Love as Sakura | 爱如樱
25 第23章 Vagalumes [II]
Huang Tuo apareceu no apartamento de Yan Da pontualmente às sete. Ela não conteve a alegria ao rever o médico com seu sorriso carismático aparentemente ainda mais iluminado que antes. Ele examinou sua paciente com minúcia fazendo perguntas sobre os últimos dias desde a alta dela, Yan Da respondeu tudo com honestidade e, no final, ele autorizou a viagem desde que ela não fizesse esforços nem sofresse pressões demasiadas.
— Então, onde está seu parceiro de roadtrip? — Quis saber. — Tenho algumas recomendações médicas para fazer.
— Oh, combinamos de nos encontrar às nove. — Ela sorriu.
— Ele vai ser capaz de esperar tudo isso? — Brincou o médico.
— Como assim?
— Esqueça, só pensei alto. — Ele riu. — A propósito, gostaria de lhe agradecer por dar uma chance ao Shi. Ele sempre foi muito fechado, nunca teve muitos amigos, não fosse por mim, seu único amigo seria o irmão. Você ampliou os horizontes dele, te agradeço.
— É uma experiência um tanto nova para mim também... — Confidenciou. — Muitas vezes me pergunto se não estou cometendo uma estupidez.
— Ying Kong Shi é uma pessoa cheia de imperfeições, Yan Da, como qualquer outro, mas se há algo nele digno de nota é a sua lealdade. Uma vez com ela em mãos, esteja certa de que ele jamais irá traí-la.
Yan Da olhou fixamente para Huang Tuo, havia algo de extraordinário naquele médico. Ele era brincalhão e muito carismático, sempre difícil de se ignorar e impossível de não gostar, mas também havia serenidade nele, uma serenidade que compelia qualquer um a acreditar nele, mesmo se dissesse a mais óbvia das mentiras. E quando ficava sério, era preciso e competente em tudo. Não havia um meio de não confiar em Huang Tuo e Yan Da gostava disso. Os céus bem sabiam o quanto era difícil para ela confiar nas pessoas. Naquele instante, a expressão dele era terna, pacífica, seu sorriso era doce.
Shi apareceu bem nesse momento de contemplação e foi por bem pouco que não avançou no pescoço do médico bem ali na frente de Yan Da. Huang Tuo lhe recebeu com um sorriso provocador que não passou despercebido por Yan Da, as mudanças nele eram sempre sutis e muito naturais.
— Aya, bebendo vinagre tão cedo, xiao Ying? Aliás, cedo no sentido real, ouvi que só iriam partir às nove. — Alfinetou. — Não me olhe com essa cara, sabe que eu sou comprometido.
— Você está prestes a encarar a face de buda, Huang Tuo. — Retrucou entredentes. — Não ache que esqueci sua última gracinha.
— Aquilo foi uma advertência médica. — O médico fez cara de ofendido e Yan Da desatou em uma risada que fez Huang Tuo sorrir. — Sua risada figura entre as minhas canções favoritas, Meng xiaojie.
— Huang Tuo! — A voz de Shi era baixa, mas gélida como um iceberg, seu tom uma advertência.
— Ora, pare com essa cara de quem acabou de pegar uma ameixa vermelha sobre o muro!* — O sorriso de Huang Tuo continuava sublime e provocante. — Já bem disseram que o coração do homem é como uma agulha no fundo do oceano*. Não ligue pra ele, Meng xiaojie.
Yan Da ria com tanto gosto que as lágrimas transbordavam pelos seus olhos. Era raro se sentir à vontade daquela maneira, mas as provocações de Huang Tuo — ainda que de natureza um tanto quanto constrangedora para ela e Shi — eram feitas com tal elegância que ela não tinha como não rir. O médico lhe serviu um copo com água e levou Shi para o corredor a fim de lhe passar algumas orientações.
Em parte, ele realmente tinha algumas ressalvas a fazer para Shi, como evitar que Yan Da fizesse movimentos bruscos, o que fazer caso ela sentisse alguma dor ou, sem querer, fizesse um movimento errado. Prescreveu dosagens de remédios e como acalmá-la caso precisasse ministrar uma injeção nela. Ele prestou atenção dobrada em cada detalhe, mas, como era típico de Huang Tuo, ele nunca perderia a oportunidade de provoca-lo se a chance surgisse.
— Entendeu tudo que falei?
— Cada palavra.
— Ótimo, então vou confiar que o máximo acontecimento será um beijinho inocente até que ela esteja apta para atividades mais exaustivas. — Anuiu com um sorrisinho malicioso.
— Você é um pervertido! — Shi socou o braço dele. — Será que não consegue pensar em outra coisa?
— Você consegue? — Brincou.
— Alguma hora dessas eu vou acabar arrancando a sua cabeça.
— Quero muito ver você tentar. — Huang Tuo deu uma risadinha. — Mas falando sério, não esqueça de nada especialmente a parte das agulhas. E me ligue imediatamente se houver algo mais sério. E por sério eu não estou falando de febre.
— Quando eu descobrir quem é a sua namorada, você está morto. — Shi lhe ofertou um sorriso diabólico.
Em resposta, Huang Tuo apenas bagunçou o cabelo dele com um sorriso fraternal no rosto e nos olhos. Despediu-se de Yan Da com redobrado carinho — em parte genuíno e em parte por se deliciar ao ver Shi beber vinagre — deixando-os sozinhos.
Pian Feng era completamente contra a ideia daquela viagem com os dois sozinhos e, não fosse uma conferência de impressa na qual Chao Ya tinha de ir, era certo que se meteria no carro com os dois para vigiar Ying Kong Shi de perto — ele não sabia que Yue Shen seguiria o casal de longe. Ainda assim, preparou as refeições dos dois julgando que, pela extensão da viagem, os dois não voltariam para casa antes do jantar. Shi levou tudo para o carro, inclusive a bolsa de Yan Da, lembrando das orientações de Huang Tuo de que ela não devia levar qualquer peso.
Como o percurso seria muito longo, ele dobrou o estoque de água na caixa térmica, deixou alguma comida fácil para que ela comesse se sentisse fome e fez o melhor que pôde com almofadas para garantir a comodidade dela no trajeto. Por precaução, preparou o banco de trás com alguns lençois e almofadas para ela dormir caso ficasse cansada, visto que mesmo inclinado o banco do passageiro não era confortável o bastante — segundo os padrões dele, claro. Yan Da insistiu em sentar ao lado dele para que pudesse continuar sua narrativa, isso adiantaria as coisas até chegarem ao destino e manteria Shi acordado já que ele dormira mal pela ansiedade e não poderia revesar a direção com ela.
— Deixe-me ver... — Começou ela pensando em que ponto havia parado. — Acho que podemos ir um pouco adiante no tempo. Depois do ocorrido entre Shuo Gang e Peng Peng, as coisas seguiram um rumo tranquilo, eu estava mesmo preocupada que meu irmão pudesse tramar alguma coisa contra o meu melhor amigo, mas ele se mostrou estranhamente distante. Claro, meus temores não eram sem fundamento, Shuo Gang é o tipo que come o prato da vingança gelado, não frio.
※
Quando Yan Da completou dezesseis anos, Hu Bing deu a ela seu primeiro carro como presente de aniversário. O próprio irmão a ensinou a dirigir de modo que não demorou muito para ela conseguir a licença. Isso era mais um passo de independência, Ziwen agora podia cuidar apenas do pai dela e Peng Yan teria alguém para levá-lo para escola. O que ela realmente mal podia esperar era para sair logo da escola e ir para faculdade, essa sim seria a verdadeira porta da felicidade.
Ela costumava acordar mais cedo para sair de casa antes de todo mundo acordar. Passou na casa de Peng Peng que a avistou da janela e desceu para encontrá-la. Tão logo a viu, ele já sabia que havia algo errado.
— Não dormiu de novo?
— Você é mais assustador que Hu Bing, eu já disse? — Ela deu a partida. — Como percebe essas coisas? Eu gastei meu corretivo quase inteiro.
— Te observo há muito tempo, não tente esconder coisas de mim. Maquiagem nenhuma esconde o cansaço na sua expressão, o que está te preocupando?
— Não é...
— Yan Da — interrompeu ele —, vamos pular a parte que você nega para que eu não me preocupe com você, hum? Já estou precoupado e sei que tem algo errado, então pode passar logo para a parte que você conta qual é o problema.
Ela suspirou, Peng Peng devia estudar direito, ele levava jeito pra coisa.
— Okay, é Shuo Gang.
— Ele fez alguma coisa com você?
— Não, e é exatamente esse o problema. Ele está quieto demais.
— Isso não é uma coisa boa?
— Está claro que você não conhece o meu irmão. Shuo Gang nunca deixa nada de lado.
— Você está pensando demais. E de todo modo, enquanto Hu Bing xiong estiver aqui ele não vai fazer nada contra você.
— Peng Peng, não é comigo que estou preocupada. — A voz dela tremulou. — Shuo Gang tem acesso a qualquer coisa, e digo isso literalmente, ele pode conseguir e fazer o que quiser porque meu pai acoberta tudo. Entende isso? Ele não tem qualquer limite.
— Xiao Yan, você vai acabar adoecendo se continuar desse jeito. — Peng Yan colocou a mão no ombro dela em um aperto suave. — Ouça, lembra do que eu disse a você quando nos conhecemos? Vou ser seu amigo queira você ou não, independente dos riscos.
— Se algo acontecer com você...
— Será o meu destino e não a escolha de ninguém.
Yan Da estava frustrada. Por que ele não conseguia entender? Ela queria ter forças para ser baixa ao ponto de riscar Shuo Gang da lista de habitantes do planeta, mas mesmo o odiando, ele ainda era seu irmão. Ela não era capaz de matá-lo, ainda que o contrário não pudesse ser garantido.
E não era.
A velocidade do carro aumentou, a espinha de Yan Da gelou quando ela pisou no freio e não obteve resposta. Estavam prestes a entrar em uma avenida onde o sinal estava amarelo. Era um cruzamento.
— Por que está indo tão depressa?
— Não sou eu! — Retrucou ela, tentando não perder o controle de si mesma. — O carro não está respondendo, não consigo frear.
— O quê?!
A velocidade aumentou para 170 por hora.
— Peng Peng, eu não consigo parar! — A voz de Yan Da era puro desespero, ela apertava o volante com força enquanto insistia inutilmente no pedal do freio.
Peng Yan olhou pelo vidro traseiro, um carro os seguia de perto, os vidros escuros impediam que ele visse o motorista e quem mais estivesse lá dentro. Tentou pensar com racionalidade e depressa. Desafivelando o cinto ele passou para o banco de trás e inclinou-se sobre Yan Da para segurar o volante, ordenando que ela fosse para o banco do carona. Ela apertou o cinto e segurou com força, todo seu corpo tremendo enquanto a velocidade aumentava para 190. Eles iam passando por carros que buzinavam, alguns chocavam levemente contra a traseira do veículo e arrancavam gritos de Yan Da enquanto Peng Yan lutava para não perder o controle do carro.
— Não quero parecer inconveniente, mas pense nisso como fast and furious. — Ele fez uma manobra perigosa passando por entre dois carros na pista.
— Isso não é engraçado! — Yan Da lutava contra as lágrimas.
Virando o carro, ele tentou despistar o veículo de trás, mas acabou causando um acidente, e ambos continuavam sendo seguidos de perto. Ele não entendia muito de automotores, mas começou a pensar se não seria possível que o carro de Yan Da estivesse sendo controlado pelo carro de trás, era a única explicação para continuarem seguindo-os tão de perto apesar da altíssima velocidade.
— Ou é o Vin Diesel nesse carro de trás querendo apostar corrida ou tem alguém controlando seu veículo. — Ele ligou o GPS. — Há uma curva fechada daqui a alguns quilômetros, ligue pro seu irmão, depressa.
Com as mãos trêmulas ela pegou o celular na bolsa e discou a chamada de emergência que er ao número de Hu Bing. Ele atendeu no quinto toque.
— Xiao wu, aconteceu alguma coisa?
Ela tentou explicar o melhor que pôde a situação e Hu Bing pediu para falar com Peng Yan. Yan Da colocou o fone de chamada na orelha do amigo enquanto um carro se chocava com a traseira deles e saía da estrada, ela não sabia o que o irmão estava dizendo a Peng Yan, mas este aumentou a velocidade do carro fazendo com que ela se sentisse enjoada, ele passava por entre os carros em manobras perigosas enquanto Yan Da inquiria a si mesma onde ele havia aprendido aquelas coisas. A chamada continuava e Peng Yan apenas pronunciava sim e entendi.
O carro entrou em uma via de mão dupla e Peng Peng foi para contra mão aumentando o desespero de Yan Da enquanto os carros vinham sobre eles, alguns capotavam no meio da pista, outros batiam na dianteira fazendo o veículo deles girar e atingir outros carros, os músculos dos braços de Peng Yan estavam retesados enquanto ele mantinha o controle do carro com tudo que podia, quando eles conseguiram certa distância do carro de trás, ele pôde abrir as janelas, a curva se aproximava.
— Yan Da, isso é importante, você confia em mim?
— Que tipo de pergunta é essa agora?!
O carro deu um giro e bateu em dois outros tirando-os da pista, Yan Da mordeu o lábio com tanta força que sentiu o sangue encher sua boca.
— Você vai pular. — Disse Peng Peng. — Mais na frente, um pouco antes da curva, tem uma área arborizada, coloque a bolsa na cabeça para aliviar o impacto e pule.
— Nà nǐ ne?* Vai parar quando o carro bater em alguma coisa?
— Yan Da! — Exasperou-se.
— De jeito nenhum! — Protestou ela apesar do medo paralisante que sentia. — Ou pulamos juntos, ou batemos juntos.
— Nǐ fēngle ma?!* — Peng Yan sentiu seu coração pular uma batida quando ouviu aquelas palavras. Pisou mais fundo no acelerador para aumentar a distância do outro carro. — Isso não é brincadeira, Yan Da, você tem que sair desse carro.
— Tudo isso é minha culpa, não vou deixar você sozinho! — As lágrimas que ela vinha segurando caíram sem que evitasse.
Peng Yan não teve tempo de responder, ele prendeu o volante com força quando chegaram à curva fechada, o veículo cantou pneu enquanto virava batendo contra a proteção e tirando outro carro da estrada. As mãos de Yan Da já estavam machucadas de segurar o apoiador tão firmemente. Mais à frente havia uma obra de reparos na estrada, vários trabalhadores e equipamentos estavam espalhados, Peng Yan insistiu nos freios, mas mesmo à distância do outro carro não funcionavam, o veículo entrou com tudo na obra e por sorte os operários tiveram presença de espírito e agilidade para sair da frente.
Yan Da não conseguiu reprimir o grito quando eles saíram atropelando vários equipamentos, tirando veículos pequenos do trajeto até capotarem após bater contra uma pequena amurada, uma dor lancinante engoliu os sentidos dela, sua visão estava nublada e ela não conseguia se mexer. Pensou ter ouvido a voz de Peng Yan chamando seu nome, os sons eram distantes, havia algo quente em todo seu rosto.
— Xiao Yan! Xiao Yan, pode me ouvir?
Ela forçou os olhos a abrir, ao seu lado, Peng Peng estava coberto de sangue, quase sem forças, mas ainda puxava a porta do passageiro com toda a energia que lhe restava tentando tirá-la de lá. O cheiro forte de fumaça a fez tossir, mas até esse pequeno gesto era muito doloroso. Peng Yan parecia desesperado, ele fez um esforço para soltar o cinto e puxá-la para fora do veículo pela janela. Seus passos vacilavam quando por fim a colocou nos braços e se afastou do carro.
O som da explosão fez um zumbido agudo ecoar nos ouvidos dela, Peng Yan se abaixou protegendo a cabeça dela no seu peito, havia tanto sangue, o rosto dele estava todo vermelho, os braços, a camisa da escola, o vento soprou quente contra eles então tudo desapareceu.
※
Ying Kong Shi parou o carro no meio fio. Alguns metros atrás, Yue Shen também estacionou, ele imaginou que ela estaria preocupada e não queria piorar a situação de Yan Da tendo uma guarda-costas batendo na sua janela, inclusive, precisava desviar a atenção dela do fato de estarem sendo seguidos. Ele ligou os faróis traseiros como um aviso, esperando que ela entendesse que estava tudo bem. Suspirou aliviado quando ela, que havia saído do veículo, retornou.
Ao seu lado, Yan Da estava petrificada, as mãos sobre as pernas tremiam, seu rosto estava pálido como um fantasma e ela respirava com dificuldade. Por um momento, era como se ela não estivesse naquela realidade, mas revivendo os momentos tenebrosos que passara. Se perguntou se tinha sido aquele acidente que matara Peng Yan. Nenhuma das recomendações infindáveis de Huang Tuo falava sobre crises de estresse pós- traumático. Soltando o cinto, ele hesitou por um tempo antes de finalmente se inclinar e puxá-la para um abraço.
— Shh... está tudo bem, Yan Da, você está segura. — Disse baixinho enquanto acariciava a cabeça dela. — Vamos respirar devagar, tudo bem? Juntos.
Shi começou a contar enquanto estimulava Yan Da a respirar regularmente, aos poucos ela pareceu ser guiada pela sua voz de volta para o presente, olhou em volta para o carro, lágrimas enchendo seus olhos, ele segurou as mãos dela que ainda tremulavam e surpreendeu-se com quão gelada estavam, pegando uma garrafa com água ele ofereceu a ela junto com algo doce e lenços.
— Sinto muito. — Desculpou-se quando conseguiu recobrar a calma por completo.
— Não se desculpe por ser humana. — Ele desligou o ar condicionado e abriu um pouco as janelas para entrar ar fresco. — Nada do que aconteceu foi sua culpa, Yan Da, não consigo pensar em uma só pessoa que tomasse a sua atitude ao invés de salvar a própria pele. Você é a pessoa mais corajosa que já conheci.
Ela sorriu. Era um sorriso triste, mas ainda assim estava lá e era tudo que Shi precisava. Eles ficaram parados por um tempo no meio fio, havia muitas perguntas na sua mente, mas parecia errado pronunciá-las em voz alta, sobretudo se aquele fora realmente o fim de Peng Yan.
— Você quer sair um pouco? — Perguntou vendo-a ainda muito lívida.
— Estou bem. Podemos continuar...
— Tem certeza?
— Sim. Não se preocupe.
Isso está totalmente fora de questão. Pensou Shi enquanto prendia o cinto de segurança mais uma vez e dava partida ganhando novamente a estrada. Por uma pequena parcela do trajeto, Yan Da ficou silenciosa, até que retomou sua narrativa.
※※※
15 mil anos atrás
Mesmo com o emplastro de ervas, a perna de Yan Da estava demorando a cicatrizar e isso lenteava seus movimentos o que a levava a amaldiçoar Shuo Gang pelo menos dez vezes por minuto. Soltando uma lufada de ar, ela jogou outra adaga dentro da bolsa e prendeu o chicote no vestido. Estava irritada e suas criadas tinham medo de sequer fazer qualquer pergunta a ela.
Peng Peng, claro, era a única exceção.
— Gōngzhǔ, ficar assim não vai ajudar sua perna a se curar mais depressa. — Disse ele enquanto tirava a adaga que ela acabara de jogar na bolsa. — Ainda que não goste disso, ser paciente é o melhor remédio.
— Como vou poder cumprir a missão com a perna desse jeito?
— Gōngzhǔ me tem, com o que está preocupada? Se não pode usar suas armas, então eu serei sua arma.
Yan Da ficou pasmada — algo muito difícil dada sua natureza! — com as palavras de Peng Yan. Involuntariamente, seu rosto começou a queimar e ela se virou para evitar que ele pudesse vê-la naquele estado. Terminando de arrumar as coisas que precisariam, Peng Yan deu um sorriso satisfeito ao ver que o humor da princesa melhorara um pouco. A missão de Yan Da era se infiltrar na tribo xamânica para roubar a poção dos espíritos.
Os dois deveriam partir imediatamente, Huo Yi não tolerava atrasos ou falhas. Peng Yan preparou um cavalo para Yan Da, visto que ela não conseguiria fazer o trajeto caminhando para não forçar a perna. Por insistência dela, pois ele ia a pé, ela mandou selarem um cavalo para ele também. Pelo teor da missão, iriam apenas os dois, sem guardas. Ela preferia assim, com Peng Yan podia ser ela mesma sem máscaras, sem precisar parecer invencível ou provar alguma coisa.
Quando passaram pelos portões da tribo do fogo, ela ainda viu Shuo Gang olhando para ela com um sorriso cruel. Yan Da sempre se perguntava como era possível não odiá-lo, um dia ela ainda seria capaz de matá-lo. Peng Yan, contudo, ignorou completamente o irmão dela e os dois seguiram na direção de Hóngmù sēnlín* que ficava a cento e vinte quilômetros a oeste da tribo xamã.
— Fiz uma abordagem prévia da situação atual da tribo xamânica. — Relatou Peng Yan. — É atualmente liderada por Huang Mao, o filho dele, Huang Tuo, está prometido a uma jovem nobre chamada Yue Zhao. Huang Tuo é mais talentoso que o pai tanto na arte da cura quanto na criação de escudos protetivos. Precisamos ficar longe dele, sua percepção é muito aguçada e a capacidade de distinguir auras é impressionante. Ao contrário do seu pai, se conseguir se manter longe das vistas do herdeiro, não terá dificuldades em lidar com Huang Mao.
— Soube que a porção dos espíritos é guardada no salão secreto de cura. Se Huang Tuo for o responsável pelo lugar, vai ser difícil entrar lá. — Pensou ela.
— Antes de mais nada vamos fazer um reconhecimento do local. Já providenciei ajuda interna.
— O quê, seduziu alguma criada?
Peng Yan sorriu para ela de modo provocador.
— Gōngzhǔ soa como se minha árvore de damasco estivesse se inclinando sobre a parede.*
— Húshuō!* — Yan Da fingiu estar ofendida com a colocação, mas a verdade era que estava sim enciumada. — Por que eu me importaria com isso?
Em resposta, ele apenas deu uma risada baixa. Yan Da era sempre sincera e ficava muito óbvio quando não era, ele gostava muito daquilo nela. Pararam para descansar e comer alguma coisa, estavam perto do destino, a floresta já podia ser avistada ao longe. O som de cavalos chamou a atenção de Peng Yan, a clareira onde estavam era aberta, larga e ladeada por árvores desse modo, quem quer que se aproximasse, seria visto imediatamente. Ao avistar um grupo de cavaleiros trajando preto com rostos cobertos, Peng Yan entrou em alerta, Yan Da se pôs de pé com dificuldade e, deixando os cavalos onde estavam, eles correram floresta adentro.
Com a perna ferida como estava, os movimentos dela eram limitados e mesmo tentando com todas as forças ignorar a dor, ele era capaz de perceber o quanto custava para ela. Precisava pensar depressa. Olhando para os lados, Peng Yan encontrou um lugar seguro para esconder Yan Da, eles já haviam entrado muito na floresta com uma boa vantagem de seus possíveis perseguidores.
— Quem são eles, você viu? — Ela perguntou, a respiração irregular.
— Podem ser apenas bandidos, não é incomum em regiões ermas como essa.
— Não me espantaria se fossem homens comprados por Shuo Gang. — Tossiu a perna latejava pelo esforço de correr. — O que faremos, temos de seguir viagem.
— Nós não faremos nada, eu vou cuidar deles e vossa alteza vai ficar bem aqui.
— Mas... — Protestou Yan Da.
— Gōngzhǔ, não desperdice sua energia com simples bandidos. — Pediu, interrompendo-a. — Para isso este servo lhe segue.
Antes que ela dissesse qualquer outra coisa, ele saiu ao encontro da pequena caravana após pedir com insistência que ela não saísse não importava o que acontecesse, então, foi receber seus convidados. Parado em uma pose aristocrática, ele foi cercado pelos homens com rostos cobertos e vestes negras, um sorriso cruel arqueou-se discretamente em seus lábios, algo que Yan Da, que espiava atrás dos arbustos, nunca vira antes.
— Onde está a princesa do fogo? — Um dos homens perguntou.
— Quantas vidas está disposto a perder por essa informação? — Devolveu Peng Yan, tranquilamente.
— Matem. — Ordenou o homem, que parecia ser o líder.
Dois bandidos montados em cavalos desembainharam suas espadas e foram para cima dele, Peng Yan inclinou o corpo para trás desviando das lâminas que passaram rentes ao seu rosto e, em um salto lesto, chutou ambos os cavalos que se assustaram derrubando os cavaleiros no chão. Um deles ficou desacordado. Calmamente, ele voltou à posição inicial encarando os inimigos.
— Por que não vêm todos de uma vez? Estou com um pouco de pressa.
O ar zombeteiro na sua voz irritou o chefe dos bandidos. Eles eram doze no total, mas dois foram ordenados a procurar Yan Da enquanto os outros dez desembainharam suas espadas e cercaram Peng Yan. Ele deu um sorriso cínico sem mover um músculo, tomando uma respiração profunda, equilibrou seu poder e esperou, tranquilo. Os bandidos fizeram uma formação e atiraram contra ele várias adagas, Peng Yan moveu-se no ar com graça, em uma dança mortal, manipulando o espírito do vento a seu favor, ele usava sua capa para devolver as adagas em ataque aos donos e nenhuma lâmina foi capaz de feri-lo.
Os bandidos, em contrapartida, também conseguiram reaver suas armas sem danos. Ele reconheceu a técnica que estavam usando, era a formação de ataque dos homens de Shuo Gang. Por isso os rostos cobertos. Preocupado com Yan Da, ele queria acabar logo com isso, ainda havia dois no encalço dela e, ferida como estava, ela podia ter dificuldade em se defender. Por sorte, eles tomaram a direção oposta onde ele a havia escondido. Os homens avançaram sobre ele outra vez atacando-o com suas espadas, dois miraram no pescoço de Peng Yan prontos para decapitá-lo, mas ele inclinou o corpo para trás fazendo as lâminas se cruzarem diante do seu rosto e passarem direto, os outros investiram por trás, ele deu um salto mortal elegante e quando as lâminas se uniram pisou sobre elas e saltou para trás.
Sem pausa, os guardas investiram, ele saltou para evitar que as espadas lhe ferissem as pernas e derrubou quatro com um único golpe. Ao se inclinar, a lâmina de um deles lhe feriu o braço, ele, contudo, foi rápido desviando dos outros golpes, uma dança mortal, mas cheia de nuances suaves enquanto desviava dos golpes. Dando uma pirueta no ar, ele agarrou um dos homens e usou-o para derrubar os outros. Vendo-o ferido, Yan Da ergueu-se, sobressaltada, a mão agarrando com fúria o chicote. Peng Yan usou uma das árvores como apoio e, segurando no tronco, deu um giro e derrubou um deles, bateu com a cabeça de outro na árvore, golpeou mais um no pescoço e costelas, com um salto mortal, deu uma rasteira em dois ao mesmo tempo e derrubou outro jogando-o sobre o ombro no chão.
Yan Da, que havia sido vista pelos caçadores, golpeou os dois enforcando um com o chicote e ferindo o outro com a espada. Os sons atraíram a atenção dos demais que começaram a correr em sua direção, uma camada de suor descia pelo seu rosto, mas ela estava pronta. Entretanto, Peng Yan correu atrás deles, derrubou um e pegou sua espada, puxou outro pelo pescoço tomando também sua espada e, munido das duas armas, deslizou pelo chão golpeando soldado por soldado no pescoço, nas costelas, no abdome, os dois de trás, cujas espadas haviam sido roubadas, ficaram de pé bem no momento que ele girou as armas, ainda de costas para eles, e num tiro certeiro acertou cada um no coração sem ao menos se virar para fazer mira.
Sem esperar, ele correu até Yan Da, a perna dela estava inchada o que não era bom e ela suava muito, provavelmente estava com febre. Ele a tomou nos braços ignorando os protestos dela e começou a caminhar de volta para a clareira onde haviam deixado os cavalos.
— Precisamos encontrar uma vila depressa, vossa alteza está com febre.
— Só temos nós aqui, pode parar de me chamar assim? — Ela fez uma careta. — Nunca vi você lutando daquele jeito, se meu pai sonhasse com essas habilidades, você seria comandante de um exército e não babá de uma princesa voluntariosa como eu.
— Ficamos acordados de duas coisas: minhas habilidades serão nosso segredinho e o fato de que vossa alteza não é nada voluntariosa. — Ele sorriu. — Se quer a opinião desse servo, tê-la como mestra é muito mais agradável que passar o dia olhando um monte de homens suados.
— Se me chamar de alteza de novo não vou ser tão agradável. — Ela sorriu ficando sonolenta.
— Esse servo não ousa ultrapassar os limites.
— Você não é meu servo. — Yan Da encostou a cabeça no peito dele, seu corpo tremia, mas o calor de Peng Yan era muito agradável. — É meu único amigo.
Quase imediatamente, ela adormeceu, a dor entorpecendo seus sentidos. Não sabia se foi sonho, mas tinha a sensação de que os lábios macios e quentes de Peng Yan beijaram sua testa.
— Peng Peng...
Yan Da chamou o nome dele em meio ao torpor. A realidade veio aos poucos conforme seus sentidos retornavam do vazio. Sua garganta estava seca, a boca parecia cheia de areia, tudo nela doía como se tivesse sido atropelada por um rolo compressor.
Atropelada.
Acidente.
Peng Peng.
Os olhos dela abriram de imediato, o teto branco ficou desfocado e, ao seu lado, alguém apareceu, mas a imagem borrada a impedia de ver quem era. Uma espécie de desespero oprimia seu coração, lembrava-se de Peng Yan coberto de sangue enquanto o carro explodia atrás deles. Não sabia o que havia acontecido, sua visão nublou pelas lágrimas, ela tentou se mexer, mas mãos firmes a seguraram.
— Xiao wu, shh... está tudo bem agora. — Era Hu Bing.
— Peng Peng...
— Ele está bem, não fique inquieta. — Acalmou-a. — Teve alguns cortes, uma concussão e uma pequena fratura no polegar esquerdo. Ele tem um corpo forte, as lesões não são sérias, ele vai ficar bem.
Ela olhou bem para ele, Hu Bing nunca mentia para ela, escondia coisas, mas nunca mentia. Foi assim que ela soube que ele dizia a verdade, Peng Peng realmente estava vivo. O alívio surtiu o efeito de um bálsamo sobre o corpo de Yan Da, seu braço direito estava imobilizado, havia uma faixa em volta da sua cabeça e o cateter do soro em sua mão, além disso, apenas o inalador fazia cócegas no seu nariz.
— Mandei fazer uma vistoria no seu carro, são pessoas de minha confiança, papai não vai poder compra-las.
— Sobrou alguma coisa para vistoriar? — Ironizou ela.
— Você já deve estar bem se consegue fazer piadas. — Ele sorriu. — Eu tive tanto medo de perder você...
Hu Bing se aproximou e encostou a cabeça no peito dela, Yan Da levantou a mão para acariciar a cabeça do irmão, sentiu as lágrimas dele caírem sobre a fina túnica que lhe cobria. Também havia tido medo de não poder vê-lo de novo. Fora a primeira vez que o irmão não havia percebido de cara que ela estava tentando desviar sua atenção com aquela brincadeira. Havia muitas perguntas na mente de Yan Da, questionamentos que ela não se atrevia a perguntar em voz alta ao irmão temendo que ele a tomasse por louca.
Dado todos os acontecimentos, ela era incapaz de explicar como eles conseguiram sair praticamente ilesos de tudo aquilo. Especialmente a luz azul intensa que ela viu envolve-los desde o momento em que o carro virou. Ou como o calor quente da explosão — que havia atirado partes do carro para todos os lados — não os havia atingido.
Porque a luz estava lá.
E aquela luz, que pareceu por um minuto emanar das costas de Peng Yan como asas, foi a última coisa que ela viu antes de ser sugada da realidade.
Notas:
*Ameixa vermelha sobre o muro — Trair o marido. Aqui Huang Tuo fala como se Shi tivesse pegado Yan Da sendo infiel.
*"O coração da mulher é como uma agulha no fundo do oceano" — Essa citação é do livro Ashes of Love.
*Na ni ne? [那你呢?] — "E quanto a você?"; "E você?"
*Nǐ fēngle ma? [你疯了吗?] — "Está maluca?"; "Enlouqueceu?"; "Você está louca?"
* Hóngmù sēnlín [红木森林] — Floresta de sequoias
*árvore de damasco estivesse se inclinando sobre a parede — ter um caso.
* Húshuō! [胡说] — Só relembrando, pode ser traduzido como "absurdo", "que piada", "bobagem".
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