Love as Sakura | 爱如樱

73 第60章 Até eu te ver novamente - Parte II


— Antes de mais nada, pode explicar o que aconteceu lá? — Li Luo quis saber diante dos eventos que foram relatados no caminho até ali e do estado exausto de todos eles.

— O mundo imortal se selou quando tirou nossa imortalidade pelo preço do ritual. Assim, fomos expulsos tão logo o eclipse terminou. — Explicou Huang Tuo. — Yan Da conseguiu voltar, mas sumiu ao contrário do que todos prevíamos, ela foi expulsa antes de nós.

— Sei onde ela está. — Xing Jiu se pronunciou diante do relato do amigo. — Alguns dias antes do ritual, fiz alguns arranjos para todos nós. Não podia simplesmente perder os poderes e nos deixar de qualquer jeito aqui. Especialmente Yan Da, se ela voltasse sem memória nenhuma, com memória parcial ou lembrando de tudo, não tinha certeza do que aconteceria então fiz meus preparativos.

A atenção de todos estava no astrólogo, ansiosos e aliviados, eles esperavam que ele dissesse onde a princesa estava. Shi se levantara, tão logo ouvira a primeira sentença.

— Onde ela está então? — Pian Feng verbalizou a pergunta que Shi não conseguiu fazer pela sua ansiedade.

— Havia grande chance de acontecer o contrário do que prevíamos, por isso, me certifiquei de ligar a mentira de Chao Ya ao paradeiro de Yan Da e traseira uma rota nas estrelas para ela. — voltou-se para a cantora. — Você disse a Hu Bing que ela estava em um cruzeiro, pesquisei por alguns nesse período que estamos e fiz com que, caso acontecesse alguma modificação na memória dela, ela aparecesse em um.

— Quer dizer que agora ela está em um navio no meio do mar sem lembrar nada? — A cantora sentia um misto de alívio e desespero.

— Não sei até onde a memória dela foi afetada, mas garanto que ela está segura. — Respondeu. — Tudo que precisei foi mexer um pouco no espaço-tempo, da mesma forma que mexi no tempo biológico de vocês.

— Certo, mas em qual cruzeiro ela está agora? — Shi perguntou.

— O que vai fazer, pegar um barco e ir atrás dela? — Retrucou Xing Jiu, impaciente. — Ou talvez telefonar? Por favor, Ying Kong Shi, não perca a cabeça, ela está segura, garanti isso.

Nesse momento o telefone de Pian Feng começou a tocar, ele não reconheceu o número, mas atendeu mesmo assim. Todos fizeram silêncio olhando-se entre si sem saber se ficavam aliviados pela certeza de Yan Da estar viva ou o desespero por ela poder estar no meio do nada sem memórias, contudo, as expressões feitas pelo guerreiro do vento começaram a preocupá-los, de início, Pian Feng só dava respostas lacônicas, mas repentinamente seu rosto contorceu-se em uma máscara de preocupação.

— Sim, entendi. — Disse com urgência. — Estou indo até aí imediatamente.

— O que houve, para onde está indo? — Quis saber Chao Ya quando ele desligou.

— Hu Bing acabou de me ligar, Yan Da está internada em um hospital na Itália. — Informou. — Parece que ela passou mal no cruzeiro, não sei detalhes, e levaram ao local mais próximo em um helicóptero. Ele está indo para lá, vou com ele.

— Vou com você. — Adiantou-se Shi.

— Sério? E como vai explicar isso ao irmão dela? — Apontou. — “Olá, eu sou o homem que partiu o coração da sua irmã quatro mil anos atrás e ela morreu duas vezes, acabou de voltar à vida e pode nem se lembrar quem você é, muito prazer.”

— Pian Feng tem razão, Shi. — Apoiou Chao Ya. — Hu Bing não vai aceitar qualquer desculpa que você der, especialmente se tratando de Yan Da.

— Sabemos que o ritual deu certo, ela está viva. — Concordou Huang Tuo. — Nos mantenha informados, Pian Feng.

Chao Ya segurou a mão de Shi em sinal de apoio, ela mesma queria correr até Yan Da e abraça-la apertado, mas sequer sabia se sua menina a reconheceria. Pian Feng não pegou nada além do celular e da chave do apartamento, saindo depressa após breve despedida. Como a reunião havia perdido o sentido, todos se despediram e voltaram para suas casas, Shi permaneceu com a cantora a espera de notícias da princesa.

O alívio imperava no coração de todos, agora que Yan Da estava viva e a salvo eles podiam direcionar suas vidas sem qualquer peso na consciência. Huang Tuo e Yue Shen, que acompanhavam Xing Jiu e Liao Jian no elevador, perguntaram ao astrólogo o que ele queria dizer quando mencionou mexer no tempo biológico deles.

— Oh, isso. — Xing Jiu riu. — Já imaginou o que aconteceria se perdessem a imortalidade com a idade que tinham? — Fez uma careta. — Reverti o tempo biológico de todos nós, claro que isso ia dar problemas no mundo imortal, mas não ficaríamos mais lá de todo modo, não vi problemas.

— E quantos anos eu tenho agora? — Liao Jian quis saber.

— 25. — Respondeu, tranquilamente. — Reverti o tempo de cada um de acordo com seus calendários lunares e o último aniversário. — Huang Tuo tem 27 anos, Yue Shen, 24, Chao Ya, 26, Pian Feng 28, Ka Suo 29, Ying Kong Shi 26, Yan Da 23, Lan Shang 26, Xun Hao 25 e eu 28. Li Luo foi um pouco mais difícil porque ela era metade humana, então precisei de um meio termo e consegui reverter, sem grandes problemas, a idade dela para 28. Também alterei as memórias das pessoas que os conheceram aqui, seus trabalhos e as famílias que Ka Suo conseguiu para alguns de vocês, isso vai poupar explicações para o período que passamos no mundo imortal e algumas pequenas mudanças que podem ocorrer agora que não temos mais poderes. Por isso, se alguém próximo fizer comentários estranhos, apenas concordem.

— Bem, sou obrigado a te agradecer por ter a vida inteira pela frente. — Sorriu Huang Tuo apertando Yue Shen em seus braços.

— Não por isso, não por isso.

※※※

Lan Shang se comprometeu em levar Li Luo de volta para casa. Quando retornaram ao mundo mortal, Shen Hairong insistiu que a ex-feiticeira ficasse hospedada na mansão onde morava com a neta e não aceitou as recusas da mulher. Quando Lan Shang retornara para casa, levada por Yue Shen, estava exausta como se tivesse levado uma surra e não falou muito, a avó e Li Luo apenas a ajudaram a chegar ao quarto, a ex-feiticeira preparou um banho para a sereia e deixou-a descansar. Só naquela manhã, enquanto cruzavam a cidade para chegar ao condomínio onde Yan Da morava a sereia contou o que lembrava do acontecido no Rito do Sol Adormecido.

Pararam na entrada do estacionamento e olharam para o céu por um momento, nuvens pesadas prenunciavam chuva, as duas mulheres ficaram em silêncio por algum tempo apreciando aquela natureza vívida de uma vida que estava apenas começando.

— Para onde vai agora? — Lan Shang perguntou.

— Ainda tenho meu apartamento alugado e algumas economias. — Li Luo deu de ombros. — Não me vejo voltando a trabalhar na ZhangYing.

— Me deixa ajudar você. — Pediu a sereia. — Precisamos de alguém nas relações públicas da rede de parques, pensamos em abrir um em Macau, você poderia tratar disso para nós.

— Eu te agradeço muito, Lan Shang, mas prefiro...

— Li Luo, não seja orgulhosa, isso não vai te levar a lugar nenhum. — Cortou. — Não estou fazendo caridade, estou oferecendo uma vaga que precisa de profissional, é sério.

— Acho que não sou capacitada para isso.

— Capacitaremos você. — Sorriu. — Traga um currículo na Fresh Life assim que conseguir a demissão do shopping, hao bu hao? Enviarei você para Macau com algumas folgas antes que consiga soletrar “parque aquático”. Você merece isso, uma vida feliz.

— Você também. — Li Luo sorriu em resposta, agradecida e tocada pela generosidade da outra. — O que pretende fazer agora?

— Ver o mundo. — Animou-se. — Quero ir a todos os lugares que puder, conhecer pessoas, fazer amigos, enfim, me sentir viva. Além disso, quero fazer uma boa faculdade para poder ajudar minha avó na administração da empresa.

— Tenho certeza que sua avó está muito orgulhosa de você. — Anuiu. — Fico feliz que pense assim.

— Mas e você e Ka Suo? — Quis saber Lan Shang, cautelosa. — Vai dar uma chance para ele?

Li Luo não respondeu imediatamente, Lan Shang arrependeu-se de perguntar, por mais que soubesse que a ex-feiticeira amava o rei do gelo, as mágoas entre eles era algo que deviam resolver sozinhas, ainda assim, apesar de tudo, queria que Ka Suo fosse feliz e essa felicidade para ele se traduzia em Li Luo. A jovem mulher suspirou, então olhou para Lan Shang e esboçou um sorriso triste.

— Acho que não é para ser. — Disse por fim. — Pelo menos ainda não. Meus sentimentos por Ka Suo não mudaram, mas percebi que ele amava apenas uma ideia minha e não quem eu era de verdade. Quero me construir, crescer, me tornar uma mulher de quem possa me orgulhar também. Se for nosso destino, nos cruzaremos outra vez no momento certo.

— Li Luo, acredite quando eu digo, pois minhas palavras são sinceras, eu desejo que você seja muito feliz e no que puder ajudar com isso não hesite em me dizer. — Segurou a mão dela. — Espero que um dia, quando seu coração estiver pronto para perdoá-lo e perdoar a mim também, vocês dois possam construir uma vida juntos.

A ex-feiticeira apertou a mão da sereia e sorriu gentilmente.

— Lan Shang, eu não guardo qualquer mágoa de você e é verdade. Entendo seus sentimentos e me orgulho da mulher que você se tornou, também desejo a sua felicidade e sua amizade, pode contar comigo sempre.

Inesperadamente, Lan Shang deu-lhe um abraço que, passado o choque inicial, Li Luo retribuiu com carinho e sinceridade. As sombras do passado ficaram para trás, evaporando para aquele céu cinzento e se tornariam em breve a chuva que lavaria para sempre as tristezas de uma vida que não mais lhes pertencia. Assim, Lan Shang guiou a amiga até o carro e a levou para seu novo começo.

※※※

Hu Bing e Pian Feng desembarcaram no Aeroporto Internacional de Milão-Malpensa, o juiz ficou tenso durante todo o caminho, primeiro sem entender a razão da irmã ir tão repentinamente à um cruzeiro, embora entendesse que, com todo caos dos últimos meses na impressa focada na sua família, fosse compreensível o desejo dela de se afastar de tudo. Mas havia também o fato de Yan Da enjoar em barcos, fora a estranheza de tomar aquela decisão sem Pian Feng e Chao Ya de quem, quando podia, não desgrudava nunca. Mas pensava que Yan Da estava sob estresse e suas decisões naquele momento não podiam ser tidas como completamente racionais.

Ele não demorou a pedir um táxi que os levou até o Ospedale Maggiore di Milano onde o capitão do cruzeiro dissera que a irmã havia sido levada, pois era o mais próximo na rota em que o navio se encontrava. Mesmo sendo um falante fluente de inglês, Hu Bing precisou contratar um intérprete de italiano, pois boa parte das pessoas não falava inglês muito bem. Era começo da madrugada quando chegaram ao hospital, ele precisou preencher alguns documentos na recepção e perguntou em que quarto a irmã estava, o intérprete traduziu tudo e Pian Feng foi levado na frente por uma enfermeira que compreendia inglês com eficiência.

Yan Da ainda estava desacordada quando ele chegou ao quarto. Ao contrário da maioria dos hospitais, aquele era todo pintado com cores diferentes em cada bloco, a princesa do fogo fora levada ao bloco C onde imperavam tons de laranja e bege, com piso na cor creme e cortinas brancas. O alívio no coração do guerreiro do vento só era nublado pelo medo da incerteza se ela saberia que ele era, pior, se saberia quem Hu Bing era e como faria para explicar a amnésia repentina dela. A enfermeira que o acompanhou explicou que os exames não mostravam qualquer dano cerebral ou doença grave em Yan Da. Ela tinha uma anemia leve e estava com cansaço severo. Após responder todas as perguntas do guerreiro da melhor forma que pôde, ela os deixou a sós, Pian Feng segurou a mão da princesa e derramou lágrimas de profunda felicidade, beijando os dedos de sua fadinha.

Hu Bing veio ao quarto após preencher toda a papelada e conversar com o médico que atendeu a irmã. Ele organizou os preparativos para a transferência de Yan Da ao Beijing Tiantan Puhua Hospital, o responsável não fez qualquer objeção a mover a paciente, afirmando que não havia riscos. A pequena bagagem da irmã estava no quarto particular que ela ocupava, viu o estado de Pian Feng chorando com a mão dela encostada ao rosto e não teve como evitar se comover. Sabia o quanto o rapaz adorava Yan Da, cuidava dela tão bem — ou melhor — que ele próprio e apenas por isso ele sentiu confiança em partir para o exterior no passado. A devoção paternal de Pian Feng sempre deixava Hu Bing tranquilo sabendo que a amada irmã estava em boas mãos.

— Eles não sabem por que ela não acorda. — Disse, ao aproximar-se do leito. O guerreiro do vento enxugou as lágrimas tentando disfarçar seu estado. — Conversei com o médico responsável, ele falou que não há nada errado com ela. Podemos transferi-la para Pequim, vou organizar um jato-UTI e alguns paramédicos para nos acompanhar. O intérprete vai me ajudar nisso já que nem todo mundo por aqui entende inglês, deixo ela aos seus cuidados.

— Não vou sair daqui, prometo. — Afirmou, a voz ainda tremulando.

— Sei disso. — Hu Bing sorriu, afetuoso. — Fico feliz que ela tenha alguém como você e Chao Ya ao seu lado. Não se preocupe demais, hao ma? Ela está bem, só muito cansada.

Ele deu leves tapinhas no ombro de Pian Feng antes de sair novamente do quarto para providenciar o que precisavam. Ele aproveitou a oportunidade e ligou para Huang Tuo, sabendo que o amigo entenderia melhor a situação que sua esposa e poderia explicar melhor para ela.

— Ela sofreu um desgaste maior que o resto de nós. — Explicou do outro lado da linha. — Além de passar muito tempo no Diyu, a perda da imortalidade e a expulsão abrupta do mundo imortal, aliado ao estresse que o espírito dela sofreu no rito do Sol Adormecido a exauriram. Ela vai ficar bem, Pian Feng, e está viva o que é mais importante.

— Pode avisar a Chao Ya e Shi? — Pediu. — Sei que eles devem estar preocupados. Hu Bing vai leva-la à Pequim, ele tem um médico lá que cuidou da mãe deles e quer leva-la para ele examinar. Tão logo ela esteja estável iremos para casa.

— Avisarei sim, cuide-se e ligue se precisar de alguma coisa. — Disse o médico. — Acabou, Pian Feng, agora só existe felicidade à nossa espera.

— Espero que sim, Huang Tuo... não sei ainda como está a memória dela.

— Yan Da se lembrará, você e Chao Ya são importantes para ela, nunca esqueceria vocês.

— Sim, mas e Ying Kong Shi? — Devolveu.

— Deixe que o tempo se encarregue dos detalhes, está bem? Preocupe-se apenas em ficar tranquilo e não pular refeições ou vai ser internado junto dela.

Lǐjiě, lǐjiě, lǐjiě!*[1] — Resmungou. — Não banque a mamãe, está bem?

O curandeiro deu uma risada bem humorada do outro lado e os dois se despediram. Levou uma hora e meia para Hu Bing preparar tudo, eles colocaram Yan Da no jato-UTI por volta das duas e meia da manhã, precisaram fazer uma conexão no Aeroporto Internacional de Abu Dhabi onde chegaram quase às oito da manhã, de lá seguiram mais treze horas de viagem para Pequim chegando perto das nove da noite. Durante todo o percurso, Pian Feng não dormiu nem um segundo apesar das broncas de Hu Bing para que descansasse ao menos um pouco, recusou-se a sair do lado de Yan Da ou perdê-la de vista mesmo que a fadiga se apossasse dele cada segundo mais.

Somente quando ela foi admitida no Tiantan Puhua e submetida a novos exames, por insistência do juiz, o guerreiro dormiu por alguns minutos na sala de espera. Hu Bing reservou quartos em um hotel e obrigou Pian Feng a descansar após um banho, vestir roupas novas e comer uma refeição completa do contrário, não permitiria que ele ficasse com Yan Da. O guerreiro do vento concordou, sem saída, mas apenas após receberem o parecer dos exames da princesa. O médico de confiança do juiz afirmou que, além da exaustão severa, não havia nada mais errado com Yan Da e ela poderia acordar a qualquer momento. Prescreveu algumas vitaminas para a anemia e, a pedido do irmão dela, deixou-a em observação durante quarenta e oito horas. Hu Bing pediu a Pian Feng que viesse substituí-lo no dia seguinte para que o mesmo pudesse dormir também e fazer alguns telefonemas já que o caso do pai e do irmão ainda estava em curso na promotoria.

※※※

— Ainda não sabemos como está a memória dela, mas já faz três dias que ela não acorda. — Contou Huang Tuo. — Contudo os exames estão normais, acusam apenas exaustão severa o que, considerando tudo, é aceitável.

— Quanto tempo ficarão em Pequim? — Chao Ya perguntou com um misto de alívio e preocupação.

— Hu Bing pediu que ela ficasse em observação por mais quarenta e oito horas, lá tem os melhores neurologistas do país, se ela não acordar nesse período eles poderão fazer estudos de caso mais precisos. — Explicou. — Mas não há com o que se preocupar, ela ficará bem e a vida dela não corre nenhum perigo.

— Vou para Pequim esta noite. — Decidiu Shi.

— Não se precipite, Ying Kong Shi. — Aconselhou Chao Ya. — Enquanto ela estiver com Hu Bing não é uma boa ideia você aparecer do nada. Ainda mais se ela não souber quem você é, como vai explicar tudo ao irmão dela? Se acha que Pian Feng é protetor não tem ideia como Hu Bing é pior porque além disso ainda é ciumento. Vai puxar seu histórico familiar, sua ficha criminal, seus relacionamentos anteriores — ou a falta deles —, seu histórico médico, a árvore genealógica dos seus pais e seu histórico clínico psicológico antes que você consiga dizer “problema”.

— Chao Ya está certa, Shi. — Concordou Huang Tuo. — Desde o ocorrido com Peng Yan, Hu Bing é muito cuidadoso com quem se aproxima da irmã. Quando ela ficou internada, apenas médicos da confiança dele podiam se aproximar e mesmo as enfermeiras eram escolhidas a dedo. Você não vai conseguir chegar a um metro dela como as coisas estão agora. Confie em Pian Feng, ele melhor que ninguém pode cuidar dela e, sobretudo, acredite quando eu digo que ela não corre qualquer perigo. Até sabermos a extensão do dano na memória dela melhor você ficar afastado.

— Sabemos que é difícil para você. — Emendou a cantora. — Sou testemunha de tudo que fez por ela e mais que ninguém quero vocês juntos e felizes, mas temos de priorizar o que é melhor pra Yan Da agora.

Shi voltou a sentar ao lado de Chao Ya que segurou sua mão enquanto Huang Tuo apertava levemente seu ombro em sinal de solidariedade. Ele sabia que os dois estavam certos, não podia deixar sua ansiedade e impulso passarem por cima da razão. Se Yan Da nao se lembrasse quem ele era, estava disposto a construir novas memórias com ela, conquistá-la de novo. Podia fazer isso, em algum lugar no coração dela o sentimento existia e ele tinha certeza disso.

O que importava de fato era que o ritual dera certo, ela estava viva, não corria mais qualquer perigo. Logo eles poderiam ficar juntos de novo sem qualquer impedimento. Todavia, enquanto isso não acontecia, o jovem tinha coisas a resolver na sua própria vida, além disso, desejava que seus amigos, a quem devia tanto, pudessem seguir seus caminhos em paz e não o fariam se estivessem preocupados com ele. Ia esperar. O quanto fosse preciso, porque sua vida só teria sentido quando visse Yan Da novamente.

※※※

Na manhã seguinte, bem cedo, Pian Feng chegou ao hospital para substituir o irmão de Yan Da que havia passado a noite em claro sem qualquer mudança no quadro da princesa. Hu Bing foi para o hotel, onde poderia tomar banho, comprar roupas novas, fazer alguns telefonemas importantes e dormir algumas horas, enquanto o guerreiro cuidaria da sua menina.

Os dois trocaram cumprimentos e o juiz agradeceu mais uma vez o cuidado de Pian Feng com a sua irmã, a quem ele considerava sua única família desde a morte da mãe, ao que o guerreiro respondeu afirmando que amava Yan Da como sua própria filha e por isso não havia qualquer razão para agradecimentos. Hu Bing deixou-o com a irmã e saiu para o hotel. Pian Feng sentou na poltrona ao lado do leito e segurou a mão de Yan Da que não estava com o catéter venoso.

— Você precisa acordar logo, minha fadinha... — Beijou o dorso da mão dela com carinho lutando contra as lágrimas. — Acorde e me deixe com cabelos brancos de preocupação, hao bu hao? Preciso de você.

Na hora do almoço, ele saiu por alguns minutos até a cafeteria do hospital deixando Yan Da aos cuidados de uma enfermeira sob a promessa que esta não sairia dali até ele voltar. Hu Bing havia destacado uma pequena equipe de dois médicos e quatro enfermeiras de sua total confiança para atender a irmã. Ele aproveitou para telefonar para Chao Ya e atualizá-la do curso das coisas que não haviam progredido muito. Retornando ao quarto, dispensou a enfermeira e voltou a sentar ao lado do leito com um livro que havia comprado no shopping do hotel.

A boca de Yan Da estava tão seca e amarga que ela mal conseguia abri-la. Os olhos, doloridos pela claridade, não divisavam nenhuma imagem com nitidez, na sua mente, a sensação de um abraço apertado era tão vívida que ela quase podia sentir o calor na sua pele, a voz sussurrando palavras de amor com tanto desespero e convicção que seu coração estava cheio de ternura, mas nem o nome, nem o rosto dessa pessoa podiam ser lembrados por ela.

Moveu os dedos devagar sentindo como se eles pesassem muito. A memória ainda estava nublada e a sensação de ter esquecido algo persistia. Comprimiu os olhos mais uma vez antes de abri-los, o teto bege e as luzes fluorescentes aos poucos tomaram forma, a dor na cabeça ainda era violenta e tudo de que Yan Da se recordava era da cabine do navio girando, as pontadas agudas na cabeça e o zumbido alto nos ouvidos antes de tudo desaparecer. Mas quanto tempo fazia? Virando a cabeça de lado devagar, ela encarou Pian Feng sentado ao seu lado, mas não conseguiu emitir um único som, o guerreiro do vento ergueu o olhar do livro que lia para ela e o espanto deu lugar a lágrimas de felicidade ao vê-la de olhos abertos.

— Yan Da! — Sua voz falhou, carregada de emoção. — Yan Da, pode me ouvir?

Ela agitou a cabeça levemente, sentindo a náusea aumentar a tal ponto que pensou estar prestes a vomitar. Pondo-se de pé, ele apressou-se em chamar o médico pelo botão de emergência, colocou água em um copo e um canudo para ajudá-la a sorver o líquido sem levantar. Aliviada, ela forçou um sorriso para ele, feliz por estar ali ao seu lado.

— Diga, sabe quem eu sou? — A ansiedade na voz de Pian Feng a confundiu, ela franziu o cenho.

— Pian... Feng. — Respondeu com a voz ainda um tanto áspera. Ele lhe ofereceu mais água e o líquido frio desceu aliviando as cordas vocais.

Antes que ela pudesse dizer mais qualquer coisa, o médico entrou no quarto acompanhado da enfermeira chefe e examinou Yan Da fazendo algumas perguntas.

— Consegue dizer o seu nome completo?

— Meng Yan Da. — Respondeu pausadamente.

— Bom, bom. — Anuiu. — Sabe a data de hoje?

Yan Da ficou olhando fixamente para a parede atrás dele como se tentasse puxar da memória a data da última coisa que lembrava, mas nada lhe ocorria. O médico anotou algumas coisas na prancheta e disse a Pian Feng que era normal. As memórias retornariam com o tempo, ignorante as informações que apenas o guerreiro do vento e seus amigos tinham sobre o estado dela.

— Não há nada realmente errado com a senhorita Meng além da exaustão severa. — Afirmou. — A amnésia retrógrada é momentânea e, se estimulada, ela pode recordar os últimos acontecimentos.

— Obrigado, doutor. — Agradeceu Pian Feng.

Ele segurou a mão de Yan Da dando vários beijos nela, o alívio inundando seu coração, sua menina estava a salvo. Quando se viu sozinho com ela, abaixou-se outra vez ao seu lado e depositou um beijo carinhoso em sua testa.

— Obrigado, minha fadinha... obrigado por estar bem. — Disse com voz embargada.

— Pian ge... o que aconteceu? Jiejie... não me lembro de nada. — Yan Da falava em pausas, estava um tanto aflita. — Acordei naquele barco, mas não sei quando fui parar lá.

— Você...

Pian Feng não sabia como explicar, ela se lembrava dele, mas não sabia até onde a memória dela ia e temia desencadear um colapso falando a verdade. Tentaria sondar o que ela lembrava e o que não para poder decidir o que fazer.

— Você saiu em um cruzeiro para ficar longe da mídia. — Mentiu. — As reportagens sobre a família Meng com a proximidade do julgamento de Shuo Gang e Huo Yi estavam estressando você. Não pude te acompanhar com Chao Ya porque ela tinha uma reunião em Hunan.

— Onde ela está? — Quis saber. — Jiejie...

— Em casa. Nós estamos em Pequim agora, você ficou desacordada por quatro dias. — Explicou. — Quando passou mal no navio, um helicóptero transferiu você para um hospital em Milão, Hu Bing e eu fomos até lá e te trouxemos para Pequim.

Da ge está aqui?

— Sim, em um hotel. Eu vim substituí-lo pela manhã, ele passou a noite com você. — Acariciou o rosto dela. — Todos ficamos preocupados com você, Huang Tuo, Chao Ya, Yue Shen, Ying Kong Shi...

— Ying... Kong Shi? — Ela parecia confusa. — Quem é Ying Kong Shi?

O coração de Pian Feng pulou uma batida. Ela não pareceu desconhecer Huang Tuo e Yue Shen, mas não lembrava de Shi? O que aquilo podia significar? Ele tentou manter a calma, precisava ir devagar, não podia pressioná-la de maneira abrupta.

— Yan Da, você se lembra de Liao Jian? — Perguntou.

— Guardião... do norte... oeste, algo assim. — Anuiu.

— Então você se lembra que era a princesa do fogo, não é?

Ela assentiu devagar.

— Lembra que Ka Suo era o rei do império da neve?

— Sim, lembro de tudo isso, você está me deixando nervosa. — Agitou-se. — Quem é esse Ying Kong Shi? Por que não consigo lembrar dele?

— Shh... tudo bem, está tudo bem. — Tranquilizou-a. — Vamos falar sobre isso depois, certo? Descanse um pouco, vou ligar para Hu Bing e avisar que você acordou, não demoro, prometo.

Ela assentiu. Pian Feng chamou uma enfermeira para ficar com ela e ajudá-la com o que precisasse. Yan Da sentia-se incomodada, aquela insistente lacuna no seu peito seria aquele Ying Kong Shi? O rosto que ela não conseguia ver? Pediu que a enfermeira tirasse o soro agora que estava acordada, esperava receber alta em breve, não gostava de hospitais onde Huang Tuo não estivesse para deixá-la à vontade. Porém, havia alguma coisa alfinetando o fundo da sua mente e lhe dizendo para não voltar para casa.

Após informar ao irmão que ela já estava acordada, Pian Feng tinha o difícil trabalho de informar que todas as memórias de Yan Da com o príncipe do gelo haviam desaparecido. Ela lembrava de outros detalhes da sua vida passada, mas nada relacionado a Shi permaneceu. Sem coragem de dizer diretamente a ele, ligou mais uma vez para Huang Tuo esperando que o amigo soubesse frear os instintos malucos do príncipe e dar a notícia sem causar um ataque cardíaco.

O curandeiro ouviu todo o relato com certa preocupação, mas sem fazer comentários. Estava novamente no apartamento de Yan Da com Shi e Chao Ya para dizer sobre o último telefonema que ele fizera na hora do almoço, os três conversavam sobre como agir a partir de agora dependendo de como as memórias de Yan Da estivessem. Sabia que suas revelações seriam um golpe duro no príncipe do gelo depois de tudo que havia passado para trazer a amada de volta. Tão logo o médico desligou o telefone com uma expressão séria, quase triste, tanto a cantora quanto o jovem ao seu lado esperavam pelo pior.

— Pelo amor dos céus, Huang Tuo, o que aconteceu? — Shi quis saber, nervoso.

— Pian Feng acabou de me atualizar sobre o estado de Yan Da outra vez. Ao que parece ela já acordou. — Disse, cauteloso. — Ela foi capaz de reconhecê-lo, embora haja lacunas na sua memória.

— Quão grandes? — Chao Ya perguntou.

— Shi... — Fez uma pausa. — Yan Da lembra de todos nós e de quase toda a sua vida passada. Mas não lembra de você. Na memória dela, é como se você nunca tivesse existido.

Primeiro veio o choque do impacto. Shi sentiu-se claustrofóbico como se estivesse fechado em uma caixa. Os olhos encheram de água, mas nenhuma lágrima caiu. Sua voz se perdeu em algum lugar nos confins da sua garganta. Yan Da havia apagado tudo sobre ele, quão grande fora a dor que lhe causara no passado para sua mente a proteger dele? Vendo o estado do amigo, Huang Tuo se apressou em tentar explicar a situação de outra maneira.

— Ouça, Shi, nenhum de nós podia prever os danos. — Disse de maneira enfática. — Nós remodelamos o rito do sol adormecido praticamente inteiro, foram muitos feitiços juntos e modificados, claro que haveria sequelas, mas ainda há uma chance, Ka Suo pediu que Xing Jiu adicionasse um feitiço de invocação no ritual.

— Percebe o que isso significa, Huang Tuo? — Perguntou ele quando conseguiu encontrar sua voz mais uma vez. — Quão ferida eu a deixei para a mente dela protegê-la de mim? Que mal tão grande eu causei para ela lembrar de tudo, menos de mim?

— Shi... — Chao Ya passou o braço pelos ombros dele. — Não é assim. Havia o risco de ela não lembrar de nenhum de nós. Não se torture dessa maneira.

— Chao Ya está certa. — Concordou Huang Tuo. — Lembre-se que mesmo com tudo que você fez, Yan Da ainda escolheu você. Shi, ela poderia muito bem ter se submetido ao julgamento no Diyu ao invés de aceitar a ajuda de Peng Yan. Mas ela ainda voltou e tenho certeza que não foi apenas por nossa causa. Ela ama você. Mesmo que a mente dela não se lembre disso agora, o coração dela sabe.

— Dê um tempo para ela se recuperar, se readaptar a tudo e apareça outra vez. — Aconselhou a cantora. — Entre na vida dela e a reconquiste, confio que as memórias sobre você vão retornar. Conheço Yan Da tão bem quanto Pian Feng, ela não escolheria esquecer nada porque as memórias fazem parte de quem ela é.

— Você chegou muito longe para desistir, shi bu shi? — Incentivou Huang Tuo. — Ainda quero ser seu padrinho de casamento.

— E eu quero sobrinhos. — Brincou Chao Ya.

Uma lágrima cristalina percorreu o rosto bonito de Shi e Huang Tuo a segurou em seu dedo. Eles tinham razão, o príncipe bem sabia, o apoio dos amigos o manteve forte e decidido a não desistir. Se Yan Da não tinha as velhas memórias, ele construiria novas com ela. A única coisa que não podia era viver sem ela.

— Obrigado. — Disse baixinho, a voz embargada. — Obrigado, pessoal.

— Shh... — Chao Ya o apertou em um abraço. — Vai ficar tudo bem. Estamos com você, não precisa passar por nada sozinho.

Ele ofereceu um sorriso para Huang Tuo que apertou sua mão e bagunçou seu cabelo contendo as próprias lágrimas que brilhavam em seus belos olhos. Conseguira sobreviver às várias enchentes na sua vida inteira, nadando contra a corrente, era capaz de lidar com mais aquele obstáculo. Shi tinha convicção do amor que sentia por Yan Da, não ia desistir. Agora não estava mais sozinho e nem tinha apenas Ka Suo como apoio. Era uma pessoa com amigos que se importavam e torciam por ele.

Nenhum rio da vida podia afogá-lo mais.

Notas finais
[1] **Lǐjiě [理解] — Entendi.