Love as Sakura | 爱如樱
35 第31章 Sonho sem fim
Ka Suo estava sentado na mesma cadeira onde passara a noite anterior em sua vigília ao inquieto irmão. Se Shi ocasionalmente não se mexesse, pronunciando palavras incompreensíveis, o rei do gelo chegaria a crer que ele estava morto.
Durante a noite, tocando a fronte do irmão, ele notou que a temperatura de seu corpo despencava como se ele estivesse sofrendo hipotermia, lágrimas escorriam por suas têmporas em seu sono angustiante e perturbado. Vendo-o daquela maneira não havia como não se arrepender da decisão que tomara, entretanto, era uma situação extrema que pedia medidas extremas.
— Yan Da... — Chamou ele. — Yan Da...
Ka Suo franziu o cenho. Até então, Shi só murmurava coisas sem nexo, era a primeira vez que sua voz soava clara. Era-lhe frustrante não ser capaz de acompanhar o processo do irmão como Xing Jiu e Huang Tuo, ele se aproximou da cama e segurou a mão gélida de Shi entre as suas, todos eles experimentavam uma dor excruciante quando recobrava a memória de quem foram e da vida que tiveram, mas ninguém sofreria uma dor tão pungente quanto o jovem príncipe do gelo cuja alma carregava pesados pecados.
Sobre o criado mudo o cubo dos sonhos brilhava em uma oscilante mistura de branco e vermelho, a respiração do jovem príncipe tornava-se difícil e Ka Suo engoliu as próprias lágrimas, tinha consciência de não poder — nem dever — interromper o processo uma vez iniciado. O som da trava de segurança eletrônica chamou sua atenção, permaneceu imóvel e preparado à espera do convidado, pela essência mágica já sabia de quem se tratava e não demorou muito para Huang Tuo aparecer no quarto, trazia consigo uma expressão neutra pouco usual dado seu espírito sempre brilhante.
— Chao Ya acordou, achei que gostaria de saber. — Anunciou ele. — Vim ver sua alteza.
— Quem ficou com ela? Pian Feng?
— Ele chegou essa manhã, mas Liao Jian já estava lá. — Fez uma careta. — Saí antes que ficasse desconfortável.
— Iremos até lá em seguida. — Anuiu o monarca.
— Como ele está?
— Passou uma noite muito inquieta. — Suspirou. — Tem chorado muito também e hoje... ele chamou pela princesa. Um pouco antes de você chegar?
Os olhos de Huang Tuo esgazearam enquanto ele se aproximava da cama e tomava o pulso de Shi, o curandeiro notou a queda da temperatura e assentiu com o coração apertado. Colocando dois dedos na testa do príncipe concentrando seu poder, fechou os olhos e Ka Suo viu quando o rosto do irmão tornou-se sereno e ele pareceu ficar tranquilo. O médico, contudo, tinha uma fina camada de suor cobrindo o rosto e parecia exausto, o monarca amparou-o quando seu corpo pendeu, a tez lívida.
— Você...
— Estou bem, não se preocupe. — Interrompeu com um sorriso. — Só está um pouco caótico ali dentro.
— Venha.
Ka Suo o ajudou a sentar-se na cadeira ao lado da cama e, segurando seu pulso, estabilizou a energia mágica do curandeiro. Mesmo sendo o mais forte entre os curandeiros — além do mais talentoso — balancear uma energia mágica poderosa como a de Shi, quando em desequilíbrio, era uma tarefa muito desgastante. Contudo, apenas Huang Tuo estava apto para fazê-lo, uma vez que era sua habilidade inerente, por isso o monarca se preocupava tanto. Ao ver a expressão do médico melhorar, ele o soltou.
— Obrigado, meu rei.
— Não precisa me agradecer, é meu dever cuidar de vocês. Se há agradecimentos a serem feitos, me permita agradecer a você, então, sem sua intervenção sei que Shi estaria sofrendo muito mais durante o processo.
Huang Tuo sorriu, orgulhoso do seu soberano. Era verdade que Ka Suo cuidava de todos eles desde que vieram para aquele mundo, ele dispendera tempo para procura-los um a um, ficara ao seu lado no processo doloroso de devolver-lhes a memória, reestabelecera suas energias mágicas e encaminhara-os na adaptação daquela realidade. Ele se sentira honrado por ter sido mantido ao lado dele como um amigo próximo, mesmo que antes os dois tivessem uma boa relação, Huang Tuo sempre se sentiu mais inclinado para o lado do príncipe Shi.
— O processo está quase concluído, meu rei, ele deve acordar em breve. — Anunciou. — Essa, contudo, é a fase mais crítica, ele sofrerá mais nessa etapa final, são as memórias mais dolorosas.
O monarca anuiu soltando um breve suspiro. Houve batidas na porta e ele ordenou a Huang Tuo que se escondesse no escritório enquanto ele atendia. Já sabia quem era, depois daquilo os dois iriam ao hospital.
※※※
Os raios de sol entraram pela janela e pousaram na cama de Yan Da. Ela resmungou sobre alguém não ter deixado os blecautes abaixados enquanto tateava a cama atrás de Pian Feng. Abrindo os olhos, sonolenta, se viu sozinha e o relógio digital sobre a mesa de cabeceira marcava oito e meia. Olhando o céu ninguém poderia dizer que no dia anterior a tempestade parecia prestes a partir o universo em pedaços.
Ela, de fato, vinha dormindo muito bem nos últimos tempos, sem qualquer pesadelo. Começara, lembrava-se, quando Chao Ya e Pian Feng voltaram para casa, talvez o colar que a cantora lhe dera junto ao chá realmente fizessem efeito. Colocando os cabelos para trás, ela tentou ouvir os sons do amigo na cozinha, mas não havia nada além de um profundo silêncio circundante.
Sentindo-se um pouco zonza, Yan Da levantou e caminhou até o banheiro, prendeu os cabelos em um rabo de cavalo, lavou o rosto e saiu até a cozinha onde encontrou o café da manhã posto sobre a mesa e um recadinho de Pian Feng: "Fui ao hospital, não esqueça de tomar café direito. Ligue se precisar de qualquer coisa que volto correndo. Há uma mensagem de Hu Bing para você, verifique o bloco de notas do seu celular, escrevi lá. Bom dia, minha fadinha, até mais tarde." Sorrindo, ela correu até a mesa de cabeceira e pegou o celular, no bloco de notas havia uma nota recente com os números:
9'13'21'11'9'14'7'20'15'389'14'1'19'99'14.
Um sorriso brilhante e animado iluminou seu rosto afastando momentaneamente as nuvens de mágoa do seu coração. Quando estabeleceu suas regras de comunicação com o irmão, Pian Feng elaborara um código simples para que eles pudessem entrar em contato um com o outro através dele quando fosse necessário. Ainda que a jovem princesa temesse ser descoberta por Shuo Gang, Hu Bing assegurou que o irmão não era inteligente o bastante para decifrar códigos do tipo, mesmo com uma chave tão fácil. Yan Da traduziu a mensagem codificada sem muita dificuldade convertendo os números em letras do alfabeto latino:
I'm backing to China soon.
Estou voltando para China em breve.
Finalmente reveria o irmão amado e juntos colocariam as coisas no lugar. Revigorada com aquela informação, ela tomou um longo banho, comeu o que Pian Feng havia preparado e trocou de roupa colocando algo leve, mas formal. Imaginava se precisaria comparecer à empresa àquele dia, então pensava em visitar Ka Suo no apartamento de Shi e aproveitar para ver este, pois sabia que estava enfermo.
Pegou o elevador tentando não pensar muito. A conversa com o pai no dia anterior, aliado à sensação sufocante da chuva, drenara suas energias e ela ainda se sentia angustiada. Mesmo a noite de sono tendo sido satisfatória, não lhe fora totalmente reparadora, as palavras duras de Huo Yi ainda reverberavam no fundo de sua mente como cacos de vidro "Eu a desconheço como minha filha"... Yan Da nunca se sentira como tal, ainda assim, era muito cruel ouvir aquilo do pai e machucou.
Ela finalmente livrara-se dos grilhões que a prendiam, tinha a chave do seu destino nas mãos, mas nunca se sentira tão apavorada e solitária como agora. Exceto, talvez, quando perdeu Peng Peng. Suspirou quando as portas se abriram, não queria pensar muito naquilo ou acabaria tendo dor de cabeça. Parou diante da porta do apartamento de Shi e bateu, não demorou mais que um minuto até Ka Suo aparecer com um sorriso brilhante e cumprimenta-la cordialmente.
— Senhorita Meng, que prazer recebê-la. — Ele se afastou para que ela entrasse. — Chegou, inclusive, em um momento oportuno.
— Oh, precisa que leve algo à empresa?
— Ah, não, não é isso. — Ele deu uma leve risada. — Há apenas alguns relatórios do incidente no shopping que preciso que revise para mim, mas isso pode ser feito bem aqui com um computador. Não, o que preciso da senhorita é que cuide de Shi por alguns momentos. Eu preciso sair para resolver uma questão urgente, mas não quero deixá-lo sozinho.
— Ahn... e ele está melhor?
— Sim, sim, muito melhor, mas ainda tem um pouco de febre. — Mentiu. — Huang Tuo veio vê-lo minutos atrás e disse que está progredindo bem. Há algum inconveniente?
— Não, nenhum. — Ela forçou um sorriso, não queria admitir nem para si mesma que se sentia constrangida em ficar à sós com Shi outra vez. — Cuidarei dos relatórios e de seu irmão até seu retorno.
— Muito obrigado! — Ka Suo lhe ofereceu um sorriso brilhante. — Não devo demorar mais que uma hora. A senhorita pode ligar para mim ou para Huang Tuo se houver qualquer problema. Remédios e dosagens estão sobre a mesa de cabeceira, a refeição está na cozinha, sinta-se à vontade.
— Tudo bem se eu for vê-lo? — Perguntou sentindo o rosto queimar.
— Claro, não precisa ser tão formal, tenho certeza que ele ficaria muito feliz com a sua visita.
Havia algo enigmático no sorriso de seu chefe, mas ela não conseguia imaginar o que ou a razão daquilo. Ele explicou onde ficava o quarto de Shi e Yan Da não se atreveu a dizer que já sabia, pois havia estado ali antes. Ka Suo lhe encorajou a ir na frente enquanto pegava algumas coisas no escritório e partia em seguida, ela não fez objeção e partiu para o quarto de Shi onde, outrora, estivera acamada.
Não havia como ela adivinhar que, escondido no escritório, Huang Tuo ouvia toda a curta conversa e segurava com determinação as gargalhadas que ameaçavam explodir pela sua garganta. O jovem rei do gelo fez um sinal para que ele saísse em silêncio e o seguisse para fora do apartamento.
— Se o jovem príncipe mentisse com tanto charme quanto sua majestade, a princesa teria problemas. — Brincou o médico. — Ele realmente precisa de aulas, meu rei, Ying Kong Shi não sabe mentir.
Ka Suo esboçou um sorriso triste.
— Um dia, também pensei como você. — Olhou para Huang Tuo. — Realmente, Shi é uma pessoa direta, prefere ser franco a usar esse tipo de subterfúgio, e é justamente por isso que ele é um mentiroso tão talentoso. Ele nunca mente, portanto, quando o faz ninguém percebe, nem mesmo eu.
Mesmo Huang Tuo, que não se admirava com facilidade, ficou surpreso diante das palavras de seu soberano.
— Se realmente acredita que ele não pode mentir é porque, quando ele o fez, lhe soou como a mais indubitável verdade. — Sorriu. — Na cidade Ren, sei que muitos acreditavam que Shi era uma pessoa simples e sem talentos, mais um filho de uma concubina, eles eram incapazes de perceber que aquele garotinho era muito mais poderoso que todos nós, mesmo eu a quem eles clamavam no trono do gelo.
— Aya! Eu realmente não entendo! Se ele é um mentiroso tão bom, por que não usa isso em seu favor?
Ka Suo realmente gostou do fato de o médico não saber daquilo. Ainda havia muitas coisas que apenas ele sabia sobre o irmão e isso lhe confortava.
— Só há uma coisa que leva Shi a mentir. — Sorriu segurado o ombro de Huang Tuo.
— E o que é? — Quis saber ele, curioso.
— Amor. — Ka Suo deu leves batidinhas no braço do curandeiro. — Meu irmão só mente por amor.
A expressão do médico ficou rígida. Ele entendeu bem as palavras de seu rei, não era uma brincadeira, um dia, todos eles pagaram o preço por aquelas palavras, nenhum deles era capaz de saber que o jovem príncipe podia ser um mentiroso tão eloquente e, de fato, ele mentira para todos por amor ao irmão.
Amar nem sempre era uma coisa boa, afinal.
※※※
Chao Ya sentiu um incômodo doloroso se espalhar pelo seu tórax inteiro conforme a consciência ia retornando devagar. Ela se lembrava da entrevista, de estar preocupada com Yan Da, mas o resto era uma sucessão de imagens nevoadas na sua mente. A última coisa nítida era a expressão chocada de Pian Feng enquanto corria em sua direção e algo queimava seu peito como brasas. Ela mexeu o pescoço, piscando para se adaptar a claridade diáfana do quarto branco, respirar também doía e todos os seus músculos pareciam pesar uma tonelada, sentia a boca seca e a garganta áspera como se tivesse engolido areia. Virou a cabeça mais uma vez, um pouco zonza, mas não foi Pian Feng que viu ao seu lado como esperava — e desejava -, mas Liao Jian.
O advogado lhe ofereceu um sorriso fraco, ela o conhecia bem o bastante para saber que tentava inutilmente esconder a preocupação por trás daquele sorriso. Por sorte, a cantora estava debilitada o bastante para que sua expressão de desapontamento não fosse perceptível.
— Parece que só diante de uma tragédia eu finalmente posso ver você. — Provocou ele. — Como se sente, dói?
Ela negou com a cabeça mesmo sendo mentira.
— Huang Tuo disse que você estava fora de perigo e que a operação fora um sucesso. — Tagarelou ele, mais para ter o que conversar do que por desejar informa-la. — Sua majestade virá vê-la em breve.
Chao Ya assentiu. Era uma situação estranha, não sabia o que dizer e tudo que lhe vinha à cabeça parecia estranhamente errado. Ela sabia que estivera evitando o advogado durante todo aquele tempo porque não desejava magoá-lo, mesmo que precisasse fazê-lo. Suspirou e murmurou um pedido de água, a voz soando um sussurro rouco. Liao Jian apressou-se em ajuda-la, solícito, era por saber o quanto ele a amara no passado que tornava-se tão difícil feri-lo, mas não havia nada que ela pudesse fazer além de ser franca com ele.
— Liao Jian... — Começou.
— Sei o que vai dizer. — Interrompeu ele com um sorriso triste. — Acho que no fundo eu sempre soube que não era o escolhido, mas queria continuar acreditando que havia uma chance, você poderia me amar de volta um dia, totalmente, sem espaço para qualquer outra pessoa.
— Eu sinto muito...
— Sei que você tentou. — Lágrimas começavam a encher os olhos dele. — Confesso que me aproveitei da oportunidade quando Pian Feng foi embora, quando ele me deu o colar para proteger você, me fiz acreditar que era eu e não ele que ocupava seu coração. Yue Shen estava certa, você não sente falta da nossa casa, do nosso compromisso, seu lugar é aqui na vida que escolheu para você.
— As circunstâncias eram diferentes antes, mas eu sentia um carinho especial por você, Liao Jian, poderia ter se tornado amor com o tempo.
— Mesmo que isso seja verdade, você nunca sentiria por mim nada perto do que sente por ele. — O advogado sorriu segurando a delicada mão da cantora. — De algum modo sempre esperou pelo retorno dele, Chao Ya, e eu via nos seus olhos o quanto custava de você ter de tratá-lo somente como um amigo.
— Nunca foi minha intenção magoar você, Liao Jian... quero que seja feliz, mas passar por tudo isso me fez ter ainda mais certeza de não ser a pessoa capaz de oferecer sinceramente a felicidade merecida por você. — Uma lágrima cristalina escorreu pelo rosto de boneca da cantora.
— Eu sei. — Anuiu enxugando a gota diamantada antes que chegasse ao queixo. — Quando temi perder você para sempre me dei conta disso, de que amar você significa te deixar ir, voar para ser feliz com a pessoa que você realmente ama. Não tenho qualquer ressentimento ou mágoa de você. Sempre me perguntei por que Ka Suo havia colocado você junto à Pian Feng para proteger a princesa. Entendo agora...
Ele queria fazê-la entender seus próprios sentimentos e fazer-me compreender os meus. Completou mentalmente. Soltando então a mão de Chao Ya, ele se pôs de pé, um tanto sem jeito, quem visse a cena de fora acharia muito estranho — até mesmo desproporcional — ver um homem daquele tamanho em uma pose constrangida e chorosa.
— Desejo que sua recuperação seja rápida.
Disse, então saiu do quarto sem olhar para trás.
※※※
Pian Feng chegou cedo ao hospital ansioso para ver Chao Ya. Mais cedo, Huang Tuo telefonara para avisar que a cantora havia acordado e, apesar de ter adormecido novamente, estava consciente e apta para receber visitas. Após deixar tudo pronto para Yan Da, ele decidiu ir sozinho visita-la, queria se assegurar que a jovem princesa do fogo visse a amiga em sua melhor forma, a natureza de Yan Da a fazia preocupar-se com facilidade e, dada a ligação que havia entre ela e a cantora, ele não queria afligir sua protegida.
Seu coração batia acelerado conforme avançava pelo corredor em busca do quarto onde o médico afirmara que ela estava. Ele tocou o trinco da porta corrediça, mas parou tão logo ouviu a voz de Liao Jian.
"Acho que no fundo eu sempre soube que não era o escolhido, mas queria continuar acreditando que havia uma chance, você poderia me amar de volta um dia, totalmente, sem espaço para qualquer outra pessoa. "
"Eu sinto muito..."
Afastou-se da porta sentindo o corpo inteiro adormecer. Quando Chao Ya lhe dissera antes que Liao Jian não era sua escolha, ele não acreditara naquilo, duvidava amargamente que ela seria capaz de deixá-lo por sua causa. Por isso, quando quase perdeu o controle com ela no quarto, ele parou. Todo seu corpo desejava-a com loucura, mas ele não queria apenas que o corpo dela o quisesse, queria seu coração e sua mente também.
Todavia, ouvir aquela conversa mudava tudo. Pian Feng se apoiou na parede sentindo-se sem forças para sustentar o próprio corpo, parte dele se sentiu culpada pela forma como tratara a cantora naquela ocasião, mas não havia uma maneira de acreditar nela dado o que aconteceu no passado. Desde sempre, Pian Feng sabia que Chao Ya seria dada em casamento a Liao Jian, tal como sabia dos sentimentos recíprocos da então rainha da tribo da música xamânica, mas a recusa dela em fugir com ele plantou no seu coração a dúvida acerca dos sentimentos dela e, quando ele voltou — único sobrevivente da destruição da tribo do espírito do vento — ela já estava noiva, prestes a se casar com o filho do guardião.
Ele a respeitava como sua futura rainha, como sua amada e como sua amiga, jamais se atreveu a reviver os sentimentos guardados no fundo do seu coração ou a despedida gravada à ferro na sua alma. Chao Ya, por sua vez, também o tratava como um amigo de longa data. Quando ela revelou a Liao Jian seu maior segredo, ele soube naquele momento que qualquer resquício do amor jurado outrora havia desaparecido. Como, então, ele poderia ter acreditado nela naquele momento? Como acreditaria agora?
Meneando a cabeça, atordoado, o guerreiro se afastou pelo corredor em busca de ar, sentia a garganta fechando, os pulmões ardendo, o coração martelava no peito, a pulsação latejando nos seus ouvidos causando a sensação que sua cabeça inteira pulsava junto. Ele alcançou as portas do hospital bem no momento em que Ka Suo e Huang Tuo chegavam, o médico franziu o cenho ao ver o amigo saindo como se estivesse passando mal, murmurou o número do quarto da cantora para o monarca e saiu atrás do guerreiro.
Ka Suo ficou alguns minutos olhando os dois companheiros de jornada se afastando, suspirou sem precisar de muito esforço para entender o que havia acontecido. Afastando-se do hall, ele se dirigiu até um dos banheiros do andar de térreo e ligou para Xing Jiu. O astrólogo devia estar em seu apartamento, ultimamente ele estava muito concentrado em seus estudos sobre tecnologia. A chamada levou quatro toques até ele finalmente atender:
— Meu rei.
— Vá até o apartamento de Shi. — Pediu. — Preciso que ajude um pouco.
— O jovem príncipe está mal novamente? — O astrólogo soou preocupado. — Achei que o fluxo de memórias estivesse sob controle.
— Huang Tuo o estabilizou, o que preciso que faça é outra coisa. — Enfatizou as últimas palavras.
— Oh... — O monarca imaginava-o assentindo em entendimento. — Vossa majestade tem certeza?
— Não exagere. — Pediu. — Ajude.
— Ainda assim, meu rei, isso pode ser arriscado. — Advertiu Xing Jiu.
— É preciso. — Ka Suo suspirou. — Shi precisa pagar por seus pecados, faz parte do desenvolvimento dele. Não posso tê-lo pela metade.
— Como desejar, meu rei. Xing Jiu cumprirá suas ordens.
Eles se despediram rapidamente e encerraram a chamada. O rei do gelo deixou o banheiro e caminhou até o elevador onde tomaria o corredor para o quarto da cantora. Com sorte, conseguiria alcançar Liao Jian antes deste ir embora. Tinha convicção de suas escolhas, quando designou-os para seus determinados caminhos já tinha em mente que a melhor forma de libertá-los era guiar para seguirem o próprio destino. A consciência dos erros do passado lhe ensinou sobre a importância do livre arbítrio, Ka Suo não queria mais ser seguido cegamente como rei deles, mas desejava vê-los como Pian Feng, ciente a quem era leal e disposto a ir até o fim em nome do que acreditava.
O próprio Shi, e isso lhe preocupava, abandonara uma vez seu direito de escolha em nome da felicidade dele, depois de passar por tudo aquilo, Ka Suo temia que o espírito sombrio dele acordasse ou o sentimento cego de abdicar de si mesmo em nome dele. Não se podia mesurar a força do impacto das lembranças sobre ele ou mesmo até onde o conhecimento da vida atual agiria sobre suas decisões após isso. Aquilo se aplicava à Pian Feng e Chao Ya, embora tentasse não interferir no conflito existente entre os dois e Liao Jian, o monarca achava dever uma explicação ao antigo guardião.
Chegou a tempo de vê-lo esperando o elevador e sorriu, mesmo contanto com a lealdade de todos eles, o advogado, bem sabia, era o mais leal deles. Pela sua expressão de tristeza e os olhos ainda vermelhos e um pouco inchados, ele supôs o que havia acontecido. Chao Ya havia feito sua escolha. Ka Suo sempre foi um observador silencioso, desde que os conhecera, milênios atrás, conseguia ler a atmosfera entre eles, isso influenciara suas decisões naquele mundo.
— Meu rei. — Liao Jian fez uma breve reverência.
— Hoje sou apenas seu amigo. — Tocou-o no ombro dando um leve aperto. — Venha comigo. — Disse e o outro assentiu.
Os dois voltaram ao elevador para o último andar, onde seguiriam para o térreo. Era lá em cima onde geralmente as enfermeiras penduravam os lençóis e os médicos fumantes iam em seus intervalos. Não havia muito lá, apenas grades de proteção, alguns bancos, varais e cisternas. A ideia era levar o advogado para casa e compartilhar uma bebida forte, mas Ka Suo ainda precisava visitar a cantora.
Liao Jian caminhou até a grade de segurança e se pôs a olhar a cidade com seus prédios altos e cinzentos, os arranha-céus de estrutura inusitada, as ruas cheias e intrincadas que transformavam o lugar em um labirinto, os pontos verdes de árvores e parques espalhados perdendo-se no mar de concreto. Não importava o quanto tentasse, não conseguia enxergar aquele mundo como sua casa. Ele queria voltar para as planícies geladas, as árvores de cheiro adocicado que desafiavam o frio, a voz de trovão do pai reverberando sobre a tempestade de neve, os guerreiros em treinamento nos campos.
Quando ele chegara àquele lugar, anos atrás, sentiu-se desnorteado e perdido, como se tivesse acabado de acordar de um sono muito longo e perturbador. Até encontrar Ka Suo e entender o que estava acontecendo, a única coisa que mantinha Liao Jian determinado a viver um dia de cada vez, era encontrar Chao Ya. Tudo que Liao Jian sabia fazer era proteger seu território e amar sua noiva, foram estas as suas atribuições durante toda a vida, eram suas únicas habilidades.
— Presumo que deseje um esclarecimento. — A voz de Ka Suo interrompeu seus pensamentos.
— Eu jamais ousaria contestar suas ordens, meu rei. — Retrucou ele, ainda olhando o horizonte.
— Você pode não verbalizar isso, Liao Jian, mas é incapaz de conter as perguntas que seu coração faz. — Apontou o monarca com um sorriso. — Mesmo não querendo uma explicação, acredito que merece uma.
Liao Jian se virou para olhar seu rei, surpreso. Desde que aportaram naquele mundo, ele via mudanças significativas em Ka Suo. O jovem rei sempre foi um homem bondoso — até demais, isso foi a raiz de muitos dos problemas que enfrentaram -, mas uma de suas características mais marcantes era ser um tanto irracional quando se tratava dos seus, ele não media esforços ou dava explicações, as coisas eram como eram e todos se adaptavam àquilo. A postura adotada pelo monarca desde que os trouxera para aquela realidade não parava de surpreender o advogado.
— Uma pessoa vê de fora coisas que os envolvidos na questão não são capazes de enxergar. — Observou o monarca. — Sempre admirei seu otimismo em esperar para ver as nuvens se dispersarem e a lua aparecer*, mas, Liao Jian, nem sempre a simples paciência é a resposta para um coração já ocupado por outra pessoa. Ao contrário do que algumas pessoas costumam dizer, não existe isso de simplesmente desgostar de uma pessoa para amar outra. Salvo algumas raras exceções que não cabem aqui.
O advogado crispou os lábios, desconfortável.
— Conheci a mãe de Chao Ya, ela era amiga dos meus pais e as tribos tinham uma boa relação apesar de não estarem destinadas ao matrimônio, você sabe que o propósito do casamento entre tribos era gerar herdeiros fortes. — Continuou. — Chao Ya era algumas centenas mais jovem que eu, mas desde sempre um espírito forte, tinha convicções firmes sobre o trono que ocuparia um dia e era completamente controlada pela mãe, Chao Lian. A única vez na qual ela impôs sua vontade foi quando se apaixonou por Pian Feng. Claro, na época só fiquei sabendo histórias pelas conversas entre meus pais, assim como, séculos mais tarde, vim a descobrir a verdade de como o noivado de vocês dois foi firmado.
— Então...
— Sim. — Ka Suo anuiu com um sorriso. — Sabia de tudo desde o início. Todavia, saber e ver eram coisas muito diferentes. Apenas quando nos reunimos tive a certeza do fundamento das histórias, até então, apenas fofocas mesquinhas entre as cortes. Devo admitir que admirava o esforço de Chao Ya em se apaixonar por você, cheguei até mesmo a consultar Xing Jiu se as estrelas de vocês estavam ligadas.
— Sou capaz de adivinhar a resposta. — Ele esboçou um sorriso triste. — De alguma forma, só não queria aceitar o óbvio porque além da minha posição, Chao Ya era tudo que eu tinha.
— Mas as coisas não são mais assim. — Contrapôs Ka Suo. — Naquela época havia as leis que regiam as situações sem pedir a escolha dos envolvidos. Aqui, Liao Jian, vocês são livres para escolher o próprio caminho. Independente de mim, de tronos ou de um povo sob sua responsabilidade. Por isso designei Chao Ya para ficar ao lado de Pian Feng, isso seria capaz de fazê-la encarar os próprios sentimentos e você de enxergar a verdade. Não quero que, como eu, você perceba tarde demais que amar é, por vezes, deixar ir.
O jovem rei do gelo caminhou até seu leal súdito e, sem avisar, o abraçou. Não era ali nada mais que o amigo que Liao Jian precisava e, após o choque momentâneo causado pela atitude de seu rei, o advogado permitiu-se esconder o rosto no ombro do companheiro e chorar amargamente a dura lição aprendida.
※※※
"Ela é uma pessoa que não se apaixona fácil. Além do mais, começamos pelo lado errado."
"O que, você disse a coisa errada logo no primeiro encontro?"
"Quem dera fosse só isso. Eu quase a atropelei no primeiro encontro."
Yan Da deteve a mão antes de alcançar a maçaneta do quarto de Shi. Seu coração batia agitado, se perguntava o que faria se o encontrasse acordado do outro lado da porta, seu rosto inteiro queimava só de imaginar encará-lo. Os dois não haviam conversado mais depois daquela revelação, ela não era tola para fingir que não havia entendido, sabia que ele estava dizendo de modo muito direto que gostava dela e não tinha ideia de como reagiria àquilo. Ela não queria se apaixonar, nunca. Era uma testemunha do que amar fazia com as pessoas e não queria jamais submeter seu coração àquele tipo de dor outra vez.
Além disso, mesmo depois dos pesadelos terem cessado, a sensação de medo que sentia quando estava perto de Ying Kong Shi era persistente, por mais esforço feito para suprimi-la no fundo do seu coração. Yan Da gostava da companhia dele — sentia, inclusive, uma estranha necessidade dela -, ele despertava coisas que ela só havia sentido com Peng Yan, mas numa intensidade muito maior. Entretanto, a voz na sua mente alertando-a para não insistir naquilo afastava-a da zona de perigo, levando-a a negar aqueles sentimentos. A princesa do fogo preferia enterrar o que sentia a arriscar outra vez.
Respirando fundo, ela tocou a maçaneta e abriu apenas uma pequena fresta da porta, espiando o interior do quarto viu um inquieto Shi sobre a cama. Sem esperar, ela entrou depressa e precipitou-se para ele com preocupação, havia uma camada de suor que escorria pelo seu rosto e encharcava o travesseiro, também havia uma enorme mancha escura na sua camisa azul clara. Yan Da ficou agitada, sem conseguir raciocinar por um instante enquanto o enfermo murmurava palavras ininteligíveis sobre a cama. Afastando o nervosismo, ela bateu no próprio rosto para se esforçar a retomar o controle de si mesma, Shi precisava de ajuda.
Ela olhou em volta e entrou no banheiro a procura de toalhas, foi até a cozinha e pegou uma bacia com água gelada onde depositou algumas pedras gelo dentro, procurou um termômetro, mas não foi capaz de localizar a caixa de primeiros socorros. Novamente no quarto, ela mergulhou a toalha na água e torceu pressionando levemente contra o rosto dele, os olhos dela desceram para a mancha em sua camisa e Yan Da negou com a cabeça, sentindo o rosto em brasas.
— Não. — Murmurou. — Eu definitivamente não sou capaz disso. Vou ligar para o doutor Huang.
Suspirou. Seria ridículo alertar o médico por causa de uma febre.
— Quer dizer, que tipo de pessoa não é capaz de resfriar um corpo humano?
Escondendo o rosto nas mãos, Yan Da reprimiu um grito de frustração. Nunca havia visto nenhum homem sem roupa, nem mesmo Hu Bing! Como poderia simplesmente tirar a camisa de Shi? Ele continuava inquieto na cama, ela imaginou se havia algum modo de fazê-lo engolir o remédio sobre a mesa de cabeceira de uma forma não constrangedora. Olhando novamente a toalha em sua mão, ela mordeu o lábio diante do dilema. Estava prestes a levantar quando sentiu a mão dele se fechar em seu pulso, olhando para baixo viu que Shi ainda estava inconsciente, ele parecia sofrer, Yan Da não conseguia imaginar que tipo de doença ele tinha, mas se Ka Suo o estava tratando em casa, não devia ser grave. A surpresa, entretanto, foi conseguir distinguir duas palavras em meio aos sussurros incompreensíveis do doente:
— Yan Da... — A voz rouca de Shi a paralisou.
Ele não estava consciente, Yan Da tinha certeza disso, mas por que estava chamando o nome dela? Seu coração amoleceu nesse instante, não podia fazer aquilo com ele, Shi precisava dela e, mesmo sendo muito constrangedor, ela o faria pelo bem dele.
— Tudo bem, Ying Kong Shi, estou aqui com você. — Murmurou enquanto voltava a umedecer a toalha e pressionar contra o rosto dele e o pescoço.
Protelando antes do inevitável momento de precisar trocar a camisa que ele usava, ela decidiu resfriar-lhe os braços, mas quando segurou sua mão esquerda se viu dominada por uma sensação de torpor que arrancou-lhe um gemido de dor, ela se encolheu, um zumbido alto crescendo na sua mente, já passara por aquilo antes, lembrava, era um sonho lúcido — ou melhor, um pesadelo lúcido -, Yan Da apertou a toalha com força pressionando as mãos contra a cabeça.
Atrás dela, escondido pela invisibilidade, estava Xing Jiu.
※
A planície gelada se estendia a perder de vista, mas estranhamente, Yan Da não sentia frio. Seu coração batia acelerado no peito enquanto galopava a toda velocidade pelo deserto de neve, não importava quantas vezes dissesse a si mesma que estava cometendo um erro, seu tolo coração queria se agarrar com todas as forças àquele fio de esperança. Não podia ter entendido errado, não depois de todo acontecido, tinha de haver algum sentimento ali e ela estava disposta a renunciar ao que fosse em nome dele.
Se havia algum resquício de bom senso em sua mente fora escolher o sul ao invés do norte, Yan Da era poderosa, mas não seria capaz de derrotar Liao Jian, o mais poderoso entre os guardiões, dessa forma optou pelo Sul, era uma vigilância mais desleixada já que ficava próxima ao campo de treinamento do exército do gelo. Contudo, tão logo seu cavalo atravessou o véu da neve — a barreira protetiva colocada em todos os territórios do império do gelo — um grupo de guardas começou a persegui-la. A princesa amaldiçoou sua falta de sorte enquanto avançava mais rápido na tentativa de fugir, não podia lutar contra eles e revelar sua identidade.
Porém, não importava quão rápida fosse, ainda se viu cercada. Não teria jeito, ia ser resolvido do modo difícil. Yan Da não queria machucar aqueles soldados, eles não tinham culpa de nada, mas era a única maneira de passar e chegar até Snowblade*. Estava prestes a atacar quando uma chama azulada a rodeou e ela foi transportada para o Palácio da Ilusão. Diante dela estava a pessoa por quem arriscara sua vida, o príncipe Ying Kong Shi.
— Obrigada por me resgatar. — Disse-lhe quando ele arrancou a capa branca que ela usava para se disfarçar como um membro da corte.
— O que está fazendo aqui? Veio atacar a cidade novamente?
— Se fosse esse meu propósito, por que eu o deixaria me notar? — Contrapôs ela.
— Quem mais está aqui com você? — A expressão de Shi era sombria.
— Ao invés disso, por que não me pergunta o motivo de eu ter arriscado minha vida só para vir vê-lo?
O rosto do príncipe se tornou uma máscara de indiferença. Yan Da se perguntava se o doce e gentil Yun Fei que ela conheceu havia sido apenas fruto de sua imaginação, olhando para Shi naquele momento, não podia dizer que eram a mesma pessoa.
— Qual o problema? — Sua voz soou cortante.
Yan Da riu sem humor, forçando-se a não perder a esperança já muito abalada diante daquele comportamento distante.
— De que adiantaria causar o caos na sua cidade agora? — Indagou ela, incrédula. — Primeiro, não tenho qualquer razão para isso, segundo, não gosto desse tipo de covardia, terceiro, com o atual poder do meu clã, isso seria suicídio. No entanto eu ainda me arrisquei vindo aqui para ver você.
— Por quê? — Indagou, impassível.
— Realmente não sabe? — Yan Da não podia acreditar no que estava ouvindo. — Vim aqui por algo que precisa ser feito.
— E o que seria isso?
Se seu coração não estivesse tão magoado, Yan Da teria perdido a compostura nesse momento como fez outrora com ciúmes da princesa sereia, Lan Shang. Ainda assim, ela respirou fundo e, colocando todo seu orgulho de lado, caminhou até ele e tentou beijá-lo, entretanto, Shi a afastou bruscamente. A princesa riu histericamente até seu riso se tornar pranto cujas lágrimas ela reprimia, não se humilharia ainda mais chorando na frente dele, o homem diante dela era realmente um traidor insensível, ele brincara com seu coração da maneira mais cruel, como ela pudera ser tola para acreditar na ridícula esperança de ele sentir o mesmo que ela?
— Ying Kong Shi, uma vez você me disse que me pagaria por salvar sua vida, mas quantas vezes você me salvou? — Disparou ela. — Mas agora, quando os guardas notaram minha presença, você encobriu minha identidade, diga a verdade, o que, afinal, eu sou pra você?
O rosto de Shi foi da impassividade para o desprezo quando ele respondeu em seu tom cortante:
— Uma inimiga.
Não. Yan Da não podia acreditar naquilo, as ações dele não condiziam com suas palavras? Ela podia ter sido tão cega e se iludido tão profundamente ao ponto de criar uma fantasia na sua mente? Um sorriso debochado arqueou-se nos lábios do príncipe quando continuou, ignorando os sentimentos dela.
— Eu te ajudei porque você me tratou com sinceridade. Quando te enganei, usei seus sentimentos a meu favor, sua confiança em mim.
— Não. — Ela meneou a cabeça e segurou o pulso dele com força. — Você não é assim! Me diga que está mentindo pra mim, diga!
— Vou perguntar novamente, quem mais está em Snowblade com você?
— Não vou te dizer. — Gritou. — Mesmo que ameace me matar eu não vou dizer nada a você!
Nesse momento ela sentiu algo gelado atingir seu rosto e tudo escureceu. Em seu coração, Yan Da derramava lágrimas amargas se sentindo a mais idiota das mulheres. Como desejava odiar Ying Kong Shi e como se odiava por ser incapaz disso.
※
Yan Da abriu os olhos sentindo-se zonza. Shi estava imóvel sobre a cama como se tudo que acontecera fosse apenas um pesadelo, ela tentou reorganizar os pensamentos, lembrando-se como chegou ali e o que fazia no quarto de Shi. Conforme as memórias iam se adequando à realidade e abandonando o pesadelo, visão ou seja lá o que fora aquilo, ela voltou a olhar o doente sobre a cama, ele não se movia ou murmurava mais nada, a princesa sentiu o coração pular uma batida quando, com a mão trêmula, colocou dois dedos no pescoço dele para sentir a pulsação.
Nesse instante, Shi abriu os olhos fazendo-a sobressaltar-se, ele pareceu surpreso ao vê-la, mas não disse uma única palavra, Yan Da estava preparada para fugir quando, inesperadamente, ele ergueu o tronco e a puxou contra si como um náufrago agarrado a única tora de madeira capaz de impedir-lhe de afundar para sempre no oceano. Ela estava tão chocada que não conseguiu se mover — e mesmo se tentasse, ele a apertava de tal modo que ela não conseguiria. Sentiu algo pingar contra sua pele e quando os soluços dele se fizeram audíveis ela notou que ele chorava.
Ying Kong Shi a estava abraçando.
E ela não se sentia capaz de afastá-lo, mesmo sentindo que deveria.
Notas:
*Ver as nuvens se dispersarem e a lua aparecer — Ver resultados após ser paciente e esperar por longo tempo.
*Snowblade — se traduz como lâmina de neve, mas como ia ficar muito estranho usar assim, acabei deixando em inglês. É o nome do palácio do gelo.
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