Love as Sakura | 爱如樱

75 第61章 Recomeço - Parte II


Shi chegou com meia hora de antecedência à ZhangYing no dia seguinte. Ka Suo havia lhe telefonado noite passada para informar que o pai desejava uma reunião no início da manhã com todo o conselho da empresa. Imaginava que trataria da compra da Huo Enterprises, seria muito difícil agregar uma empresa daquele tamanho e todos os funcionários, além dos clientes, em sua corporação. Levaria meses para resolver todos aqueles papéis burocráticos e a questão integrativa da empresa.

Ka Suo chegou alguns minutos depois dele, sua expressão era tranquila e, aos olhos de Shi, parecia mais alegre que o habitual. O empresário estranhou aquilo, mas não comentou. Os dois se cumprimentaram como de costume enquanto os demais membros do conselho iam chegando à sala de reuniões. Lin Chao chegou pontualmente às nove com uma cara de poucos amigos que dizia à todos sobre a possível gravidade que o levara a convocar aquele conselho. Todos ficaram de pé para recebê-lo e, apenas após seu sinal, voltaram a sentar.

— Bom dia a todos. — Começou. — O motivo de tê-los chamado aqui tão cedo é que chegou o momento de passar a presidência da ZhangYing ao meu filho. Comecei essa empresa pela minha família, junto a minha esposa, crescemos e nos tornamos o império que somos hoje, graças a contribuição de todos vocês chegamos tão longe e sou grato a cada um. Contudo, não sou mais um jovem e quero descansar, desse modo, a presidência da Zhanging, a partir desse momento, ficará nas mãos de meu competente filho Ying Kong Shi.

O choque foi geral. Mesmo Shi ficou tão impactado com a decisão do pai que mal conseguiu verbalizar uma palavra coerente para se opor àquele ato insano. Ka Suo era o filho mais velho, era natural que ele assumisse a presidência, além do mais, nunca foi a ambição de Shi chegar tão longe, estava satisfeito no seu cargo. Ka Suo continuava inabalável, como se soubesse da decisão muito antes e não demonstrou qualquer tipo de objeção à decisão do pai. Shi estava prestes a protestar quando Lin Chao continuou.

— Todos conhecem a competência de Shi no trabalho, ele é inteligente, proativo, bom em lidar com os clientes e resolver conflitos, além de contar com a minha total confiança. Espero que todos concordem.

Os conselheiros comentaram por um momento entre si e, após um breve momento de cochichos, mostraram sua aprovação ao jovem empresário. Estarrecido, Ying Kong Shi tentava formular uma frase coerente quanto aquilo.

— Também gostaria de informar o desligamento de Ka Suo da empresa. — Prosseguiu Lin Chao. — Ficarei no cargo de vice-presidente até que meu filho escolha um por sua própria confiança. Se não houver perguntas ou objeções, agradeço a presença de todos e dou a reunião por encerrada.

Ele levantou e todos ficaram de pé para cumprimentá-lo antes de deixar a sala, ele ainda deu um tapinha no ombro do filho e sorriu dizendo um baixo “conto com você” antes de sair. Shi ficou imóvel por algum tempo e, após todos deixarem a sala, voltou-se para Ka Suo que permanecia em seu lugar, do lado oposto ao dele na mesa.

Ge, o que significa tudo isso? — Exigiu saber. — Que ideia é essa que eu vou assumir a presidência e você está saindo da empresa?

— É como você ouviu, Shi. — Sorriu o mais velho. — Não acho que nada tenha ficado sem explicação.

— Mas...

— Como você mesmo me disse, precisamos seguir nossos caminhos sem depender um do outro, é o que estou fazendo, seguindo meus sonhos. — Contou Ka Suo sem dar chance do irmão protestar. — Nunca foi meu desejo assumir a ZhangYing como não era assumir o trono de gelo quatro mil anos atrás. Você se sairá muito melhor que eu. Quero buscar algo que me faça bem, algo que me veja fazendo daqui dez anos sem me cansar. Papai entendeu isso.

— Mamãe também? — Rebateu.

— No início ela não gostou da ideia, confesso. — Admitiu. — Gritou, chorou, protestou. Mas nosso pai explicou a situação, eu não pretendo voltar atrás. Desde o começo você estava mais qualificado para ficar a frente dos negócios do que eu. Você é um empresário, Shi, eu sou, por enquanto, um aprendiz de cozinheiro.

— Co-cozinheiro? — A boca de Shi abriu-se em choque. — Sério?

— Estou me mudando para o campus de Londres da Le Cordon Bleu, uma das cinco melhores escolas de gastronomia do mundo. — Anuiu. — É o que me vejo fazendo agora, uma paixão que aprendi aqui e quero levar adiante.

Sem ter mais o que dizer, Shi apenas deixou o corpo cair de volta na poltrona sentindo que sua vida girou 360 graus. A mulher que ele amava não sabia quem ele era, o irmão ia embora, ele assumiria uma empresa gigantesca e, mais chocante, com a aprovação plena do pai. Conforme a realidade era assimilada por seu cérebro, Ka Suo permaneceu sentado pacientemente dando ao irmão tempo para pensar.

— Muito bem. — Disse por fim ao sentir-se mais tranquilo. — Sabe que, seja lá o que precise, sempre vou estar aqui para você, não é?

— Agora, Shi, a única coisa que preciso é que você seja feliz.

※※※

Lan Shang estava no aeroporto junto a Li Luo, Liao Jian, Shen Hairong, Ka Suo e Ying Kong Shi. Após fazer todos os preparativos para Li Luo na Fresh Life e encaminhá-la dali dois dias para Macau, ela começou a organizar a própria viagem pelo exterior. Ka Suo partiria em algumas semanas depois dela para Londres, ainda estava fazendo os últimos ajustes com a moradia e o que mais precisaria para a escola de culinária, uma tradicional escola francesa com alguns campus espalhados pela Europa.

A sereia, que durante as viagens, faria também um curso de modelagem e também faculdade de administração, estava muito feliz por se despedir dos amigos mais queridos antes de embarcar. Abraçou todos e recebeu presentes, estava animada para a vida que a esperava a partir dali, na certeza de não ser a mesma quando retornasse para casa.

— Tenho muito orgulho de você, minha Lan Shang, seja muito feliz e volte quando estiver pronta. — Disse a avó. — Não esqueça de fazer contato quando puder.

— Obrigada vovó, não se preocupe que a manterei informada sempre. — Beijou o rosto da mulher. — Te amo muito.

— Também te amo, minha menina.

A mulher se afastou antes que as lágrimas começassem a escapar e Li Luo foi a próxima a se aproximar.

— Quero te agradecer por tudo que fez por mim. — Sorriu. — Desejo uma boa viagem e que você encontre tudo que está procurando.

— Não há nada a agradecer, você merece mais, Li Luo, sei que vai longe. Vou estar por lá torcendo por você. — Abraçou-a. — Seja feliz, hao ma?

— Você também.

Ka Suo veio depois dela, Li Luo voltou para o lado de Shen Hairong.

— Boa viagem, Lan Shang. — Suas palavras eram sinceras. — Desejo toda a felicidade para você nessa nova etapa da sua vida.

— E eu a você, Ka Suo. — Ela anuiu e não havia nada em seus olhos além de um carinho grande. — Dê tempo ao tempo e construa seu caminho. Confio que vai ter sucesso.

Ele assentiu e, sorrindo, abraçou-a. Ambos estavam felizes por poder estabelecer uma amizade livre de mágoas ou sentimentos do passado. Podiam começar de novo e ele esperava que aparecesse no caminho dela alguém que realmente valorizasse a força e a beleza de seus sentimentos. Shi veio depois do irmão.

— Estou muito feliz por você! — Abraçou-a. — Vamos falar de negócios novamente quando voltar.

— Digo o mesmo, senhor presidente! — Ela sorriu apertando-o. — Quero que seja muito feliz, Shi, de verdade. Vou trazer um vinho italiano pra você quando voltar e poderemos falar de cooperação entre empresas.

— Esperarei ansioso por isso. Obrigado por tudo que fez por mim, Lan Shang, sempre poderá contar com a minha amizade para o que precisar.

— A recíproca é completamente verdadeira, sabe disso. — Os olhos de Lan Shang brilhavam de emoção. — Ela vai voltar para você, confie nisso. Ainda vou estar aqui no seu casamento.

Shi anuiu e desejou-lhe boa sorte antes de dar espaço para Liao Jian se despedir. O advogado se aproximou em silêncio e deu um longo e apertado abraço na modelo. Os dois permaneceram daquela maneira, dizendo tudo que precisavam sem verbalizar um único som.

— Obrigada, Liao Jian. — Murmurou ela. — Não teria conseguido sem você.

— Você foi incrível. — Elogiou ele com sinceridade. — Estou muito orgulhoso de você.

— Trarei a bebida mais forte que eu encontrar no caminho, prometo. — Sorriu ela. — Se cuide até lá, hao bu hao? Quando voltar quero te encontrar em ótima forma.

— Convidá-la-ei para jantar. — O advogado deu um tímido sorriso. — Aprendei pratos novos até lá.

— É uma promessa, vou cobrar isso!

Os dois apertaram as mãos e sorriram por longo tempo até o voo de Lan Shang ser anunciado. Ela acenou para os amigos e partiu em busca dos seus recomeços. Coração leve, cabeça cheia de sonhos, pés firmes no chão e a certeza de um futuro cheio de surpresas.

※※※

Hu Bing e Pian Feng voltaram à Guāng Chéng após duas semanas e meia em Pequim. Yan Da estava devidamente alojada no apartamento novo com tudo que precisava, o irmão garantiu que haveria um restaurante bom por perto onde a irmã poderia comer ou pedir suas refeições sem inconvenientes. Mesmo que estivesse um pouco assustada por estar totalmente sozinha, a princesa sentiu uma energia boa por se ver dona do seu caminho. Saiu para passear pela cidade, iniciando pelo trecho de Badaling da antiga muralha. Era uma boa caminhada e não tivera a oportunidade de ir até lá com a mãe no passado.

Pegou o trem na Beijing North Station e, mais ou menos oitenta minutos depois, estava a quinze minutos a pé da muralha. Como foi muito cedo, o fluxo de visitantes não era tão grande já que boa parte das pessoas vai no meio da manhã, como era o trecho mais visitado da muralha, ela não queria ter dificuldades de se locomover. O ar fresco das montanhas e a movimentação de turistas lhe fez muito bem, além de ser um bom exercício para ela, Yan Da não se lembrava a última vez que se sentira tão confortável apenas por ser ela mesma e estar viva.

Olhando o céu azul e o verde das árvores que pareciam longe como uma pintura à óleo, apreciou a vista quando chegou a torre 8, o ponto mais alto do trecho. Desejou ter Pian Feng, Chao Ya, Hu Bing e Peng Yan ali ao seu lado, sabia que eles teriam adorado a sensação tanto quanto ela. Ficou lá em cima por algum tempo antes de fazer todo o longo percurso de volta, era quase fim de tarde quando entrou em um dos restaurantes nos arredores da entrada da muralha e fez uma refeição completa. Ainda ajudou um turista que não conseguia falar mandarim e não sabia o que pedir, já que ninguém falava inglês por ali.

Já era noite quando pegou um trem de volta para Pequim, as aulas começariam apenas na próxima semana, ela ainda teria tempo de visitar a Cidade Proibida, o Museu e o Templo do céu. Mesmo cansada, a princesa estava muito satisfeita com seu dia, passou no restaurante e comprou o jantar antes de finalmente voltar para casa. Tão logo entrou — após colocar o código da trava eletrônica que anotou no celular por não conseguir memorizar — viu dois pares extras de sapato na sapateira da entrada. Franzindo o cenho, Yan Da deixou ali seus próprios sapatos e calçou os chinelos antes de alcançar o corredor que levava à cozinha e sentir o cheiro inconfundível do yakisoba e dos tian bu la*[1] de Pian Feng. Não acreditava que, em menos de dois dias após ter partido, ele havia retornado para ficar com ela e, julgando os sapatos na entrada, não viera sozinho.

— Ah, fadinha, está em casa! — Sorriu deixando a panela de lado e indo beijá-la na testa. — Bem vinda de volta.

— O que faz aqui? Pensei que tinha ido de volta para a jiejie.

— Fui buscar roupas, não podia ficar aqui com duas roupas apenas, não é? — Provocou-a. — Além disso, deixar você sozinha de novo está fora de questão. Chao Ya está no banho, se juntará à nós daqui a pouco. O que tem na sacola?

Gua bao*[2]. — Balbuciou ela, ainda estática, mas tocada pela presença do amigo.

— Ótimo, não precisarei fazer bao zi então. — Sorriu animado voltando a mexer o yakisoba.

— Pian ge...

Sei o que está pensando. — Interrompeu ele. — Encare isso como férias. Chao Ya também passou por muita coisa e precisa descansar um pouco antes de voltar à toda maluquice de escrever músicas, gravar um álbum novo e sair em turnês extremamente desgastantes. Além disso, Yan Da, depois do inferno que passamos, quando pensamos que nunca mais a veríamos de novo, a última coisa que precisamos é ficar longe de você.

Sorrindo emocionada, a princesa do fogo apenas foi até ele e o abraçou apertado com os olhinhos lacrimejando. Sentia-se tão feliz. Melhor do que desfrutar da própria companhia, era ter ao seu lado pessoas que amava muito e com quem se sentia segura. Acostumara-se a ter o casal sempre ao seu lado, sentia muita falta quando Chao Ya estava em turnê apesar de se falarem quase todo dia por videochamada. Pian Feng beijou a cabeça dela e lhe deu um pouco do yakisoba para que provasse. Yan Da fungou para engolir as lágrimas e, sorrindo, aprovou o sabor.

— Também não quero ficar longe sem saber que tipo de coisa você está comendo. — Apontou ele. — Só vou deixar você se casar com um homem que cozinhe decentemente.

Ela deu uma risada e anuiu.

— Entendido, chef!

Chao Ya veio depois. Ela ficou parada por um tempo olhando para Yan Da, o coração batendo acelerado no peito ao contemplar a princesa ali, viva, respirando e sorrindo, não conseguiu evitar as lágrimas de felicidade, apenas naquele momento entendia que era real, não havia perdido sua menina. Yan Da correu até ela e a abraçou apertado lutando para não começar a chorar de novo. Pian Feng havia lhe contado o estado de Chao Ya enquanto ela esteve no Diyu, nunca chegou a duvidar de verdade dos sentimentos do casal por ela, mas era inegável aquela prova do quanto eles a amavam.

Jie!

Os braços de Chao Ya se fecharam em volta dela como uma mãe que não encontra o filho há muito tempo. Soluços sacudiam seu corpo enquanto apertava Yan Da parecendo querer provar que ela era real.

— Minha menina... — Ria e chorava enquanto a chamava. — Minha menininha linda!

— Estou bem aqui, jie. — Yan Da sorriu apertando a cantora. — Não vou mais a lugar nenhum, prometo.

Pian Feng assistia o reencontro igualmente emocionado, sabia o quanto a esposa havia sofrido a morte de Yan Da, tanto ou mais que ele próprio. As duas ficaram abraçadas por longo tempo até a cantora se acalmar, a princesa ajudou-a a tomar um pouco de chá e elas ficaram agarradas uma a outra até o jantar estar pronto. A cantora aprovou a decisão da princesa em fazer um curso, mesmo que se sentisse mal por Ying Kong Shi. Quando Pian Feng voltara à Guāng Chéng e informara a decisão da princesa, eles contaram juntos para Shi.

— Ela já está bem. — Assegurou Pian Feng. — Hu Bing alugou um apartamento para ela em um condomínio no centro de Pequim.

— Está aqui para me dizer que ela não vai voltar, não é? — O empresário tinha uma expressão neutra, mas a cantora via em seus olhos que estava sofrendo.

— Apenas por um ano. — Contou. — Há um curso lá que ela deseja fazer. Entenda, Shi, ela está apenas procurando o próprio caminho.

Hao. — Anuiu. — Não vou impedi-la de nada. Também não quero forçar as lembranças dela, fui uma dor no passado, se ela está feliz sem mim, por mais que saiba não conseguir suportar viver sem ela, só quero que fique bem.

Chao Ya segurou as mãos do príncipe, compadecendo-se de sua tristeza. Se perguntava se um dia o destino seria gentil com eles dois, especialmente agora que nada mais os impedia de ficar juntos.

— Vamos cuidar dela e trazê-la de volta para você. — Garantiu a cantora. — É uma promessa.

— Pode lhe dar esse tempo? — Quis saber Pian Feng.

— Esperei quatro mil anos para ela entrar na minha vida de novo, por que não posso esperar um ano, não é? — Esboçou um sorriso triste. — Vou ser melhor para ela até lá.

Lembrar do príncipe do gelo deixava o coração da musicista apertado. Olhando para Yan Da, desejou perguntar a ela mais uma vez sobre Shi apenas para testar se surtiria algum efeito, mas vendo-a tão tranquila daquela maneira não teve coragem. As duas estavam na sala de estar enquanto Pian Feng cozinhava, de repente, Yan Da disparou.

Jie, você sabe quem é Ying Kong Shi?

Chao Ya paralisou. Por um instante, ficou sem saber o que responder, não sabia o que Pian Feng havia dito a ela, mas antes que formulasse uma resposta, Yan Da continuou:

— No hospital, Pian ge me disse esse nome, mas não consegui identificar ele nas minhas lembranças... tudo ainda está meio bagunçado aqui dentro. — Apontou para a própria cabeça. — Ele disse que falaríamos depois sobre o assunto, mas não tocou mais nele.

— Hmm... Ying Kong Shi é o irmão mais novo de Ka Suo. — Respondeu ela, cautelosa.

— Mesmo? — Ela franziu o cenho. — Não me lembrava que havia dois príncipes na tribo do gelo. Mas, por que ele se preocuparia comigo, nos conhecemos?

A cantora não soube responder aquilo. Qualquer resposta que desse pareceria estranha, especialmente se dissesse o que queria. Pesou todas as alternativas e imaginou que era melhor deixar a princesa recobrar as memórias por conta própria, não sabia que tipo de dano causaria se ela forçasse aquilo. Mesmo sentindo muito por Shi, a segurança e o bem estar da sua menina vinham antes.

— Bem, ele é parte da ZhangYing, vocês devem ter se cruzado em algum momento, não é? — Respondeu de modo vago. — Além disso, ele está na maior parte das revistas femininas e páginas da internet. Não pense demais nisso, hmm? Haverá chance de se encontrarem novamente.

— Não é que esteja pensando demais... é só essa sensação ruim de que esqueci algo importante.

— Se era importante, meu anjo, confie em mim, você vai se lembrar. — Sorriu, acariciando o rosto dela.

Yan Da anuiu e aconchegou-se no abraço da amiga. Fechando os olhos por um momento, aspirou o perfume floral de Chao Ya lembrando-se da própria mãe que não pôde sequer abraçar no Diyu. Sentindo o coração aquecido no peito, agradeceu por estar ali, por estar viva e por aquelas pessoas que tanto amava existirem.

※※※

Um ano depois...

A secretária de Shi entrou na sala da presidência com mais uma infinidade de documentos que precisavam ser analisados. Desde que Ka Suo havia abdicado da presidência da ZhangYing — bem no momento que ela incorporara a Huo Enterprises — ele vinha tendo crises de enxaqueca constantes por causa da reorganização dos funcionários da outra empresa e, sobretudo, as cansativas reuniões com clientes. Embora tivesse passado um ano, o empresário ainda não havia nomeado um vice-presidente e, por enquanto, seu pai assumia essa função quando era extremamente necessário. Ao contrário do que esperava, Zhang Lin Chao foi muito favorável a decisão do filho mais velho em sair do ramo empresarial, mesmo sabendo que o pai colocava grandes expectativas em Ka Suo, Shi estava orgulhoso do irmão por conseguir impor sua vontade e ir em busca dos próprios sonhos.

Abrindo o primeiro dos documentos, a atenção do antigo príncipe do império da neve foi tomada pelo seu calendário de mesa. Uma data circulada em vermelho mostrava que, naquele dia, ele tinha um compromisso inadiável consigo mesmo. Apertando a ponte do nariz, Shi se forçou a analisar os papéis diante de si antes de assinar dando seu aval para a concretização das propostas. Não ajudava muito a ZhangYing atuar em vários ramos do mercado, muitas vezes ele se perguntava se não seria melhor restringir o nicho da empresa para áreas específicas, contudo, sabia que isso decepcionaria o pai e muitos dos clientes que contavam com a empresa. Além disso, ali dentro vários funcionários altamente qualificados nas diversas áreas de atuação dependiam daquele emprego e, ainda mais, eram felizes lá dentro.

— Cuo Shi, cancele meus compromissos para hoje, vou precisar fazer uma pequena viagem. — Anunciou usando o telefone. — Mude minha primeira reunião de amanhã para o primeiro horário da tarde, por favor.

— Entendido, senhor Ying.

Ele ainda analisou os demais documentos, rejeitando propostas e modificando outras antes de deixar a sala da presidência. Afrouxou a gravata tão logo entrou no elevador e checou o relógio de pulso, aproximava-se a hora do almoço, se fosse imediatamente conseguiria chegar bem a tempo do espetáculo. Tirou o paletó e colocou no banco do carona, sentado ao volante, Shi encarou o assento ao seu lado por um momento como se pudesse ver a pessoa que, muito tempo atrás, estivera ali, seu coração se comprimiu, mas ele ignorou a dor, era melhor daquela maneira.

Dirigiu por cinco horas enquanto ouvia a mesma voz na sua mente, a paisagem ao seu redor ia perdendo o viço conforme o inverno se aproximava, mas as árvores ainda estavam exuberantes pintando em diversos tons de verde a tela da natureza, o céu anil ganhava um tom mais profundo com a chegada da tarde, ele se perguntou se a pessoa que originara tudo aquilo olhava para ele acima daquela camada de nuvens. Parou para comer assim que chegou ao destino, o mesmo restaurante rústico em que estivera um ano atrás, e mesmo aquela refeição engordurada não tinha outro sabor além de saudade. Entrando no carro novamente, Shi dirigiu mais um pouco pela estrada de terra se afastando do vilarejo Guihua até chegar onde queria.

Sheng guang zhi lin.

As sequoias agigantavam-se ainda mais do que sua memória ousava lembrar. Enquanto entrava entre os troncos enormes como uma formiga no meio de um terreno gramado, Shi quase podia visualizar Yan Da fazendo aquele mesmo percurso, olhos cheios de uma mistura de nostalgia e medo, passos incertos que se tornavam confiantes quando ele segurava sua mão. Agora que não havia mais perigo à espreita e o mundo girava com tranquilidade, era difícil não sentir-se vazio. Porque no buraco enorme aberto em seu peito faltava ela. Minutos depois, a clareira entrou em seu campo de visão, as flores desafiavam o inverno vindouro espalhando um cheiro suave no ambiente, o banco de madeira estava a alguns metros e Shi pensou que ele parecia mágico, pois mesmo com as intempéries do tempo permanecia praticamente intocado.

Ele sentou-se ali, apenas esperando, silencioso, a tarde avançar. À sua volta, cigarras e grilos tocavam uma sinfonia estridente, ainda no fundo da sua memória, a voz de Yan Da contava a trágica lenda envolvendo aquele local e o fim triste da sua história com Peng Yan, seu primeiro amor. Tudo que lhe restava dela eram as lembranças daquele ano cheio de dor e separações, a imagem do rosto delicado em seus sonhos quando a abraçava, o toque quente e inocente dos seus lábios todas as vezes que a beijou. A roda do destino fora destruída, mas levara consigo as memórias de Yan Da, Shi só podia torcer para que ela fosse feliz, porque sequer assistir aquela felicidade de longe ele podia.

Os tons pastéis do crepúsculo tingiram o céu, um pouco mais ao fundo, acima da copa das gigantescas sequoias, o azul escurecia mais intensamente, era um espetáculo aos olhos. Pontos verde-amarelados iam surgindo ao redor, a visão de Shi nublou pelas lágrimas e, no meio do cenário em baixa luz, uma silhueta surgiu ao longe. De início, ele pensou que estava tendo visões por causa da tristeza, baixando a cabeça, ele apertou os olhos para livrar-se das gotas salgadas e, ao erguê-la de novo, não viu mais a silhueta convencendo-se, assim, que realmente imaginara coisas. Yan Da havia lhe dito que ninguém conhecia aquele lugar além dos locais e, mesmo assim, por acreditarem ser assombrado, eles não iam até lá.

— Como chegou aqui? — A voz veio do seu lado esquerdo, Shi pôs-se de pé, assustado. — Quem é você?

A dez passos de distância, Yan Da o olhava, confusa e irritada, como alguém que pega um estranho vagando pela sua terra. O empresário não conseguiu esboçar qualquer reação ao ver a mulher que amava tão perto de si, mas sem reconhecê-lo. Ela estava tão linda quanto sua memória recordava, os longos cabelos escuros estavam presos, a franja caía no lado esquerdo do seu rosto, olhar afiado e lábios sedutores. Era uma dor e igualmente um alívio que ela não se recordasse do trágico passado que compartilharam, talvez fosse melhor para ela assim, mas ele gostava de pensar que o destino a estava enviando para ele naquela clareira erma. Mesmo tentando com algum esforço formular uma resposta coerente para as perguntas dela, a surpresa e a saudade não o permitiam falar.

Nǐ... Zài kū ma?*[3] [N.T. Você... está chorando?]

Ela pareceu chocada e, diante da pergunta, Shi levou a mão ao próprio rosto notando que as lágrimas caíam sem que ele tivesse notado. Shi se sentiu, ao mesmo tempo, envergonhado e ridículo, talvez merecesse aquilo, quantas vezes ela não havia lhe dado as costas e derramado lágrimas amargas pelas ações dele. Ainda assim, mesmo que mentisse para si mesmo afirmando ser melhor deixá-la seguir sua vida, cada um dos 365 dias daquele ano foram tortuosos e quase o deixaram louco. Já havia passado da hora de admitir que a existência sem ela era impossível para ele e estava claro que o feitiço de invocação que Huang Tuo afirmou ter sido colocado por Xing Jiu no ritual não funcionara, uma vez que ela estava bem ali na sua frente e não havia lembrado quem ele era.

Boa parte da multidão de vagalumes havia se dissipado, mas alguns ainda pairavam no ar mais ao longe de onde eles estavam. Sem responder nada, Shi apenas andou na direção dela como se fosse embora, mas tão logo chegou perto sua mão se fechou em torno dos dedos dela e ele a beijou. O toque dos lábios pareceu uma descarga elétrica violenta em todo seu corpo, ele foi delicado e breve, pois temia que, tão logo se afastasse, levaria um tapa. Mas, para sua surpresa, Yan Da tinha o olhar marejado enquanto, abalada, o encarava. Um sorriso triste se formou no belo rosto de Shi quando ele disse apenas:

— Você disse uma vez que, no futuro, eu não precisava pedir.

Levou um minuto — mais parecido com uma hora — para Yan Da esboçar alguma reação racional e abismar Shi mais uma vez ao sorrir. Ali estava ela, sem lembrar quem ele era e beijada de assalto, mas sorrindo. Shi admitia que a princesa do fogo era uma mulher intensa e imprevisível. Dando um passo em sua direção, Yan Da disse as três palavras que ele sonhou ouvir por um ano inteiro.

— Ying Kong Shi!

Seus braços se fecharam em torno do pescoço do empresário e ela o beijou intensamente, os dedos enterrando-se em seus cabelos enquanto o braço de Shi enlaçou sua cintura puxando-a para mais perto dele, ainda sem acreditar que finalmente ela havia se recordado quem ele era. Mais tarde, ele pensaria em como aquilo havia acontecido, feitiços de invocação geralmente funcionavam tão logo a pessoa enfeitiçada olhava para o rosto de alguém que era considerado o “selo”. No passado, Li Luo e Lan Shang obtiveram todas as memórias de volta quando encontraram Ka Suo em suas novas vidas, mesmo em corpos trocados, talvez por isso o irmão tenha dado a Xing Jiu a ideia de inserir o feitiço do rito do Sol Adormecido, para preservar em algum baú da mente de Yan Da as lembranças sobre ele, contudo, não imaginava que funcionaria, naquele caso, com um toque do “selo”. Havia muitas variantes e isso poderia ter decorrido do número enorme de feitiços usados juntos no mesmo ritual.

Quando se afastaram em busca de ar, a mão de Yan Da acariciou o rosto dele, lágrimas cristalinas brilhavam na agora baixa luz do sol quase totalmente posto, os vagalumes ofereciam uma iluminação diáfana em torno deles por causa da quantidade, Shi estava tão feliz e sentindo-se tão completo que desejava não ir embora dali nunca mais. Beijou o nariz de sua princesa apertando-a contra si como se quisesse acreditar que não estava sonhando. Os dedos de Yan Da se fecharam na camisa branca dele cujos primeiros três botões estavam abertos já que ele havia deixado a gravata junto ao paletó no carro. Ela o olhou cheia de ternura e reconhecimento, dando um tapa forte no peito dele e reclamando.

— Está atrasado! — Brincou.

Ele sorriu e depositou um beijo na testa dela. Yan Da encostou a cabeça em seu peito e fechou os olhos quando ele apoiou a mão em sua cabeça afagando seus cabelos com carinho e respondeu bem humorado.

— Desculpe.

— Eu te amo, Ying Kong Shi. — Murmurou com voz embargada. — Sinto muito, demorei demais para chegar.

— Shh... esperar você sempre vale muito a pena. — Sorriu. — Eu te amo, Yan Da. Amo você desde a primeira vez que te vi, você foi meu primeiro e será meu único amor para sempre.

E quando se beijaram outra vez, conforme o céu escurecia tudo à sua volta, sentiam o sabor de saudade, sal e júbilo.