele a princesa do fogo não precisava fingir uma vez que o amigo sabia tudo sobre o passado que Hu Bing não recordava mais e, por um lado, estava satisfeita do irmão ser poupado de levar aquelas memórias horrendas de ser um príncipe do fogo. O agente segurava as mãos dela entre as suas e as acariciava com carinho.

— Então vai mesmo ficar aqui, é o que quer, fadinha?

— Sim. — Anuiu. — Preciso de um norte para minha vida, Pian ge, sempre adorei jogos, você sabe, não quero mais nenhum vínculo com a antiga empresa de Huo Yi ou a vida que levava antes. Depois de tudo que passei, quero uma vida em que possa me sentir feliz.

— Concordo com você. — Sorriu, erguendo a mão para o rosto dela e afagando-o. — Mais do que todos nós você merece a felicidade, minha fadinha.

— Você também, gege. — Ela o olhou cheia de ternura. — Quando finalmente vai pedir a jiejie em casamento? Não temos mais uma eternidade pela frente, lembra?

— Não quero deixar você sozinha aqui.

— Pare de dar desculpas para si mesmo, não vou me perder em Pequim. — Objetou. — Pian Feng, assim como Hu Bing, você e Chao Ya são minha família, amo os dois como irmãos, amigos, mesmo pais porque vocês sempre cuidaram de mim com uma devoção enorme.

— E nós te amamos como se fôssemos mesmo. — Ele sorriu.

— Por isso, quero que sejam felizes também. Me dêem pelo menos dois ou três irmãozinhos, tenham uma vida que não seja inteira voltada para mim. — Os olhos de Yan Da brilhavam enquanto contemplavam o amigo. — Não existe mais perigo algum para mim, nenhuma ameaça para nenhum de vocês, prometo que vou lutar pela minha felicidade, então, por favor, não negligencie a sua por minha causa, hao bu hao?

Ele a abraçou para esconder as próprias lágrimas que despontavam em seus olhos. Apertando-a contra si, desejando até mesmo sufocá-la com todo o amor que sentia, Pian Feng murmurou um agradecimento. Sua menina finalmente estava pronta para escrever a própria história e ele não se continha de tanto orgulho.

— Não pense nem por um instante que vou parar de impedir os idiotas de se aproximarem de você. — Disse com voz trêmula e deleitou-se ao sentir Yan Da rir. — Ainda vou dar uma de pai ciumento e dificultar a vida de todos eles.

— Estou contando com isso, baba.*[4]