Love as Sakura | 爱如樱

26 第24章 Vagalumes [III]


Yan Da fez uma nova pausa. Claro que não contou aquele detalhe para seu companheiro de viagem, mesmo hoje lhe era incompreensível aquele ponto do acidente. Shi estava passando pelo vilarejo Guihua, nas proximidades de Hunan, a história dela o deixara tão absorto que só quando ela parou ele sentiu o desconforto das longas horas sentado. Deu-se conta de que sequer sabia para onde estavam indo de fato. Ela o instruiu a entrar no vilarejo, era quase hora do almoço e eles precisavam esticar as pernas. Por sorte, segundo o GPS, ela calculara o tempo errado, eram apenas cinco horas até Hunan, com mais uma hora de lá para o local onde ela planejava levá-lo.

Discretamente, Yue Shen seguiu com o carro para mais adiante de modo que a princesa do fogo não desse conta da sua presença seguindo-os. Estacionou em um lugar onde pudesse manter os olhos em Shi sem ser notada e ligou para Ka Suo.

Wàng, eles chegaram à Vila Guihua, há uma pequena parcela de estrada até Hunan. Não houve problemas.

— Obrigado, Yue Shen, por favor me mantenha informado.

Shì.

Mal encerou a chamada e o telefone voltou a tocar. Dessa vez, era Huang Tuo. Um sorriso terno iluminou o rosto dela quando atendeu voltando sua atenção para Shi e Yan Da.

Sinto tanto a sua falta que acho que vou me internar.

— Huang Tuo. — Ela riu revirando os olhos. — Você fala como se eu tivesse ido para a outra ponta do planeta.

— É como eu me sinto! Diga onde você está, vou pegar o primeiro trem para te encontrar.

— Não seja dramático, estarei em casa no máximo perto da madrugada.

— Como eles estão?

— Parecem bem próximos. A princesa teve um pequeno ataque de nervosismo no meio do caminho, mas Shi wàngzi contornou bem a situação.

— Eles têm de se animar! Quero ficar com você pelas minhas próximas mil vidas.

— Seu bobo! — Ela riu. — Fizeram uma parada em Guihua, acho que vão almoçar. Não sei ainda para onde estão indo.

— Coma alguma coisa também e não deixe de me atualizar sobre tudo.

Hao a, agora pare de choramingar e vá cuidar dos pacientes.

Eu te amo.

— Também te amo. Até mais tarde.

Yan Da levou Shi até uma pequena praça arborizada atrás de uma das ruelas da vila. Havia mesas e bancos de pedra ali onde os dois podiam fazer sua refeição. Era um lugar muito frequentado pelas famílias nos fins de semana para piqueniques. Ela se lembrava de ter estado ali anos atrás e todo o ambiente lhe trazia uma sensação nostálgica. Quando ela estava confortavelmente sentada, ele retornou ao carro e pegou os potes individuais nos quais Pian Feng havia colado a etiqueta ALMOÇO, levando-as para a mesa.

Ele parou por um momento ao longe, observando Yan Da com um fascínio singular. Os cabelos dela estavam soltos e caíam como cascatas de ébano em seus braços e costas, voando suavemente no balanço da brisa suave. Ela olhava em volta como se cada pedaço daquele lugar guardasse um segredo, seus olhos brilhando com uma mistura de tristeza e saudade. Shi já havia visto muitas faces dela, mas em meio àquela paisagem natural, Yan Da nunca fora tão linda. Era como se ela fizesse parte daquele quadro bucólico, uma flor selvagem no auge da sua beleza desafiando o tempo e as estações.

— Ainda falta muito pra chegar? — Ela perguntou à Peng Yan enquanto sentava-se em um dos bancos e apoiava os cotovelos na mesa. — Para onde, afinal, está me levando?

— Xiao Yan, preciso urgentemente de uma maneira de te ensinar paciência. — Ele riu. — Você vai ver quando chegarmos lá. E não, agora não falta tanto.

— Tem certeza que é seguro?

— Claro que sim. Acabei de dar uma boa olhada em volta, não há qualquer sinal do seu irmão. Se for cuidadosa o bastante, ele nunca vai saber que você vem aqui.

Yan Da anuiu, um sorriso infantil arqueando-se no seu rosto.

— Acha que um dia vamos conseguir fugir?

— Claro que sim! — Yan Da sorriu, animando-se. — Vou levar você para ver os quatro lagos sagrados.

Peng Yan deu uma leve risada.

— Yan Da, promete que nunca vai esquecer de mim?

— Como poderia? — Seu olhar se tornou intenso. — Peng Peng, nem mil vidas poderiam me fazer esquecer você.

Yan Da secou discretamente a lágrima quando viu que Shi se aproximava. A lembrança a havia dominado de tal modo que quase não o viu chegar. Forçando um sorriso, ela tentou aparentar normalidade, precisava de toda força possível, a parte mais difícil da história estava prestes a se desenrolar. O coração da princesa do fogo sangrava conforme o amargor das recordações enchia sua boca de fel, ainda assim, se esforçou para comer.

— Está tudo bem? — Shi se preocupou.

— Sim, apenas me perdi em pensamentos. — Ela deu uma risada baixa. — Por que parece tão inquieto?

— Não sei... — ele sorriu. — Apesar de saber que tudo isso já aconteceu, não significa que revisitar essas memórias não doa.

— Dói. — Admitiu. — Mas em parte também é bom. Lembrar significa que ele foi real, tudo que vivemos foi real. Contar isso a você também ajuda a aliviar um pouco essa dor.

Shi assentiu feliz em ouvir aquela última parte.

— Há luz dentro de você, Yan Da, você tem uma energia limpa e seu coração é lindo, estou certo eu a vida vai retribuir o bem que você fez a Peng Yan e que faz a todos à sua volta.

Yan Da baixou mais a cabeça na tentativa de esconder seu rosto em chamas. Como Shi conseguia dizer coisas como aquela de modo tão direto? Ele não a pressionou, achava adorável a forma como ela ficava tímida. Os dois fizeram uma refeição tranquila e o mal-estar provocado pelas lembranças aos poucos foi se dissipando, tornando a expressão de Yan Da mais serena. Parte dele queria impedi-la de continuar contando, poupá-la daquela dor e das lágrimas que provavelmente ainda viriam. Contudo, não se via capaz de fazê-lo, não somente pela vontade de descobrir o que acontecera com Peng Yan, mas porque agora sabia que contar aliviava o coração dela.

Quando terminaram de comer, eles deram uma pequena caminhada pela vila seguidos discretamente por Yue Shen, atenta a cada pessoa que se aproximava ou os observava, não falavam sobre nada, apenas observavam o charme da vila e desfrutavam a companhia um do outro.

— Vamos, quero te levar a um lugar.

Ying Kong Shi seguiu Yan Da de volta para o carro, os dois dirigiram na direção da província de Hunan, mas não entraram, ela o orientou a dar a volta para a montanha, como não havia passagem para o carro, ele parou nas proximidades, pegou alguma coisa para comerem e levou também a bolsa de Yan Da. Era uma floresta fechada, as árvores altas se estendiam até perder de vista, o som de pássaros soava como uma música calmante enquanto Shi seguia a princesa mata a dentro pelo caminho coberto de folhas. Uma brisa leve soprava fazendo as folhas farfalharem, seria fácil esquecer-se da realidade ali dentro e, por um instante, o príncipe do gelo sentiu uma familiaridade estranha, como um déjà vu.

Eles seguiram em caminhada por quase uma hora. Em alguns momentos, temendo que ela se esforçasse demais, Shi orientou que Yan Da descansasse, procurando algum lugar onde ela pudesse sentar e oferecendo água. O clima estava ameno e agradável de modo que a caminhada era agradável. A princesa do fogo o guiou até uma clareira no meio da floresta, as árvores amontoavam-se em círculo em volta do terreno livre cheio de flores, ervas daninhas e relva. Porém, algo chamava a atenção ali, em uma das entradas de árvores havia um rústico banco feito com um robusto tronco de árvore, um tronco mais fino fazia vezes de encosto e, ao seu aproximar, Shi notou que não apenas a madeira estava lixada com cuidado, mas havia um pequeno compartimento que guardava almofadas.

Ele ajeitou duas para Yan Da, ela se sentou e fez um gesto para ele a acompanhar. Olhando o céu anil do início da tarde, ela esboçou um sorriso triste e continuou sua história.

Yan Da passou seis semanas no hospital para recuperação completa. Hu Bing, preocupado com a assistência dela, tirou Peipei da casa do pai e a colocou como empregada particular da irmã. Também fechou Yan Da em um quarto particular no hospital cujas visitas eram restritas apenas a ele já para evitar que Shuo Gang tivesse acesso a ela. Peng Yan ficou três semanas internado e recebeu alta. Por ser um jovem de compleição forte não teve muito problema para se recuperar graças aos cuidados da equipe médica. Porém, ao contrário do que esperava, mesmo com autorização de Hu Bing, Peng Yan não conseguiu visitar Yan Da.

Ela se recusou a vê-lo.

Hu Bing, a pedido do rapaz, tentou persuadir a irmã a recebê-lo, mas a princesa foi firme em sua decisão de não ver o amigo e não se deu ao trabalho de explicar as razões, ambos sabiam os seus motivos, ainda que Peng Yan não concordasse com eles e tampouco pretendesse desistir dela. A perícia no carro de Yan Da foi concluída e de fato um chip foi encontrado em uma das placas do veículo, mas Hu Bing não podia provar que aquilo estava relacionado a Shuo Gang, mesmo tendo procurado pistas no quarto do irmão quando este não estava, foi inútil, ele soubera esconder muito bem seu rastro.

Temendo agora muito mais pela vida da irmã mais nova, ele mandou uma empresa de mudanças tirar da casa de Huo Yi todas as coisas de Yan Da. Comprou um apartamento para ela próximo da universidade onde seria fácil para ele ir e vir todos os dias e manteve Peipei como empregada pessoal dela. Ver a irmã naquele leito de hospital ensinou Hu Bing a não subestimar a crueldade de Shuo Gang nem a indiferença do pai. Ele havia prometido proteger a irmã, mas sentia ter falhado naquela promessa, não cometeria o mesmo erro duas vezes.

Mais que ninguém Yan Da se sentiu feliz por ter um espaço longe da família. Ainda que não pudessem provar, ela sabia que havia sido Shuo Gang quem tentara matar Peng Yan como uma forma de atingi-la e, se ela tivesse morrido também, seria apenas um acréscimo bem vindo ao seu jogo doentio. Se ele descobrira a importância de Peng Peng na sua vida, era certo que tentaria de novo se ela não se afastasse dele. Recebera a prova dias atrás em uma mensagem de um número anônimo.

From: unknow

Gostou da surpresinha? Você sabe que eu nunca esqueço nada e ainda está me devendo. Dívidas não são toleradas, vou voltar para cobrar.

Todos os dias, Peng Yan ia ao apartamento de Hu Bing tentar ver Yan Da, mas esta sempre recusava a visita através de Peipei. Por mais que lhe destroçasse o coração, ficar perto dele seria pôr sua vida em risco, e ela não podia permitir. Não suportaria sentir aquele medo opressor de perdê-lo de novo. Um medo, ela descobriu, que reconhecia de uma maneira inexplicável, estava marcado no seu coração como uma cicatriz.

Como faltava apenas um ano para a formatura do ensino médio, Hu Bing recusou o pedido da irmã para mudar de escola — e também queria dar a Peng Yan uma ajuda — alegando que seria muito burocrático encontrar outro colégio com a mesma qualidade e que a aceitasse tão em cima da hora em uma turma de último ano. Desse modo, Yan Da se viu retornando para o mesmo colégio de antes incapaz de evitar encontrar com Peng Yan. Porém, ela mudou os horários, encontrou um esconderijo novo — que ele levou quase um ano para descobrir — e não importava quantas vezes ele conseguisse encurralá-la, ela fingia que ele não existia.

— Yan Da, por favor, não faz isso! — Implorava ele seguindo-a pelo corredor. — Sabe que não importa o que tente, eu não vou parar de ficar do seu lado, não é?

Yan Da mordia a parte interna da bochecha para evitar que as lágrimas caíssem enquanto seguia firmemente até a sala de aula. Peng Yan não estava brincando, ele repetiu o último ano de propósito, apenas para ficar na mesma sala que ela, sem se importar com as implicações que aquilo teria no seu currículo acadêmico. Passou a segui-la como uma sombra de modo que o esconderijo que ela conseguira não era mais secreto.

— Você não entende que estou fazendo isso por você?! — Explodiu certa vez, sentindo-se torturada com a insistência do amigo. — Não quero que você se machuque!

— Como não vou me machucar vendo você se machucando desse jeito?! — Rebateu ele. — Droga, Yan Da, não me importo se é seguro do seu lado ou não, estou aqui, mesmo com os riscos continuo aqui e não vou sair!

Ele a puxou contra si em um abraço apertado não permitindo que ela se soltasse mesmo tentando. Yan Da parou de lutar, apenas se permitiu ser envolvida, abraçou-o de volta calando a dor daqueles meses de distância, as mãos apertando a camisa de Peng Yan que afagava seus cabelos, ele beijou o topo da cabeça de Yan Da, o nó na garganta se desfazendo aos poucos.

— Por que você acha que é a única que não vai saltar do carro? — Ele apertou os braços em volta dela. — Se formos bater vamos juntos. Foi o que você disse. É o que vou fazer não importa o que você diga nem o que Shuo Gang tente fazer!

Eles ficaram abraçados por um tempo longo e nenhum voltou à sala de aula naquele dia. Sentados sob o kiri japonês, Peng Yan e Yan Da, cuja cabeça estava apoiada no ombro dele, ficaram imersos em um silêncio cheio de significados. Ela não conseguia ignorar a voz na sua mente que dizia estar fazendo a escolha errada ao ficar com ele, mas o sentimento que os unia era mais forte que qualquer ameaça. Peng Yan apertou o braço que envolvia a cintura dela puxando-a para mais perto.

— Não faça isso de novo, me ouviu? — Advertiu-a.

— Você não deve mesmo ter medo da morte, não é?

— Nasci em abril, não dizem que pessoas que nascem nesse mês morrem cedo? — Ele sorriu. — Se vou morrer logo quero aproveitar ao máximo enquanto vivo.

Ela bateu na barriga dele com força arrancando um gemido de Peng Yan que, em seguida, riu.

— Nem se atreva a brincar com uma coisa dessas! — Brigou. — Sabe o medo que eu senti?

— Acha que foi a única? — Ele segurou o rosto dela, um sorriso delicado iluminando seu rosto. — Yan Da, o tempo todo eu pedia aos céus que se fosse acontecer algo ruim que acontecesse comigo e não com você. Porque pelo menos eu ia te ver crescer e construir sua felicidade até podermos nos encontrar em outra vida.

— Como pode pensar que vou ser feliz se você morrer, Peng Yan? Essa é a coisa mais absurda que já ouvi. — Yan Da desviou o olhar sentindo a garganta fechar.

— Nossa vida é como um sopro no deserto, e nós somos nada mais que areia. A qualquer momento, o vento vem e nos carrega para longe. — Ele depositou um beijo na têmpora dela. — Se um dia eu for levado para longe de você, xiao Yan, não importa quão difícil seja, reconstrua sua vida, busque sua felicidade por si mesma e por mim. É a única coisa que eu quero, te ver feliz.

Yan Da ergueu a cabeça e segurou o rosto dele com as duas mãos cerrando o olhar enquanto o fazia encará-la.

— Se quer me ver feliz, trate de ficar vivo até eu ter 110 anos e formos dois velhinhos jogando xadrez numa varanda com nossos bisnetos em volta.

— Está me pedindo em casamento, Meng Yan Da? — Sorriu, provocando-a.

— E por acaso você é casável, Peng Yan? — Ela deu uma risada apertando o rosto dele.

Yan Da acreditou na promessa de Peng Yan em um lugar onde Shuo Gang não poderia estragar seu aniversário. Desde que se mudara da casa do pai, o irmão mais velho continuava perseguindo-a e ameaçando-a não importava quantas vezes Hu Bing o repreendesse. Ela apareceu na escola como todos os dias, a roupa extra que ele lhe pedira para levar estava dentro da mochila, mas toda a apreensão era uma vozinha insistente lhe alertando no fundo da mente. A princesa não podia parar de procurar por todos os lados sinais do irmão.

— Vejo rugas.

Peng Yan tocou a testa da amiga com dois dedos e massageou levemente tentando tirar a tensão que torcia a expressão dela. Um sorriso iluminado fazia o rosto dele brilhar, não tinha qualquer sombra de preocupação nos seus olhos, Yan Da queria muito ser aquele tipo de pessoa livre de névoas na cabeça. Ela ergueu uma sobrancelha para ele.

— Um dia espero viver sem medo de nada no mundo como você. — Ironizou.

— Xiao Yan, é seu aniversário, não é dia de se preocupar com o pé de limão da vida. — Apertou as bochechas dela.

Yan Da apertou a bochecha dele de volta dando um sorriso provocativo.

— Eu penso no pé de limão da vida porque corre o risco de você ser o açúcar da limonada. — Retrucou.

— Nessa vida eu sou amargo para todos, só sou doce pra você. — Brincou.

— Vou dizer ao seu pai pra cortar a TV a cabo, assim você para de assistir seja lá o que estiver vendo ou isso vai acabar suas chances de ter uma namorada com essas cantadas de filme piegas. — Fez uma careta.

Shǎguā!* — Ele riu dando uma leve batida na testa dela.

Talvez por causa da ansiedade, mas as aulas pareceram passar mais devagar naquele dia. Depois do acidente, Yan Da não conseguia mais dirigir, Hu Bing a colocara para fazer terapia duas vezes por semana. Então, os dois iriam até Hunan de trem. Eles pararam na vila Guihua para comer alguma coisa e comprar água, Peng Yan alugou uma bicicleta para leva-los pelo resto do trajeto. Apesar de cansada pelas quatro horas e meia no trem, Yan Da estava feliz por passar aquele tempo sozinha com o melhor amigo e também curiosa para saber para onde ele a estava levando.

Circundando a Montanha Luo Ying Po, ele seguiu por uma estrada de terra na direção de uma floresta alguns metros à frente. Fazia um lindo dia de sol prenunciando a chegada do verão, Yan Da sentia o vento no rosto soprando seus cabelos para trás enquanto as mãos seguravam com firmeza a cintura de Peng Yan para manter o equilíbrio no veículo. O cheiro era extraordinário, o ar doce era quase palatável enquanto se aproximavam das árvores enormes e exuberantes. Peng Yan a guiou a pé pelo resto do caminho, Yan Da estava encantada e admirada com o tamanho exorbitante das sequóias que a fazia se sentir uma formiga caminhando encolhida num mundo gigante, o canto dos pássaros e os cheiros doces, mentolados e levemente azedos trazidos de toda parte pela brisa leve.

Subiram uma leve inclinação até finalmente chegar à clareira. Uma vastidão de flores crescia como um tapete junto à relva macia, as árvores gigantescas cercavam o lugar como uma fortaleza, o céu era como um recorte redondo de papel pintado na aquarela do crepúsculo sobre suas cabeças cercado pelo verde intenso dos galhos espessos. Yan Da se maravilhou ao ponto de não conseguir dizer nada. Peng Yan segurou a mão dela e a guiou pelo meio das flores até um banco de madeira rústico que parecia ter sido talhado às pressas e a pouco tempo, mas a madeira estava bem lixada, havia um escoro e, embaixo do banco, um compartimento cheio de almofadas que ele tirou e acomodou para ela sentar com mais conforto.

— Vim aqui há algumas semanas para preparar isso, apesar de preferir sentar no chão, o espetáculo vai ser melhor se visto daqui.

— Que lugar é esse?

— Os locais chamam de Shèng guāng zhī lín*. — Contou. — Diz a lenda que, muitos anos atrás um príncipe da dinastia Zhou encontrou uma deusa nessa clareira, eles se apaixonaram profundamente, mas a deusa não podia ficar na terra por muito tempo, então, todos os anos o príncipe voltava aqui para vê-la, mas um dia ele ascendeu ao trono e se casou, as ocupações o faziam faltar algumas vezes a esse compromisso anual, quanto mais envelhecia, mais raras ficavam as visitas e a deusa foi ficando cada ano mais solitária e triste, então...

— Então o quê?

Conforme o dia ia escurecendo, pequenos pontos verde-amarelos começavam a aparecer no local pairando no ar como luzinhas de um pisca-pisca, a voz de Peng Yan ficou mais baixa quando respondeu a pergunta dela.

— Então as lágrimas de saudade da deusa se transformaram em vagalumes que vivem aqui para rememorar sua tristeza.

Era uma visão magnífica e de tirar o fôlego. Os vagalumes cercavam toda a clareira como uma constelação que descera à terra, Yan Da sorriu estupefata com aquele espetáculo da natureza, seu coração batia tão agitado dentro do peito que ela temia espantar os vagalumes com o som. Erguendo a mão ela conseguiu que um se apoiasse no seu dedo indicador.

— Feliz aniversário, Xiao Yan. — Peng Yan sorriu colocando um agasalho sobre os ombros dela, pois com a chegada da noite ficava frio na floresta.

— Peng Peng... esse lugar... isso...

— Podemos voltar aqui no ano que vem se você quiser. E todos os anos no seu aniversário.

— Obrigada.

Ela não sabia como expressar o que sentia, então apenas o abraçou apertado enquanto os vagalumes iluminavam aquele pequeno universo só deles. Foi o melhor aniversário de sua vida.

Com a ajuda de lanternas, Peng Yan e Yan Da voltaram pelo mesmo caminho, embora a jovem princesa estivesse relutante em deixar aquele local maravilhoso, nunca em sua vida ela vira alguma coisa tão bela. Ela não conseguia imaginar uma maneira de fazer aquele dia ficar mais perfeito. Os dois alcançaram a bicicleta que Peng Yan tinha deixado perto de uma das árvores, pela hora, provavelmente não conseguiriam pegar o último trem de volta, então ela telefonaria para Hu Bing quando conseguisse sinal e avisaria que passariam a noite na vila Guihua.

Mas isso nunca aconteceu.

Tão logo chegaram à vila, uma van preta estava bloqueando a estrada a alguns quilômetros do vilarejo, seis homens abordaram Peng Yan e Yan Da munidos de armas, por segurança, ele decidiu não resistir, pois isso poderia colocar a vida de Yan Da em risco, ela viu quando eles colocaram um saco de pano na cabeça dele e o jogaram dentro do carro, Yan Da tentou resistir, mas tudo que conseguiu foi um forte tapa que a desorientou e uma venda cobrindo seus olhos. Eles a jogaram junto de Peng Yan, que a abraçou firmemente, enquanto o cano de uma arma era pressionado com força na sua têmpora.

E o pesadelo começou.

Yan Da parou de contar bem no momento que as cores pálidas do entardecer pintaram o céu prenunciando a escuridão que se alastrava timidamente pelo firmamento. Os vagalumes começaram a surgir tal como ela descreveu na sua narrativa, enchendo Ying Kong Shi de deslumbramento. Ele prendeu o fôlego diante da visão e, ao olhar para ela, viu seus olhos brilharem com as lágrimas bravamente retidas. Ele colocou uma manta sobre os ombros dela e, hesitante, segurou sua mão gelada para lhe passar conforto.

— A noção do tempo desapareceu. — Yan Da baixou a voz, os olhos fixados nas luzinhas piscantes que pairavam por toda parte. — A venda me impedia de ver qualquer coisa mesmo que estivesse diante do meu rosto, eu conseguia quando muito distinguir alguns feixes de luz que passavam pelas camadas de tecido, mas na maior parte do tempo tudo era escuridão.

Shi sentiu o coração apertar enquanto a ouvia. No meio daquela pintura exuberante da natureza, onde uma memória tão linda e significativa foi construída, ele provava o sabor amargo da dor de Yan Da. Parte de si se perguntava se ela não acreditava estar marcando aquele lugar com essa rememoração dolorosa, mas não ousou interromper seu relato.

— Eles me obrigaram a ligar para o meu pai e pedir dez milhões de dólares como resgaste. — Continuou. — Depois de tudo que eu havia passado, era óbvio, eu sabia que ele não pagaria e inconscientemente estava me preparando para morrer. Mas não era isso que doía. A dor maior era Peng Peng estar ali comigo, compartilhar daquele destino sombrio quando tudo que ele fez foi me acolher, me dar carinho, me aceitar por quem eu era...

Yan Da foi drogada para ser mantida inconsciente. O tempo praticamente inteiro ela ficava vendada e amarrada nos pulsos e tornozelos, eram raros os momentos de consciência e sempre vinham acompanhados de dor e o som tenebroso de gritos de agonia que pareciam ecoar por todo local. Sua espinha gelava sempre que ouvia, os piores tipos de cenário lhe vinham à mente e ela gritava por Peng Peng, mas nunca recebia qualquer resposta.

Quando a venda foi tirada dos olhos de Yan Da — ela não sabia quanto tempo depois do sequestro —, pôde visualizar uma espécie de galpão ou depósito, não sabia direito e seus olhos estavam irritados por causa do pano. Mas, não era com o lugar que ela se preocupava, assim que sua visão focou, bem diante dela, Peng Yan estava pendurado pelos pulsos em correntes que o erguiam a alguns centímetros do chão, todo o seu corpo, desnudo da cintura para cima, apresentava violentas lascerações que ela imaginava terem sido feitas por facas.

Hematomas e inchaço tornavam seu rosto quase irreconhecível, uma enorme poça marrom estava abaixo dele e os jeans estavam encharcados com o mesmo tom. Foi com um esforço extraordinário que ela não gritou naquele momento, os olhos tomados pelo terror da visão, o coração acelerado no peito e a incapacidade de se mover para alcançar o amigo desacordado — ou morto? — diante dela. Lágrimas enchiam seus olhos e o som de passos a fez se encolher. Ela não acreditou quando a figura parou diante dela, abaixando-se com um sorriso e acariciando seu rosto.

Shuo Gang.

— Estou pensando em mandar pintar um quadro para pendurar no seu quarto, o que acha?

— Por que está fazendo isso, o que você quer, enlouqueceu?!

— Shh... — Ele segurou o queixo dela apertando com força. — O primeiro motivo é óbvio, quero me vingar de você por ter feito aquela vadia da sua mãe nos excluir do testamento. Ah, acho que você não deve saber, mas aquela fraca não era minha mãe ainda que tenha sido forçada a me reconhecer como filho graças ao poder persuasivo do nosso pai.

— O quê? Do que está falando?

— O imbecil do Hu Bing tentou esconder isso de você, a troco de quê, não sei. O fato é que o papai era casado quando conheceu a vagabunda da sua mãe e ela acabou engravidando daquele idiota do Hu Bing. A esposa dele não conseguia engravidar então nossos avós não eram muito favoráveis a ela, assim, ele a descartou e casou com a vadia da sua mãe para tornar Hu Bing o primogênito, mas é claro que ele não gostava dela.

— Isso não é verdade!

— Obviamente, o papai nunca fez o tipo fiel. Minha mãe foi uma dessas pobres simplórias como você que caíram no conto da deusa e dormiram com ele. — Ele largou o queixo dela com rispidez. — Vocês são todas iguais, estúpidas, fracas e interesseiras! Ela aceitou uma boa quantia em dinheiro para desistir de mim e a sua mãe, que estava grávida daquele robô do Ya Xing, foi obrigada a me reconhecer como filho, então o conto de fadas de que eu nasci alguns aninhos depois não é de um todo verdade. Você devia me respeitar mais.

Yan Da meneou a cabeça, atordoada, não podia acreditar naquilo. Sempre se perguntou o motivo pelo qual Huo Yi odiava sua mãe, mas Hu Bing sempre se recusou lhe contar, sobretudo, nunca entendeu a razão do irmão mais velho odiar tanto o pai, agora tudo fazia sentido, assim como o péssimo caráter de Shuo Gang, contudo, era irreal para conceber, ela queria dizer a si mesma que ele estava mentido.

— Se você está fazendo isso por dinheiro, apenas deixe Peng Yan ir embora, ele não tem nada a ver com isso, eu dou o que você quer. — Implorou.

— Deixá-lo ir? — Shuo Gang explodiu em uma gargalhada. — Seu namoradinho idiota se atreveu a me desafiar porque você esqueceu a quem deve obediência, a quem pertence! Então, podemos dizer que isso é culpa sua.

— Shuo Gang, eu faço o que você quiser, pode me manter aqui dentro pra sempre, me matar, não me importo, mas deixa ele ir embora, por favor!

Yan Da não queria implorar, mas faria isso se significasse a vida de Peng Peng, ela não se importava com o que acontecesse a ela desde que o amigo pudesse viver. A resposta do irmão foi um soco tão forte que sua boca encheu de sangue, ela cuspiu sentindo a dor explodir por toda a sua cabeça.

— Ainda não entendeu? Você não está em posição de negociar, independente do que disser sou eu que dito as regras por aqui. E você vai fazer o que eu quiser. Parece que esqueceu mesmo como se obedece, mas eu vou te fazer lembrar.

Shuo Gang sorriu, diabólico, puxando-a pelos cabelos e colocando-a sobre um estrado de madeira, ali ele prendeu os pulsos e tornozelos dela na madeira, as farpas penetravam na pele de Yan Da, o terror mesclava-se com a dor, mesmo tentando racionalizar aquilo, não era compreensível para sua mente que o carrasco que lhe infligia aquela agonia era seu próprio sangue. Mais tarde, ela viria a entender que Shuo Gang não estava punindo a ela, mas a mãe dele. E nela todas as mulheres a quem ele julgava como iguais. O coração de Yan Da pulou uma batida quando o irmão se aproximou lentamente com uma agulha, ele fez questão de mostrar o objeto a ela, mas não era isso que a aterrorizava, mas sim o que ele faria com ela.

Sem aviso, ele inseriu o objeto no braço dela com força, Yan Da sentia o aço sob a sua pele, mas reprimiu o grito de dor. Uma nova agulha foi inserida, dessa vez na sua barriga, depois na perna, a tortura durou uma hora, mas para ela parecia uma eternidade. Shuo Gang a drogou depois e talvez tenha sido seu único gesto de misericórdia em toda a vida.

Ela foi mantida desacordada desde então. Sempre que um dos homens a tirava do torpor, a tortura com agulhas voltava. Yan Da parou de se segurar e seus gritos ecoavam pelo galpão enquanto ela lutava contra as amarras que cortavam sua carne. Foram vinte e nove dias de cativeiro, ela não sabia que Hu Bing havia pago a quantia pedida por Shuo Gang — surpreendentemente com a ajuda de Huo Yi —, mas ainda assim, eles não a soltaram imediatamente. Dois dias antes do resgaste ser pego, ele a largou em uma espécie de sala com Peng Yan, o amigo estava muito debilitado, mal conseguia se manter acordado.

— Eu sinto muito... — Ele sussurrou para ela, a voz quase inaudível.

— Por que está dizendo isso quando a culpa é minha? — Chorou Yan Da. — Você precisa resistir, Peng Peng, por favor...

— Yan Da, quero que saiba de uma coisa... eu... — tossiu, sangue escapou pela sua boca — nunca me arrependi de ter me tornado seu amigo. Não me arrependo agora.

— Peng Yan, você está proibido de falar como se estivesse se despedindo! — Implorou. — Por favor... isso vai acabar, nós vamos sair daqui, eu prometo.

— Quem diria que a lenda do quarto mês era verdade... — continuou, um sorriso amargo arquenado-se nos seus lábios. — Você precisa me prometer que vai sair daqui e vai recomeçar a sua vida... faça isso se não por você, por mim... hao bu hao?

— Peng Yan!

Yan Da se arrastou dolorosamente para perto dele as feridas no seu corpo ardiam e sua perna esquerda havia sido quebrada no dia anterior, mas ver Peng Peng daquela forma era mais era muito mais doloroso. Era culpa dela, se não tivesse deixado ele se aproximar, se Shuo Gang não descobrisse que ele era importante, Peng Yan não estaria ferido daquele jeito. Ele sorriu para ela, sangue escorria das feridas, a respiração estava fraca, as mãos dele também estavam amarradas, então ele apenas se inclinou na direção dela e encostou a cabeça em seu ombro.

— Eu queria poder te abraçar. — Murmurou.

Yan Da se afastou um pouco, mesmo com todo o corpo gritando protestos dolorosos, ela passou os pulsos presos em carne viva por baixo do corpo, o ombro deu um estalo, mas ela mordeu o lábio e ignorou a dor excruciante, com a respiração agitada, ela conseguiu libertar os braços das costas para a frente do corpo e passou-os pela cabeça de Peng Yan puxando-o para si, ele se aconchegou nela como pôde e seus olhos encheram de lágrimas.

— Talvez seja um pouco tarde pra isso, mas houve algo que sempre quis te dizer... — a voz de Peng Peng se tornou mais fraca. — Yan Da, conhecer você foi a maior bênção que os céus me concederam, cada minuto ao seu lado foi o mais feliz da minha existência... Yan Da... eu te amo.

Ela engasgou com as próprias lágrimas, a porta da sala abriu e um dos homens a agarrou afastando-a de Peng Yan antes que ela tivesse chance de responder que também o amava. Yan Da gritou o nome dele várias vezes, o homem cobriu sua cabeça com um saco plástico preto e a picada da agulha no seu braço espalhou o torpor pelos seus sentidos.

A consciência voltou lentamente. Yan Da sentiu a brisa acariciar seu rosto, o cheiro de grama misturava-se com de terra molhada. Ela abriu os olhos devagar e a claridade os machucou, seu rosto estava sujo de lama, todo o corpo era uma massa dolorosa que ela mal conseguia mover e a perna quebrada parecia ter o dobro do tamanho. Yan Da tossiu tentando se erguer e foi quando viu, a alguns metros dela, Peng Yan.

— Peng Peng! — Chamou-o, sem resposta. — Peng Peng, consegue me ouvir?

Ela se arrastou com mais esforço do que conseguia dispender até ele, a camisa de Peng Yan havia sido tirada, ele vestia apenas a regata branca costumeira que usava por baixo do uniforme, toda ela estava rosada e amarronzada pelo sangue. Tocando o plástico que cobria sua cabeça, Yan Da o tirou apenas para contemplar o rosto lívido de seu melhor amigo, os hematomas e cortes, havia outros no pescoço que não estavam ali antes, com as mãos trêmulas, ela tocou o peito dele, mas o coração quente e cheio de amor de Peng Yan não batia mais, a música da sua vida havia encerrado para sempre.

Em desespero, Yan Da chamou seu nome, as lágrimas caindo sobre o cadáver daquele que foi a melhor parte da sua vida, a dor no seu peito era tão excruciante que ela mal conseguia respirar, sua mente se recusava a acreditar que Peng Peng estava morto. Tudo veio dentro dela em uma explosão, o ódio, a culpa, a angústia, o medo, a revolta. Ela abraçou o corpo sem vitalidade do seu melhor amigo em um pranto inconsolável. Seu coração estava morto, ela não conseguia respirar, gritou até que suas cordas vocais não fossem capazes de emitir mais nenhum som.

Shuo Gang cometera o ato mais vil de crueldade ao deixá-la viva.

Para Yan Da, viver num mundo sem Peng Yan era um inferno pior que qualquer morte.

*Shǎguā [傻瓜] — Bobo; idiota; tolo;

*Shèng guāng zhī lín [圣光之林] — Floresta de luz