Love as Sakura | 爱如樱
33 Capítulo Especial [Parte I]: Sol Adormecido
— Quais são as chances?
Parado diante da janela, Hu Bing olhava a cidade que o viu crescer. Os prédios altos e os arranha-céus, as ruas intrincadas por onde carros — que daquela altura pareciam formigas — migravam de um lado para outro em todas as direções, lojistas e vendedores de rua na luta diária, mendigos esperando um milagre em calçadas e becos, cada um vivendo no seu próprio mundo desmoronado enquanto ele, considerado um privilegiado, enfrentava seus próprios demônios naquela sala refrigerada com uma xícara de café ignorada sobre a mesa de visitas do seu advogado.
— É necessário um processo de posse legal, do contrário seu pai poderia alegar sequestro, apesar de ela já ser maior de idade, a condição psicológica é tida como vulnerável no momento. — Explicou o homem num tom tranquilo.
— Sequestro. — Hu Bing cuspiu a palavra com indignação e raiva. — Ele sequer notaria que ela não está mais no país.
— Ainda assim, shàoyé, é a lei. O senhor seria deportado de volta e preso. E ela seria dada a ele por ordem judicial.
— Entendi. — Suspirou. — Conversarei com ela antes de tomar uma decisão. Quanto tempo levaria?
— Com agilização de todo processo, no máximo um mês.
— Dinheiro, você bem sabe, não é problema. Só quero que Yan Da esteja segura, especialmente agora.
Ele cumprimentou rapidamente o advogado e deixou o escritório. De volta ao seu carro, o jovem respirou fundo encostando a cabeça no assento e fechado os olhos por um instante, os caminhos pareciam se fechar à sua volta e não importava o quanto tentasse, Hu Bing não via uma forma de salvar a sua irmã de si mesma. Conhecia Yan Da tão bem quanto a si mesmo, temia o momento que ela abriria os olhos e se daria conta da realidade, ela não seria capaz de escutar a voz da razão, nem mesmo se essa voz fosse a dele, tal qual aconteceu quando ele a encontrou sobre o corpo de Peng Yan semanas atrás.
※
Duas semanas atrás...
A espera era agonizante. Mesmo Huo Yi, sob a máscara de impassividade, se mostrava inquieto e Hu Bing era sagaz o bastante para perceber aquilo, pois conhecia o pai. O resgate havia sido entregue dois dias atrás apesar dos protestos da polícia, tudo que Hu Bing queria era sua menina segura em casa, não importava o preço e era o único crédito que dava a Huo Yi por ajudá-lo a levantar a quantia em tão pouco tempo.
Quando o telefone tocou, ele mal conseguiu se conter e esperar o sinal dos detetives para que atendesse enquanto tentavam rastrear a chamada. A voz do outro lado da linha apenas murmurou um endereço e desligou para frustração dos policiais que, pelo tempo muito curto, não conseguiram a localização. Mais que depressa, ele correu para o carro seguido de dois detetives e do pai, dirigiu às pressas até o rio Luo Ying*, local indicado pelo sequestrador.
As águas escuras do rio que cortava a cidade brilhavam sob a luz forte da manhã. Aos fundos, a ponte era uma silhueta desleixada em meio à paisagem solitária do local, próximo às margens do Luo Ying, a grama crescia como uma cama de pregos na lama escura. Mais para cima, o mato não aparado dominava o local esquecido pela gestão da cidade, havia algumas pequenas flores, mas a maior parte da vegetação local eram ervas daninhas.
Hu Bing saiu do carro sem sequer desligar o motor e foram os gritos de Yan Da — espalhando alívio e desespero de modo simultâneo no seu coração — que lhe disseram em qual direção seguir. O corpo de Peng Yan estava sobre a grama alta, a irmã, suja de lama e sangue, debruçava-se sobre ele em um estado de histeria, mas as marcas no chão mostravam que ela havia se arrastado até ali. Quando seus olhos pousaram sobre Yan Da, o coração de Hu Bing quase parou. Ver a irmã ferida, magérrima e naquele estado de nervos lhe causava a amarga sensação de ter falhado como irmão.
Sem perder tempo, passado o choque inicial, ele correu até ela, escorregando na grama molhada, e parou ao seu lado para descobrir a imagem tenebrosa do corpo sem vida de Peng Yan sobre o qual ela se agarrava como um náufrago à deriva no oceano selvagem. Com cuidado, Hu Bing abraçou a irmã por trás.
— Meu amor — ele se abaixou ao lado dela segurando-a com delicadeza —, eu sinto muito... sinto tanto...
O que ele podia dizer? Que tudo ficaria bem enquanto ela contemplava o corpo sem vida do único amigo que já tivera? Seu vocabulário fora reduzido a nada. Tudo que ele podia fazer era abraçar a irmã desesperada enquanto os detetives chamavam uma ambulância e atestavam a morte do jovem rapaz. Yan Da se debatia nos braços dele, desesperada para acordar Peng Yan, buscando esperança no vazio da morte e o próprio Hu Bing se viu chorando sua culpa e impotência.
No momento que a irmã caiu inconsciente, ele a aconchegou em seus braços, suas mãos trêmulas tocaram o rosto dela, havia ali alguns hematomas, muita sujeira, os cabelos de Yan Da, sempre sedosos e brilhantes, estavam sem viço, cheios de lama, os pulsos em carne viva, a perna tão inchada que ele pensou temerosamente ouvir que precisariam retirá-la, na confusão de sangue e manchas arroxeadas, ele temia até mesmo tocá-la sem saber onde era seguro e onde ela podia gritar de dor.
— Me perdoe, Yan Da... — chorou encostando a testa na dela, as lágrimas pingando sobre o rosto da irmã. — Me perdoe...
Erguendo o rosto por um instante, ele viu Huo Yi dar as costas e ir embora sem ao menos se aproximar da filha. Hu Bing não sabia que tipo de sentimento se escondia atrás dos olhos frios do pai, mas foi incapaz de perdoá-lo também por aquela atitude.
A ambulância levou Yan Da para o hospital e ele ficou o tempo todo a seu lado. O corpo de Peng Yan ficara aos cuidados do detetive e desde o início Hu Bing deixou claro que gostaria de ficar a par de todos os detalhes a respeito da morte e que cobriria as despesas funerárias. O pai do rapaz também precisava ser avisado e essa, sem dúvida, seria a cereja do bolo macabro de acontecimentos.
※
— A condição da sua irmã é grave, mas não crítica. — Anunciou o médico para Hu Bing após a entrada de Yan Da na emergência. — Há muitas lesões, mas a que mais nos preocupa no momento é a fratura na perna. Vamos precisar operá-la com urgência, há também uma laceração no estômago que merece atenção e precisa ser tratada.
— Eu posso assinar o termo de responsabilidade. — Anuiu ele, ansioso e sem palavras diante das revelações do médico.
— Ah, mais uma coisa. — Dessa vez, o homem baixou a voz. — Os exames mostraram algo estranho no corpo da senhorita Meng.
— Estranho? — Hu Bing se aproximou, um gelo subindo pela espinha.
— Agulhas. — Sussurrou o médico. — Há pelo menos 72 agulhas dentro da sua irmã, espalhadas nos braços, pernas e abdome. Precisaremos retirá-las antes da cirurgia.
O choque quase fez com que Hu Bing caísse. Como aquilo podia ser possível e por qual tipo de horror sua irmã havia passado naqueles infernais vinte e nove dias?
Um dos maiores temores de Hu Bing, contudo, não havia se concretizado. Por mais que não desejasse submeter a irmã àquele tipo de exame invasivo, diante da situação e pelo próprio curso da investigação, foi preciso. Ele agradeceu o fato de Yan Da estar o tempo todo desacordada e garantiu que a médica responsável gozava da sua confiança. Yan Da não havia sofrido qualquer abuso sexual, o que, mesmo não diminuindo todo o abuso psicológico e físico, era menos um trauma com o qual ela teria de lidar. E Hu Bing não desejava que, tal como a mãe deles, ela também precisasse viver com aquela experiência terrível.
Ao todo, o processo cirúrgico e a retirada das agulhas durou sete horas. Enquanto isso, ele preparava os papéis de internação e a transferência dela para uma clinica particular, avaliava os quartos privativos que poderiam acolher a irmã durante a recuperação e que tipo de restrições poderiam ser aplicadas pelo próprio hospital para visitas e acesso a ela. Hu Bing queria dificultar ao máximo o acesso a Yan Da que não fosse de pessoas que ele confiasse cegamente, mesmo as enfermeiras e médicos que a assistiriam deveriam ser cuidadosamente selecionados e ninguém além deles poderia conversar, tratar ou avaliar Yan Da.
Até ele entender o que havia acontecido, não conseguia confiar em ninguém.
※
Agora
Ele passou em uma loja de flores e comprou um vaso de violetas brancas.* O trânsito estava caótico nesse dia, de modo que seu carro ficou preso na avenida principal por longo tempo. Colocando a cabeça sobre as mãos apoiadas no volante, Hu Bing lutou contra as lágrimas, sentia-se frustrado, impotente, furioso. As coisas estavam saindo do controle e não parecia haver qualquer meio de ele retomar as rédeas da situação.
Uma buzina irritada soou atrás dele e percebeu que estava trancando o transito, o sinal havia ficado verde e ele não percebera. Deu novamente a partida a caminho do hospital fazendo uma nota mental para ligar à delegacia em busca de novidades sobre o caso da irmã. Todas as noites, enquanto lutava para conciliar o sono, a imagem do corpo ferido de Yan Da chorando sobre Peng Yan vinha à sua mente, atormentando-o. Hu Bing trancara sua matrícula na faculdade para poder se dedicar integralmente à irmã, acompanhar sua recuperação e o processo de investigação. Não queria que o pai ou os outros irmãos chegassem perto dela, o advogado conseguiu — com alguns subornos — uma ordem de restrição, Huo Yi, Shuo Gang, Ya Xing e Xin Jue só podiam vê-la através da parede de vidro e mesmo assim precisavam da autorização de Hu Bing para tal, mas ele sabia que nenhum deles viria.
Após achar uma vaga no estacionamento, ele pegou o vaso de flores e se dirigiu à recepção para pegar seu crachá. O quarto da irmã era fechado com uma porta automática aberta apenas com digital dos autorizados ou com crachás de identificação. Era uma ala nova do hospital, essa foi parte da razão para ele ter selecionado um quarto lá para ela. Também o médico responsável era um homem íntegro e inflexível, não cederia a qualquer tipo de suborno ou ameaça vindos de Huo Yi, além de gozar da confiança do diretor geral do hospital. Yan Da não poderia ser movida para a clínica até que as feridas das cirurgias cicatrizassem mais um pouco diminuindo o risco de infecção.
Enquanto o elevador subia, ele afrouxou o nó da gravata sentindo uma ansiedade incômoda, havia tanto para decidir que ele mal sabia por onde começar. Normalmente, Hu Bing era uma pessoa metódica e sistemática, mas o acontecido com Yan Da o desestabilizou, não conseguia se concentrar em nada que não fosse a espera interminável dela acordar e a justiça àqueles que a machucaram daquela maneira. As portas abriram tirando-o de seus solilóquios, ele cumprimentou a enfermeira na recepção daquele andar, seguiu por um corredor e usou o crachá para abrir as primeiras portas, estas de vidro, que levavam a outro corredor onde havia seis quartos enfileirados, três de cada lado, com portas eletrônicas.
Hu Bing parou no último da esquerda e colocou o crachá no identificador, havia uma enfermeira com Yan Da, a irmã ainda continuava sedada e os níveis se mostravam normais. A jovem mulher, Hsia Dan, cumprimentou-o formalmente e pegou o vaso de violetas acomodando-o no armário ao lado da cama. O doutor Lin, médico responsável por ela, havia lhe dito que Yan Da seria mantida em coma induzido para garantir uma recuperação sem maiores danos e, dada a situação extrema, ele temia que ela tivesse um choque nervoso ao acordar o que dificultaria muito o processo. Hu Bing, inclusive, foi instruído a conversar com o psicólogo do hospital para ver a possibilidade de tratamento para a irmã.
— O doutor Lin veio vê-la hoje. — Comunicou Hsia Dan. — A recuperação dela está progredindo bem.
— Obrigado. — Ele sorriu de modo atencioso. — Pode nos deixar à sós?
— Claro. — Ela retribuiu o sorriso. — Converse um pouco com ela, vai fazer bem. Ela consegue te ouvir.
Ele anuiu. Se era verdade que a irmã podia ouvi-lo tinha de ter cuidado para não falar com uma voz angustiada, não queria causar nenhum tipo de sentimento ruim nela, mas ao contrário, desejava que ela se sentisse confortada e tranquila. Mesmo sabendo ser impossível manter esse estado quando ela abrisse os olhos. Sentando-se ao lado da cama, ele segurou a mão de Yan Da.
— Te trouxe violetas brancas. — Disse enquanto acaricia as costas da mão dela. — Sinto saudade da sua voz, xiao Yan... eu prometo que vou destruir a pessoa que fez isso com você. Mas para isso você precisa acordar, me dizer quem foi. — Fazendo uma pausa, ele respirou fundo para recobrar a calma. — Tudo bem, melhor não falarmos disso agora.
Com delicadeza, Hu Bing acariciou o rosto da irmã, era doloroso para ele ver Yan Da tão frágil daquela forma, engoliu as lágrimas e pigarreou para estabilizar a voz, não queria passar qualquer emoção negativa para ela.
— O verão está chegando. — Retomou agora em um tom ainda mais suave e carinhoso. — Quero levar você para Yunnan, você sempre quis ir até lá quando criança, lembra? Você vai gostar, é a província mais colorida do país. Podemos ir à Kunming ver as pontes e pavilhões do Cui Hu, visitar a montanha Shibao em Dali e eu sei que o que você mais vai gostar é a vista do lago do Dragão Negro de onde se pode ver a Montanha de Neve Dragão de Jade bem em frente ao Pavilhão do Abraço da Lua, em Lijiang.
Enquanto falava, ele sentia o nó em sua garganta ficar mais apertado e doloroso, surpreendeu-se quando viu uma lágrima solitária percorrer o rosto esquálido da irmã, ela realmente podia ouvi-lo. O coração dele acelerou e seus olhos encheram-se de lágrimas inevitáveis, ele ergueu a mão dela e levou aos lábios.
— Minha menina, estou aqui com você, vai ficar tudo bem, eu prometo! — Hu Bing sorriu. — Eu sinto sua falta, muito mesmo, xiao Yan. Gege te ama muito.
Os níveis cardíacos de Yan Da deram uma leve alterada e ele percebeu aquela como a resposta para sua declaração. Yan Da respondeu com o coração que também sentia saudade do irmão.
※※※
— Nossa melhor chance agora é rastrear o dinheiro. — Informou o detetive. — Conseguimos chegar ao local do cativeiro, mas não encontramos nada lá, apenas sangue das vítimas. Os bandidos foram espertos, sem digitais, pelos, nada que pudesse levar a alguém.
— Maldição! — Praguejou Hu Bing dando um soco na mesa. — Isso não vai ser tão simples, as notas não eram sequenciadas e foram tiradas de bancos diferentes.
— Daremos nosso melhor, Meng xiansheng, entramos em contato com a polícia internacional, vamos tentar seguir a trilha do resgate. — Prometeu outro detetive. — Apesar de não termos nada substancial, um dos peritos encontrou algo no local, talvez o senhor possa reconhecer.
Ele colocou um saquinho de plástico transparente com ziplock na frente do irmão de Yan Da, dentro havia um pequeno objeto que Hu Bing reconheceu de imediato, era algo feito sob encomenda, havia sido um presente trazido da França pela mãe deles, um conjunto de abotoaduras feitas à moda regencial, haviam custado uma pequena fortuna, e eram em pares diferentes de rubi e diamante. Doze de cada. As de rubi, Xi Yu dera ao marido pelo seu aniversário e as de diamante foram dadas a Shuo Gang quando entrou na faculdade.
— Estava entre as frestas de um estrado de madeira sujo de sangue. — Explicou. — Ainda assim, precisaríamos mais do que isso para ligar o dono ao crime.
— Isso é uma peça feita sob encomenda. — Contou. — Uma abotoadura de um conjunto de dez. Ela é de diamante, apenas uma vale em torno de duzentos mil dólares. Pertence ao meu irmão, Shuo Gang.
— O senhor tem certeza? — O detetive parecia chocado.
— Absoluta. — Anuiu. — Foi uma encomenda feita pela minha mãe na França anos atrás, é impossível que mais alguém possua algo parecido. São peças únicas no mundo, imitam abotoaduras presenteadas por Luis XIII para Ana da Áustria.
Fez-se um silêncio perturbador na sala privativa da Unidade de Crimes Violentos. Os dois detetives se olharam sabendo que teriam de interrogar o irmão da vítima, mas a expressão de Hu Bing era quase assassina, como se previssem os pensamentos dele, os dois adiantaram:
— Vamos interrogar o seu irmão, mas tenha em mente que essa prova não é concreta, isso o coloca no local do crime, mas não quando o crime ocorreu. — Informou o detetive responsável. — A menos que tenhamos algo realmente substancial que ligue seu irmão ao local, não podemos provar nada apenas com isso, ele pode alegar ter sido roubado enquanto usava, ter perdido e ter sido encontrado por outra pessoa, há muitas possibilidades de refutar uma acusação no tribunal. Por enquanto, nossa melhor chance é sua irmã afirmar se o viu ou não lá.
As mãos de Hu Bing se fecharam em punho e ele sentiu uma fúria fervente percorrer suas veias como lavas vulcânicas. Parte de si não queria acreditar que Shuo Gang, por pior que fosse, seria capaz de algo tão hediondo contra Yan Da ou mesmo capaz de sujar de sangue as mãos com a morte de Peng Yan. Ele pediu para tirar uma foto da abotoadura já que, como evidência, ela não podia sair da unidade, tiraria aquela história a limpo por conta própria e se descobrisse que o perverso irmão estava por trás daquilo ele o faria pagar caro. Sabia que precisava ser cauteloso, Shuo Gang era muito escorregadio, se soubesse estar sob suspeita ficaria em alerta e dificultaria o acesso a possíveis provas que poderiam surgir se ele não se imaginasse livre de qualquer envolvimento. Ele disse isso aos detetives que anuíram e concordaram em tornar o interrogatório o mais imparcial e cauteloso possível.
Yan Da havia sido transferida para a clínica que ele selecionara, era um hospital particular de acesso privativo, ainda assim, dois policiais ficavam de guarda na frente do quarto da irmã quando ele estava fora. O coma induzido fora retirado no dia anterior, mas ela ainda não havia recuperado a consciência, contudo, o médico afirmava que a recuperação estava indo muito bem, entretanto, era impossível prever ou precisar que tipos de danos psicológicos ela sofrera e qual seria o tempo de recuperação destes. Hu Bing comprou um buquê de miosótis azuis para ela, Yan Da adorava flores, suas favoritas eram os lírios azuis, mas estavam faltando na floricultura.
Ele cumprimentou a recepcionista e seguiu para o elevador, a irmã estava internada no terceiro andar da clínica, enquanto subia, Hu Bing se esforçou para limpar os pensamentos e acalmar o humor, queria estar leve quando ela acordasse para recebê-la com alegria e tranquilidade, como ela merecia. Huo Yi havia entrado em contato com o advogado pedindo para visita-la, Hu Bing vetou o pedido, mas permitiu que o pai visse a filha pela parede de vidro do quarto e era o mais perto que chegaria dela. Ele sabia que Yan Da não se sentiria bem com a visita e tampouco que o pai estava fazendo aquilo por real preocupação, não queria arriscar que ele dissesse coisas que magoariam ou deixariam a irmã nervosa. E se o permitiu chegar à parede de vidro — vigiado de perto pelos policiais — era pela surpresa do pedido.
No dia que Yan Da fora encontrada, Huo Yi sequer se aproximara dela, apenas checou se ela estava viva e deu as costas indo embora como se não fosse algo importante, Hu Bing não o havia perdoado por aquela atitude, não permitira que ele ou qualquer outra pessoa se aproximasse de Yan Da. Agradeceu o trabalho dos policiais e entrou no quarto da irmã usando um cartão magnético de identificação, Yan da ainda dormia e ele colocou as flores em um vaso, trocando as hortênsias que havia levado no dia anterior. Colocou mais água no humidificador de ar ao lado da irmã e sentou-se em uma cadeira próxima a cama, segurando a mão dela com cuidado e acariciando-a com os dedos.
— Fico me perguntando com o que você está sonhando... — Disse baixinho enquanto olhava para ela. — Espero que pelo menos no mundo dos seus sonhos você possa alcançar um pouco de paz.
Ele beijou-lhe a mão com delicadeza e, nesse momento, Yan Da abriu os olhos.
Hu Bing estava extasiado, seus olhos encheram de água quando levou a mão da irmã ao rosto e apertou o botão para chamar o médico. Yan Da piscou algumas vezes olhando para o teto, depois seus olhos varreram à sua volta até parar nele, que lhe ofereceu um sorriso emocionado.
— Oi, minha menina... você finalmente voltou pra mim. — Ele mantinha a mão dela encostada ao rosto, mas percebeu que a irmã parecia ainda entorpecida.
— Peng...
A voz de Yan Da soava baixa e áspera pelo desuso. Ele a ajudou a beber um pouco de água com o auxílio de um canudo, a mão acariciando o rosto da irmã como se quisesse ter certeza que ela havia mesmo acordado, que conseguira sobreviver àquela provação. Seu coração se partiu ao ouvi-la dizer o nome de Peng Yan, não queria relembrar a ela a morte do melhor amigo.
— Está tudo bem agora, minha menina, estou aqui com você.
O médico chegou antes que Yan Da tivesse oportunidade de fazer novas perguntas, ele a examinou e fez alguns questionamentos, pediu alguns exames que a enfermeira anotou enquanto a irmã, ainda um pouco desnorteada, ia se adaptando à realidade. O homem pediu para falar com Hu Bing por um momento e os dois foram para o canto esquerdo do quarto onde havia uma pequena saleta, ele começou a explicar o processo final da recuperação quando o grito da princesa do fogo preencheu o quarto.
Rapidamente, os dois se voltaram para a cama onde a enfermeira tentava acalmar uma histérica Yan Da cuja mão esquerda sangrava, a mangueira do cateter pendia ao lado da cama gotejando sangue e soro, Hu Bing só havia visto a irmã daquela forma quando a encontrara sob o corpo de Peng Yan, todavia, não era desespero que ela exprimia naquele momento.
Era terror.
— ASSASSINO! — Gritava ela em uma mistura de terror e angústia. — ASSASSINO!
Parando ao lado dela, ele viu o pai acompanhado de Shuo Gang através da parede de vidro. Os policiais entraram para ver o que estava acontecendo e o médico pediu para que tirasse Huo Yi e Shuo Gang dali. Hu Bing segurou a irmã nos braços bem no momento que ela tossiu cuspindo um bocado de sangue, Yan Da parecia alheia à razão gritando desesperada em um pranto copioso e inconsolável, o médico teve dificuldade em aplicar um sedativo e tudo pareceu piorar quando ela viu a agulha, com muito esforço, ela finalmente foi sedada outra vez, a enfermeira fez um curativo na mão dela e um novo cateter foi colocado na outra mão e Yan Da foi movida para a terapia intensiva outra vez.
Após esse episódio, apenas Hu Bing passou a ter acesso à ela, Shuo Gang e Huo Yi, mesmo sendo familiares, foram proibidos de se aproximar dela. Aquilo só deu a Hu Bing a confirmação de que o irmão estava envolvido no sequestro de Yan Da e no assassinato macabro de Peng Yan. Ele mal conseguia conceber a ideia que Shuo Gang fosse tão frio àquele ponto. Preocupado com a irmã e vendo a lentidão da polícia, ele contratou dois detetives particulares para investigar o caso e tentar ligar o irmão à história, passou todos os detalhes que conseguiu com a polícia e, um mês depois, dois suspeitos finalmente foram presos.
Ele conseguiu permissão para assistir ao interrogatório dos dois homens, Hu Bing queria uma pista, por menor que fosse, ligando o irmão ao caso, mas os dois sujeitos se recusaram a falar, mesmo sabendo que passariam o resto da vida na cadeia se não fossem condenados à morte. Que tipo de influência Shuo Gang exercia sobre eles a ponto de mantê-los fiéis daquela forma? Seriam as famílias? Investigando um pouco, descobriu-se que ambos tiveram vidas difíceis que não melhoraram muito, mas mesmo quando a polícia garantiu a segurança de seus familiares eles continuaram se recusando a falar.
E depois, foram encontrados mortos.
A frustração começava a deixar Hu Bing impaciente. Todas as vezes que pensava ter encontrado um caminho se deparava com um beco sem saída. Alguém estava se empenhando para encobrir os rastros de Shuo Gang, ele não tinha dúvida, mas não tinha certeza se era o pai ou outra pessoa. O ápice das suas apreensões foi o desaparecimento do legista e dos registros médicos da irmã e de Peng Yan, todos os esforços da polícia pareciam de igual modo infrutíferos e Hu Bing sentia como paredes se fechando à sua volta prestes a esmagá-lo. Precisava proteger Yan Da, mesmo sem saber de quem, tudo que lhe importava naquele momento era manter a irmã o mais segura possível.
Mas, sobretudo, precisava salvar Yan Da de si mesma.
Notas:
*Luòyīng [落英] — Caído. Não sei por que escolhi esse nome, ele me veio na cabeça e decidi usar.
*Violetas brancas — O significado da flor violeta é lealdade, mas algumas pessoas também consideram que as violetas representam a modéstia. Outro significado é a simplicidade e delicadeza, por isso presentear alguém com vasos de violetas é uma forma de demonstrar amor e sutileza. Também afirmam que dar uma violeta branca a alguém significa que uma promessa está sendo feita.
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