Love as Sakura | 爱如樱
60 第54章 Amor como cerejeira - Parte II
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Meses antes...
— Precisamos conversar.
Ka Suo não conseguiu esconder a surpresa por ver Yan Da ali diante dele, especialmente por ela ter ido por livre e espontânea vontade. As coisas entre ela e Shi não estavam nada bem. Ao que parecia, todos eles subestimaram os sentimentos dela pelo príncipe do gelo, o abismo do tempo estava vacilando e aquele mundo, tal como eles, estava condenado. Porém, a postura inflexível de Yan Da ali não lhe dava qualquer margem para o monarca interceder em favor do irmão.
— Por favor. — Ele indicou uma poltrona para que ela sentasse. — Gostaria de beber algo?
— Água, se não for incômodo. — Sentou colocando a bolsa de lado.
Ele pediu à secretária que trouxesse o que ela pediu, em seguida fechou a porta para não ser incomodado e tomou seu lugar diante dela em uma outra poltrona oposta ao lado da mesa com vidro fumê na saleta de recepções do seu escritório. Fazia muito tempo que não encontrava com a princesa do fogo, mas havia ouvido acerca de seus feitos e do modo como ela vingara o assassinato de Peng Yang colocando, com a ajuda de Hu Bing, os próprios irmãos na cadeia. Além disso, fora graças a ela que a ZhangYing conseguira comprar a Huo Enterprises quando Huo Yi foi processado e declarou falência por causa dos seus negócios ilegais.
Por algum tempo, Yan Da ficou em silêncio fitando o copo de água sobre a mesa e parecendo pensar em uma maneira de começar aquela conversa. Por vezes, Ka Suo tentou adivinhar a razão daquela visita, ela queria saber sobre Shi? Estava ali para falar de negócios? Ia perguntar sobre o passado? Mas o que realmente preocupava o monarca era se ele seria capaz de lhe dizer a verdade.
— Yan Da... — Começou, um tanto inseguro.
— Não vim aqui ouvir suas desculpas, Ka Suo. — Cortou ela, áspera.
— Ainda assim, lhe devo desculpas. — Insistiu. — Tudo que aconteceu no passado foi em parte minha culpa.
— Pelo menos você admite isso. — Ela cruzou os braços. — Sabe, sempre quis muito entender a cabeça do seu irmão para desenvolver aquela fixação em salvar uma pessoa que claramente não queria ser salva. Alguma vez na sua existência você realmente lutou por si mesmo ou por algo que queria, Ka Suo? Seu pai insistia que o trono só podia ser seu pelo fato de ser filho de Chen Tong, mas qualquer um podia ver que você mal podia cuidar de si mesmo, Shi deu todo o poder que tinha a você e, ainda assim, seu espírito era fraco demais para lutar qualquer batalha. Sim, a culpa é sua. A minha morte, a morte de todos eles é sua culpa, mas é seu irmão que leva o peso para você.
— Yan Da...
— A cabeça de todos vocês está a prêmio, graças a você bilhões de outras vidas inocentes vão perecer quando o abismo do tempo engolir esse mundo, não é? — Acusou. — Você trouxe a todos para cá, mas não conseguiu planejar direito os seus passos e agora ninguém consegue achar um meio de consertar a bagunça por você.
— Como você sabe sobre o abismo do tempo? — O choque no rosto dele devia estar muito evidente porque Yan Da riu.
— Pian Feng me contou tudo. — Respondeu. — Então, o que pretende fazer, assistir enquanto eles são aniquilados?
— Isso não estava nas minhas mãos desde o início.
— Claro, porque colocar a responsabilidade nas mãos dos outros é mais cômodo. — Devolveu. — Por isso mesmo, Ka Suo, você vai fazer o que eu disser sem me contrariar. Porque eu não quero que Pian Feng, Chao Ya, Yue Shen e Huang Tuo paguem o preço com a vida por sua causa de novo.
— Do que está falando?
— Há uma maneira de deter o abismo do tempo e o seu sacrifício usando a roda do destino. — Revelou.
— Isso é impossível, a roda do destino foi destruída. — Objetou.
— A sua roda do destino atada a Ying Kong Shi. — Esclareceu ela, mordaz. — Parece que você não aprendeu nada com todo o sofrimento que infligiu, não é? A roda do destino nunca para, Ka Suo. Ela apenas muda de curso.
Não! Pensou Ka Suo, perturbado pela revelação da princesa do fogo. Apesar de aparentar tranquilidade, havia um sofrimento pungente transparecendo nos olhos de Yan Da, a voz dela, a forma dura como ela falava com ele e a sua postura indicavam que ele não ia gostar do que quer que ela tenha ido lhe dizer. Sem Xing Jiu ao seu lado, ele se sentia perdido. Como seria possível a roda do destino ainda estar em curso? O astrólogo afirmara que a havia destruído na transição do sacrifício. Se ela ainda remanescia, quem eram as vítimas ligadas dessa vez? A menos que...
— Não me diga que...
— Você entendeu agora, não é? — Ela anuiu, um sorriso sombrio fazendo seu rosto bonito obscurecer.
— Como é possível? — A incredulidade era a única arma que Ka Suo possuía para lutar contra o terror que o dominava. Ficando de pé ele andava de um lado para outro.
— Seu sacrifício tem um preço, qual você acha que é, pensou que era só nos apaixonarmos e tudo estaria feito? — Yan Da ergueu o olhar para ele, furiosa. — Você nos condenou a isso. Chao Ya, Pian Feng, Liao Jian, Lan Shang, Li Luo, Huang Tuo, Yue Shen, todos foram trazidos de volta da escuridão ao preço do sacrifício de duas almas, estas renasceriam ligadas pela roda do destino, condenadas a se amar ou se destruir. E amar, Ka Suo, é o pior tipo de destruição.
— Eu não... por todos os céus, eu não fazia ideia que isso podia acontecer! — Exasperou-se, o desespero começando a engolir seus sentidos.
— Claro que não, você nunca sabe, não é? Só pensa no que quer conseguir e o seu impulso sempre acaba em um final trágico como agora. — Acusou ela aumentando ainda mais o sofrimento do rei do gelo. — Você nunca analisa o todo, Ka Suo, você só consegue enxergar o seu capricho.
— Por favor, não faça isso...
— Fazer o que? — Ela se pôs de pé e parou diante dele. — Dizer a verdade? Está tão acostumado a ouvir que não é culpa sua então, no momento que alguém fala a verdade, você desaba.
Aquilo não podia acontecer. Ele não podia permitir que Shi passasse por aquele pesadelo de novo. Devia haver alguma maneira, algum jeito de impedir aquilo. Se ao menos Xing Jiu estivesse acordado! Ka Suo entendia o que Yan Da estava insinuando, mas agir daquela maneira não seria diferente de repetir o erro de quatro mil anos atrás.
— Tem de haver outra forma. Eu não posso permitir isso! — Implorou.
— Você sabe que não tem outra forma. Apenas nós dois estamos ligados à roda do destino, um sacrifício voluntário é a única maneira de manter todos vocês vivos, salvar Ying Kong Shi do destino e libertar Li Luo do abismo do tempo. Eu sou a única que pode fazer isso e você... — Ela fez uma pausa, a voz começando a ficar embargada. — vai me ajudar. Isso não é negociável.
— Yan Da, não posso fazer isso, como posso condenar Shi a ficar sem você outra vez? Por que não aceita o amor dele? O que é tão difícil se é o que você também sente?
— É tarde demais. A alma de Xing Jiu está prestes a se fragmentar, os sinais da abertura do abismo já podem ser sentidos no ar, catástrofes maiores virão e Li Luo pode desaparecer para sempre. — Ela meneou a cabeça. — Quem mais vai precisar morrer para que você acorde e entenda que Lian Ji está prestes a ser rainha das ruínas desse mundo?!
— Por que tem que ser você?!
— Prefere que seja Ying Kong Shi?! — Disparou.
— Eu me ofereço a isso.
Yan Da esboçou uma risada debochada.
— Não seja ridículo, você sabe muito bem que não pode fazer isso. — A princesa voltou a sentar. — Além do mais, é algo que preciso fazer.
— Tem de haver outra maneira...
— Não há outra maneira, Ka Suo! — Gritou.
O silêncio no escritório se tornou sufocante. Ka Suo não conseguia — ou queria — evitar as lágrimas que cruzavam o território gélido do seu rosto, seu coração oprimido pela agonia, era tudo culpa dele de novo, após quatro mil anos e tudo que sacrificou no passado, ele findou por condenar o irmão e a mulher que ele amava a um novo fim trágico. Derrotado, ele deixou o corpo cair na poltrona, os soluços rompendo o silêncio.
— A tribo do fogo está condenada desde a grande guerra. — Revelou Yan Da. — Por causa disso essa chance que você achou ter me dado se provou ainda mais amarga que o passado. Preciso pagar essa dívida para libertar a minha alma desse ciclo de suplícios, além disso, por mais magoada que esteja, não sou capaz de permitir que seu irmão se machuque.
Ele não respondeu imediatamente. Passando as mãos pelo rosto numa tentativa vã de se livrar das lágrimas, foi preciso alguns minutos para conseguir encontrar a voz outra vez.
— Você acha mesmo que condená-lo a uma vida sem você é a melhor escolha para não machucá-lo?
— Ele escolheu o próprio purgatório, não foi? — Devolveu. — Se isso irá ensiná-lo a não brincar mais com os sentimentos das pessoas, que seja.
— Yan Da eu lhe asseguro...
— Repito: não estou aqui para ouvir suas desculpas. — Cortou ela de modo ácido. — Especialmente se elas vêm em defesa de Ying Kong Shi. O que ele fez foi indefensável, Ka Suo, então não tente justificá-lo.
Ela estava inexorável. Ka Suo se viu entre a cruz e a espada, se não ouvisse o que ela dizia e seguisse suas ordens, todos eles iam morrer, mas se concordasse com o que ela propunha, Shi nunca o perdoaria. Contudo, ele não acreditava nem por um momento que realmente teria algum poder de escolha naquele caso, a princesa do fogo não estava ali para perguntar se ele tinha disposição para ajudar, ela tomara aquela decisão e ele era apenas uma ferramenta para agilizar o processo do que ela queria realizar.
— Para parar o abismo do tempo e salvar a alma de Li Luo, Lian Ji precisa morrer. Assim, elas trocarão de lugar e a compensação vai ser feita, mas isso não muda o fato de que seu sacrifício ainda está valendo e o tempo acabou. — Continuou. — Vou jogar do lado dela, fingir que estou sendo manipulada pelo ódio e permitir que ela possua o meu corpo por um breve momento, ela vai tentar me usar em seu favor e é aí que você entra, vou colocar o prego do destino no coração dela, quando eu expulsá-la do meu corpo você ou Ying Kong Shi precisam atingi-la e você vai me atingir com sua espada.
— Eu não posso...
— Pode e vai! Não estou perguntando. — Cortou. — É importante estar atento ao tempo, precisa fechar o abismo do tempo e pagar o sacrifício simultaneamente ou o prego do destino não vai funcionar. Você só tem uma chance. É sua última vez, Ka Suo, salve todos eles, você os trouxe para ter uma segunda chance, eles merecem isso.
— Você também merece. — Chorou o monarca.
— Desde o começo eu estava condenada a ser o sacrifício. — Retrucou. — No momento em que dei minha vida para Shi. Mas não me arrependo, minha partida significará a vida deles, não posso imaginar um motivo mais justo para morrer.
※
— Não é justo. — Murmurou Pian Feng, cego pela dor. — NÃO É JUSTO! Por que ela tem que pagar por nós? Por que ela não pode ter um momento de felicidade na vida?! POR QUÊ?!
— Pian Feng... — Ka Suo deu um passo na direção dele.
— Não! — O guerreiro ergueu a mão para manter o monarca longe. — A partir de agora eu não devo nada a você, não sou seu subordinado, não obedeço às suas ordens e não quero te ver de novo, Ka Suo!
— Eu nunca vou te perdoar por isso. — Emendou Chao Ya.
O casal não deu chance ao rei de falar uma segunda vez, abrindo um portal os dois desapareceram em algum lugar do mundo imortal. Ka Suo sentiu todas as suas forças desaparecerem, Yue Shen segurou seu ombro com um aperto firme, ela não concordava com a atitude dele, mas entendia o pedido da princesa e a decisão difícil que ele tomara. Sendo justa, a envenenadora tinha de concordar com Yan Da que, mesmo indesejada, aquela era a única saída para todos eles e a nobreza de coração da princesa do fogo não podia ser esquecida.
Huang Tuo estava dividido. Entendia o ponto da princesa, analisando todos os lados da história, não podia ver outra saída além da morte dela ou a de Shi, mesmo a de todos eles. Ainda assim, fora cruel da parte de Yan Da escolher justo ele para desempenhar aquele papel. De todo modo, conhecia Ka Suo tão bem quanto as linhas de suas próprias mãos, sabia que o rei do gelo nunca tomaria uma decisão como aquela com facilidade e sob nenhuma hipótese tiraria a vida de Yan Da por escolha. Unindo-se à esposa, ele ofereceu sua solidariedade ao monarca.
— Vamos. — Disse, sério como nunca antes. — Precisamos encontrar uma maneira de salvar Yan Da.
— Huang Tuo tem razão. — Concordou Yue Shen. — Lian Ji disse que a lótus escarlate podia trazê-la de volta, mas que ela não se lembraria de nada. Precisamos descobrir se é verdade ou se ela estava mentindo.
— Deve haver algo nos antigos livros da tribo xamã. — Anuiu o curandeiro. — Não leve o que eles disseram a sério, Ka Suo, eles estão cegos pela dor. Vão perdoar você, assim como Shi.
Xing Jiu juntou-se aos amigos para reafirmar suas colocações. Liao Jian e Lan Shang também manifestaram seu apoio ao monarca e, juntos, todos eles atravessaram o portal que a envenenadora abriu para a tribo xamã. Ao passo que o advogado não estava comovido pela morte da princesa, ele entendia tanto o ponto do seu rei quanto do seu casal de amigos. Não era capaz de entender a dor deles ou de Shi, mas tinha certeza que Yan Da escolhera aquela forma de morrer como uma punição tanto para o rei quanto para seu irmão, pedir a Ka Suo que a matasse havia sido uma forma de lavar sua alma pelo que os dois lhe fizeram no passado.
Lan Shang, por sua vez, sentia-se terrivelmente triste por Yan Da. Entendia como ninguém o que a levara a cometer aquele ato pela segunda vez e desejava no fundo do seu coração que houvesse uma maneira de trazer Yan Da de volta. Mesmo tendo entendido por alto o que aconteceu, não acreditava que Ka Suo teria machucado a princesa de propósito e jamais desconfiaria ou se voltaria contra ele.
※※※
Shi depositou o corpo de Yan Da com todo cuidado sob a árvore de cerejeira. Acomodou-a ao lado daquele que um dia fora seu túmulo vazio quatro milênios atrás, as pétalas ainda flutuavam no ar e o ar gélido tinha cheiro adocicado. O sangue dela havia secado em suas mãos e em sua roupa, as lágrimas agora caíam com menos agressividade, envoltas na dor e na angústia, mas apartadas do desespero. Ele acariciou o rosto dela, os lábios empalidecidos, a pele começando a ficar tão gélida quanto a paisagem ao seu redor.
O príncipe sentou ao lado dela murmurando pedidos de perdão que nunca seriam ouvidos enquanto as mãos seguravam a esfera contendo o sonho que ela lhe deixou, mas temia as palavras ditas dentro dele. Huang Tuo prometera que a traria de volta, mas Shi sabia dos riscos e dos sacrifícios necessários para fazer aquilo acontecer, as impossibilidades dançavam na sua mente como agulhas e as lágrimas se tornavam cristais de gelo quando tocavam o solo.
Ele encarou a esfera por longo tempo, não podia evitar para sempre, uma hora teria de ver, mas encarar as últimas palavras de Yan Da naquele momento poderia ser demais para seu coração fragilizado pela perda recente. Talvez, em algum momento da jornada, Shi tenha sido arrogante ao acreditar que seria capaz de conquista-la, de vencer os seus erros do passado como se fosse uma mancha sobre um lençol facilmente lavável. Ele abraçou a esfera e, no momento que sua lágrima pingou sobre ela, uma luz forte o carregou para dentro do sonho.
※
Hóngmù sēnlín*[6] estava tal qual Shi se recordava da viagem que fizera com Yan Da na qual ela lhe contara sobre Peng Yan e onde ele a levara, seis anos atrás, para mostrar-lhe o espetáculo de vagalumes. As enormes sequóias se estendiam ao redor fazendo-o parecer uma formiga num mundo de gigantes. A clareira onde os dois ficaram também estava cheia de flores que exalavam uma mescla de perfumes doces e almiscarados. Ao longe, sentada no mesmo banco de madeira e trajando um lindo hanfu branco com detalhes em vermelho, estava Yan Da.
— Yan Da...
Os olhos do príncipe do gelo mal conseguiam enxergar em função das lágrimas, ele correu até ela, o desejo de tocá-la, de sentir algum calor em seu corpo, a ânsia de acreditar que tudo que vira momentos atrás não havia passado de um pesadelo. Yan Da não sorriu, permaneceu sentada ali observando-o como se não o visse de fato. Uma vez, Shi também havia entregado um sonho a Xing Jiu, logo quando fora morto pelo irmão, então ele sabia que nada daquilo era real, como contemplar uma gravação em 3D.
— Ying Kong Shi — Yan Da o chamou tão logo ele ajoelhou-se diante dela —, se você chegou até aqui significa que consegui salvar todo mundo. Fico feliz.
— Bem, eu não estou feliz. — Retrucou, a voz falhando.
— Desde o começo, quando nascemos nesse mundo, era nosso destino seguir caminhos diferentes. — Continuou ela, alheia às palavras dele. — Da mesma forma que um dia a roda do destino prendeu você em uma maldição de vida e morte com Ka Suo, esse mesmo destino nos atou dessa maneira por causa do sacrifício do seu irmão. Não importaria se eu aceitasse amar você, mesmo que conseguisse salvar todos os outros, um de nós ainda teria que morrer para o outro permanecer vivo.
— Yan Da...
A voz de Shi perdeu o som diante da revelação. Ka Suo nunca disse aquilo a ele, que coisa mais cruel e egoísta ele havia feito? Como podia ter atado os dois daquela maneira apenas para salvar Li Luo e os demais? As lágrimas amargas que agora escorriam pelo rosto do príncipe eram de pura raiva.
— Nunca pensei que eu diria isso — continuou a princesa —, mas seu irmão tolo não sabia de nada, então não o culpe. É provável que Xing Jiu não tenha pesado todos os contras quando lhe deu essa ideia. Não se pode trazer alguém de volta à vida sem consequências. Então não se ressinta deles, hao bu hao?
Ele deu uma leve risada diante daquilo, mesmo em um sonho, ela conseguia prever suas reações e pensamentos. Quão bem ela o conhecia e quão pouco ele sabia sobre ela?
— Foi muito difícil me manter longe de você, mas fiz isso como uma forma de machucá-lo, talvez assim você se sentisse um pouco menos mal com a minha partida. Também queria te punir, admito. Mas não amar você, Ying Kong Shi, só me fazia te amar mais e cada vez que você voltava em busca de redenção era uma nova batalha interna para te manter longe. Eu sinto muito.
— Não é culpa sua, meu amor. — Chorou ele. — Fui eu que falhei em proteger você. Nada é culpa sua.
— Agora todos vocês podem ter uma vida sem a sombra do medo. E eu realmente desejo que consigam dar o melhor que tem para aproveitar esse presente. — Ela fez uma pausa. — Ying Kong Shi, desde o início nós sempre fomos muito diferentes. Nossas vidas são como duas linhas paralelas, nunca destinadas a se cruzar em um ponto comum. Eu fiz minhas escolhas pensando no que era melhor para todos aqueles que amo, mas também no que era melhor para mim. Então, se não quer me ver triste ou oprimida, se algum momento de tudo o que vivemos nesse curto período foi seu verdadeiro desejo de que eu fosse feliz, suǒyǐ fàngshǒu wǒ ba. Wǒ yě huì fàngshǒu nǐ.*[7]
[N.A.: *Então me deixe ir. Eu também vou deixar você ir.]
O príncipe meneou a cabeça, aquelas palavras doíam em seu coração. Todo o tempo, Yan Da estava pensando nele, aquilo só o fazia se sentir pior. Ele não conseguia apenas desistir dela como pedia, deixa-la ir significava condenar-se a uma vida vazia.
— Se ainda precisa do meu perdão para seguir em frente, então você o tem. Eu não guardo nada de você além das lindas lembranças que construímos juntos naqueles meses. Espero que possa recordá-las com o mesmo carinho e buscar sua felicidade. Não sei se vou ter a chance de ter uma nova vida, mas caso ela venha, desejo não me lembrar de nada que aconteceu e possa vive-la intensamente sem receios ou prisões. Contudo, se ainda assim meu caminho tiver de cruzar o seu, que eu volte como uma flor cujo perfume você aprecia, mas cuja existência efêmera é mais breve que o sopro da vida humana, ou mesmo a primavera que colore o mundo após os sombrios dias de inverno.
— Não, Yan Da... eu não posso continuar sem você... — Shi implorou, mesmo sabendo que era inútil.
— Todos os preços foram pagos, Ying Kong Shi, meu coração está em paz. Seguirei meu destino levando o amor que sinto por você como a luz na escuridão do submundo. Ele é infinito, use-o juntamente com a minha vida para continuar. Por isso seja feliz. Nessa vida, não devemos mais nada um ao outro.*[8]
※
Como um empurrão invisível, Shi foi expulso do sonho e trazido de volta para sua triste realidade. O corpo de Yan Da ainda jazia inerte ao seu lado reafirmando a verdade de que a voz e a aparência terna de momentos atrás não passaram de uma ilusão. Ela não existia mais. O príncipe do gelo deu um grito de agonia numa falha tentativa de abrandar a dor agonizante que enchia-lhe o peito como um veneno.
Era ele que devia estar morto, não Yan Da. Tudo aquilo era culpa dele. Se desde o início não a tivesse machucado ela não teria terminado daquela forma. Ele sentia repulsa por si mesmo, tinha ódio de Ka Suo por tê-la machucado daquela maneira, tinha ódio do universo por amaldiçoá-los daquela forma. Tudo parecia tão injusto e errado, o príncipe do gelo se viu sem chão, vazio, oprimido por uma dor maior do que qualquer outra que ele lembrava de ter sentido. Seu mundo inteiro estava frio e inerte ao seu lado. Perto demais do seu toque, longe demais da sua felicidade.
Não sabia por quanto tempo ficara ali sob a cerejeira abraçado ao corpo sem vida de Yan Da chorando amargamente aquilo que não podia mudar. As palavras dela continuavam lhe assombrando nos recônditos da sua mente. Também queria deixar-se deitar ao lado dela e desaparecer como poeira no espaço, chorando pela eternidade com ela o desatino de nunca poderem ocupar o mesmo espaço.
Tomando-a novamente nos braços, ele se pôs de pé e caminhou em meio às cerejeiras floridas, nesse instante encontrou Chao Ya e Pian Feng que vinham ao seu encontro com olhos vermelhos ainda derramando incessantes lágrimas. Shi nunca havia visto o guerreiro do vento chorar antes, jamais imaginou quão dolorosa a visão seria até ela estar diante de si. Ao contrário do que imaginava, Pian Feng não o agrediu, não gritou com ele ou o culpou pelo que havia acontecido, seus olhos estavam fixos em Yan Da, como se Shi fosse um detalhe ornamental sem importância na paisagem.
Ele hesitou apenas um instante quando o guerreiro do vento se aproximou dos dois e acariciou o rosto lívido de Yan Da, lágrimas cristalinas tocando o solo de gelo. O coração do príncipe do gelo se comoveu com a dor compartilhada do guerreiro e ele colocou Yan Da em seus braços. Era como ver um pai segurando seu filho morto, Chao Ya parou ao lado dele e tomou a mão da princesa entre as suas, todos envoltos em um luto opressor.
— Minha pequena fadinha... por quê? — Ele a aninhou em seus braços encostando a sua cabeça na dela. — Eu preferia sofrer mil mortes do que perder você uma só vez. Como pode acreditar que conseguiremos ser felizes sem você?
Juntos, eles caminharam em uma procissão silenciosa até uma caverna que ficava oculta no fim do bosque, apenas Shi conhecia sua localização, era onde costumava esconder-se quando não queria ver nem mesmo Ka Suo. A aura mágica ali dentro era muito propícia para preservar o corpo de Yan Da, ele não seria capaz de enterrá-la sob a neve, ser incapaz de vê-la outra vez era uma dor que poderia matá-lo. Pian Feng a colocou em uma cama de gelo forrada com pele e seda, Shi usou seus poderes para selar o corpo com uma tampa de gelo que o manteria incorrupto.
Havia muitas coisas a pensar e considerar a partir daquele momento, mas nenhum dos três estava disposto. Permaneceram ali olhando a pessoa a quem amavam e perderam, velando seu sono eterno e compartilhando aquela angústia desesperadora em silêncio. Um som de flauta entoou uma música antiga como o tempo e triste como a própria perda e assim permaneceram por longos dias.
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