Love as Sakura | 爱如樱

34 Capítulo Especial [Parte II]: Uma promessa para seu túmulo


Dez meses depois...

O crepúsculo tingia o céu de tons pastéis em uma dança silenciosa naquele dia que findava. Hu Bing chegou em casa após cuidar dos papéis de transferência do seu curso, e da matrícula que havia feito para a irmã meses atrás, para Xangai, pensava que se tirasse Yan Da daquele lugar onde haviam tantas recordações, a irmã conseguisse se recuperar um pouco mais depressa, todavia, restava a certeza da memória inesquecível, da saudade inescapável e da ferida aberta que provavelmente nunca cicatrizaria.

Quando parou no genkan* já pôde avistá-la através das portas corrediças de vidro que levava à sua varanda. Como fazia quase todo o tempo, Yan Da fitava o céu, taciturna, mergulhada em seu mutismo meditativo. Desde que saíra da clínica, a única coisa que a irmã falara fora a pergunta sobre Peng Yan e, nesse momento, ele foi forçado a lhe contar sobre o funeral. Ela ouviu tudo sem dizer nada, chorou quieta e anuiu retirando-se para seu quarto e ficando trancada lá por três dias, sem sair, sem comer, sempre olhando o céu pela janela como se esperasse ver a imagem do melhor amigo refletida entre as nuvens.

As sessões de terapia começaram uma semana após a alta, como Yan Da se recusava a deixar o apartamento, Hu Bing pagava a mais para a psicóloga vir vê-la em domicílio duas vezes por semana. Porém, não havia progressos. A irmã continuava presa a uma mudez contemplativa, catatônica, e ele ficava cada dia mais preocupado. As feridas psicológicas remanescentes permaneciam presas dentro dela, Yan Da nunca lhe contara o horror daqueles dias de cativeiro ou voltara a acusar Shuo Gang do ocorrido.

Como começava a esfriar, ele pegou uma manta em seu quarto e saiu até a varanda, colocando-a sobre os ombros da irmã com delicadeza. Beijou o topo da cabeça de Yan Da e puxou uma cadeira para sentar ao seu lado, a princípio, em completo silêncio. Hu Bing respeitava o tempo da irmã, não queria força-la ou pressioná-la a reagir, esperaria que o fizesse de acordo com sua própria vontade e, nesse momento, ele estaria disposto a ouvi-la.

— Vamos nos mudar para Xangai. — Anunciou ele, após longo tempo. — Transferi meu curso para lá e a sua matrícula na faculdade também. Claro que você não precisa ir agora, pode levar o tempo que precisar até se sentir pronta. Eu só quero, xiao Yan, que você fique bem, mesmo sabendo que é quase impossível superar a dor aí dentro.

Yan Da não respondeu, apenas anuiu levemente e continuou olhando o céu, entorpecida. Hu Bing sentiu o coração se partir em milhões de pedaços, será que um dia conseguiria ver o sorriso da irmã outra vez? Ele não sabia mais como fazê-la entender que não tinha culpa em nada do que aconteceu com o melhor amigo, vê-la definhar daquela maneira o estava destruindo. Em quase um ano, Yan Da emagrecera muito, a pele perdera o viço deixando-a com uma aparência tétrica que lhe remetia a imagem de sua mãe em seus dias finais.

Partir para Xangai era a última esperança que ele nutria de fazê-la reagir, não importava de que tivesse de abdicar, Hu Bing se recusava a internar a irmã como lhe fora recomendado, abandonar Yan Da só pioraria as coisas e contrariava sua própria consciência. Ele ficaria ao lado dela enquanto ela precisasse.

— Eu quero vê-lo. — A voz dela era quase inaudível e surpreendeu o irmão que a fitou em um misto de euforia e incredulidade. — Gege, me leve até ele.

Dangran.* — Hu Bing anuiu, os olhos marejados quando segurou a mão da irmã. — Gege huì dài nǐ qù.*

Ela anuiu com um gesto vagaroso, ele se aproximou e a abraçou, Yan Da encostou a cabeça no seu peito e, mesmo desejando, ele se deteve em apertar os braços em volta dela, a irmã parecia tão frágil que ele temia machuca-la. Nos últimos meses suportando a sua condição crítica no hospital, o pânico constante e a instabilidade emocional, as noites insones em que ela acordava gritando, assombrada pelos pesadelos, pálida e trêmula de terror, o mutismo constante e a apatia que deteriorava seu espírito, poder ouvir a voz dela naquele momento, aquele pequeno passo, dava a Hu Bing uma esperança e felicidade inexprimíveis. Ele depositou um beijo no topo da cabeça dela.

— Obrigado, minha menina... obrigado por voltar pra mim.

Ficara acordado que ele a levaria até o túmulo de Peng Yan na tarde do dia seguinte, os últimos ajustes das suas transferências levaria pelo menos mais duas semanas para ficar pronto, ele queria partir o quanto antes. Aquela pequena mostra de evolução no quadro da irmã era animador, ela comeu alguma coisa no jantar, não muito, mas o suficiente para ele sentir-se encorajado, era como se a irmã lhe dissesse, sem palavras, que não ia desistir.

No começo, após ela acordar no hospital, Hu Bing chegou a pensar que Yan Da poderia tentar se matar. Nos primeiros meses ele ficou vigilante, sempre lhe fazendo companhia e, quando precisava se ausentar, confiando-a aos cuidados maternais de Peipei. Mas conforme o estado catatônico da irmã piorava com o passar dos dias, ele percebeu que ela não tinha forças ou intenção de se matar, Yan Da já estava morrendo por dentro, lentamente e da forma mais dolorosa possível. Assim, naquele dia, para ele era como se ela tivesse renascido das cinzas e garantiria que se erguesse triunfal sobre aqueles que a feriram.

Foi com esse pensamento que ele adormeceu. Era madrugada quando o grito de Yan Da cortou o silêncio ecoando pelas paredes do apartamento. Assustado, ele afastou as cobertas e correu até o quarto da irmã, acendeu o abajur sobre o criado mudo e segurou-lhe as mãos, uma camada de suor cobria todo o rosto de Yan Da, ela revirava-se aflita presa no pesadelo daqueles malditos dias. Com cuidado, Hu Bing a ergueu pelo tronco, abraçando-a protetoramente e chamando seu nome repetidas vezes. Ela chorou quando a realidade a atingiu e apertou-o com toda a sua força.

— Está tudo bem agora... — Disse ele, afagando seus cabelos. — Vai ficar tudo bem, minha menina, eu estou aqui.

Yan Da segurava a camisa que ele vestia com tanta força que os nós dos seus dedos ficavam brancos, o corpo inteiro tremia violentamente e Hu Bing continuava a confortá-la com carinho e paciência. Quando ela se acalmou mais um pouco, ele lhe serviu um copo com água e deitou-se ao seu lado, puxando-a para seus braços.

— Durma agora, não vou sair daqui, prometo. — Beijou-lhe a testa.

Ela anuiu aconchegando-se no abraço do irmão, levou algum tempo até conseguir adormecer outra vez, ele desejou poder arrancar aquela dor dela para si, suportaria qualquer provação para vê-la feliz outra vez, se houvesse uma maneira de trocar de lugar com Peng Yan, ele o faria de bom grado apenas para ver Yan Da sorrir. Por que a vida insistia em ser tão injusta daquela forma com a irmã? Olhando para ela, finalmente adormecida, Hu Bing suspirou.

— Vou encontrar quem fez isso com vocês, Yan Da, eu prometo. — Sussurrou. — Eles vão pagar pelo crime que cometeram.

※※※

Para deleite de Hu Bing, Yan Da comeu algumas torradas com geleia no café da manhã. Apesar de ainda não estar muito comunicativa, pelo menos passara a responder as suas perguntas e lhe agradeceu por ter ficado com ela na noite anterior. Ele temia força-la de maneira indireta e por isso era sempre cauteloso com as observações que fazia acerca do seu progresso.

À tarde, como acordado, ele a levou até o cemitério. Ela usava um vestido preto simples e comprara um buquê de lírios brancos representando a pureza de alma e a ingenuidade juvenil de seu melhor amigo. Pensara que ela não conseguia mais chorar por Peng Yan, mas Yan Da foi sacudida por um pranto desolador diante do túmulo dele, mesmo desejando abraça-la, Hu Bing se manteve afastado, nada do que dissesse diminuiria a dor que ela sentia e ela precisava daquele momento de privacidade com ele.

Diante da lápide do melhor amigo, era como se o peso da realidade de sua morte lhe esbofeteasse. Yan Da ergueu a mão para tocar os ideogramas do nome de Peng Peng na pedra escura, seu coração comprimia-se dolorosamente no peito e respirar era difícil. Não importava de que ângulo olhasse, era incapaz de isentar-se da culpa que o levara àquele fim tão cruel. Depositou o buquê de lírios sobre o túmulo, as lágrimas fluindo como um rio turbulento pelo seu rosto e em sua alma.

— Peng Peng... me perdoe. — Implorou. — Eu sinto muito. Não queria que tivesse acabado assim. Eu amo tanto você, não sei por que nunca te disse... Prometo a você que farei Shuo Gang pagar pelo que te fez, não importa se levar toda a minha vida, eu vou destruí-lo!

Ela fez uma pausa, os soluços sacudindo seu corpo, as mãos em punho sobre o túmulo do melhor amigo, o coração rasgando dentro do peito.

— Você me fez prometer que recomeçaria minha vida, mas nunca me advertiu como era difícil viver sem você e isso é muito injusto. — Engasgou com as lágrimas. — Peng Peng... uma parte de mim está enterrada com você, mas essa outra parte que me resta vai viver para lhe dar justiça. Não sei se um dia vou conseguir ser feliz outra vez, mas vou cumprir sua vontade, vou viver e nunca vou esquecer você.

Quando ela se virou, Hu Bing estava parado a alguns metros observando-a com um olhar preocupado. Yan Da caminhou até ele e o abraçou agradecida por toda paciência e carinho que ele lhe dedicara no meio do pandemônio que se tornara sua vida. O irmão era a âncora que a mantinha presa à sanidade, seu protetor e a única família que lhe restara, não havia mais ninguém com quem Yan Da pudesse contar ou em quem pudesse confiar. Sem Hu Bing, ela não teria conseguido cumprir o pedido de Peng Yan.

Por vezes, desde que acordara no hospital, a princesa do fogo pensou em findar sua vida. Respirar em um mundo sem Peng Peng era pior que qualquer morte, especialmente pela culpa que lhe oprimia ao saber as circunstâncias que levaram à morte do amigo. Todavia, em meio à névoa de desespero, dor e angústia suprema, ela contava com o carinho e a companhia do irmão. Cada momento que se sentia afundar na escuridão, Hu Bing era a luz que mantinha Yan Da caminhando dentro do túnel. Ele lhe fizera recordar, indiretamente, a promessa que Peng Peng lhe pedira antes de fechar os olhos para o mundo.

Havia apenas duas convicções no coração dela: a de que vingaria o melhor amigo fazendo Shuo Gang apodrecer — pela lei ou por fora dela — e a de que nunca se permitiria guiar por aquele tipo de sentimento de novo. O amor era algo perigoso que incapacitava as pessoas e as destruía. Era um veículo usado contra ela, minando seu raciocínio e se tornando uma fraqueza que a encheria de culpa e solidão.

Amparada pelo irmão, ela deixou o cemitério, a cidade e toda a certeza de que seu destino estava prestes a acontecer.

※※※

— Deixar você está fora de questão!

Hu Bing objetou tão logo ouviu o que a irmã havia falado. Após chegarem em Xangai, Yan Da mostrava uma melhora mais significativa, contudo, ele percebia que o fazia mais para conforto dele do que por estar melhor de fato. Ele podia ouvi-la chorando todas as noites até dormir, os pesadelos ainda a assombravam e mesmo as agulhas de costura que Peipei usava precisavam ser escondidas, pois ela tinha um ataque de pânico sempre que as via. Como Hu Bing podia apenas ir embora e deixá-la sozinha daquela forma?

— Vai abandonar seu futuro por minha causa? — Contrapôs. — Preciso mais do que nunca de você, gege, se torne o juiz que nasceu para ser, por você, por mim.

— Vou fazer isso, mas apenas quando tiver certeza que você está bem para ficar sozinha.

— Peipei está aqui.

— Yan Da, não me trate como uma criança. — Resmungou. — Você pode pensar que eu não vejo que está sofrendo, mas eu vejo. Se eu for embora agora, quem vai cuidar de você? Peipei pode fazer sua comida e manter a casa limpa, mas ela não é sua família e está muito perto da idade de descansar.

Logo ela começaria o primeiro semestre da faculdade, mais do que nunca Hu Bing queria ficar ao seu lado, garantir que ela conseguia lidar com aquilo. A morte de Peng Yan e todo o pesadelo que vivera ainda era muito recente, não tinha sequer dois meses desde que ela voltara a falar, ele entendia sua pressa em levar justiça ao melhor amigo, mas no cenário atual as vantagens que tinham eram praticamente inexistentes. Shuo Gang ainda estava levando a melhor.

— O que você vai fazer? — Quis saber ele. — A faculdade não vai levar a vida inteira, o que tem em mente depois.

— Vou voltar para casa. — Anunciou. — Trabalharei na Huo Enterprises.

— O quê? — A incredulidade tomou conta de Hu Bing. — Que tipo de ideia é essa? O último lugar onde eu vou ficar tranquilo em te deixar é na empresa do pai!

— Preciso reunir provas contra Shuo Gang. — Explicou ela. — Gege, não temos nada além da abotoadura. Ninguém comete crimes perfeitos, especialmente Shuo Gang cujo cérebro para estratégias é diminuído. Há alguém por trás dele, precisamos descobrir quem é.

— Yan Da...

— Sei que está preocupado. — Interrompeu-o, segurando suas mãos ela o olhou diretamente. — Mas você é a única pessoa que eu tenho, gege... enquanto estiver fora, faça uma busca pelo dinheiro. Ninguém esconde dez milhões de dólares facilmente. Tem de haver falhas, elas podem só ser inacessíveis para a polícia, mas não para nós. Se é algo dentro da família, somos capazes de descobrir.

Era um bom argumento, ele sabia, mas independente da forma como encarasse a situação sentia que a estaria abandonando se aceitasse. Ela ainda estava tão frágil... se ao menos houvesse alguém para cuidar dela, alguém em quem ele confiasse completamente. Yan Da não tinha amigos, o único que tivera fora arrancado dela de maneira brutal. Ele temia ir embora e ela desmoronar.

— Dois meses. — Negociou. — Em dois meses se eu conseguir estabelecer você aceito o acordo.

— Justo. — Anuiu.

Ele estava nos semestres finais de direito, ela sugeriu a ele fazer um mestrado e um doutorado fora do país. Hu Bing sempre pretendeu aquilo, aspirava ser um juiz, mas no momento sua prioridade era cuidar da irmã. Observaria se ela progrediria mais naqueles dois meses, caso sentisse segurança o bastante para tal, tão logo se formasse viajaria para Massachusetts onde se submeteria a um exame de admissão em Harvard.

※※※

Peipei olhou o patrão caminhando de um lado para o outro na sala de estar segurando o celular na mão, daquele ângulo ele parecia muito com um pai preocupado e, de fato, Hu Bing sempre agira como o pai que Huo Yi nunca foi. Ela vira todos os filhos da família Meng crescerem, mas de todos Hu Bing e Yan Da eram os únicos que considerava e amava como seus próprios filhos.

Àquela hora tardia ela já estaria descansando seus velhos ossos sobre a cama macia do seu quarto, mas vendo a angústia de seu menino não se sentia capaz de deixá-lo sozinho. O motivo da sua inquietação era a demora da irmã em voltar para casa.

Era a recepção de calouros da universidade e Yan Da, sua tímida e deprimida menina, teria de ir à festa oferecida por seus veteranos, Hu Bing achava a ideia positiva, proporcionaria à irmã a chance de se aproximar de pessoas após um ano em praticamente reclusão total. Entretanto, a festa aconteceria em um bar e Yan Da não sabia beber uma vez que não era seu costume. Por causa de sua pele, da qual sempre cuidou, ela evitava álcool e sempre controlava com rigor seu consumo de açúcar.

Por saber que ele ficaria preocupado, ela lhe prometera que voltaria para casa às 23h dando uma desculpa aos veteranos já que esse tipo de festa costumava acabar tarde. Contudo, já eram duas da manhã e ela ainda não havia chegado e nem atendia o celular. Servindo o chá em uma xícara, Peipei caminhou até o patrão e lhe ofereceu a bebida na tentativa de ajudar a acalmar seus nervos.

— Não fique tão aflito, jovem mestre, talvez ela tenha conhecido alguma nova amiga e conseguido aproveitar a festa.

— Peipei, você conhece Yan Da tão bem ou melhor que eu, sabe que ela não faz amigos com essa facilidade, especialmente com a morte de Peng Yan ainda tão recente. — Retrucou bebericando o chá e tentando telefonar para a irmã de novo. — Vou atrás dela.

— Isso será problemático se ela chegar em casa e não o encontrar, não se aflija, se algo tivesse acontecido você já estaria sabendo.

Ele sabia que ela estava certa, ainda assim era inevitável se preocupar, se alguma coisa acontecesse à irmã ele não suportaria. Hu Bing era consciente que precisava deixar Yan Da caminhar com as próprias pernas, seguir o próprio caminho, mas era-lhe impossível não ser super protetor, especialmente quando ela ainda estava tão frágil — e se empenhava com afinco em aparentar força.

Tentou ligar outra vez, se ela não atendesse iria atrás dela. O bar onde a recepção estava acontecendo não era muito longe do condomínio onde moravam, cerca de uma hora de carro se o trânsito estivesse bom. "O número chamado está desligado ou fora da área, por favor, tente novamente..." Suspirou. Seu coração apertou no peito e a cabeça pintou todos os piores cenários possíveis, será que ela havia sucumbido à dor, desistido de viver e tentara algo contra si? Não podia ser. Não depois de todo esse tempo. Não quando finalmente mostrara um avanço significativo.

Ele pegou o controle do carro e estava prestes a sair quando o celular tocou e a foto da irmã aparecera no display. Um alívio profundo tomou conta de Hu Bing quando rapidamente atendeu.

Xiao Yan, onde você está? Eu te liguei tantas vezes, o que aconteceu?

Hmm... olá, você deve ser "Gege", estou certo? — A voz do outro lado perguntou e Hu Bing sentiu um arrepio subir pela sua espinha. — Sua irmã está bem, apenas ficou muito bêbada, não tive escolha a não ser cuidar dela, meu nome é Pian Feng, sou um veterano do curso de Administração. Poderia, por favor, vir busca-la? Enviarei o endereço por mensagem.

— Oh, sim, faça isso, por favor, estou indo imediatamente. — Prontificou-se.

Obrigado, explicarei os detalhes pessoalmente.

Sem esperar ele completar a frase ou dar explicações para Peipei, Hu Bing apenas disparou para fora do apartamento e, correndo, desceu até a garagem do condomínio. No carro, digitou o endereço no GPS, não era muito longe de onde estava, ele reconheceu como um prédio próximo à universidade onde ofereciam apartamentos para estudantes mais bem de vida que não queriam ficar nos dormitórios compartilhados da faculdade. Por dentro, ele rezava que o homem que falou com ele fosse realmente uma boa pessoa e não tivesse feito nada contra sua irmã ou Hu Bing definitivamente morreria — não sem antes mata-lo antes, claro.

Levou trinta e cinco minutos para chegar ao lugar, era um prédio elegante com boa segurança e um jardim bem cuidado. Hu Bing se identificou na guarita e, após uma rápida chamada do vigia, recebeu permissão para subir. Ele tomou o elevador para o terceiro andar e bateu a porta do apartamento número 36, um jovem na casa dos vinte e quatro anos, alto, cabelos curtos e escuros e olhos afiados o recebeu com uma expressão séria. Ele ainda vestia o uniforme da faculdade que permanecia quase impecável não fosse a enorme mancha de vômito sobre ele.

— Ah, isso — o rapaz seguiu o olhar dele — se ela tivesse me dito que não podia beber eu certamente a teria mandado para casa.

— Sinto muito. — Desculpou-se. — Como ela está?

— Bem, tive um problema com ela no bar, alguns clientes que não eram da faculdade tentaram tirar proveito dela que mal conseguia reconhecer a diferença entre uma 20 jiao e 100 yuans.* — Explicou. — Houve uma briga e, como ela chorava muito e mal conseguia ficar em pé, achei melhor tirá-la de lá antes que a situação ficasse mais difícil.

Enquanto falava, ele guiava Hu Bing pelo apartamento até um quarto de hóspedes que ficava em um pequeno corredor. Yan Da estava dormindo pesadamente, usava uma camisa preta masculina e ao ver aquilo ele olhou para Pian Feng com desconfiança.

— Ei, pare de pensar perversões. — Disse o jovem em tom de advertência. — A blusa dela está na máquina de lavar, ela vomitou toda. Não toquei nela, ela se vestiu sozinha. Não sou nenhum tarado, se é do que está com medo. Se eu quisesse fazer algo com ela não teria ligado para você, pra começar.

— Por que não me atendeu, então?

— Se visse o estado em que ela estava ia saber. — Retrucou, irritado. — Além de vomitar a comida da semana inteira, ela estava chorando incontrolavelmente por um tal de Peng Peng. Levou uma eternidade para conseguir que ela se acalmasse e vestisse uma camisa limpa. Nem tive tempo de me trocar! E vômito não é minha marca favorita de perfume.

— Tudo bem, tudo bem, desculpe...

— Sei como é isso, tenho irmãs. — Tranquilizou-o. — Só cuidei dela como minha caloura, nada além disso. Ela é da idade da minha irmã.

— Obrigado, vou pagar pela sua camisa.

— Não precisa. Vou lavar e ficará tudo bem. Além do mais, tenho outros uniformes. — Dispensou. — Jamais iria gostar que minha irmã passasse por isso, então não quero o mesmo para minhas calouras.

Hu Bing gostou de Pian Feng, ele parecia o tipo de pessoa descomplicada com quem ele gostava de lidar e, julgando o estado da irmã, nada do que ele disse parecia mentira. Ele se ofereceu para levar Yan Da até o carro e, antes disso, entregou a ele a blusa dela já lavada. Além de detalhar os fatos, Pian Feng não fez quaisquer perguntas sobre Peng Peng ou a razão de sua caloura estar às lágrimas. Ele deixou o seu número com Hu Bing e pediu que falasse a Yan Da para procura-lo se precisasse de alguma coisa na faculdade, algo que o irmão dela agradeceu profundamente.

Como era de esperar, ele pediu a alguém que investigasse o jovem que ajudou sua irmã, não porque desconfiasse dele, mas queria ter certeza de não haver qualquer tipo de conexão com Shuo Gang. O próprio Pian Feng parecia esperar por isso uma vez que forneceu seu número de telefone e nome completo, além de sua cidade natal. O resultado da investigação mostrou que ele era um jovem de classe média, tinha uma irmã da idade de Yan Da que estudava em Hubei onde a família residia. Estava no penúltimo ano de curso e trabalhava para uma agência de idols.

Eles mantiveram contato, inicialmente, Hu Bing usou a desculpa de querer saber acerca do desempenho da irmã naquele primeiro ano de curso, se ainda estava taciturna e como era sua interação com os demais nos momentos em que ele a via. Descobriu que Pian Feng era, como ele, alguém muito protetor e parecia estimar sinceramente Yan Da, principalmente após o desconfortável ocorrido na recepção dos calouros. Os dois haviam se aproximado e, mesmo com algumas reservas, ela demonstrava admiração e carinho por ele.

Um ano depois, o primogênito da família Meng se preparava para viajar.

Yan Da estava não apenas orgulhosa do irmão, mas nutria esperanças que o irmão conseguiria ir mais longe e, de sua parte, ela se dedicaria a buscar pistas para auxiliá-lo. Contudo, antes que ele partisse, havia algumas coisas a serem acordadas.

— Ansioso? — Indagou entrando no quarto dele enquanto Hu Bing lia um folheto da faculdade.

— Estou mais ansioso por deixar você sozinha. — Admitiu. — Tem certeza que vai ficar bem? Shuo Gang...

— Ei, eu posso lidar com isso. — Garantiu. — E não estou sozinha, tenho Pian Feng aqui também, o guarda-costas pessoalmente escolhido por você.

Ele sorriu para ela, acariciando seu rosto. Yan Da teria um longo caminho pela frente, no seu coração as feridas abertas ainda sangravam e o medo espreitava cada passo que ela dava, mas ela havia conseguido se conectar com Pian Feng e também havia feito uma amiga, uma aspirante a cantora chamada Chao Ya. Mesmo que eles não pudessem fechar o buraco que Peng Yan deixou em seu peito, ele confiava que podiam amenizar os efeitos da falta. Era essa a única razão para ele ter decidido cumprir a vontade dela.

Gege... há algo mais que preciso lhe pedir. — Ele percebeu que ela soava apreensiva.

— Diga, você sabe que eu sou capaz de qualquer coisa por você. — Apertou as mãos dela entre as suas.

— Quando me formar vou voltar para casa. Não vou morar na mansão de novo, vou voltar para nosso apartamento, mas de alguma forma estarei a mercê de Shuo Gang de novo e nossa melhor arma contra ele é a ignorância dele quanto ao nosso plano.

— Onde está querendo chegar? — Ele franziu o cenho.

— Sei que você vai ter sucesso na sua carreira. — Lágrimas encheram os olhos de Yan Da nesse momento. — Ninguém é mais capaz que você. Então, quando sair por aquela porta, não olhe para trás. Não entre em contato comigo diretamente. Não telefone. Não faça nada que permita a Shuo Gang descobrir alguma pista do que estamos fazendo.

— Como eu poderia fazer uma coisa dessas, Yan Da? É absurdo. — Ele a puxou para um abraço apertado. — Não há como eu estar do outro lado do mundo sem saber notícias suas, como vamos trocar informações?

— Pensei nisso... Pian Feng me ajudou a criar um código alfabético para codificar apenas mensagens muito importantes que precisemos trocar. De resto, acho mais seguro não mantermos contato até termos o que queremos, então... se você voltar para casa...

— Claro que eu vou voltar. — Ele beijou a testa dela. — Não vou deixar você, nunca.

— Bem, quando você voltar para casa, poderemos unir o que descobrimos e julgá-lo. Chao Ya e Pian Feng podem enviar notícias nossas para o outro, mas seja cauteloso com as mensagens, não há garantias que, estando próximos a mim, Shuo Gang não tente monitorá-los também.

— Não gosto disso. — Protestou ele. — Você é tudo que eu tenho, vou me sentir negligente agindo assim.

— Só penso na sua segurança... não sei até onde se estende a rede dele, nem mesmo quem é a pessoa por trás disso tudo ou onde ela está. — Explicou Yan Da. — Se ele achar que você me abandonou ficará seguro, fora de suspeita. Mas eu vou saber que não é verdade e vou sentir sua falta, todos os dias.

— Eu também, minha menina. — Ele a apertou com um pouco mais de força. — Seus termos são muito cruéis, mas tem alguma lógica.

— Vou ficar forte, gege, prometo. Vou vingar Peng Peng e destruir Shuo Gang não importa o preço.

— Yan Da, lembre-se sempre, você é aquilo que eu tenho de mais valioso, eu amo você com todo meu coração e quando tudo isso acabar, vou trazer justiça para você e para Peng Yan. Eu prometo.

— Também te amo, gege, muito. Não vou decepcionar você.

Eles ficaram abraçados ali por longo tempo. Yan Da usaria o que aprendeu com Peng Yan para seguir em frente em busca de justiça, ela confiaria nos laços que se formaram à sua volta, confiaria no seu irmão. Procuraria dentro de si a força de sobreviver a cada dia na busca incessante de, um dia, poder respirar livremente sem a sombra do medo e da dor pairando sobre sua alma. Hu Bing, por sua vez, moveria céus e inferno para cumprir a promessa que fizera à irmã. Não importava quanto tempo passasse ou quanto demorasse, ele levaria Shuo Gang e quem mais estivesse por trás dele à justiça.

A guerra estava declarada e os soldados prontos para lutar.

Notas:

Genkan (玄関) é a área de entrada tradicional para casas e prédios japoneses constituída de uma varanda, ou uma sala, com um tapete onde deve-se retirar os sapatos. A função principal do genkan é evitar que as sujeiras da rua que ficaram no sapato entrem dentro da casa, ou qualquer edifício.

*Dangran [当然] — Claro

* Gege huì dài nǐ qù [哥哥会带你去] — Apesar de ele falar na Terceira pessoa, em tradução livre seria "eu te levarei lá."

*Jiao [角] e yuan [元] — são unidades monetárias chinesas.