Love as Sakura | 爱如樱
24 第22章 Vagalumes [I]
Graças a Peng Yan, as coisas melhoraram um pouco para Yan Da. Ela contou sobre ele à Hu Bing que demonstrou muita satisfação não apenas na irmã ter um amigo, mas em reconhecer tudo que este fizera por ela quando ele não podia estar por perto. Por Jicheng ser amigo de Meng Xi Yu, era natural que Hu Bing conhecesse Peng Yan — inclusive tendo-o visto crescer —, de modo que, a benção para a amizade de Yan Da com o garoto, foram imediatas.
Não demorou muito para que os dois se tornassem inseparáveis e como o pai de Peng Yan nunca estava em casa, Yan Da começou a ver o lar do vizinho como um esconderijo de Shuo Gang quando Hu Bing não estava em casa. Assim, todas as vezes que o irmão ia se demorar na escola, Peng Yan a levava para casa e o irmão mais velho dela passava lá para busca-la quando voltava da escola. Peng Peng, como Yan Da passou a chama-lo, tal como ela vivia com a cabeça enterrada nos livros, era uma maneira de aplacar a solidão de uma casa onde se é praticamente o único habitante e Jicheng não poupava esforços para fazer a coleção do filho crescer.
Com a ajuda de Hu Bing, a amiza de Peng Peng e Yan Da ficou livre dos olhos de Shuo Gang até a menina completar quatorze anos. Yan Da não gostava de comemorar aniversários desde a morte da mãe, Hu Bing estava na faculdade e ela não o veria até o próximo fim de semana, desde então, mesmo ela se cuidando bem sozinha, Shuo Gang continuava fazendo da vida dela um inferno em qualquer oportunidade que tivesse. Yan Da era cautelosa para que o odioso irmão ficasse longe do radar de Peng Yan, por mais que o amigo soubesse se defender muito bem, ela temia por ele, pois Shuo Gang nunca jogava limpo e tinha muito poder em mãos para usar livremente graças ao pai de ambos.
— Onde quer ir no seu aniversário? — Perguntou Peng Yan enquanto caminhavam para casa.
— Pode esquecer, você vai ficar bem longe de mim nesse dia, não quero nem imaginar no que poderia acontecer se Shuo Gang soubesse que somos amigos.
— O que ele poderia fazer? — Peng Yan começou a caminhar de costas para poder olhá-la de frente. — Xiao Yan, eu não tenho nenhum medo do seu irmão.
Yan Da parou de andar.
— Peng Peng, por favor, isso é sério. Shuo Gang não é alguém com quem podemos lidar. — Apesar da advertência, o tom dela era de súplica. — Eu não vou me perdoar se ele fizer qualquer coisa com você, então, por favor...
— Ei, ei, tudo bem. — A expressão dele abrandou e ele colocou as mãos nos ombros dela. — Eu prometo ficar longe dele.
Ela assentiu, o nó do medo apertando suas cordas vocais de modo doloroso. Os dois continuaram caminhando e tiveram a desagradável surpresa de encontrar Shuo Gang em frente a casa de Yan Da, por sorte, vinham caminhando em silêncio de modo que não levantaram suspeitas de serem próximos.
— Ora, ora — Shuo Gang aproximou-se de Yan Da de modo intimidador. — Está chegando bem tarde hoje, xiao meimei.
— Ao contrário de você eu levo a escola a sério. — Rebateu ela com frieza.
— E quem seria esse? — Ele se aproximou de Peng Yan que permaneceu impassível.
— Hu Bing xiansheng me pediu que acompanhasse Meng xiaojie até em casa, estou apenas cumprindo sua vontade. — Respondeu ele de modo direto e mecânico. — Se não há mais nada, tenha uma boa noite, xiansheng.
— Claro, está sendo pago, por que outra razão alguém se aproximaria de Yan Da? — Ele deu uma risada de escárnio. — Mas para que a pressa? Espere um momento.
Yan Da congelou. Seu coração batia rápido, ela pensou em intervir, mas Peng Yan lhe tranquilizou com o olhar, ela sabia que ele podia lidar com aquilo, mas era inevitável ficar com medo. Shuo Gang se virou e mandou que ela entrasse, ela olhou para Peng Peng que anuiu discretamente, era melhor não contrariar Shuo Gang, embora odiasse a ideia de seu amigo sozinho com ele. Ela tinha certeza que Shuo Gang ia tentar envenenar Peng Peng contra ela, chantageá-lo para que a traísse ou se afastasse dela.
Ou pior, para que a machucasse.
Claro que ela não acreditava que Peng Yan se sujeitaria aquele papel, mas era exatamente esse o seu maior medo, que ele recusasse e Shuo Gang o tornasse um alvo das suas crueldades quando se sentisse entediado. Subiu as escadas correndo e trancou-se no seu quarto, desde que Hu Bing se mudara para o alojamento da faculdade, ela fazia as refeições nos seus aposentos, incapaz de encarar o pai ou os irmãos. Yan Da tinha medo deles. Correu até a sacada e abriu as portas, olhando para baixo pela varanda, não conseguia ver direito, mas Peng Yan continuava na mesma posição, impassível e sério.
Shuo Gang falava alguma coisa que ela não conseguia escutar, mas viu quando Peng Yan sorriu, o tipo de sorriso que ela não via no seu rosto com frequência: um sorriso de deboche. Parecia até errado ver aquela expressão no rosto dele, como se, de repente, Peng Peng se tornasse outra pessoa. Ele disse alguma coisa que parece ter divertido Shuo Gang uma vez que este riu, mas logo a situação escureceu quando o irmão dela segurou Peng Yan pela camisa puxando-o bem junto de si em uma postura ameaçadora, seu amigo, contudo, não demonstrou qualquer medo, mantendo a postura impassível. Segundos depois, seu irmão o soltou e Peng Yan foi embora sem olhar para trás.
Yan Da sentiu um gelo subir pela sua espinha. Peipei trouxe seu jantar na hora de sempre e se apressou em sair para que ela pudesse trancar a porta de novo, a trava da porta do seu quarto era eletrônica com uma senha de 32 dígitos que ela configurou com Hu Bing, mas como nunca conseguia lembrar, ele ajustou para reconhecer a digital dela, era uma maneira de impedir Shuo Gang de entrar. Seu celular anunciou o recebimento de duas mensagens, uma era de Peng Yan e a outra de Hu Bing.
From:彭燕
Não se preocupe, está tudo bem. Ele não disse nada que eu já não esperasse, não faz ideia que somos amigos, então durma tranquila.
Received 10:04pm
From: 胡兵
Xiao wu, como você está? Volto para casa na quinta para ficar com você no seu aniversário, pense aonde quer ir, pode levar Peng Yan com você. Te amo.
Received 10:02pm
Ela fechou os olhos sem conseguir evitar a apreensão mesmo com a mensagem de intuito confortador. O modo como Shuo Gang agiu contrariava as palavras de Peng Yan. Ela olhou por alguns minutos a mensagem de Hu Bing, talvez conseguisse pedir a ele alguma ajuda. Yan Da deu um salto reprimindo o grito de medo quando sua porta começou a ser esmurrada com violência.
— Yan Da, abra a maldita porta agora!
A voz de Shuo Gang soava furiosa. Olhando em volta, ela disse a si mesma para manter a calma, ele não podia entrar, ninguém sabia a senha da porta além de Hu Bing e a trava não reconhecia nenhuma digital além da dela. Ele continuou dando socos e chutes, gritado ameaças enquanto ela se encolhia dentro do armário com as mãos sobre os ouvidos. Seu celular começou a vibrar no colo e ao ver o nome de Hu Bing na tela seu coração conseguiu desacelerar.
— Xiao wu, o que está havendo? Peipei me ligou e disse que Shuo Gang está fazendo um escândalo na frente do seu quarto.
Ela imaginou que, mesmo sem responder, o irmão podia ouvir os berros histéricos do outro do lado de fora, antes que pudesse balbuciar uma resposta, a chamada foi encerrada deixando Yan Da cair numa espécie de torpor. Queria poder ligar para Peng Peng, mas se ele viesse até ali as coisas seriam piores, ela já havia sido vitima da fúria de Shuo Gang antes, sabia que o mais seguro era deixar a raiva dele abrandar e ele a deixaria em paz — na medida do possível, claro.
De repente, os sons pararam de vez. Teria ele ido embora? Yan Da continuou ali dentro, incapaz de mover um músculo, ouviu o som da porta abrindo, a trava eletrônica apitou e seu coração pulou uma batida, ela prendeu a respiração, não podia ser ele, era impossível ter descoberto a senha da porta — ele não era inteligente o bastante para tal façanha —, fechou os olhos e apertou os braços em volta das pernas, a pulsação latejando nos seus ouvidos, mas não houve o som de nada sendo quebrado, nem gritos raivosos, as portas do armário abriram-se gentilmente e alguém puxou seu corpo trêmulo para um abraço.
Era Hu Bing.
Os braços de Yan Da se fecharam em volta do pescoço do irmão mais velho e ela sentiu as lágrimas arderem nos seus olhos, Hu Bing a apertou contra ele sentindo cada músculo do corpo da irmã sacudindo com violência. Sua mão apoiou a cabeça dela com carinho enquanto a outra acariciava suas costas, o perfume familiar dele enchia as narinas de Yan Da, a sensação de proteção chegando devagar e tomando o lugar do desespero.
— Tudo bem agora. — Sussurrou ele. — Está tudo bem, xiao wu. Ele já foi.
Ele colocou Yan Da na cama e a cobriu, serviu para ela um copo com água e, quando ela recobrou a calma, perguntou o que havia acontecido. Claro que não poderia contar tudo uma vez que não ouvira a conversa entre Shuo Gang e Peng Yan, mas pormenorizou o que pôde para deixar Hu Bing ciente dos fatos. Ele ficou pensativo, não havia muito que pudesse fazer contra Shuo Gang, especialmente pelo fato de ele ter cobertura de Huo Yi que cobria todos os seus rastros. Ele prometeu a Yan Da que tudo ficaria bem, encontraria uma maneira de proteger Peng Yan e ela acreditou nele, Hu Bing era a única pessoa na qual ela podia confiar sem reservas. Ele ficou ao lado dela até que Yan Da dormisse, depois saiu trancando a porta.
※
Na sexta, quando Yan Da completava mais um ano, Hu Bing levou ela e Peng Yan ao cinema, depois foram comer em um restaurante — onde mesmo contrariando-a eles cantaram suas felicitações —, a pedido de Peng Yan, os três foram a um parque de diversões na cidade vizinha para fechar o dia de Yan Da em grande estilo. A menina não se lembrava de ter se divertido tanto desde a última vez que comemorara a data com sua mãe, foi um dia sem preocupações, sem medos, sem Shuo Gang.
— Sinto muito ter causado problemas para você naquele dia. — Peng Yan desculpou-se quando os dois estavam à sós na cabine da roda gigante. — Fiquei sabendo o que aconteceu.
— Não é culpa sua. — Yan Da sorriu. — Já estou acostumada com isso.
— Mas não devia ser assim, xiao Yan. — Ele suspirou. — Você devia ser protegida por eles não intimidada.
— As coisas nem sempre são como devem ser, não é? — Ela baixou a cabeça. — Logo Hu Bing ge vai se formar e não sei o que vai acontecer comigo.
— Eu posso te ajudar se você quiser ir embora. — Ofereceu.
— Você não entende... — Yan Da meneou a cabeça, um sorriso amargo formando-se no seu rosto. — Não existe nenhum lugar seguro nesse mundo para mim. Shuo Gang nunca vai me deixar ir, meu pai também não.
— Por quê? — Ele exasperou-se, frustrado. — Por que eles fazem isso com você?
— Não sei... Hu Bing ge me disse uma vez que eles vêem em mim uma substituta da minha mãe. — Ela deu de ombros. — Talvez seja verdade. Meu pai odiava minha mãe, mas não sei o motivo.
— Mas ela provavelmente o amava, ninguém tem cinco filhos de um homem que odeia. — Observou ele.
— Peng Peng... você é um homem, só um homem poderia afirmar algo assim. — O olhar dela ficou duro. — Às vezes, elas podem não ter escolha.
Ela viu quando o brilho do entendimento se tornou choque nos olhos de Peng Yan. Ele segurou as mãos dela com carinho em um pedido silencioso de perdão, Yan Da apenas anuiu, mesmo que quisesse não conseguia ficar muito tempo chateada com ele.
No fim do dia, quando o passeio chegou ao fim, Hu Bing deixou Peng Yan em casa e levou Yan Da de volta, acompanhando-a até seu quarto para garantir que não houvesse nenhum encontro desagradável com Shuo Gang. Não era muito tarde, de modo que o irmão não estava com pressa de ir para o próprio quarto e só iria de volta para faculdade no domingo. Yan Da queria desfrutar da sua companhia mais um pouco, não conseguia parar de pensar na conversa com Peng Peng na roda gigante. Deveria contar a Hu Bing?
O irmão era o único vínculo que Yan Da tinha com a mãe, a única família verdadeira que lhe restara, mas ele tinha uma vida inteira para construir, iria trilhar seu próprio caminho e ela precisava pensar em si mesma também, haveria alguma possibilidade de ir embora? Existiria algum lugar onde Shuo Gang e o pai não poderiam alcançá-la? Peng Yan seria capaz de ajudá-la? Mas, a pergunta que mais afligia Yan Da era: ela conseguiria ficar longe de Peng Peng definitivamente?
— Você está muito quieta, em que está pensando? — Hu Bing quis saber.
— Não é nada. — Mentiu. — Obrigada por tudo hoje, eu me diverti muito.
Hu Bing ergueu a sobrancelha claramente sem acreditar no que ela estava dizendo, conhecia a irmã muito bem para comprar uma desculpa como aquela.
— Yan Da, você nunca mente. — Apontou. — E a falta de prática torna óbvio quando tenta. Nunca tivemos problemas em contar nada um para o outro, o que está te deixando inquieta assim?
Ela soltou uma lufada de ar, desistindo. Talvez só fosse boa em mentir para si mesma, afinal. Sentando-se na cama, evitou o olhar analítico do irmão.
— Da ge... o que vai acontecer comigo quando você se formar?
— Não se preocupe com isso agora, falta muito tempo até acontecer. — Tranquilizou-a. — Até lá, você mesma vai estar na faculdade e poderá finalmente sair daqui. Então eu vou poder viver em paz porque você estará segura.
— Por que o papai odeia a mamãe? — Quis saber.
— Xiao wu, há coisas que são muito complicadas de explicar. — Ele suspirou apertando a ponte do nariz. — Não estou dizendo que você é jovem demais para entender, não é isso, apenas quero poupar você de coisas sórdidas como essa. Independente do que aconteça, eu vou cuidar de você até que você possa se cuidar sozinha. Eu prometo.
※
— Naquela época eu ainda não sabia que mesmo a promessa mais sincera pode ser quebrada.
Shi soltou o ar que nem percebeu estar prendendo e meneou a cabeça. O celular de Yan Da começou a tocar e o nome de Pian Feng aparecia na tela. Shi levantou e foi até a cozinha enquanto ela atendia a chamada, a mão em punho bateu no balção e ele engoliu o nó doloroso que apertava sua garganta. Ele notou que a pausa fez bem a ela, era incapaz de imaginar quão doloroso era rememorar aqueles fatos e tudo que lhe passava pela cabeça naquele momento era socar Shuo Gang até seu punho ficar ensopado com o sangue dele.
Nunca gostou dele. Na verdade, ele sempre antipatizou com todos os filhos de Huo Yi — exceto Hu Bing que ele nunca conheceu e agora era inevitável nutrir certa simpatia por ele —, Shuo Gang fora o único a ficar ao lado do pai na empresa, os outros moravam no exterior. Pelo que sabia, Hu Bing era formado em direito com PhD em Havard. Ya Xing se formara em artes plásticas, mas não exercia, casara-se com uma mulher muito rica e rolavam rumores de ele ser sustentado por ela. Xin Jue era arquiteto e morava na Europa com a esposa e dois filhos. Lhe era inconcebível a razão de Yan Da continuar trabalhando na empresa do pai e se submetendo a Shuo Gang sendo tão inteligente e qualificada como era.
— Nós podemos ir. — Ela disse. — Pian ge está a nossa espera.
— Yan Da...
— Estou bem, não se preocupe.
Ela sorriu. Shi pegou todas as coisas e a ajudou a seguir até o elevador. Ela pensou que tinha sorte de ele não conhecê-la bem o suficiente para saber quando ela mentia, se fosse Pian Feng ou Hu Bing certamente seria exposta. De alguma forma inexplicável, o fato era desapontador também. Ele não fez quaisquer perguntas enquanto seguiam para seu apartamento, havia sempre aquele questionamento se o que ela estava fazendo era ou não um erro, mas já estava muito tarde para voltar atrás. Lhe intrigava que Shi se mostrasse tão calmo enquanto ouvia toda a história, contudo, Yan Da também lhe conhecia muito pouco para deduzir suas emoções daquela forma.
Logo que chegaram ao apartamento, Pian Feng praticamente voou em cima dela cercando-a para verificar cada milímetro dela. Yan Da soprou uma mecha de cabelo e segurou a mão dele entre as suas lançando-lhe um olhar firme.
— Pian ge, eu estava no apartamento de Ying Kong Shi e não na trincheira da guerra civil ou no porão do Conde Drácula.
— O que estava fazendo que parece tão cansada? — Quis saber. — Diz que vai comprar molho de soja e volta como se tivesse acabado de correr a grande muralha!
— Dou minha palavra que não toquei num único fio de cabelo dela. — Defendeu-se Shi.
— A sua palavra não anda com muito crédito no meu banco, Ying xiansheng. — Retrucou. — Não é como se fosse a primeira vez que você brinca com os sentimentos dela.
Ele se arrependeu na mesma hora que pronunciou as palavras. Tanto Yan Da quanto Shi o olharam com um misto de curiosidade e confusão.
— O que quer dizer com isso? — Ela quis saber.
— Suan le.* Falei por falar.
— Ya, xiōngdì*, essa é uma acusação um tanto séria e bem injusta, não acha? — Shi cruzou os braços. — Conheci Yan Da apenas a algumas semanas, quando fiz isso que me acusa de ter feito?
— Yan... Yan Da?! — Pian Feng quase não conseguiu se manter de pé. — Quando você começou a tratá-la de modo tão informal?
— Hao, hao, hao, hao. — Yan Da se adiantou antes que seu amigo tivesse uma síncope. — Eu dei permissão, sabe que eu detesto ser chamada de senhorita ou coisa do tipo. Jiejie nar?*
— Ainda no quarto. — Contou. — Não chegamos exatamente a um acordo.
Ela suspirou.
— Vou falar com ela, por favor, tentem não se matar na minha ausência.
— Não prometo nada. — Resmungou Pian Feng.
Assim que Yan Da desapareceu no corredor, o guerreiro da tribo do vento se virou para Shi com os olhos semicerrados, este o encarou de volta com um olhar desafiador.
— Por que a minha fadinha estava com aquela expressão tão abatida?
— Deng yixia!* — Shi apontou para ele. — Você mesmo disse que hoje era um dia difícil, por que está me acusando de ter feito alguma coisa? Eu não sou o vilão por aqui.
— Desde que você apareceu, minha fadinha só tem tido problemas.
— Ora, então eu sou o causador de todo azar da China por acaso? — Shi estalou a língua. — Veja bem, eu não sei por que você não gosta de mim, mas a única coisa que eu quero é ser amigo de Yan Da.
— Ying Kong Shi, nem você acredita mais nisso, então não tente me fazer de idiota. — Rebateu Pian Feng. — Nós dois sabemos que você não quer ser só amigo dela. Ninguém dá rosas a uma mulher como símbolo de amizade, a menos que seja uma amizade colorida. E pro seu bem é melhor nem sonhar com isso.
Shi sentiu o rosto queimar.
— Não sei o que eu fiz para você ter esse mau juízo a meu respeito, mas eu juro que não quero prejudicar a Yan Da.
— Pare de chamá-la pelo nome ou que Buda me ajude...
Shi não se conteve e soltou uma boa risada.
— Você parece uma mistura de pai ciumento com marido traído.
— Na ausência de Hu Bing shaoye* eu sou responsável pelo bem estar dela. Então me considere como alguém pior que um irmão mais velho superprotetor.
— Pian xiansheng, desde que nós temos o mesmo propósito, por que não fazemos uma trégua?
— Se você magoar a minha fadinha, seja de que forma for, eu juro Ying Kong Shi, nenhum de nós vai perdoar você e nem o inferno vai ser longe o suficiente para você se esconder.
※ ※ ※
Chao Ya estava colocando o segundo brinco quando Yan Da entrou no quarto. Ela havia tomado um longo banho e o quarto inteiro cheirava a jasmim e lichia, os belos cabelos da cantora estavam presos em um penteado elaborado e ela usava um elegante vestido rosa justo no busto e solto a partir da cintura. Linda como uma fada. Yan Da anuiu em aprovação e se aproximou para receber um abraço carinhoso da musicista, o rosto bem maquiado estava iluminado.
— Jie, você está linda! — Elogiou-a.
— Obrigada, meu anjinho. — Ela depositou um beijo no rosto de Yan Da. — Mas que olhinhos inchados são esses, esteve chorando?
— Claro que não. — Mentiu. — Pelo menos não mais que o necessário.
— Anjinho... sei como deve ser difícil lidar com a saudade, mas sei que Peng Yan não vai conseguir ter paz enquanto você não tiver também.
— É exatamente por saber desse sentimento que eu digo para esclarecer as coisas com Pian ge, jie... — Aconselhou. — A gente não sabe o que vai acontecer no próximo minuto, não deixe para quando for tarde demais.
— Já fui clara o bastante com o que sinto, anjinha, agora é ele que precisa decidir, não eu. — Suspirou. — Vamos, se você está aqui é porque o jantar está pronto.
— Vá na frente, preciso ligar para o doutor Huang.
— Por que, está sentindo dor? — Alarmou-se a cantora.
— Não se preocupe, jiejie, apenas quero perguntar algo a ele, estou me sentindo bem, só um pouco cansada. — Tranquilizou-a.
Chao Ya franziu o cenho e ajudou Yan Da a se acomodar sobre os travesseiros antes de deixá-la sozinha. Seu coração estava inquieto cheio de preocupações com a protegida. Tão logo se viu livre, a princesa do fogo discou o número do médico que atendeu no quarto toque.
— Huang Tuo falando.
— Doutor Huang? Yan Da.
— Oh, Meng xiaojie, espero que minha paciente favorita esteja bem.
Ela quase podia visualizar o sorriso do médico apenas pela voz.
— Sim, tudo em ordem. Apenas gostaria de perguntar ao senhor se posso fazer uma pequena viagem.
— Hmm, primeiro vamos parar com essa coisa de "senhor", eu não devo ter mais que dois anos acima de você, em segundo, de quão pequena estamos falando?
Yan Da deu uma risada baixa.
— Acho que mais ou menos quatorze horas. — Respondeu tentando fazer um cálculo aproximado. — Quero ir até Hunan.
— Faremos o seguinte, amanhã cedo passarei na sua casa para dar uma olhada em você, sua cicatrização estava correndo muito bem, se não estiver fazendo esforços desnecessários e tudo estiver em ordem, posso autorizar a viagem desde que não vá sozinha.
— Não irei, Ying xiansheng me acompanhará. — Informou.
— Oh, Ying Kong Shi irá com você? — O médico pareceu especialmente entusiasmado. — Ótimo, ótimo. Desse jeito fico mais tranquilo, ele foi um excelente enfermeiro quando você estava no hospital.
— Então nos vemos amanhã, obrigada doutor Huang.
— Não por isso, minha querida. Até amanhã e descanse bem.
Ela encerrou a chamada com certo entusiasmo. Queria terminar sua conversa com Shi em um lugar especial e, sobretudo, se os seus temores se concretizassem e ele decidisse mesmo ir embora ao descobrir o desfecho de Peng Peng, ela seria deixada sozinha em um lugar onde se sentia mais próxima do amigo falecido. O coração de Yan Da batia com força no peito e ela decidiu lavar o rosto e aplicar um pouco do creme hidratante de Chao Ya para iluminar mais sua pele antes de aparecer na sala onde seu convidado a esperava — se Pian Feng não o tivesse picado e colocado na salada antes, claro.
Ying Kong Shi — ainda com todos os membros visíveis no lugar — estava em uma conversa animada com Chao Ya, mal parecia que um dia aqueles dois haviam brigado como gato e rato na disputa de quem ficaria com ela no hospital. Ao contrário de Pian Feng, a cantora se mostrara mais solícita com o jovem herdeiro da ZhangYing. Ela foi até o agente da cantora na cozinha, ele terminava de enfeitar a última travessa e bateu na mão dela com leveza quando ela fez menção de levar o prato para a mesa.
— Sem peso para você. A única coisa que a senhorita vai levantar essa noite é o garfo até a boca, agora vá sentar.
Yan Da sorriu. Era graças a Pian Feng que não sentia tanta saudade de Hu Bing. Os anos que sucederam a mudança do irmão para Europa foram muito difíceis para ela, Yan Da se sentiu sozinha, desamparada. Completamente à mercê do pai e de Shuo Gang. Mesmo que tivesse Peng Peng, ele não podia protege-la dentro de casa como Hu Bing podia, então até comprar seu apartamento, ela viveu um pequeno inferno de medo e angústia. Foi bem quando achou que nada mais podia ficar pior, que conheceu Pian Feng. Tal como Peng Peng, ele enfrentou Shuo Gang sem medos e tomou para si a responsabilidade de cuidar dela, não tinha ideia de como as tentativas do irmão em feri-lo sempre eram frustradas, mas era grata aos céus por tê-lo em sua vida.
Shi havia acabado de levantar para acompanhar Chao Ya até a mesa quando seu celular apitou anunciando uma mensagem recebida. Pensando que podia ser Ka Suo, ele tirou o aparelho do bolso para ver, na tela de bloqueio, o nome de Huang Tuo aparecia com uma provocação que só ele poderia fazer:
From: 皇柝
(-。-;) Então vai viajar com a senhorita Meng e não avisa, shi bu shi?* Guarde os preservativos para outra ocasião, ela ainda não pode fazer atividades vigorosas. Comporte-se, xiao Ying.
Recivied 9:00pm
— Eu juro que vou arrancar sua cabeça!
No auge do rosto corado pelo conteúdo claramente cretino da mensagem do amigo, Shi mal se deu conta que havia gritado sua ameaça em voz alta quando bateu com o celular no sofá. Ao se virar, Yan Da, Pian Feng e Chao Ya estavam olhando para ele com uma mistura de choque e apreensão. Olhos arregalados, bocas abertas, parados como estátuas diante do visível ataque de fúria do convidado. Por um momento, Shi não soube como agir diante daquilo, a situação — quando vista de fora — podia parecer bem hilária, mas para ele, como artista principal, era bem desconfortável.
— Ying xiansheng... — Começou Chao Ya, balbuciando as palavras.
— Devo ligar para a polícia ou para o hospício? — Quis saber Pian Feng.
— Parem com isso, vocês dois. — Ralhou Yan Da quando passou o choque inicial. — Ying Kong Shi, aconteceu alguma coisa?
— Méishénme*, me desculpem. — Ele deu uma risadinha, sem jeito.
— Se não foi nada e você quer arrancar a cabeça de alguém o que faz quando é alguma coisa? — Alfinetou Pian Feng colocando a travessa sobre a mesa.
O constrangimento, entretanto, foi contornado rapidamente por Yan Da que direcionou o assunto para outro tema, ajudada por Chao Ya quando conseguiu parar de olhar Shi como um assassino em potencial. Ele ficou preocupado com a própria reação diante de Yan Da, agora sabia do histórico dela com homens violentos e a última coisa que queria era fazê-la acreditar que era um deles, a qualquer momento capaz de se tornar um animal. Esclareceria aquilo com ela na primeira oportunidade.
Afora o estranho clima entre Chao Ya e Pian Feng, os quais evitavam falar entre si mais que o básico, o jantar correu muito bem, enveredaram em conversas leves, Shi perguntou um pouco mais sobre o trabalho de Chao Ya e explicou melhor a Yan Da sobre suas funções na empresa. Ele ainda respondeu alguns questionamentos de Pian Feng sobre sua família, relacionamentos anteriores — que eram, praticamente, inexistentes visto que ele não se interessava pelo assunto — e hábitos diários. Yan Da ralhou com o amigo por parecer um pai ciumento, mas este não lhe deu ouvidos e Shi não parecia desconfortável em tirar todas as nuvens de preocupação da cabeça do amigo. Chegava a ser engraçado eles agirem como se os dois fossem um potencial casal quando a própria Yan Da nem cogitava a ideia.
Terminada a refeição, Pian Feng se despediu de Yan Da com um beijo na cabeça e advertências para ela ligar ao menor sinal de "problemas". Chao Ya ainda ficou conversando com os remanescentes por alguns minutos, mas percebendo um certo clima — e aproveitando a oportunidade — se retirou sob a desculpa do "sono reparador". O silêncio imperou por alguns instantes até que Shi se apressou em corrigir seu comportamento de mais cedo.
— Ah, sobre o que eu disse mais cedo... era uma promessa vazia. — Adiantou, as palavras saindo um pouco atropeladas. — Eu nunca machucaria uma pessoa intencionalmente, Yan Da, lhe dou minha palavra.
Yan Da deu uma leve risada.
— Estava preocupado que eu te achasse um troglodita?
— Na verdade, muito. — Admitiu e ela deu uma sonora gargalhada.
— Está aí algo difícil de ser feito em um dia como hoje, rir. — Ela secou as lágrimas provocadas pelo riso. — Obrigada por isso.
— Tenho uma ideia do quão difícil deve ser esse dia para você. Depois de tudo que me falou.
— Sabe uma coisa interessante? Não importa o que aconteça, todos os anos chove no aniversário de morte do Peng Peng... — Ela colocou as pernas cruzadas sobre o sofá e apoiou os braços em uma almofada. — Talvez seja por isso que fico deprimida em dias cinzentos como este.
— Fico feliz que possa aliviar um pouco esse peso sobre você. — Ele sorriu.
— Amanhã o doutor Huang virá me ver, se tudo correr bem, estaria okay para você sair às nove horas? — Indagou. — Sinto muito não poder dividir a direção com você, são quatorze horas até Hunan.
— Não se preocupe com isso, vou descansar bem o suficiente para cuidar de tudo que for preciso.
— Obrigada, Ying Kong Shi. Por tudo hoje.
— Foi um prazer.
Ele ajudou-a a ir até o quarto certificando-se várias vezes de que não precisava de mais nada antes de ir embora sob a promessa de estar pronto na hora aprazada. Porém, naquela noite Shi mal conseguiu dormir dominado pela ansiedade e o turbilhão de pensamentos sobre o que ouvira de Yan Da naquele dia inteiro. Algo que lhe incomodava bastante era a forma como ela descrevia Peng Yan, ele era praticamente perfeito e Shi não tinha certeza se aquilo era consequência do olhar de Yan Da ou se correspondia com a verdade dos fatos. Como ele poderia competir com alguém assim?
Colocando o travesseiro sobre o rosto ele fechou os olhos e tentou não pensar.
Notas:
*Suan le [算了] — esquece
*Ya [呀] — como interjeição, isso pode ser traduzido como "Ei", "Espere aí", mas o ideograma em si significa "sim".
*xiōngdì [兄弟] — essa palavra significa "irmão mais novo", mas sem relação sanguínea. Era mais usada na China imperial e é muito comum em dramas de fantasia. Aqui, Shi usa com sarcasmo uma vez que ele é mais novo que Pian Feng e isso pode soar rude.
*Nar [哪儿] — é a forma coloquial de nali [哪里] que significa "onde", falando corretamente, seria "jiejie zai nali?" [姐姐在哪里?] há também a variação "jiejie zai nar?" [姐姐在哪儿?] nesse caso o zai [在] "estar" pode ser omitido. Então, traduzindo de forma simples ela perguntou "cadê a minha irmã" que no caso se refere a Chao Ya.
*Deng yixia [等一下!] — de um modo geral seria "espere", mas funciona como "Calma aí" "Espera aí" "Alto lá", numa tradução livre.
*Shaoye [少爷] — jovem mestre
*Shi bu shi? [是不是?] — seria o nosso "né". Essa expressão é aquela famosa question tag "não é?", mas também funciona como "não é mesmo?", "Não é verdade?" dependendo do contexto.
*Meishenme [没什么] — Não é nada
Fale com o autor