Love as Sakura | 爱如樱
49 第44章Ninguém em casa
Após várias semanas, Lan Shang surpreendeu Liao Jian quando desceu para jantar naquele dia. Ele não podia ignorar o abatimento no rosto dela, mas tendo em vista o estado da princesa sereia desde que fora capturada, sua aparência estava perceptivelmente melhor do que da última vez que a vira. Embora o advogado a mantivesse em cárcere privado — e sabia muito bem disso na sua condição de homem do direito — ele não a tratava mal e, apesar de tudo, a lei que valia para eles, especificamente, ainda era a de Ka Suo, Lan Shang também estava ciente.
De nenhuma maneira ela era destratada por ele, claro que o antigo guardião do norte não gostava dela particularmente, mas tampouco a via como uma inimiga. Aos seus olhos ela era apenas uma mulher cega pela obsessão que sentia pelo seu rei. Uma espécie de obsessão que ele desejou inúmeras vezes ver acesa nos olhos de Chao Ya. Era a primeira vez que a princesa sereia aparecia espontaneamente para ele desde que passaram a dividir o mesmo teto. Ele costumava deixar as refeições dela na porta do quarto e poucas vezes ela de fato se alimentava.
Alguma coisa devia ter mudado quando ele a convenceu a fazer Yan Da soltar a lágrima ancestral — que agora estava em posse de Ka Suo —, de certa forma, o advogado tinha pena dela. Ele não teceu comentários quando ela apareceu, vestia um conjunto de moletom verde-água com os cabelos presos em um rabo de cavalo, temia que falar alguma coisa acabaria por afastá-la e era melhor mantê-la do lado deles já que fora ela quem passara mais tempo ao lado de Lian Ji. Silenciosamente, ele colocou mais um prato à mesa e uma taça para vinho.
Quando relembrava o que dissera a ela no apartamento de Yan Da não podia evitar se perguntar se não havia sido duro demais nas suas palavras, mas era uma situação desesperada que pedia uma medida drástica. Tão logo a lágrima ancestral caiu no chão, ela o seguiu sem protestos de volta para casa. Era uma verdadeira pena que Lan Shang, na sua condição de herdeira do trono das sereias, tivesse sido criada como aquela criatura frágil e submissa que era, para ele, mulheres deveriam ser educadas como Yue Shen e Yan Da, prontas para serem fortes, autossuficientes e donas das suas vidas. Sempre fora contra aquele velho paradigma que tratava mulheres como serem quebráveis e nenhuma das suas irmãs foi criada dessa forma.
— Obrigada. — Sua voz quebrou o silêncio e fez o advogado parar a garrafa que segurava no ar. — Digo, pela bronca de antes. Foi a primeira vez que alguém disse o que eu precisava ouvir e não o que queria.
— Não por isso. — Ele anuiu servindo vinho na taça dela. — É, hmm, bom ter companhia para variar.
— Sei que não era sua intenção ficar responsável por mim no fim de tudo. — Um sorriso fraco iluminou o rosto dela.
Liao Jian posicionou a garrafa na mesa.
— Eu não concordo com as suas atitudes, Lan Shang, mas tento entender o seu lado. — Suspirou. — Ninguém deveria ser condenado por amar alguém com tudo que possui.
— O que você espera no fim de tudo isso se conseguir sobreviver, Liao Jian? — Dessa vez o olhar dela fixou nos olhos dele com certa determinação.
— Sua fé em nós é muito encorajadora. — Ironizou ele. — Liberdade.
— Você não gosta daqui, não é?
— Não é como se eu tentasse realmente esconder. — Deu de ombros e, pegando a garrafa novamente, serviu vinho para si mesmo. — Temos um acordo, vencemos e eu volto para casa.
Lan Shang ficou em silêncio por um tempo. Tomando seu assento, Liao Jian usou os pauzinhos para servir um pedaço de carne no prato dela que já estava servido de arroz. Os acompanhamentos estavam dispostos entre os dois, a sereia provou a comida e suas feições mudaram, parecia muito satisfeita e, dado o tempo que não comia direito, ele ficou feliz por ver a aprovação no seu rosto apesar de não estar acostumado a cozinhar para outras pessoas além de si mesmo.
— O que vai fazer com os homens no galpão?
— Só tem um lá por enquanto. — Informou. — Cuidamos do outro tem um tempo. Levo comida suficiente para que ele não morra.
— O outro está...
— Morto? — Riu. — Claro que não. Nós não julgamos mortais pela nossa lei. Ele está preso. Àquela altura acho que a cadeia dos homens está dando uma sensação de lar para ele.
Ela anuiu. Outro silêncio se seguiu quando ela finalmente falou novamente.
— Não estou em posição para isso, mas poderia me fazer um favor?
Liao Jian franziu o cenho.
— Do que precisa?
— Quando for para casa, me leve de volta com você.
Surpreso, o advogado agradeceu não ter comida na boca para não engasgar ou vinho para cuspir. Ele ergueu o olhar para Lan Shang e analisou-a por longo tempo em busca de truques ou fingimento, mas tudo que encontrou foi exaustão e, no fundo dos seus olhos, uma faísca de esperança.
— Como desejar.
Foi sua resposta final e os dois voltaram a comer no conforto do silêncio.
※※※
Xing Jiu sentia como se tivesse sido atropelado por um rolo compressor, ainda assim, mesmo sob todos os protestos de Ka Suo, ele insistiu em ir até o apartamento de Yan Da. Havia algo lhe incomodando e não conseguiria descansar até ver a princesa. Era preciso uma força muito grande para quebrar um de seus escudos, além de Xing Gui, Ying Kong Shi e da falecida avó dos príncipes, ninguém poderia alcançar tal façanha.
Yue Shen acompanhou o astrólogo, auxiliando-o já que não conseguia andar direito por ainda estar muito fraco devido ao choque. Na pressa de assistir Yan Da, Huang Tuo não se preocupara em curá-lo, algo de que Xing Jiu não se ressentiu já que a princesa do fogo era sua máxima prioridade agora. Ka Suo decidiu ficar em casa para observar o irmão que fechara-se no quarto sem qualquer tipo de explicação.
O astrólogo sabia que, com a quebra do escudo, era provável que Shi fosse afetado pelo processo de Yan Da, quanto mais forte ele se tornasse conforme avançava. Havia algumas coisas que Xing Jiu desejava ver com seus próprios olhos. Era certo que o colar dos sonhos impedia Lian Ji de acessar os sonhos dos príncipes, contudo, o processo de restauração das memórias funcionava em um plano diferente, mesmo com a proteção do colar, diante de qualquer dano que Yan Da tivesse sofrido com a quebra do escudo dos sonhos ela se tornava vulnerável a invasão espiritual.
— Devagar! — Ralhou Yue Shen apoiando o amigo quando ele pendeu. — Huang Tuo está com Yan Da agora, não é como se ele fosse deixar ela morrer ou coisa do tipo.
— Nunca duvidaria da capacidade do seu marido. — Ele sorriu respondendo entre resfolegares. — Mas há lugares que a cura dele não consegue alcançar sem um mapa.
— O que está querendo dizer?
— Prefiro não palpitar até ter certeza.
※※※
A mão de Huang Tuo continuava segurando o pulso de Yan Da enquanto seus dedos faziam a magia dourada penetrar nas veias dela. Concentrado, ele não prestava atenção em Pian Feng enquanto o guerreiro do vento segurava a mão da protegida com carinho e as lágrimas de apreensão enchiam seus olhos. Mas a tristeza dele era latente de tal forma que o médico conseguia sentir a energia pesada emanando do seu corpo.
— Em nome do cristal dos doze meridianos, consigo sentir sua tristeza daqui, homem. — Disse baixinho sem abrir os olhos ou tirar o foco do que estava fazendo. — Agindo assim até parece que ela está morta.
Pian Feng não disse nada por longo tempo. O silêncio pairado no ar como uma névoa densa até que, por fim, encontrou as palavras sem desviar o olhar de Ya Da.
— Nǐ zhīdào ma?*[1] — Um fraco sorriso surgiu no seu rosto. — Quando encontrei Yan Da pela primeira vez aqui ela mal conseguia articular uma sentença. Durante todo o momento em que cuidei dela, só conseguia chamar por Peng Yan. Naquele tempo eu não sabia pelo que ela havia passado quando veio para cá. Foi só no dia seguinte, já na faculdade, que eu a encontrei de novo, ela me agradeceu muito sem jeito por tê-la ajudado. Ao que parece Hu Bing havia lhe contado o que aconteceu.
“Foi bem difícil quebrar a resistência que ela tinha em deixar as pessoas se aproximarem. No começo ela parecia ter medo de mim, só mais tarde vim compreender que ela não tinha medo de mim, mas medo de ser abandonada de novo. Ela é alguém que não consegue mais perder ninguém e mal se deu conta quando perdeu a si mesma. É esse tipo de coração bom que ela tem. Sabe, Huang Tuo, quando vi Yan Da sorrir pela primeira vez foi como ver o sol após longos meses de céu nublado. Era como descobrir um tipo de magia que eu não sabia existir... por isso eu a apelidei de fadinha. Porque o sorriso dela é capaz de enfeitiçar a gente.”
Huang Tuo suspirou.
— Se Ying Kong Shi falasse coisas como essa já teríamos resolvido essa bagunça há tempos. — Ele soltou o pulso da princesa e franziu o cenho. — Mas deixe-me te fazer uma pergunta sincera, Pian Feng, se não tivesse recebido todas essas memórias de Xing Jiu, acha que seria capaz de amá-la como ama agora?
Por um momento, o guerreiro do vento ficou em silêncio como se pesasse a resposta daquela pergunta. Era difícil pensar em como veria Yan Da se não tivesse toda a carga de informação que tinha agora. Entretanto, o carinho que nutriu por ela foi gradual conforme conviviam juntos, ele sabia que era mais do que aquelas lembranças, era ela.
— Não amo Yan Da pelo que descobri dela. — Afirmou com convicção. — Essa Yan Da não é a Yan Da de quatro mil anos atrás, eu aprendi a amar essa Yan Da por quem ela é.
— Já parou para pensar que pode ser o mesmo com ela? — Devolveu. — Pian Feng, ela vai acordar confusa, muitos sentimentos conflitando no seu coração e mente, mas o passado não será capaz de subjugar o que você construiu com ela aqui no presente. Torno a dizer, confie nela e respeite seu tempo. Ficar com medo que ela te odeie não vai mudar os sentimentos dela. E, convenhamos, você está em melhor situação que Ying Kong Shi.
A conversa dos dois foi interrompida pela chegada de Xing Jiu “carregado” por Yue Shen. Vendo o astrólogo ainda muito pálido, Huang Tuo se precipitou para ajudá-lo a equilibrar sua energia apesar dos protestos do astrólogo que queria ver logo a princesa. Levou algum tempo e o médico avisou ao amigo que precisaria de um tratamento mais prolongado para reparar todos os danos de modo que ele não podia gastar muita energia.
Sem prestar muita atenção, dando vasão apenas a sua preocupação, Xing Jiu sentou ao lado de Yan Da e, tirando o cubo dos sonhos do bolso, colocou-o sobre a cabeça dela, o objeto flutuou envolto em uma luz branca enquanto o astrólogo, de olhos fechados, se concentrava tentando acessar os sonhos dela e vendo-se sem muito sucesso, ele podia sentir, mas não conseguia ver com clareza como o processo estava se desenrolando.
— Qíguài*[2]... — Murmurou. — Não consigo ver muito. Alguma coisa está obstruindo meu acesso.
— O colar dos sonhos? — Sugeriu Huang Tuo.
— Eu não seria impedido por algo que eu mesmo fiz. — Objetou. — E com a quebra do escudo ele não é de muita serventia, especialmente porque as memórias de Yan Da estão atreladas ao seu espírito e não apenas à sua mente.
— Não consegui sentir nenhuma outra presença mágica com ela. — O médico apoiou o queixo na mão, pensativo.
— Ela, com certeza, não está sozinha. — Asseverou Xing Jiu. — É uma presença fraca, mas consigo senti-la. Estranhamente me parece familiar...
— Por isso está tão quieta? — Quis saber Pian Feng. — Lembro que o príncipe sofreu muito durante o processo.
— Ela está quieta porque é mais resistente que ele. — Huang Tuo fez uma careta. — Às vezes acho que as mulheres nascem com propensão a suportar as dores do mundo. Não é atoa que a terra era considerada uma personagem feminina na mitologia. Homem nenhum suportaria esse tipo de dor. Mas acredite em mim, ela está sofrendo bem mais que ele.
Aquilo não ajudou Pian Feng a se sentir melhor.
— Vou voltar até Ying Kong Shi. — Anunciou o astrólogo.
Apressado ele deixou o quarto. Médico e guerreiro trocaram um olhar preocupado e voltaram a olhar Yan Da adormecida sobre a cama. Tocando a mão dela, Pian Feng notou que a temperatura continuava subindo, mas ela continuava imóvel, com exceção de algumas lágrimas que ocasionalmente escorriam pelo seu rosto.
— Ei!
Huang Tuo chamou o astrólogo, mas Xing Jiu já havia desaparecido apressado pelo corredor.
※※※
Ka Suo bateu a porta do quarto do irmão novamente após trinta minutos da última tentativa em que Shi afirmou querer ficar sozinho. Estava preocupado com o irmão, apesar do que estava acontecendo não era do feitio de Shi agir daquela forma, além disso, a quebra do escudo dos sonhos poderia ter efeitos sobre ele também, começava a se sentir inquieto com todas aquelas coisas dando errado ao mesmo tempo. Dessa vez, entretanto, não houve qualquer resposta vinda de dentro do quarto do irmão. Ele esperou mais um pouco e tentou entrar, mas a porta estava trancada, franzindo o cenho, o monarca estava prestes a buscar uma chave mestra quando Xing Jiu irrompeu no apartamento sem pedir licença e começou a esmurrar a porta do príncipe.
— Ying Kong Shi! — Chamou. — Abra agora mesmo!
Prevendo que havia algo errado ele afastou o amigo e investiu uma grande quantidade de poder na maçaneta congelando-a completamente, Xing Jiu usou o bastão das estrelas para quebrar o trinco e entrou no quarto onde um Shi sem fôlego se encolhia sobre a cama. Ambos, astrólogo e rei, se precipitaram até ele, o jovem príncipe estava vermelho como se todo o oxigênio do seu corpo tivesse sido cortado. Xing Jiu usou o cajado para ativar a mente dele e conseguir acessar Yan Da através dela.
— O que está acontecendo? — Ka Suo quis saber conforme o amigo se concentrava na sua tarefa.
Uma espécie de névoa surgiu no ar conforme as memórias da princesa avançavam, Ka Suo viu uma jovem ao lado de Yan Da conforme a descendente do fogo caminhava pelo seu passado, mas não conseguiam ouvir o que elas diziam, num rompante, como se tivessem sido detectados, a imagem desapareceu e o astrólogo foi empurrado para trás como se atingido por uma força invisível. Shi cuspiu sangue sobre os lençóis enquanto a mão apertava a camisa, lágrimas escorrendo pelo rosto bonito, e Ka Suo o via enfraquecer mais, tentou lhe passar energia, mas era inútil.
Xing Jiu se pôs de pé e atingiu Shi com algum tipo de feitiço fazendo o príncipe do gelo desmaiar. O próprio astrólogo não estava em melhores condições e sentou em uma poltrona, Ka Suo acomodou o irmão entre os travesseiros, limpou-lhe a boca com um lenço umedecido e tirou de cima dele o lençol ensanguentado.
— Chegamos tarde demais. — Anunciou o astrólogo com voz baixa.
— Pode me explicar o que aconteceu aqui? — Exasperou-se Ka Suo.
— Shi e Yan Da compartilham uma alma. — Explicou Xing Jiu. — Ela mesma abdicou de metade de si para salvá-lo quatro mil anos atrás. Quando fui ver a princesa, minutos atrás, algo estava me bloqueando, eu não conseguia enxergar o que ela estava vendo. Mas senti uma presença, ela não estava sozinha. Se eu conseguisse acessar Yan Da pela mente de Shi saberia com quem ela estava.
— Lian Ji?
— Não posso afirmar. — Meneou a cabeça, cansado. — A essência era de Mo Yao.
— Mo Yao? — Ele franziu o cenho. — Nunca ouvi esse nome antes.
— Nem poderia. Sua majestade não chegou a conhecê-la. — Suspirou. — Quando Xing Gui era criança meu pai destacou uma jovem para ser sua serva, essa jovem era Mo Yao, minha irmã a adorava, tanto que a tornou uma imortal para que pudesse acompanha-la pelo resto da vida. Quando matei Xing Gui naqueles dias tormentosos, não pensei no destino de Mo Yao... com a destruição de Ren Xue Cheng, ela desapareceu completamente das estrelas, então presumi que tivesse morrido.
— E como uma pessoa morta apareceu para Yan Da?
— É exatamente por isso que não posso afirmar que não seja Lian Ji, do mesmo modo que não posso afirmar que a criada esteja morta. Xing Gui era muito mais poderosa que eu e adorava a serva, pode tê-la ensinado a camuflar sua presença nas estrelas. Não é impossível apesar de exigir muito de astrólogos menos poderosos. — Explicou. — Em contrapartida, como o espírito da princesa estava fraco devido a quebra do escudo dos sonhos, não seria muito difícil para Lian Ji fazê-la enxergar o que quer. Especialmente pelo fato de ela ser uma sereia.
— O que acontece agora?
— Se você acredita em algo acima das nuvens, comece a rezar para que Shi alcance redenção. — Respondeu soturnamente o astrólogo. — Não sei o que Yan Da viu ou ouviu, mas nosso tempo está no fim.
Olhando na direção da cama onde o irmão estava adormecido, Ka Suo sentiu o coração apertar de modo doloroso no peito. Será que Shi finalmente conseguiria seu final feliz algum dia?
※※※
Chao Ya parou ao lado de Huang Tuo e Pian Feng para certificar-se que ambos não estavam com feridas sérias; o choque ainda fazendo seu corpo inteiro tremer. A luz que envolvia o corpo de Yan Da foi desaparecendo aos poucos, mas, ao contrário do que esperavam, a princesa do fogo não abriu os olhos. O guerreiro do vento se aproximou da cama e tocou a mão dela, a temperatura de Yan Da estava apenas um pouco acima do normal, mas ele atribuiu aquilo à sua natureza e não a febre.
— Está apenas dormindo. — Afirmou Huang Tuo após examiná-la. — Acho que foi demais pra ela.
— É normal? — Quis saber Pian Feng.
— A carga emocional nas memórias dela são muito grandes, Pian Feng, deixe-a descansar um pouco, deve acordar em breve e vocês precisam estar preparados para não sobrecarrega-la com perguntas ou insistir em contrariá-la. Deixem-na pensar um pouco, tomar as próprias decisões, tudo que podemos fazer agora é estar aqui quando ela precisar de nós.
As expressões nos rostos do casal não eram animadoras, os olhos de Chao Ya marejaram e Pian Feng estava nitidamente preocupado. A angústia deles, o médico sabia, não havia magia alguma que pudesse amenizar. Os três seguiram para a sala de estar, o curandeiro fez um chá para o casal abatido e o silêncio imperou entre eles, palavras não fariam qualquer diferença nem suavizariam aquele clima de tensão que se instaurara ali. Do lado de fora a manhã se pronunciava pela claridade tímida do céu, nenhum deles tinha pregado o olho a noite inteira e mesmo esgotados não conseguiam descansar.
Pegando o celular, ele enviou uma mensagem para Xing Jiu.
To: 明星男孩 [garoto estrela]
Como está o príncipe?
Enviada: 04:07 a.m
From: 明星男孩 [garoto estrela]
Vivo. As sequelas não são severas, ele vai ficar bem. Gongzhu ne?
Recebida 04:10 a.m
To: 明星男孩 [garoto estrela]
Dormindo... deve acordar a qualquer momento. Fique de olho no príncipe, passarei para vê-lo em algumas horas.
Enviada 04:12 a.m
Após tentar, infrutíferas vezes, fazer o casal de amigos dormir um pouco, Huang Tuo acabou desistindo. Sabia que, no lugar deles, também não conseguiria descansar. Por sorte, a imortalidade correndo em suas veias era, de algum modo, uma benção, apesar da falta do descanso cobrar seu preço mais tarde, não seria tão ruim quanto humanos em privação de sono. Tomando um bom gole do café forte que fizera para si mesmo, pois já tivera sua cota de chá no mundo imortal, ele acompanhou os outros na única tarefa que lhes restava.
Esperar.
※※※
“Ying Kong Shi mentiu para você. Todos eles mentiram. Assim como fizeram comigo. Você não passa de uma ferramenta para dar a eles uma redenção que não merecem. Acha que Ying Kong Shi realmente ama você? Ele está te usando, como usou quatro mil anos atrás, ele só se importa com Ka Suo.”
Vozes. Elas iam ficando mais baixas, ecoando no fundo da sua mente conforme Yan Da flutuava no vazio.
“Lembre dessa promessa, gongzhu. Não me torne um monstro por você.”
Quase não conseguia reconhecê-las apesar de lembrar já tê-las ouvido em algum lugar.
“Você alguma vez já parou para se perguntar, Yan Da, por que não confia nas pessoas? Será que é realmente só por causa do seu pai machista e do seu irmão sádico? Eles são apenas parte da razão, tiraram sua confiança em si mesma e a fizeram acreditar que não merecia o amor de ninguém, afinal, o trono é um local solitário e perigoso. Mas quem plantou e germinou o medo no seu coração foi o mesmo homem que você vê lutando por você no meio dessa arena.”
“Shéi?” [Quem?]*[3] Sua própria voz soava sobre os ecos. No fundo, ela conseguia distinguir outras vozes, mas não era capaz de entender o que falavam já que elas se mesclavam com aquelas na sua mente em um pandemônio de palavras que agitava seus sentidos.
“Seu pai tirou sua autonomia de você. Shuo Gang te tirou Peng Yan. Mas foi Ying Kong Shi, a quem você nomeou Yun Fei, que incutiu o medo no seu coração. Ele tirou de você a capacidade de confiar nos outros, fez você acreditar que tudo que recebe em troca do amor que demonstra é dor e desprezo. Mentira. De todos, ele foi o mais cruel porque tirou sua capacidade de amar livremente. Converteu seu caloroso e ardente coração em gelo.”
“Tíng!” [Pare!]*[4] Elas eram como facas que percorriam todo seu corpo dilacerando-o. Yan Da queria abrir os olhos, mas não conseguia. Presa naquele vazio conforme as últimas imagens se afastavam e apenas as vozes continuavam ecoando cada vez mais alto como sussurros fantasmagóricos nos seus ouvidos.
“Me prometa que, não importa o que aconteça, você vai continuar confiando em mim, confiando que é forte o suficiente para superar seja o que for. Me prometa que vai continuar vivendo não importa o que...”
Quanto tempo se passara? Onde ela estava? Parecia que algo estava faltando em algum lugar no seu coração, mas ela não conseguia identificar o que era. A incômoda sensação de saudade. De perda. O desespero.
“Se você quiser queimar o mundo eu serei seu lança-chamas. Se quiser matar alguém, eu serei a sua arma. Mas, por favor, por favor, não desista nunca.”
Então as sensações vieram com mais nitidez. O frio do ar-condicionado, o edredom sobre sua pele, o colchão sob seu corpo, o cheiro de líchia no ar. Ela se tornou consciente do seu corpo aos poucos como se voltasse de um longo tempo em coma e ele parecia pesar mais do que ela suportava erguer. Começou fechando as mãos em punho, mas apenas isso já pareceu exigir muito de sua força.
Abriu os olhos.
O teto branco entrou em foco devagar, a claridade do começo da manhã irritou sua íris e o silêncio era rompido apenas pelo som discreto do ar-condicionado. Um umidificador de ar soprava na mesa de cabeceira e ela não se lembrava de quando o havia comprado ou o colocara ali. Seus olhos encheram de água conforme a realidade se alinhava com aquilo que ela ansiava ter sido apenas um longo pesadelo, mas sabia, em cada pequena célula do seu corpo, que não era.
Estava muito bem acordada. Estivera acordada durante todo o tempo e a inocência fora arrancada dos seus olhos. Yan Da lutou para não permitir que as lágrimas a sufocasse, por que estava chorando? Por quem? Algum deles merecia suas lágrimas? Com esforço, após algum tempo de tentativas, conseguiu cambalear até o banheiro do seu quarto, estava usando um pijama de seda vermelho — que apropriado! — que não lembrava de ter vestido. As imagens ainda bagunçadas e sem sentido na sua mente.
Livrou-se da roupa e entrou sob o chuveiro, a água quente na sua pele lhe deu uma sensação boa, como se a acordasse ainda mais, fechando os olhos, Yan Da se deixou sentir aquele conforto momentâneo. No seu passeio pelo passado lembrou-se do dia em que, nua em uma tina de água fervente, ela tentou chamar a atenção de Ying Kong Shi e foi rejeitada. Seu orgulho não lhe permitira demonstrar a ele o quanto aquilo feria, mas ela levava aquela pequena cicatriz no seu coração — e era surpreendente que, lembrando aquele episódio, não houvesse nenhuma espécie de choque pela sua atitude.
Conforme as forças voltavam para seus músculos e ela se sentia mais confiante consigo mesma, terminou de tomar banho costumeiramente, envolvendo-se com seus aromas preferidos, tentando ignorar a dor que lhe devorava por dentro e fazia as chamas arderem nas suas veias. Não choraria mais. Não por eles. O que precisava agora era tempo. Para ordenar a bagunça que ela era, seus pensamentos, os sentimentos, todos os acontecimentos do passado e presente que mesclavam-se numa coisa só e ela já não conseguia mais distinguir o que era de uma vida e da outra. Sobretudo, não conseguia descobrir quem ela era naquele momento.
Secou o cabelo, colocou um vestido preto e sobre ele uma gabardina vermelha, calçou tênis e ignorou bolsa, celular, qualquer coisa além da chave de casa que colocou no bolso da gabardina.
O silêncio ainda reinava quando finalmente saiu do quarto e seguiu pelo curto corredor que levava até a sala. Três figuras se levantaram imediatamente ao vê-la, mas Yan Da não conseguiu encará-las, não estava pronta ainda, seguiu diretamente para porta como se eles não estivessem ali.
— Yan Da! — Uma voz a chamou e ela parou quando o som chegou até seus ouvidos.
“Se você quiser queimar o mundo eu serei seu lança-chamas. Se quiser matar alguém, eu serei a sua arma. Mas, por favor, por favor, não desista nunca.”
A mão de Yan Da, fechada no trinco, congelou por um átimo de segundo e ela mordeu o lábio com força quando as lágrimas queimaram em seus olhos. Abriu a porta e saiu ignorando o novo grito que chamava seu nome implorando que esperasse. Ela não queria esperar, não queria ouvir o que ele tinha a dizer. Não antes de se entender consigo mesma. Correu até o elevador como se temesse que ele viesse atrás dela, mas acabou optando descer pelas escadas, aquilo lhe daria tempo para se acalmar visto que seu coração batia forte dentro do peito.
Quando ganhou a rua a claridade fez seus olhos doerem mais, era início da manhã e o ar gelado soprava pelas ruas que se enchiam aos poucos de movimento. Ela começou a caminhar a esmo, apenas para se afastar de tudo aquilo, mas sabia que era impossível fugir. O verdadeiro caos estava dentro de si. Yan Da tentou pensar para onde iria, era desesperador sentir que não havia qualquer lugar para chamar de lar. Não havia ninguém esperando do outro lado da linha, ninguém em quem pudesse confiar realmente além de uma pessoa morta que não podia mais lhe responder. Era verdade, eles haviam tirado tudo dela, não apenas a verdade sobre si mesma.
Mas de fato talvez aquilo não fosse uma novidade. Quando se lembrava da sua vida Yan Da não conseguia pensar em já ter tido um lar de verdade. Ela parecia fadada a cometer os mesmos erros em um círculo vicioso, voltando sempre para o mesmo ponto. Não pertencia de verdade a nenhum lugar, apenas tentava sobreviver aos dias buscando entender o que fizera de errado para ser atingida com aquela punição. Escondendo seus sentimentos, engolindo a dor, o medo, o vazio. Ela percebeu, desesperada, que não lhe restavam mais sonhos. Nada. Não passava de uma casca vazia caída em desgraça, sozinha no mundo. Naquele do qual havia sido arrancada e no outro no qual a puseram.
Vagando pelas ruas sem ter para onde ir, aos poucos Yan Da se sentia sendo engolida pela cidade cinzenta que lhe cercava, drenando sua fé — que ela sequer lembrava-se de ter —, perdendo-se em sua mente, atordoada pela sensação de abandono quando, na verdade, nunca houve ninguém de fato lá para deixá-la. Irritada, ela passou os dedos pelo rosto, prometeu que não choraria mais, então por que as lágrimas insistiam em contrariá-la? Será que nem mesmo elas eram capazes de respeitar sua decisão?
Não prestou atenção para onde estava indo, apenas continuou seguindo, esporadicamente entrando em uma rua ou outra para quebrar a monotonia da linha reta. No fim de tudo não importava que caminho pegasse ou onde chegasse, ela também não pertenceria àquele lugar. Em alguns momentos fechava os olhos e desejava estar sonhando, acordar na sua cama e ver que tudo era como antes; quando não havia aquela dor oprimindo seu peito, todos aqueles sentimentos caóticos lutando dentro de si; sem aquela sensação de julgamento na sua alma.
Mas, diabolicamente, ela estava mais acordada que nunca. E agora que a venda caíra de seus olhos Yan Da não sabia o que fazer. Não tinha ideia de como encarar aquelas pessoas, dar voz às perguntas entaladas na sua garganta. Era um plano ardiloso aquele, se ela soubesse antes o que sabia agora não teria se permitido cair na armadilha de Ying Kong Shi, de todos eles. Não se deixaria enganar por aquela ilusão doce. E não estaria vagando na rua como se pudesse encontrar a si mesma em alguma esquina. Queria acordar. Queria dormir. Fugir.
O movimento nas ruas aumentava conforme o relógio avançava e ela não tinha mais noção do quanto andara. Podia sentir o fogo nas suas veias, mas era gelo que cobria o seu coração. Yan Da estava com medo de se tornar insensível.
“Quem é você, princesa do fogo?” A voz de Mo Yao soou como um murmuro fantasmagórico na sua mente. “Quem você escolhe ser?”
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