Love as Sakura | 爱如樱

72 第60章 Até eu te ver novamente - Parte I


O coração de Yan Da se sentia mais tranquilo após conversar brevemente com Pian Feng, não sabia como o vento do guerreiro havia conseguido alcançá-la ou o que era aquela música sombria que despertara nela sentidos já esquecidos no meio daquela terra sem noite. Quando a voz do melhor amigo foi embora, tudo voltou a ser silêncio ao seu redor, mas incrivelmente ela não se sentia mais sozinha, em algum lugar dentro de si confiava que ele conseguiria do contrário não teria prometido.

como ele faria aquilo ela não sabia.

Em momentos como aquele, onde o único som vinha das vozes no seu próprio pensamento, ela sentia de forma mais violenta a ausência de Peng Yan. Se perguntava se o melhor amigo já havia atravessado o rio do esquecimento ou bebido o chá dos cinco sabores e agora não sabia mais quem ela era ou o que viveram juntos. Por mais triste que fosse, no fundo Yan Da estava aliviada por ele esquecer, não desejava a memória das dores e sofrimentos enfrentados por causa dela em suas duas vidas. Esperava que dessa vez ele fosse realmente feliz.

Algumas vezes, saía até a entrada da caverna e observava o céu claro sem nuvens, ela não fazia ideia de onde vinha a luz uma vez que não havia qualquer sol no firmamento, como se fosse somente uma ilusão e não um céu de verdade — e, considerando onde ela estava, não seria nada chocante —, todavia, continuava sendo reconfortante observá-lo. Sentia saudade das nuvens e ver formatos nelas, de fechar os olhos deixando o calor inundar sua pele, do som dos pássaros na sinfonia da natureza, mas não havia nada daquilo ali, os arredores da Montanha Kunlun tinham um silêncio ainda mais profundo que um cemitério no mundo humano, nem mesmo o farfalhar das folhas balançadas pela brisa se ouvia em parte alguma.

Entendia agora o que diziam sobre o silêncio ser enlouquecedor. Sentando-se na base do precipício, pensou em Shi, imaginou o que ele estaria fazendo naquele momento, lembrou do seu olhar desesperado ao dizer que a amava em seus momentos finais. Na primeira vez, quando ela morrera por ele no declive das cerejeiras, nenhuma palavra saiu da sua boca, mas no instante em que Ka Suo atravessou-a com a sua espada, o príncipe do gelo verbalizou os sentimentos que demonstrou para ela nos meses que antecederam a volta de suas lembranças e ela acreditou nele. Acreditou naquele amor que ele afirmou sentir e na dor da sua voz e dos seus olhos. Contudo, ainda lhe parecia estranho que o amor de milênios era finalmente correspondido, em certos momentos era como viver um sonho e Yan Da se sentia ainda mais gratificada por sua partida, não fora em vão, mesmo se não conseguisse voltar para o lado daqueles que amava, tinha a certeza de morrer sendo amada em vida — e continuar sendo amada depois dela.

Não sabia quanto tempo se passara desde que pudera falar com Pian Feng através daquele vento e provavelmente não importava, nunca anoitecia de modo que ela não podia contar dias ou horas, tudo ali era imutável. Pondo-se de pé, fez menção em voltar para a caverna quando algo lhe chamou a atenção. Frio. Voltando-se mais uma vez para a entrada da caverna, Yan Da soube que havia algo errado antes mesmo de acontecer, o céu obscureceu e a Lua do Abismo se tornou visível imperando no manto sombrio da noite. Algo gelado subiu pela sua espinha e pela primeira vez desde que chegara ali, a princesa do fogo sentiu medo.

Correu para dentro da caverna e encolheu-se sobre a cama esperando que aquilo fosse apenas manifestação dos seus sentimentos outra vez. Contudo, o vento forte soprando do lado de fora com uivos tenebrosos, tal qual lâminas cortando o ar, lhe dizia que não ia terminar tão depressa. De algum jeito, a princesa sabia que não era Pian Feng daquela vez, o vento não veio diretamente na direção dela e a voz do melhor amigo não era ouvida em nenhum lugar. O coração de Yan Da martelava dentro do peito e duas coisas contribuíram para o choque que abalou o resto de sanidade que lhe restara naquele mundo: A primeira foi o fio dourado saindo do seu peito. Ela não tinha reparado naquilo antes, se ele estivera ali não era visível, ela não conseguia ver onde o fio ia dar, mas era fino e reluzia na baixa luz.

A segunda coisa foi o dragão.

Yan Da não sabia como podia ver a criatura, era quase transparente e gigantesca, ocupando a caverna praticamente inteira. A luz diáfana que emanava dele brilhava em branco azulado, mas era totalmente possível ver através dele. Uma mistura de choque e terror dominou-a, tal como o encanto de encarar um ser sagrado como aquele, chegou a se perguntar se era um deus que estava ali para julgá-la ou enviá-la para a próxima vida. O dragão olhava fixamente em seus olhos sem deixar dúvidas que a estava vendo e que ela era seu alvo. A princesa não tinha para onde correr, mesmo a criatura sendo vítrea ela não acreditava ser capaz de atravessá-la. Paralisada entre o terror e a confusão, não conseguiu mover um só músculo quando o dragão a envolveu muito mais gentilmente do que esperava e a tirou da caverna.

Tal era o estado de atordoamento da princesa que ela sequer lutava para se libertar. A criatura atravessou sobre a copa das árvores até o rio Jìngzi onde a colocou, com a mesma delicadeza, na margem. Ao contrário da última vez que esteve ali com Peng Yan, as águas estavam rubras como se tingidas de sangue, o dragão abriu a boca e soprou sobre o rio, as águas se moveram em ondas circulares e, para surpresa da princesa, o reflexo da lua pôde ser visto na superfície. Ela olhou para a entidade parada atrás dela como uma proteção, os enormes olhos cintilantes a encaravam com uma espécie de curiosidade e, por um momento, Yan Da pareceu entender, ele queria que ela olhasse dentro do rio.

Incerta, a princesa olhou da criatura para o rio mais uma vez e, como se entendesse sua dúvida, o draão baixou a cabeça até ela e deu-lhe um leve empurrão na direção do rio. Yan Da anuiu, emudecida, e se abaixou na margem olhando dentro da água. De início, não viu coisa alguma, o líquido vermelho parecia turvo, mas podia ouvir, vindo de algum lugar, o som de lâminas se chocando, não poderia vir de dentro da água, era absurdo! Ergueu a cabeça novamente, o dragão continuava atrás dela, pacífico, como se estivesse de guarda.

Eu estou bem na fronteira entre o céu e o inferno e ainda me impressiono com um dragão.” Pensou enquanto voltava a olhar para dentro do rio, mas agora a lua do abismo brilhava dentro da água iluminando uma silhueta com sua claridade leitosa. A figra também pareceu vê-la ao olhar para cima, mas quando ele falava, Yan Da não conseguia ouvir. Todavia, a visão de seu rosto era o bastante para enchê-la de esperança.

— Ying Kong Shi!

O príncipe olhou para os lados como se procurasse algo e ela pensou que ele também não lhe ouvia. Desejou poder tocá-lo, queria tão desesperadamente abraçá-lo que seu coração doía, então percebeu que o fio dourado saindo do seu peito parecia entrar nas águas rubras do rio. Curiosa, a princesa tentou tocá-lo, mas não conseguia, então algo dentro de si se moveu e ela lembrou das palavras de Peng Peng “Ouça o silêncio dentro de você e não olhe para trás nem uma vez, hao bu hao? (...) A chave mestra está dentro de você.”

Seguindo seu instinto, a princesa deslizou a mão dentro das águas escarlates e tentou alcançar Ying Kong Shi, por sua vez, ele fez o mesmo e, de alguma maneira, a mão dele encontrou a sua, Shi a puxou e o dragão envolveu-a completamente como um enorme bolsão de ar. Quando menos esperou, o desejo de seu coração foi atendido e ela estava no reconfortante abraço de Shi.

— Peguei você. — Sua voz era um sussurro cansado entre os cabelos dela. — Está tudo bem agora.

— Eu sinto muito. — As palavras transbordaram de Yan Da em um lamento doloroso ao lembrar de tudo que Peng Yan havia lhe mostrado sobre ele. — Me perdoe...

— Shh... você não precisa se desculpar de nada meu amor. Nada é culpa sua, estamos juntos agora, vai ficar tudo bem. Eu te amo, Yan Da. Eu amo você.

As palavras tiveram o efeito de uma manta de lã sobre um corpo com frio severo. Qualquer coisa que dissesse parecia insuficiente para Yan Da expressar o que sentia, ela o amava há tanto tempo que nem mesmo se tentasse conseguiria explicar. Um calor forte penetrou seu peito enquanto ambos se abraçavam tão forte que pareciam querer fundir-se em um único organismo, foi quando a princesa percebeu qual era a chave mestra capaz de tirá-la da escuridão: seu amor por Shi. Um sorriso de genuína felicidade preencheu o rosto e o coração dela, estava prestes a dizer a ele o que também o amava, no passado quando ele partiu seu coração por temer o que sentia, quando ela estava em seus braços em seus últimos momentos, e também naquele agora quando o conheceu naquela vida tendo a chance de provar a realidade daquele sentimento nos momentos que compartilharam. Mas essas palavras não puderam ser ditas, alguma coisa na luz incandescente que os cercou puxou-a para longe de Shi, ela ainda tentou chamar o seu nome, mas a voz pareceu perder-se no vazio.

O que antes era uma escuridão sombria agora era uma luz cegante, Yan Da mal suportava manter os olhos abertos enquanto flutuava no ar como se suspensa por uma forte corrente de ar, uma pontada forte golpeou sua cabeça e a consciência desapareceu lentamente conforme ela se perdia no vácuo brilhante do infinito.

※※※

Huang Tuo ajustou o soro e aplicou o sedativo verificando mais uma vez o pulso de Shi antes de finalmente levantar-se, exausto, e encarar um Ka Suo que não estava em melhores condições.

— Vá dormir um pouco, ele não vai acordar até o meio da manhã. — Recomendou. — Voltarei para vê-lo.

— Obrigado, Huang Tuo. — Anuiu. — Não sei o que faria sem você.

— Vamos encontrá-la, Ka Suo, logo isso vai acabar.

— Mas as coisas que eu fiz permanecerão. — Disse ele, apático. — Ele não vai me perdoar tão cedo.

— Agora você não tem mais a eternidade para se punir, pare de se lamentar pelo que ficou para trás e foque no que pode fazer agora. — Respondeu o médico de forma incisiva. — As vidas tiradas não podem ser devolvidas, Ka Suo, tudo que você tem é o presente, Shi não vai te odiar o resto da vida. Foque na sua própria felicidade e deixe-o ser responsável pelo próprio destino.

Ele deu dois tapinhas leves no ombro de Ka Suo e estava prestes a deixar o quarto quando o outro o parou jogando para ele uma chave.

— Leve esse, Yue Shen está com seu carro.

— Tudo bem por você?

Ka Suo apenas deu de ombros. O médico então agradeceu e deixou o apartamento. Chegando ao estacionamento do prédio, ele apertou o botão do alarme apenas para descobrir que o amigo lhe emprestara nada menos que uma GTC4Lusso prateada que parecia não ter sido muito usada considerando que brilhava no amplo espaço mal iluminado. Passado o primeiro estágio do choque ele apenas olhou para o elevador de onde viera e sussurrou um agradecimento para o ex-monarca sabendo que aquela belezinha ia levá-lo duas vezes mais depressa ao refúgio de sua adorada Yue Shen.

Sentado ao volante, o médico encarou as próprias mãos pela primeira vez. Era estranho não sentir a magia fluindo dele e, ao mesmo tempo, triste. Huang Tuo amava curar, agora que essa parte sua havia desaparecido sentia-se incompleto. Mesmo ainda podendo ajudar outras pessoas, não seria igual. Não obstante, mais do que a si mesmo estava preocupado com os demais, nenhum deles, talvez excetuando Chao Ya, Pian Feng e Liao Jian que haviam retornado, inicialmente sem poderes, estava acostumado a não ter acesso a magia. Especialmente Ka Suo. Tinha receio como o melancólico irmão mais velho de Shi ia lidar com toda a situação opressora à sua volta. A única pessoa para quem a perda da magia havia sido, talvez, uma benção era sua esposa, Yue Shen.

Parte de Huang Tuo lamentava que ela não estivesse mais invulnerável com seu escudo, mas estava ansioso para poder viver ao lado dela sem qualquer temor ou barreira. Quando encontrassem Yan Da a felicidade deles estaria completa, seriam livres para viver suas vidas sem preocupação. O trânsito estava tranquilo para um dia de semana de modo que ele não levou mais que meia hora para chegar em sua casa. Entrou com cautela temendo que Yue Shen já estivesse dormindo, todos haviam sofrido muita pressão com a expulsão do mundo imortal e a destruição de seus núcleos dourados. Porém, ao entrar no quarto encontrou-a encolhida sobre a cama, os braços em volta das pernas flexionadas e a expressão pensativa.

Duas preocupações passaram pela sua mente ao encará-la: a primeira foi que a esposa finalmente se dera conta da sua mortalidade e se via perdida sem saber como lidar com aquilo. A segunda foi que com a transição para mortal, os sentimentos dela haviam mudado ou sua sensibilidade aflorado. Nos dois casos, ele odiava vê-la tão triste daquela forma. Yue Shen muitas vezes parecia inabalável e, na maior parte do tempo, ela realmente não se permitia derrubar por nada, mas ele também sabia que muitas vezes a esposa usava sua força como um escudo para esconder seus verdadeiros sentimentos.

Decidiu não fazer perguntas, conhecia-a bem o bastante para saber que ela preferia fazer as coisas no próprio tempo. Huang Tuo apenas deixou de lado a valise médica e caminhou até a cama sentando ao lado dela e puxando-a para um abraço cheio de ternura e acolhimento. Não sabia como era possível amar Yue Shen mais do que já amava, mas todas as vezes que a tinha daquela forma em seus braços, ele sentia com mais violência a fora do sentimento que nutriu por quatro mil anos. A jovem mulher abraçou o marido escondendo o rosto em seu peito, embalada pelo som agitado de seu coração, desfrutando da paz e da tranquilidade que ele despertava no seu coração.

— Onde acha que ela está, Huang Tuo? — Indagou baixinho com a voz levemente trêmula.

— Minha Luna, é isso que está inquietando você? Vamos encontrá-la antes do que imagina. — Confortou. — Ela está viva, nós conseguimos e isso é mais importante.

— Tem razão. — Sorriu. — Mas imagino que Chao Ya e Pian Feng não estão em melhores condições que Ying Kong Shi.

— Aqueles dois pais coruja só vão descansar quando tiverem a criança embaixo do braço de novo. — Beijou a cabeça dela. — O que eles precisam de verdade é um bebê.

— Você fica com essa pose relaxada, mas eu sei que também está preocupado com ela. — Deu um leve tapa no abdome do marido.

— Claro que estou, mas alguém disse que podemos usar os recursos mortais para encontrá-la. — Lembrou-lhe com um sorriso travesso. — E, nesse momento, o nosso recurso mortal mais urgente é esfriar a cabeça, tomar um banho e dormir. Você precisa descansar, amor, não é preciso um dom médico para ver que está exausta.

— Vá você primeiro, quero ficar deitada mais um pouco. — Ela depositou um beijo no rosto do marido.

— Tudo bem, descanse muito enquanto puder, quando encontrarmos Yan Da eu não pretendo deixar você descansar praticamente nada. — Piscou para ela.

— E quem precisa dormir? — Devolveu um sorriso provocador para ele.

Yue Shen não sabia o que aconteceria no dia seguinte, mas enquanto tivesse Huang Tuo ao seu lado enfrentaria qualquer coisa.

※※※

Pian Feng colocou as chaves no aparador e acompanhou Chao Ya até o quarto deles. O perfume de Yan Da, surpreendentemente ainda permanecia no ar como se ela tivesse estado ali há poucos minutos. A frustração e a tristeza que eles estavam sentindo por entrar ali sem ela não podia ser posta em palavras. Ele preparou um banho de banheira para esposa e deixou-a relaxar sabendo que nada do que pudesse dizer amenizaria a dor no corção dela.

Enquanto ela tomava banho, Pian Feng cozinhou uma refeição leve e a levou para o quarto esperando que ela não se recusasse a comer e descansasse melhor. Chao Ya estivera muito quieta desde que deixaram o apartamento de Ying Kong Shi. Todos tinham consciência que o ritual não dera errado, tanto Huang Tuo quanto Xing Jiu e Yue Shen havia visto e revisto cada pequeno detalhe e discutido com os demais. A imortalidade de todos fora retirada e o mundo imortal os expulsou de lá, então não entendiam onde Yan Da poderia ter ido parar considerando que seu corpo também estava lá.

Ele beijou a cabeça da esposa quando esta saiu do banheiro e pediu gentilmente que ela tentasse comer um pouco enquanto ele mesmo tomava banho. Independente do que fosse dito no encontro com todos nos dia seguinte, ele sairia para procurar Yan Da, usaria todos os recursos à sua disposição para encontrá-la. Ficou um pouco mais tranquilo quando saiu e percebeu que Chao Ya havia se alimentado, os dois não sentiriam tanto a ausência de sua imortalidade uma vez que, ao serem trazidos para aquele mundo no início, seus poderes não retornaram com eles e tiveram de viver muitos anos contando apenas com a suas habilidades inerentes e desenvolvidas. Lágrimas cristalinas escorriam pelo rosto bonito da cantora e Pian Feng sentiu o coração apertar, desejava mais que qualquer coisa poder ter Yan Da ao seu lado e ver Chao Ya sorrindo outra vez, nunca antes se sentira tão impotente.

— Sei que está preocupada com a nossa menina, meu amor. — Ele a abraçou sentando ao lado dela. — Eu prometo a você que vou trazê-la de volta para casa, está bem?

— Não sei se tenho mais medo que ela não se lembre de nós ou que se lembre de tudo... — Sussurrou. — Só sei que não posso continuar sem ela, Pian Feng. Não vou conseguir ser feliz enquanto não vê-la bem.

— Yue Shen tem razão quando diz que nós conseguimos, Chao Ya — ele acariciou o rosto dela — nossa menina está viva, independente de lembrar-se de nós ou não, vamos trazê-la para casa e ser testemunhas da sua felicidade. O pesadelo vai acabar em breve, meu anjo, tenha fé.

Ela assentiu encostando a cabeça no peito do marido. Confiava nele e, sobretudo, acreditava em Shi. Yan Da estava viva, naquele momento Chao Ya se agarraria àquela certeza para não sucumbir ao desespero.

※※※

A escuridão que lhe cercava era como uma entidade. Shi dava passos incertos apertando com força o cabo de sua espada, xuě rèn*[1], sem conseguir ver nada diante de si. Sussurros indiscerníveis pareciam surgir das sombras e a cada passo ele temia se chocar com o que quer que estivesse ali à sua espera. Mais adiante, uma luz pálida surgiu em meio ao breu intenso, clareando o vazio à sua volta, olhando para cima ele percebeu a lua majestosa imperando no possível céu sem estrelas.

Seu coração batia agitado dentro do peito e ele parecia não ter forças. Foi o instinto de outros tempos que o alertou par ao som da lâmina que cortou o ar na sua direção, erguendo a própria espada, Shi bloqueou o golpe mortal antes que ele atingisse seu peito, virando-se para o lado viu quando a paisagem à sua volta ganhou forma lentamente pela claridade leitosa da lua, um rio se estendia ao longe, as margens cheias de pedras, árvores do outro lado ladeando a margem oposta, e, curiosamente, não se avistava sobre as águas qualquer reflexo.

— Lento! — A figura diante dele esboçou um sorriso diabólico aproveitando-se do seu momento de distração e o atacou novamente. A lâmina abrindo um talho no seu rosto. — Veja a criatura patética que você se tornou, Ying Kong Shi.

Irritado, Shi ergueu o olhar para encarar seu adversário e, qual não foi sua surpresa ao ver a si mesmo trajando as vestes de Li Tian Ji, os olhos vermelhos como o sangue e a expressão doentia sedenta por sangue e destruição.

— Você acha que pode me derrotar? — A risada carregada de sarcasmo era cortante. — Não passa de um mortal tolo e sem força.

— E você não existe! — Gritou de volta investindo a espada contra Li Tian Ji, ele desvencilhou dando uma risada desvairada. — Não pode mais me machucar!

Xue ren cantou o ar com força quando Shi, usando toda sua fúria, investiu com a lâmina contra a cabeça de Li Tian Ji e o decapitou. Corpo e cabeça despencaram no chão com um esguicho de sangue rubro até se desfazerem em faíscas que cintilaram no ar e desapareceram. Shi arfava, o coração acelerado no peito e as lágrimas ardendo nos olhos, uma camada de suor cintilava no seu rosto. Seguiu em frente na direção do rio, mas alguns passos adiante foi parado por outra voz muito conhecida.

— Olhe só isso, ridículo. — O tom frio e sem emoção da voz fez uma sensação gelada subir pela espinha dele. — Me envergonho de ser você.

— Não somos a mesma pessoa. — Retrucou Shi. — Você não passa de uma sombra refletindo a dor da rejeição e a obsessão que eu julgava como amor.

— Acredita mesmo que me negar o faz ser alguém melhor? — Um sorriso sombrio cintilou na semi-escuridão. — Concordo com Li Tian Ji, você é patético.

— Cala a boca! — Gritou ele, cansado. — Estou farto disso! Ninguém mais vai me controlar, eu sou o senhor de mim, eu comando o meu destino!

— Isso nós vamos ver.

Saindo das sombras com uma velocidade assustadora, o príncipe do império da neve brilhava em roupas brancas e prateadas, os longos cabelos prateados esvoaçando com o vento, a mesma xue ren brilhando em sua mão, fria e mortal. Shi atacou seu eu do passado com igual ferocidade, mas o cansaço fazia seus pulmões arderem tanto quanto o corte que sangrava no seu rosto, forçou a mente a pensar no cristal que alcançou quando mergulhou na essência do silêncio, limpou os pensamentos e invocou o poder dentro de si, estava em algum lugar mesmo que não pudesse senti-lo naquele momento.

A lâmina do príncipe dilacerou seu braço esquerdo, e por pouco não cortou sua costela direita, Shi a bloqueou antes que o alcançasse, foi quando sentiu o poder fluir pelas suas veias, um breve momento, conseguiu fazer um movimento mais ágil que seu inimigo e viu sua espada rasgar-lhe a jugular. Sua versão príncipe caiu inerte e ele correu até a beira do rio, olhando para a água onde, dentro, viu refletido o rosto de Yan Da, ele chamava seu nome sem conseguir ouvir resposta, tentou alcançá-la, mas antes que seus dedos se prendessem aos dela algo gélido penetrou seu corpo e a dor o preencheu.

Olhando para baixo, Shi viu a lâmina azulada de xue ren manchada de seu próprio sangue, enterrada no meio do seu corpo, a visão ficou embaçada e ele cuspiu o sangue que enchia sua boca. O grito de Yan Da preencheu toda a escuridão que lentamente se formava diante dele.

— YAN DA!

Mãos prenderam seus ombros empurrando-o de volta para o chão, ele tentava se desvencilhar delas, a risada insana de Li Tian Ji ecoava em seus ouvidos, ao longe, Yan Da era levada pela luz da lua, ele se arrastava tentando alcançá-la até suas forças se perderem completamente.

— Shi...

Os olhos de Shi se abriram e ele encarou o teto branco, os móveis escuros e a parede pintada de preto com a gigantesca cerejeira. Ao seu lado, mantendo-o contra o colchão, as mãos alvas de Ka Suo o pressionavam. Suor escorria por todo seu rosto e ele ergueu as mãos limpas no ar encarando-as como se buscasse vestígios de sangue. Mas não havia nada ali.

Nem sangue, nem poder.

— Tudo bem. — A voz de Ka Suo era tranquila. — Está em casa.

Ele encarou o irmão por um momento e sentiu-se dividido entre a mágoa e a ternura. Engoliu as lágrimas que ameaçavam cair e virou de costas para ele, no fim de tudo, ainda não era capaz de perdoá-lo. Como ele podia afirmar com toda aquela calma que estava tudo bem? Nada ficaria bem para Shi até encontrar Yan Da de novo e fechar de uma vez o buraco no seu coração. As lágrimas caíram mesmo que ele as tenha tentado manter por dentro, dolorosas e amargas como a ausência da mulher que ele amava.

Magoado, mas entendendo a posição e a decisão do irmão, Ka Suo se pôs de pé e disse que cozinharia algo para ele comer, pediu que se alimentasse um pouco antes de Huang Tuo vir vê-lo e voltaria para a casa dos pais, assim o irmão poderia ficar à vontade. Shi não disse nada, tampouco fez qualquer movimento para impedi-lo de ir embora. Não queria vê-lo ainda, a presença dele ali era um cruel lembrete da morte injusta de sua amada que agora estava perdida e talvez sem memória em algum lugar do mundo.

Na cozinha, Ka Suo preparou uma refeição reforçada e deixou tudo organizado para o irmão, as palavras do curandeiro remanesciam em sua mente e dava-lhe força para seguir. Era mesmo hora de deixar Shi seguir seu caminho livremente e escrever a própria história, aquela era a maior prova de amor que podia lhe dar. Outrora, sufocara-o com seus sentimentos e seus desejos, desde o começo devia ter incentivado o irmão a ouvir os próprios sentimentos, abrir-se para outras pessoas, mas ao invés disso o prendera sob as asas da sua proteção e egoísmo. Amar Ying Kong Shi era deixá-lo ir, livre para buscar o amor e escolher se um dia poderia perdoá-lo.

Shi só levantou quando ouviu a trava eletrônica apitar informando que o irmão deixara o apartamento. Tomou um longo banho empurrando o desespero para o fundo do seu coração e se agarrando à determinação de encontrar Yan Da, não importava o que precisasse fazer, ele a traria de volta. Huang Tuo chegou quando ele estava tomando café, como eram muito próximos o médico sabia a senha da sua porta de modo que entrou direto. Havia um brilho tão reluzente no semblante dele que Shi jamais diria que a imortalidade havia deixado o curandeiro.

— Muito bem, repondo as energias. — Sorriu. — Vai mesmo precisar delas para começarmos a procurar sua princesa.

— Não sei como te agradecer, Huang Tuo, a todos vocês...

— Pare com isso, pirralho. — Brincou o médico bagunçando os cabelos dele. — Você já me deu sustos suficientes nas últimas horas, melhor começar a me ameaçar ou vou acreditar que a imortalidade levou junto seu bom senso.

— Onde estão os outros?

— Yue Shen foi buscar Xing Jiu e Liao Jian. — Respondeu, sentando-se ao lado de Shi e pegando um jiaozi. — Lan Shang vai trazer Li Luo. Chao Ya e Pian Feng estão comendo também, acabei de passar por lá. Quer dizer, seria mais correto dizer que Pian Feng está tentando convencer a esposa a comer.

— Não sou capaz de imaginar o desespero de Chao Ya... — Baixou a cabeça. — Me sinto culpado todas as vezes que lembro como ela estava da última vez que a vi após a morte de Yan Da.

— Mas agora ela está viva, Shi, e enquanto há vida, há esperança. Com ou sem memória vamos conseguir achá-la e dessa vez espero que conquiste ela direito, não aceito menos que ser padrinho no seu casamento.

Ying Kong Shi baixou a cabeça com um sorriso sem jeito sentindo o rosto queimar. Seu coração, entretanto, aqueceu-se com as palavras otimistas de estímulo do amigo, sentiu as forças sendo renovadas e pôde acreditar com firmeza naquele futuro.

— Pode contar com isso. — Sorriu.

Huang Tuo anuiu dando tapinhas conspiradores no ombro dele.

— Isso mesmo, mantenha esse sorriso no rosto para estar brilhando quando encontrarmos sua noiva, hum? É hora de comemorar. — Incentivou. — Além disso, também quero você de padrinho no meu casamento.

— Você precisa propôr à Yue Shen primeiro. — Provocou Shi. — Vou dar sua lua de mel de presente. Em troca você me faz padrinho do seu primeiro filho.

— Tá brincando? Vou te dar de afilhado os sete filhos que quero ter com ela! — Respondeu ele, bem humorado.

— Sete?! — Chocou-se. — O que você está querendo, um time de basquete?

— Já viu o tamanho da minha casa? — Ele fez uma careta. — Tenho que encher ela de crianças para se tornar mais animada.

— Se eu não soubesse como você é louco pela Yue Shen me sentiria inclinado a ter pena dela.

Huang Tuo deu uma risadela e passou o braço sobre os ombros de Shi enquanto os dois saíam até o apartamento de Yan Da onde marcaram a reunião. Enquanto, por parte do médico, o alívio de ver o amigo se enchendo de esperança e vitalidade era compensador, por parte de Shi a gratidão e a esperança que a presença do amigo trazia faziam-no sentir ainda mais que Huang Tuo era mais próximo que um irmão. Ele amava aquele médico travesso tanto quanto — ou até mais — amava o próprio Ka Suo.

※※※

“Estamos juntos agora, vai ficar tudo bem. Eu te amo, Yan Da. Eu amo você.” Havia uma nota de alívio e urgência na voz, aos poucos ela ia se afastando, ecoando longe na luz que a arrebatava e dificultava seus olhos de permanecerem abertos. Uma pontada dolorosa e intensa carregou seus sentidos para longe e quanto mais tentava recordar o rosto do dono daquela voz ou a sensação de seu toque nos braços firmes ao redor de seu corpo, mais tudo evanescia.

A cabeça de Yan Da doía horrivelmente quando abriu os olhos. O teto de revestido com luzes embutidas que emanavam uma claridade pálida no ambiente. Ela estava deitada em uma espaçosa cama de casal e, ao seu lado direito, havia uma salinha pequena com sofá e mesa de centro. Uma TV de 42” embutida em um painel de madeira que tinha vários compartimentos, como uma estante acoplada na parede. Sob ela uma mesa de escritório com cadeira e ao lado do sofá havia portas corrediças de vidro fechadas por cortinas claras. Erguendo-se com dificuldade, ela se perguntava onde estava e se havia bebido demais na noite anterior, pois não se lembrava de nada.

Dando alguns passos no cômodo que não era muito grande, ela cambaleou até as portas de vidro e abriu as cortinas para ver, da varanda, o mar agigantar-se pelo horizonte. Foi quando se deu conta que estava na cabine de um navio. Quando havia ido parar ali, não lembrava. Yan Da tentou puxar o último acontecimento que sua mente registrara e se recordava de estar com Hu Bing e Pian Feng na casa do irmão... quando? Discutiam algo sobre o julgamento de Huo Yi e Shuo Gang que o irmão tentava adiantar, mas depois... o quê? Não vinha nada à sua mente. Não se recordava o motivo de ter saído em um cruzeiro bem quando o irmão estava novamente na China, por mais que tentasse procurar sentido naquela atitude era impossível. Além do mais, ela sempre enjoava em barcos.

Pior que tudo aquilo era a sensação de estar esquecendo algo importante. Ela pegou o celular em cima da mesa na saleta apenas para constatar que não havia sinal. Não tinha ideia de onde estava ou que navio era aquele, tampouco podia se comunicar com o irmão, o melhor amigo ou a cantora. Sua cabeça ainda doía horrivelmente e, por mais que o navio não balançasse, sentiu-se muito enjoada. Sentando novamente na cama de casal, Yan Da respirou fundo várias vezes tentando se acalmar e pensar em uma saída para aquela situação, se estava em um navio no meio do oceano, passaria por algum lugar onde solicitaria sua saída.

Contudo, não teve muito tempo para planejar, a dor na cabeça foi ficando mais e mais forte, as cenas do sonho que tivera vinham-lhe à mente diversas vezes conforme as pontadas tornavam-se mais violentas ao ponto de ela gemer de dor. O que tudo aquilo significava? Precisava saber o que aconteceu consigo mesma. Apoiando-se nas paredes, tentou chegar à porta da cabine, mas não conseguiu dar mais que alguns passos antes de pontos negros flutuarem diante dos seus olhos e ela cair.

A camareira, que vinha ao quarto duas vezes ao dia, encontrou-a desacordada no chão da cabine e pediu ajuda pelo rádio. Yan Da foi levada para a ala médica do navio, os exames preliminares não acusaram nenhum tipo de patologia, mas quando ela não recobrou a consciência dentro de 48h, foi solicitado, pelo rádio do chefe de bordo, um helicóptero médico que a levaria ao hospital mais próximo de onde o cruzeiro estava.

Notas finais
[1] *Xuě rèn [雪刃] — Lâmina de neve