Love as Sakura | 爱如樱

48 第43章A identidade real


“Eu sei que você não vai querer me ver, provavelmente vai me odiar... mereço isso e não tenho direito de culpá-la por isso. Fui cruel com você, me aproveitei dos seus sentimentos por mim, menti... Mas acredite em mim, Yan Da, nada do que eu disse desde que te encontrei nesse mundo foi mentira. Todas as vezes que demonstrei amar você foi verdade. É verdade. Mesmo que talvez você não esteja ouvindo isso, quero que saiba sem dúvidas que meus sentimentos por você são reais. Não há mentira nisso. E se houver um feixe que seja de esperança para esse sentimento no seu coração, espero que possa me perdoar, porque honestamente eu não sei como viver essa vida sem você ao meu lado.

A voz soava longe, como um eco distante vindo de um passado que inalcançável. Ela tentou lembrar a quem pertencia aquela voz melódica de barítono, mas não conseguiu. Dentro da sua mente havia apenas a conversa com Li Luo fragmentada em partes que não se interconectavam, como se o último lugar em que estivera, de fato, fosse aquela sala branca. Queria descobrir o motivo daquelas palavras a afetarem, provocando uma espécie de angústia que pesava na sua alma, mas conforme a consciência afastava a voz e se conectava com a realidade as palavras iam desaparecendo no fundo da sua mente.

Quando Yan Da abriu os olhos se viu dentro de uma espécie de quarto antigo decorado com cortinas de seda vermelha, ela estava deitada na cama de madeira e havia incenso queimando espalhando um odor de menta por todo o quarto. Sua cabeça estava meio zonza, mas não havia mais qualquer sinal de frio, de dor, como se tudo aquilo tivesse sido um pesadelo. Contudo, ao que parecia ainda não havia acordado porque não reconhecia aquele lugar. Tentando se equilibrar, ela notou que ainda vestia as roupas com que havia saído — o terninho maligno — estava começando a acreditar que aquela roupa realmente chamava má sorte.

De pé sobre os saltos ela caminhou pelo cômodo em busca de pistas, estava muito quente ali dentro, mas estranhamente ela não se sentiu desconfortável. Caminhando até uma janela, Yan Da encarou as formações de rocha escura iluminadas com lanternas vermelhas, pontes de madeira e homens trajando armaduras estranhas que transitavam de um lado para outro carregando lanças como se estivessem em um drama de época. Aturdida, ela voltou para o quarto tentando racionalizar sua situação e se orientar. Como fora parar da sala branca naquele lugar? O que acontecera no meio tempo? Por que ela não conseguia lembrar? Respirando fundo, ela se obrigou a manter a calma, se perdesse o controle não ajudaria nada a si mesma e não conseguiria encontrar uma saída para aquela situação.

O som de passos a surpreendeu, paralisada pelo medo ela não conseguiu se mover quando a garotinha entrou correndo dentro do quarto aparentando estar muito irritada. Yan Da olhou com choque a pequena criatura — que parecia não se dar conta da sua presença ali —, era igualzinha a ela quando criança! Como podia ser? Estava tendo um sonho com uma vida passada sua?

Gongzhu! — Uma moça mais velha, aparentando não mais de quinze anos, entrou atrás dela com o bonito rosto torcido pela preocupação. — Por favor, gongzhu, me permita tratar sua ferida.

— Eu não estou ferida! — Retrucou a menina embora seus olhos estivessem marejados pela dor que tentava esconder. — Vá embora daqui, quero ficar sozinha!

Gongzhu...

— Saia agora! — Gritou.

Diante da ameaça clara na voz da menina, a jovem garota se curvou várias vezes e, mordendo o lábio em preocupação, saiu. Yan Da olhou chocada quando a criança despiu os três hobes do hanfu para expor um talho enorme e sangrento na diagonal que tomava toda extensão das suas costas diminutas. Era visível que a pequena princesa estava sofrendo uma dor insuportável, dada a profundidade da feria, ela parecia ter sido açoitada com um chicote muito grosso, mas a jovem princesa não conseguia conceber quem bateria tão cruelmente numa criança daquele tamanho.

Mais passos se aproximaram e um adolescente, não muito mais que doze anos, entrou no cômodo. A menina mordeu o lábio lutando contra as lágrimas e colocou uma máscara de impassividade no rosto lançando um olhar mortal para o recém-chegado que sorria triunfal e sádico. Yan Da sentiu todas as suas defesas mentais desabarem ao ver Shuo Gang ali diante dela na adolescência. Mesmo com aquelas roupas estranhas e cabelo comprido, o cinismo e crueldade em seus olhos eram os mesmos.

— Oh, vejo que ainda está de pé. — Observou ele em tom zombeteiro. — Isso é bom.

— Saia daqui, eu não quero ver ninguém, especialmente você. — A menininha respondeu com um desprezo cortante na voz infantil.

— Está envergonhada? — Ele riu. — É isso que acontece quando garotinhas tolas como você se metem em coisas de homem, Yan Da.

Yan Da precisou se apoiar no dossel da cama para não cair sentada no chão quando ouviu seu nome ser dirigido àquela garotinha. Isso significava que estava vendo a si mesma numa vida passada. E aquele era o odioso Shuo Gang. Quão azarada ela era para nascer na mesma família duas vezes? Ainda havia pecados a serem pagos? Sua versão infantil, sem que o irmão visse, puxou velozmente uma espada da bainha pendurada em um cabideiro e apontou a lâmina para a garganta de Shuo Gang que ficou momentaneamente paralisado.

A diferença de altura dos dois não era muita apesar de Yan Da considerar que sua versão do passado tinha no máximo dez anos. Shuo Gang nunca foi muito alto — e se enfurecia disso —, mas compensava a falta de centímetros com quilômetros de maldade e Yan Da sempre foi seu alvo favorito, ao que parece no passado também não era diferente. A mão dela não tremia ou fraquejava enquanto a ponta da espada fazia uma incisão no pomo de adão do irmão e um fio de sangue escorria. Ele não ousava se mexer.

— Você acha mesmo que vai conseguir chegar ao trono, seu idiota? — A pequena princesa cuspiu as palavras como lanças. — O pai engoliu oito de nós e nada vai impedi-lo de engolir você também quando precisar de poder. De todos no reino, Shuo Gang, você é o menos capacitado para ser rei, além de estúpido demais para tomar qualquer decisão sensata, é lento o suficiente para permitir que minha espada esteja na sua garganta bem agora.

Shuo Gang fez um movimento pequeno para tentar se esquivar da lâmina e, bem nesse momento, a irmã mais nova pressionou um punhal bem no seu estômago fazendo-o engolir em seco. A lâmina da espada subiu para sua jugular enquanto o olhar dela continuava feroz sobre ele.

— Só o mais forte vai ser capaz de vencer, mesmo que não seja eu, tampouco vai ser você! — Então ela chutou a barriga de Shuo Gang que voou para fora do quarto. — Agora vá embora daqui ou eu juro que vou acabar com você antes do pai!

Ela caiu de joelhos, exausta e suada tão logo as portas se fecharam na cara de Shuo Gang. A tez da menina ia ficando mais e mais pálida conforme a perda de sangue era maior. Parte de si queria ajudar sua eu do passado, mas ela não conseguiu se mexer diante do choque de toda aquela situação irracional.

— Você era bem feroz, não é? Uma verdadeira sobrevivente.

O susto fez Yan Da gritar e cair sentada na cama de madeira. Contudo, sua versão passada não se mexeu. Ao seu lado, com um sorriso tenebroso, estava uma garota estonteante de cabelos azuis com mechas esverdeadas. Os olhos eram como safiras brilhantes e sua pele como o mais perfeito cetim. A princesa tinha certeza que nunca havia visto aquela criatura antes, a voz dela era melodiosa e trazia nos cabelos enfeites de flores. Seria uma fada?

— Quem é você?

— Oh, isso não é importante. — A moça esboçou um leve riso. — O mais importante aqui é quem você é.

— Não estou entendendo nada... que lugar é esse e por que essa menina tem o mesmo nome que eu? — O coração de Yan Da batia acelerado no peito enquanto sua versão anterior se punha de pé com dificuldade e se aproximava da tina. — O que está acontecendo?

— Aquela é você muitos milênios atrás. — Explicou a garota. — Você era a mais jovem filha de Huo Yi, comandante da tribo do fogo. Nesse momento, sua mãe foi absorvida pelo seu pai e você foi punida por tentar ajudá-la, inclusive com o próprio chicote que vai ser sua principal arma daqui a alguns séculos. Oh, sim, seu irmão Hu Bing também foi absorvido.

Não havia qualquer emoção na voz dela ao dizer aquelas palavras e Yan Da não tinha certeza se ficava mais chocada pelas atrocidades que ela dizia — e que lhe soavam como absurdos — ou pela ausência de sentimento na sua voz de soprano. Por algum motivo, a princesa sentia uma angústia envolver seu coração, mas sua razão lutava para afastar aquela fantasia macabra.

Ela ergueu o olhar para sua figura infantil que, despida, entrava na tina cheia de água quente, as mãozinhas apertavam as bordas de madeira enquanto as lágrimas inevitáveis escorriam pelo seu rosto. Quase conseguia sentir na própria pele a água quente fazendo a ferida latejar tão pungentemente que parecia que a pele estava se partindo ainda mais. A pequena Yan Da mordeu o lábio se recusando a gritar, o sangue explodiu em sua boca e escorreu enquanto os dedos ficavam brancos ao apertar as bordas da tina.

— Vamos, não pareça tão miserável assim. — A garota tocou o ombro dela. — Ainda nem começou e você vai precisar de mais estômago para aguentar o que vem pela frente.

※※※

Xing Jiu acordou no quarto de Ka Suo. Este estava ao seu lado juntamente com Huang Tuo que lhe olhava com alguma preocupação. O astrólogo sentia dor por todo o corpo como se tivesse sido atropelado recentemente e sua mente estava uma bagunça, a última coisa que se lembrava com nitidez era de estar em um dos quartos da casa de Liao Jian analisando as estrelas e conversando com Yue Shen.

— Yan Da... — A voz dele soou áspera, parecia haver areia na sua garganta. Ka Suo lhe ajudou a tomar um pouco de água.

— Ela está em processo de despertar. — Informou Huang Tuo. — Deve ter sido um golpe duro para você, meu amigo.

— Preciso ir até ela. — Pediu ele, ainda um tanto pálido.

— Eu a estou monitorando, não se preocupe, está tudo correndo bem agora. — Garantiu o curandeiro.

— Você não entende, se o escudo dos sonhos foi quebrado, o espírito dela está vulnerável como uma porta aberta. Eu não consegui localizar Lian Ji nas estrelas...

Um frêmito perpassou o corpo de Huang Tuo e sem esperar ordens ou dizer qualquer coisa ele saiu correndo do quarto.

※※※

Yan Da acompanhou a garota estranha para fora dos aposentos de sua versão mirim. A moça usava um hanfu branco com detalhes azuis e se movia com graciosidade como se seus pés mal tocassem o chão. Do lado de fora, a paisagem era irreal, várias montanhas escuras erguiam-se como soldados entrelaçados e enfileirados por todas as partes, lavas alaranjadas escorriam pela superfície, o conjunto de residências formava um suntuoso palácio combinando a rocha escura com madeira e tudo a sua volta era muito quente. Por mais que aquilo não lhe incomodasse realmente, Yan Da não podia deixar de se perguntar por que não estava suando conforme seguiam invisíveis pelo castelo.

Ela olhou para a garota andando alguns passos adiante, no fundo da sua mente a intuição lhe dizia para ter cuidado com ela, apesar de parecer graciosa, havia algo de perigoso na maneira como ela sorria ou no som melodioso das suas palavras que soavam quase como feitiços. Com um suspiro frustrado ela finalmente perguntou.

— Qual é o seu nome? — Bem nesse momento passaram por um destacamento de guardas que também não pareceu vê-las. — É estranho não saber como lhe chamar.

A garota parou e virou para ela com um sorriso enigmático, continuou o caminho de costas despreocupadamente, as mãos nas costas enquanto os cabelos azuis esvoaçavam com suavidade.

— Eu tenho muitos nomes. — Deu de ombros como se aquilo fosse natural. — Mas se isso é tão importante pra você, pode me chamar de Mo Yao.*[1]

— Seu eu do passado também está aqui?

Mo Yao riu.

— Não. Eu não fazia parte da tribo do fogo. — Explicou. — Mas fui uma expectadora de todos os eventos do passado por ser amiga de uma astróloga.

— Astróloga? — Yan Da fez uma careta. — Do tipo que lê sorte?

— Você é tão ingênua. — Mo Yao meneou a cabeça soltando uma lufada de ar, impaciente. — Argh, estragaram você com todo aquele mundo mortal decadente. Os astrólogos eram, inicialmente, a tribo mais poderosa dentre aquelas que povoavam o mundo imortal, eles eram os leitores das estrelas, senhores do destino e mestres dos sonhos. Eu era serva e melhor amiga da maior astróloga que já pisou o mundo imortal, Xing Gui xiaojie. Você teve a chance de conhecer o irmão dela, Xing Jiu xiansheng, o segundo astrólogo mais poderoso e talentoso do clã.

— Então...

— Vinte mil anos atrás, xiaojie viu meu destino. — Cortou Mo Yao como se previsse a pergunta de Yan Da. — Ela me preparou para esse momento onde eu precisaria lhe mostrar toda a verdade sobre quem você é. Então vamos pular as formalidades e ir para o que interessa.

Antes de se dar conta, Yan Da olhou em volta e se viu em uma espécie de campo de treinamentos. Ela era uma adolescente agora, devia ter por volta de quinze ou dezesseis anos, usava uma roupa vermelha com detalhes pretos e seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo. A mão ágil se movia segurando um chicote que investia contra um adulto Shuo Gang que desviava com alguma habilidade. Mo Yao caminhou até alguns blocos de palha que estavam empilhados em um canto e se sentou como uma criança admirando um desenho.

Na mente da princesa pouco daquilo fazia sentido, mas admitia para si mesma que cada vez que olhava para sua imagem do passado sentia alguma ligação com ela. Todavia, parecia haver alguma coisa que ela estava esquecendo, um aviso no fundo da sua mente conectando-a com o “presente” que parecia há muito deixado para trás. No meio da troca de golpes e magia entre sua versão passada e o irmão ela foi acometida por uma forte dor de cabeça que a fez cambalear.

Lembre dessa promessa, gongzhu. — A voz soava trêmula e angustiada. — Não me torne um monstro por você.

Ela não lembrava a quem aquela voz pertencia ou por que carregava tanta angústia, mas, por um momento, Yan Da sentiu uma espécie de saudade invadir seu coração, ansiando o abraço do dono daquela voz para aplacar o medo que estava sentindo.

— Lá vem ele. — Mo Yao disse tirando-a dos seus pensamentos.

Ao virar a cabeça para ver a quem a jovem se referia seu coração pulou uma batida. Os passos eram firmes enquanto ele marchava majestoso na sua direção, os cabelos compridos presos rigorosamente em um rabo de cavalo, usava uma armadura dourada e os pulsos tinham braceletes em forma de pena. Yan Da sentiu os olhos encherem de lágrimas ao reconhecer aquela figura bela e imponente.

— Peng Peng...

Por impulso, seus pés começaram a leva-la até ele, os protestos de Mo Yao ficaram abafados em algum espaço recôndito da sua mente, os saltos que usava com o terninho não facilitavam sua locomoção no chão de terra batida, mas ela não se importava, começou a tropeçar com o único desejo de abraçar o melhor amigo e primeiro amor, alcançar aquele sonho arrancado dela.

— Peng Peng! — Gritou o nome dele, em vão. — Peng Peng!

Mas ele não podia escutá-la.

— É inútil. — Mo Yao apareceu ao lado dela, assustando-a. — Ele não pode te ver ou te ouvir. É a mesma coisa que conversar com alguém naquelas coisas que vocês chamam televisão naquele mundo decrépito. É uma imagem do seu passado, Yan Da, nada aqui pode ser mudado ou refeito.

Contudo, o coração da princesa não conseguia aceitar estar diante de Peng Peng e não poder tocá-lo. Sua mão avançou na direção dele enquanto discutia com Shuo Gang, mas ao tentar encostar nele, como se fosse um fantasma, ela atravessou. Uma dor intensa golpeou o peito de Yan Da enquanto Peng Yan se afastava com sua eu do passado, ela nunca imaginou que um dia chegaria a sentir inveja de si mesma.

※※※

Huang Tuo foi recebido por Chao Ya quando bateu a porta do apartamento de Yan Da. A cantora parecia exausta e os olhos inchados indicavam que estivera chorando.

— Pian Feng acordou? — Quis saber.

— Sim. Está com ela, se recusa a sair de lá.

— Está tarde, você devia tentar dormir um pouco.

— Dormir? — Ela riu sem humor. — Pode parecer ridículo o que vou dizer agora, mas me sinto como uma mulher cuja filha está no hospital entre a vida e a morte. Como poderia dormir?

O curandeiro sorriu docemente enquanto colocava a mão sobre o ombro de Chao Ya e apertava levemente.

— Você e Pian Feng são a família que ela merecia ter. Entendo a sua angústia, Chao Ya, mas eu garanto a você que ela vai acordar.

— Eu sei que vai, mas não será a mesma. — A cantora baixou a cabeça. — Não sei como ela vai me olhar, se vai me olhar. Que tipo de feridas vão acordar com ela, Huang Tuo?

— Não pense nisso agora. — Aconselhou. — Vocês três construíram uma vida juntos nesses anos, isso há de valer algo para ela.

Quando conseguiu convencer a musicista a dormir um pouco, ele caminhou até o quarto da princesa com cuidado para não acabar assustando Pian Feng. Tinha em mente que eles levaram o dever de proteger Yan Da a outro patamar. O jeito como cuidavam e se preocupavam com ela era de tal ponto profundo que mesmo Ka Suo não se atrevia a interferir e o curandeiro achava a relação deles algo muito belo.

Ao abrir a porta do quarto, a imagem de seu amigo sentado ao lado de Yan Da era comovente. Os olhos de Pian Feng não desviavam um segundo dela acompanhando cada respiração como se temesse que a qualquer minuto o sopro da morte arrancasse dela o ar. Ele segurava a mão dela acariciando-a com devoção, o médico não teve como evitar o sorriso triste, quantas vezes via aquela cena nos quartos do hospital onde trabalhava? Pais agarrando-se à esperança de que seus filhos levantariam a salvo da doença que os derrubara.

Ele se aproximou da cama e tomou o pulso de Yan Da verificando o seu equilíbrio espiritual e avaliando se havia algum tipo de interferência na energia mágica dela. Aos poucos sentia o poder voltado para suas veias, mas não detectou nenhuma aura além da dela mesma. Se Lian Ji tentasse interferir nas memórias dela deixaria um rastro, mas por via das dúvidas era bom Xing Jiu dar uma olhada quando estivesse melhor.

— Me desculpe por mais cedo. — A voz de Pian Feng era grave quando falou.

— Não se preocupe com isso, é compreensível. — Sorriu. — No seu lugar talvez eu tivesse agido da mesma forma.

— Ela vai acordar, não vai?

— Claro que vai. — Garantiu. — A ameaça da lágrima ancestral foi dissipada, agora ela está percorrendo o passado por si mesma, não sinto qualquer sinal de dor nela, tudo ficará bem, Pian Feng.

— Eu queria acreditar em você. — Sua mão acariciou o rosto dela. — Acreditar que quando ela abrir os olhos não vai nos odiar.

— Yan Da é forte, Pian Feng. — Lembrou ao amigo. — E tem o coração mais generoso que já conheci. Acredite nela como sempre acreditou.

※※※

Num átimo de segundo, escureceu.

Mo Yao guiou Yan Da através do campo de batalha até o alojamento dos soldados onde ficava a residência de Peng Yan.

— A relação entre você e seu guarda-costas extrapolou o limite do aceitável. — Contou ela. — Mas seu pai fez vista grossa para isso porque no fundo ele ainda adorava você e a presença de Peng Yan te mantinha afastada dos assuntos que ele considerava “masculinos”. Só que Shuo Gang ainda queria se vingar e o que melhor que atingir seu ponto fraco?

Um sorriso diabólico surgiu no rosto bonito da garota. Uma mulher por volta de vinte anos saiu da residência de Peng Yan e se encontrou com Shuo Gang próximo a ponte que levava ao terceiro andar da montanha, Yan Da não conseguiu ouvir sobre o que eles conversaram, mas não era preciso, pois Mo Yao faria questão de esclarecer os pontos cegos.

— Vocês estavam prestes a fugir da tribo do fogo. — Explicou. — A criada do seu melhor amigo é uma espiã do seu irmão. Ela revelou todo plano para ele. Nessa noite, Peng Yan foi capturado pelos guardas de Shuo Gang e levado para fora do reino do fogo.

O cenário, repentinamente, mudou para uma floresta.

— Acho que isso pode ser um pouco demais pra você. — Alertou a jovem.

Um saco de pano cobria a cabeça de Peng Yan e suas mãos e pés estavam presos por algum tipo de corrente brilhante, não importava o quanto tentasse ele não conseguia se soltar. Os dois soldados que o carregaram lhe colocaram de joelhos diante de Shuo Gang que estava encostado em uma árvore, o sorriso cruel de sempre pintando seu rosto.

— Você é um pequeno passarinho que se atreveu a voar alto demais. — A voz odiosa do irmão parecia uma faca rasgando seus tímpanos. — Achou que eu nunca ia descobrir seus planos como espião da tribo do espírito do vento? E ainda se atreve a cortejar Yan Da!

— Que tipo de sandices está dizendo? — Rebateu Peng Yan.

— Sandices? — Shuo Gang riu e desferiu um golpe com toda força no rosto dele fazendo Peng Yan cuspir sangue. — Você ia ajudar aquela cobra traiçoeira a fugir quando o lugar dela é no reino do fogo, para a única coisa a que ela serve que é ser vendida por algo que vale mais do que ela!

Peng Yan riu.

— Shuo Gang wangzi, já parou para pensar que você odeia sua irmã dessa forma porque é incapaz de superá-la? — Cuspiu. — Ela tem tudo que te falta: inteligência, força, poder, a graça de uma rainha e, sobretudo, um coração bom.

Um ódio enlouquecido torceu o rosto de Shuo Gang e a resposta aquela afronta foi quebrar o braço de Peng Yan. Nesse momento, Mo Yao estalou os dedos e Yan Da, chocada e chorando, se viu parada diante de um lago.

— O motivo de nem você nem os sobreviventes da tribo do espírito do vento conseguirem encontrar o corpo dele, é que Shuo Gang o desmembrou e jogou no lago de fogo. — Informou ela, impassível. — Ele contou a Huo Yi sobre a espionagem e você foi trancada nos seus aposentos, por bem pouco seu pai não devorou você, mas o destino estava a seu lado, você fugiu antes que ele tivesse a chance de cometer um ato impensado.

“Por séculos você vagou pelos quatro cantos do mundo imortal procurando por Peng Yan. Nesse meio tempo, seu pai destruiu a tribo do espírito do vento e, aconselhado pelo imbecil do seu irmão, atacou o império da neve. Você foi convocada de volta para lutar e foi esse o início dos seus problemas.”

Yan Da não conseguia respirar direito. Sentia-se ridícula vestindo aquele terninho com sobretudo e salto agulha no meio daquele lago após ver Peng Peng ser torturado e descobrir que mesmo no passado, pelas mãos de Shuo Gang, ele teve uma morte tão horrível. E pior, também no passado a culpa fora dela. Que espécie de piada o destino estava fazendo com ela?

— Foi bem aqui, nesse lago — Continuou Mo Yao —, centenas de anos mais tarde, que você conheceu Ying Kong Shi.

O nome surtiu o efeito de um tapa em seu rosto. Mal se recuperara do que vira de Peng Yan, Yan Da tinha a sensação que seu estômago estava se dissolvendo no próprio suco gástrico. Seu coração apertou a tal ponto que acreditou, pararia. Num rompante, toda aquela história ilustrada por Mo Yao como um filme em 3D começava a fazer sentido na sua mente, alinhar-se nas correntes do tempo que a prendiam.

※※※

Shi encarava a cerejeira pintada na parede preta diante de si. Uma angústia mortal engolia seu coração e por mais que tentasse não conseguia pará-la.

Era ela, ele sabia.

De algum modo sentia a angústia arraigada no coração dela emanar até ele como se suas almas estivessem presas por um elo. Encolhendo-se na cama ele não ousou se mexer, apenas manteve o olhar grudado na árvore cujos galhos robustos e flores delicadas se moviam nas suas memórias mais remotas. Permitiu-se sentir aquela dor, compartilhar com ela seus sofrimentos.

Aos poucos, como um veneno gelando suas veias, ele sentia o fogo de Yan Da renascer mais poderoso do que nunca enquanto ele mesmo ia se petrificando em um iceberg. Seu único desejo era que ela o abraçasse, derretesse-o por completo. Ele desistiria de qualquer coisa para vê-la sorrir mais uma vez.

※※※

— Encontrem ele, rápido!

Enquanto seus homens procuravam pelas imediações do lago, Yan Da viu um ponto branco boiando no meio das águas a uma larga distância. Usando seu chicote, ela alcançou o objeto que boiava e o puxou até si para descobrir que era um homem. Estava seminu, usava calças brancas que pouco escondiam sua intimidade, ela o avaliou por um momento e ordenou que seus homens o levassem para o acampamento enquanto os outros continuariam procurando.

— Ele estava sob disfarce de um mortal, por isso você não o reconheceu. — Contou Mo Yao e num estalar de dedos o cenário mudou novamente, dessa vez Yan Da se viu dentro de uma barraca enorme, mobiliada elegantemente. — A ele você nomeou Yun Fei.

Ela se assistiu discutindo com aquele homem seminu envolto em uma manta. Pelo seu próprio olhar, podia dizer que tinha algum interesse nele, mais para descobrir a verdade sobre quem ele era do que de fato de inicialmente sentir algo romântico.

— Desde a perda de Peng Yan — Mo Yao prosseguiu —, você queria desesperadamente outro amigo. No começo, você manteve Yun Fei como seu escravo porque sabia que ele não estava dizendo a verdade sobre seu nome e de onde veio. Mas conforme foram passando tempo juntos você o via menos como um servo e mais como um amigo. É claro que fazia de tudo para mascarar isso e, até certo ponto, ele lhe foi leal.

A voz de Mo Yao funcionava como um narrador, profunda e envolvente enquanto descrevia os fatos da vida que Yan Da via se desenrolar diante dos seus olhos, impotente para mudar qualquer coisa que fosse. Viu a si mesma ao lado de Ying Kong Shi, discutindo ou sorrindo enquanto ele permanecia com a expressão sempre impassível falando o básico, seguindo-a como uma sombra.

— Com medo de perdê-lo, você o alimentou com a fruta do fogo, isso o manteria perto de você para conseguir o antídoto. Na tribo do gelo, essa fruta é conhecida como Èmó de zhēnzhū*[2], sabia disso? Mas você não fazia ideia que pelas suas costas ele agia como um espião para Ka Suo.

Diante dela, Shi conversava com o irmão e Li Luo. A mesma mulher que falara com ela na sala branca e lhe dissera que estava sendo usada por ele, por todos os “eles” que ainda não estavam claros na sua mente.

— Ele a tratava como um banco de antídoto, mas seus sentimentos a deixavam cega para a verdade. E bem no fundo, seu Yun Fei se importava um pouco com você embora não admitisse isso a si mesmo. Afinal, ele a livrou de se casar com o usurpador do norte, Hei Feng.

O campo de batalha apareceu, todo o chão coberto pela neve em uma fortaleza de madeira, homens trajando peles de animais para combater o frio glacial que soprava por toda parte, tochas ardiam nos quatro cantos da arena e as pequenas residências ladeavam salpicadas pela fortaleza. Em algum lugar, próximo ao lago norte, Yan Da se viu irritada e chorando, gritando aos quatro ventos que não desejava mais ser a princesa do fogo se tivesse de ser vendida em nome dos interesses de sua tribo.

Nesse momento, Yun Fei apareceu.

A maneira como ele a olhava não trazia qualquer tipo de afeto, isso era claro. A princesa olhava aquelas feições duras e o tom indiferente com que ele lhe dirigia a palavra, tão diferente do sorriso sincero e voz melodiosa com que o viu conversar com Ka Suo. Não importava quantas chances Yan Da desse ou quantas vezes ousasse cruzar a linha entre eles, Yun Fei não cedia um só centímetro. Nesse momento, lhe veio à mente o mesmo rosto, mas com cabelos curtos, uma camisa preta de gola alta e um sobretudo marrom, os olhos castanhos dirigiam-se a ela com devoção, desejo e preocupação, a maneira como ele tocava seu rosto, mais parecendo pintar um quadro, ela não lembrava quando aquilo havia acontecido — e se era real —, mas os dois pareciam duas pessoas diferentes.

— Você alguma vez já parou para se perguntar, Yan Da, por que não confia nas pessoas? — Mo Yao colocou um braço encostado no ombro dela enquanto observava a cena de luta entre Yun Fei e Hei Feng. — Será que é realmente só por causa do seu pai machista e do seu irmão sádico? Eles são apenas parte da razão, tiraram sua confiança em si mesma e a fizeram acreditar que não merecia o amor de ninguém, afinal, o trono é um local solitário e perigoso. Mas quem plantou e germinou o medo no seu coração foi o mesmo homem que você vê lutando por você no meio dessa arena.

“Seu pai tirou sua autonomia de você. Shuo Gang te tirou Peng Yan. Mas foi Ying Kong Shi, a quem você nomeou Yun Fei, que incutiu o medo no seu coração. Ele tirou de você a capacidade de confiar nos outros, fez você acreditar que tudo que recebe em troca do amor que demonstra é dor e desprezo. Mentira. De todos, ele foi o mais cruel porque tirou sua capacidade de amar livremente. Converteu seu caloroso e ardente coração em gelo.”

A voz de Mo Yao decrescia conforme Yan Da se deparava com a vez em que deu metade da sua alma para Yun Fei, mas ele lhe disse que a ajudara unicamente para receber o antídoto do fruto do fogo, sequer se dignou a te agradecer por ter salvo a vida dele. Logo depois, ao ajudá-la a fugir, revelou sua verdadeira identidade como Ying Kong Shi, o príncipe do império da neve.

O que eu sou pra você?”

“Uma inimiga.”

Era como assistir seus próprios pesadelos durante a vida inteira de uma única vez. Cena a cena, Yan Da revisitava o que achava que era o fruto fantástico da sua imaginação, sentia uma força tão pesada oprimindo-a por dentro que precisava de muito esforço para não gritar ali mesmo para Mo Yao se calar, parar de dizer aquelas coisas. A mente da princesa estava de tal modo sob pressão que sua cabeça doía horrivelmente. Ela queria acordar de tudo aquilo.

— Todos eles a viam assim. — Continuou Mo Yao. — Pian Feng, que tanto a adora? Aqui você não passava de uma criminosa para ele, assim como Chao Ya que via você unicamente como a filha do homem que trouxe caos ao mundo imortal.

— Não. — Ela fechou os olhos engolindo as lágrimas. Não queria mais ver nada, não queria descobrir a verdade. — Já chega, eu não quero mais isso!

— Você não tem escolha. — A voz dela soou fria.

Ela assistiu a si mesma, repelida por todos, julgada. Mesmo quando se virou contra sua natureza para ajudar o lado deles, não recebeu qualquer sinal de bondade, mas apenas desprezo. Ela viu Shi, na pele do homem que acreditou ser seu irmão, Li Tian Ji, matar brutal e cruelmente cada um deles até recuperar a memória de quem era de verdade. De todos eles — e aos poucos sua memória ia retornando vagarosamente —, ela se lembrava de seus rostos, seus nomes, eles iam se alinhando com aqueles personagens do passado e, por vezes, se confundindo com eles ao ponto de ela não saber mais quem era o real e quem era o passado. De todos, Huang Tuo parecia ter sido o único que não a tratara com completo desprezo e lhe deu a oportunidade de algumas vezes merecer confiança e não ser tratada como uma inimiga.

Mas Ying Kong Shi... após ter mentido para ela daquela maneira, usado-a em prol de Ka Suo, mesmo quando ela achou que ele era seu irmão e tentou ser amiga dele, ainda recebeu sua frieza e desprezo. No fim de tudo, Li Luo estava certa em tudo que lhe disse naquela sala branca.

— O fim dessa enorme peça de teatro é o seu último sacrifício. — Mo Yao bateu palmas e Yan Da viu a si mesma de pé diante do fogo ancestral. — Você usou todos os meios que tinha para parar a guerra, não porque desejava salvar seu pai decadente que já tinha engolido todos os filhos em busca de poder, mas porque você queria deixar o mundo de Ying Kong Shi pacífico outra vez, queria que ele reencontrasse a paz.

“Porém, Huo Yi tinha outros planos e, como boa filha, apesar de tudo você ainda tentou salvá-lo. E no que isso te ajudou, princesa do fogo? Seu bom coração e amor pelo príncipe da neve só fez com que fosse dada como sacrifício em nome dele, pelas mãos do seu próprio pai. E sabe o que, no fim de tudo, o homem por quem você perdeu a vida disse para você em resposta a sua última pergunta?”

Ali estava ela. Tanto sangue... tocando o próprio ventre, Yan Da deixou as lágrimas caírem enquanto se assistia morrer nos braços do homem por quem desistiu de tudo até o fim.

“Yan Da... obrigado. Você é minha amiga mais linda. Minha melhor amiga.”

Amiga. Não fosse por aquela dor insuportável no seu coração que lentamente se tornava um torpor gélido, Yan Da teria rido daquilo. Então, depois de tudo era isso que ela significava para Ying Kong Shi, o máximo que sua vida valera aos olhos dele. Tudo pelo que ela sacrificara e os sentimentos que nunca escondera de verdade culminavam apenas naquilo. Amizade. Porque seu coração só cabia espaço para o amor de Ka Suo.

— Quem você é, princesa do fogo? — Mo Yao parou diante dela, bela e misteriosa. — Quem escolhe ser?

Então, assim como a si mesma quatro mil anos atrás, a serva de Xing Gui se desfez em milhões de mariposas escuras e deixou-a ali sozinha com a visão de seu passado se desfazendo em fogos de artifício. Ela não sabia o que sentir, o que pensar, como lidar com aquele sentimento pesado e amargo que puxava seu corpo para baixo. O mundo desabava lentamente à sua volta.

“Me prometa que, não importa o que aconteça, você vai continuar confiando em mim, confiando que é forte o suficiente para superar seja o que for. Me prometa que vai continuar vivendo não importa o que...”

“Eu prometo. Não vou a lugar nenhum, gege.”

“Mesmo que doa ao ponto de querer morrer, pense em mim também, hao bu hao? Se você quiser queimar o mundo eu serei seu lança-chamas. Se quiser matar alguém, eu serei a sua arma. Mas, por favor, por favor, não desista nunca.”

Enquanto perdia as forças e caía no chão gelado, a voz de Pian Feng ia se afastando da sua mente como se nunca tivesse sido real e Yan Da gritou com tudo que tinha. Gritou até sentir as cordas vocais arderem e perderem o poder de vibrar.

Gritou desejando que a dor desaparecesse, parasse de fazer sua cabeça explodir.

Gritou até se sentir entorpecida. Até estar exausta, até não ter mais energia para gritar.

Então restou apenas o som do choro, os soluços baixos perfurando o silêncio enquanto a neve caía em seu rosto e a escuridão voltava a engolir tudo que lhe rodeava, fazendo morada também no seu coração.

Não sabia se seria capaz de cumprir a promessa que fizera.

※※※

As lágrimas escorriam pelas têmporas de Yan Da, Pian Feng sentiu a mão dela ficando mais e mais quente ao ponto de não conseguir mais segurá-la. Tocando a fronte da princesa, Huang Tuo se afastou assustado e puxou o amigo bem no momento que uma onda forte de poder explodiu vinda do corpo de Yan Da e os arremessou contra as paredes do quarto.

Chao Ya acordou com o som e foi correndo até o quarto, uma aura dourada envolvia o corpo da princesa enquanto, machucados, curandeiro e guerreiro se levantavam.

※※※

Em seu quarto, Shi sentiu algo golpear seu coração com tanta força que ele cuspiu sangue sobre a cama, o ar sumindo dos seus pulmões vagarosamente enquanto ele lutava para respirar. Com a mão no peito apertando a camisa que vestia, lágrimas quentes escorreram pelo seu rosto enquanto, na sua mente, a visão do rosto de Yan Da se fazia forte.

Ele a havia perdido.

A princesa despertou.



Notas finais
[1] *Mo Yao [魔妖] — Os ideogramas que escolhi para esse nome formam a palavra ‘demônio’. Mo [魔] é ‘mágica’; ‘demoníaco’, por assim dizer, e Yao [妖] é demônio. [2] *Èmó de zhēnzhū [恶魔的珍珠] — Pérola do demônio