Love as Sakura | 爱如樱
61 第55章 Coração de fogo
“Todos por aqui, por favor.”
“Você não está pronta ainda, querida, não pode tomar o chá.”
“Ei, não pode atravessar agora!”
O tumulto de vozes começou a crescer conforme a consciência de Yan Da ia clareando após muito tempo suspensa na escuridão. Ela não se lembrava de quase nada dos últimos momentos, apenas a dor intensa que ia engolindo seus sentidos e apagando sua visão aos poucos. Mas agora, não havia mais nada.
Nem dor.
Nem tristeza.
Nem medo.
— Yan Da?
“Shei?”*[1] A princesa conhecia aquela voz chamando seu nome, mas não conseguia lembrar de onde. As outras vozes ao redor, mas um pouco mais distantes, faziam uma crescente cacofonia que confundia seus sentidos, de modo que as lembranças não conseguiam conectar aquela voz a um rosto. Da mesma forma, por mais que tentasse, a princesa não conseguia abrir os olhos para encarar a figura de voz tão melodiosa.
— Yan Da, acorde. — Implorava. — Você tem que sair daqui.
“Zhège yǔyīn shì shéi de?”*[2] [N.A. De quem é essa voz?] A mente de Yan Da ia se tornando mais clara e a voz que lhe chamava mais nítida conforme os segundos iam passando. Ela foi se tornando ciente da grama que pinicava sua pele, as pedras que roçavam em seus pés e do cheiro floral, amargo com fundo adocicado que ela lembrava serem dos jacintos que segurava diante do túmulo da mãe. Havia também um cheiro característico de terra molhada, esse, contudo, um tanto mais fraco.
Todavia, ela se sentia esgotada. As imagens de seus últimos momentos se mesclavam na sua mente, lembrava do olhar atormentado de Shi, da súplica silenciosa de Ka Suo quando lançou a espada que atravessou seu corpo enchendo-a de uma dor excruciante. Também recordava de, em outra vida, ter sido atingida pelo poder do próprio pai, no mesmo local, perdendo a vida nos braços do insensível príncipe do gelo que, naquela, lhe olhava com lágrimas de desespero nos olhos. Sua morte aparecia na sua mente como um filme trágico, mas ela não sentia mais qualquer dor. As vozes ao fundo continuavam tumultuadas quando alguém pareceu envolver os braços em torno do seu corpo, então ela não sentiu mais nada.
Quando a consciência retornou novamente, as vozes ao fundo haviam sumido. O cheiro dos jacintos e da terra molhada também se foi. Só havia o odor amargo de chá medicinal e da fumaça envolta pelo som do crepitar baixo da lenha queimando. Yan Da abriu os olhos com alguma dificuldade, a visão embaçada levou algum tempo para focar no teto de bambu entrelaçado e coberto por palha. Um enjoo terrível revirou seu estômago conforme o amargor do chá se tornava mais forte, ela ergueu o tronco levemente para encarar uma cabana simples de bambu sem ornamentos, como se tivesse sido transportada para um drama histórico.
Mas o que realmente a surpreendeu não foi a mesa de madeira com duas cadeiras, o fogão à lenha ou as panelas de argila. Não foi a cama de madeira com dossel que parecia ter sido tirada de uma residência de criados da cidade proibida, nem mesmo a pintura delicada de uma mulher que parecia muito com ela, trajada em um hanfu vermelho e preto, com esvoaçantes cabelos ornados com um grampo de fênix. O que lhe surpreendeu foi a figura mexendo uma panela de mingau sobre o fogão, vestindo um hanfu cinza simples com detalhes em verde. Quando se virou para olhar na direção dela, Yan Da mal podia divisar seus traços por causa das lágrimas que lhe enchiam os olhos.
— Ni xing le.*[3] — Sorriu. — Como se sente, enjoada? Acontece depois da transição, leva um tempo até se acostumar.
— P-Peng Peng? — A voz mal saiu.
— Bom ver você de novo, xiao Yan!
Ela o abraçou apertado sem acreditar que ele estava mesmo ali. Peng Yan envolveu os braços com cuidado em torno dela, fechando os olhos ao sentir as lágrimas da princesa molharem suas roupas. Não interrompeu suas emoções, deixou que as liberasse sem fazer perguntas, aproveitando também o reencontro. Por um longo tempo os dois ficaram ali, silenciosos, envoltos no crepitar suave da madeira no fogão e nos soluços de Yan Da.
Parecendo mais calma, ela se afastou para tocar o rosto dele, como se desejasse se certificar que não estava sonhando, era real. Peng Yan sorriu enxugando as lágrimas dela com os dedos. Fora as roupas incomuns, ele estava do mesmo jeito que Yan Da se lembrava, os olhos brilhantes e cheios de sinceridade, um sorriso travesso, a pele imaculada, os cabelos curtos e as mãos carinhosas de artista. Olhando ele novamente, ela percebia que sua imagem nunca desbotara em suas lembranças, ela sempre viu Peng Yan tal como ele fora em vida até seu último momento. E, notava também que o sorriso brilhante e carismático do amigo lhe lembrava, de algum modo, o de Huang Tuo, por isso ela se sentia tão confortável ao lado do médico.
— É mesmo você?
— Sim, xiao Yan, sou eu. — Garantiu depositando um beijo na testa dela.
— Eu senti tanto a sua falta, Peng Peng... por favor, me perdoe! Eu sinto muito, eu...
— Shh... — Ele acariciou o rosto dela. — Eu sei que sentiu minha falta, e nada do que aconteceu foi sua culpa, Yan Da, entenda isso, por favor. Era meu destino desde o começo. Mas agora, você precisa recuperar suas energias, não pode continuar aqui muito tempo.
— O que quer dizer, que lugar é esse?
— Nós estamos próximos dos portões da décima corte do Diyu.*[4] — Explicou. — Você caiu exatamente na estrada da travessia do palácio de Meng Po.*[5] Consegui tirar você de lá antes que os demônios dela viessem buscar as outras almas.
— Espere, o que você está fazendo aqui? — Quis saber. — Pensei que estaria no Penglai.*[6] Por que ainda está aqui?
— Eu não consegui seguir em frente e encarar o chá dos cinco sabores.*[7] — Confessou sem olhar para ela. — Não quando ouvia você todo o tempo sofrendo daquela maneira por minha causa.
— Nem mesmo na morte eu consigo libertar você...
— Não diga isso, pelo menos eu tive a chance de te ver de novo. — Ele sorriu. — Mas isso não muda o fato de que preciso te tirar daqui, você ainda é uma alma nova, se Meng Po sentir o seu cheiro vai obrigar você a tomar o chá e você não está pronta ainda.
— Peng Peng...
— Confie em mim, vou explicar tudo para você quando estiver segura, eu prometo. — Ele pegou a tigela que havia trazido anteriormente e entregou a ela. — Por enquanto, beba isso, vai mascarar o seu cheiro até eu conseguir te levar daqui.
— Para onde nós vamos? — Ela fez uma careta para o cheiro forte do chá, mas o bebeu quase engasgando ao sentir o sabor amargo.
— Há uma floresta mais abaixo na montanha Kunlun*[8] que fica dentro do território de Xuanpu*[9] onde Meng Po não pode interferir, pois é domínio de Yu Huang.*[10] As almas que não estão prontas para beber o chá dos cinco sabores são encaminhadas para um dos mais dezessete níveis do Diyu condizentes com os pecados que precisam pagar em vida. Você ainda está muito ligada a quem era antes de chegar aqui, quanto mais tempo ficar nas terras de Meng Po, mais rápido vai começar a se esquecer de tudo ou pior, ser condenada a lembrar até implorar pelo chá.
Peng Yan envolveu Yan Da em uma capa com capuz. Era gasta, de um verde escuro que a cobria completamente até os tornozelos, escondendo as roupas que ela usava quando morrera e nada tinham a ver com os hanfus que pareciam ser a moda por ali. Os dois saíram furtivamente da cabana, ela ainda tinha dificuldades em andar e o remédio acentuara ainda mais o seu enjoo. Peng Yan apoiou-a com seu braço e a guiou por uma floresta fechada, árvores e flores se espremiam quase fechando completamente qualquer tipo de estrada que tentasse ser aberta ali, ao fundo podia-se ouvir o correr de um rio.
Não havia sol, lua ou estrelas, acima de sua cabeça e além da copa fechada das árvores, as frestas entre as folhas verdes mostrava um “céu” acastanhado como uma superfície aquática tingida de sangue. A brisa que soprava era quente como se estivessem sob o mormaço de um asfalto no meio do verão. Vendo que a princesa não conseguia se movimentar mais rápido, Peng Yan a colocou em suas costas, Yan da não fazia ideia do motivo de se sentir tão esgotada daquela maneira, estava quase adormecendo quando o som de passos no meio das árvores a deixou em alerta.
— Estão aqui... — murmurou Peng Yan — acho que procuram por você.
Os braços dela se apertaram em volta dele e ela escondeu a cabeça coberta com capuz na curva do seu ombro, as mãos tremiam com os dedos entrelaçados sobre o peito do garoto.
— Não se preocupe, não vão conseguir sentir o seu cheiro, estamos perto agora.
Ela anuiu em silêncio e quando Peng Yan recomeçou a caminhar, agora mais cauteloso para continuar ouvindo quão perto os demônios estavam deles, Yan Da sentiu os olhos pesarem e despencou mais uma vez no vazio.
※※※
Ka Suo, Yue Shen e Lan Shang foram na direção da tribo xamã enquanto Huang Tuo seguiu Liao Jian para dentro do declive das cerejeiras, mais a frente na floresta do nevoeiro onde haviam colocado o corpo de Li Luo. Xing Jiu foi para a tribo dos astrólogos encontrar com Xun Hao e fazer preparativos para lidar com Hu Bing, enquanto não encontrassem uma forma de trazer Yan Da de volta, ele precisava alterar a memória do irmão dela e isso exigia um processo muito delicado. Além disso, a pedido do monarca, ele também tentaria localizar Shi, Chao Ya e Pian Feng.
O médico tomou a esposa, mais afastado dos demais, para lhe passar algumas instruções enquanto Ka Suo orientava o resto do grupo e pedia opiniões sobre os passos seguintes. Yue Shen estava presa em uma tranquilidade estranha que não passou despercebida aos olhos do curandeiro, ele afagou seu rosto delicadamente.
— Tem algo preocupando você.
— Me sinto culpada. — Admitiu. — Antes eu estava com medo do que viria pela frente, temia ser separada de você de novo e nunca mais te encontrar, mas agora temos a vida inteira pela frente às custas da vida de alguém que merecia um final feliz mais do que eu...
— Yue Shen, não acredito que Yan Da tenha tomado essa decisão para que você se sentisse dessa forma. — Ele ergueu o rosto dela para que encarasse seus olhos. — Deve haver uma maneira de reverter esse desfecho, não há mais nada nos impedindo, Lian Ji se foi, o abismo do tempo está fechado e o sacrifício foi pago. Vamos trazê-la de volta, eu prometo.
Ela anuiu sem saber mais o que dizer. Huang Tuo beijou a testa da esposa com carinho.
— Vou encontrar vocês em breve, enquanto isso, para abrir a biblioteca secreta você precisa do selo do meu pai, procure-o sob o compartimento do trono da sala de cura.
— Serei capaz de abrir? — Indagou, insegura.
— Claro que sim. — Afirmou com convicção.
— Ainda assim, acho que não tenho o direito de saber segredos da tribo xamã quando...
— Amor — Huang Tuo apertou a mão dela levemente —, não importa o que você ouviu no passado, você é uma de nós. Sempre vai ser. Apenas aqueles que abdicam do bem em nome de poder e em benefício próprio perdem a essência da cura. Você ainda pode curar, Yue Shen, mas precisa curar a si mesma antes.
Ele a abraçou, apertando-a contra si com carinho ardente. Havia muitas cicatrizes no coração da esposa, o curandeiro sabia, precisaria de tempo e paciência para curar todas elas por dentro. Yue Shen acreditava com toda a convicção que sua única função, desde que desistira da magia branca por Yue Zhao, era destruir. Ela era uma mestre em venenos, especializada em magia de ataque tudo porque assumira para si a proteção de uma irmã mais velha que amava e estava destinada a ter tudo, incluindo ele. Durante toda a vida, após sua escolha, Yue Shen não teve escolha além de silenciar e reprimir seu frágil coração e se manter afastada de todos para protegê-los do que se tornara.
Sua adorável esposa precisava encontrar a luz em si mesma para se desvincular daquela imagem errônea que tinha da sua natureza e aquela era uma boa chance de mostrar isso a ela, apenas curandeiros com forte energia espiritual e coração limpo podiam tocar a jade de acesso à biblioteca secreta, ela ia conseguir e aquilo talvez ajudasse a minimizar sua aflição interna. Ele depositou um beijo em sua testa mais uma vez e os dois se despediram, grupos foram para lados separados seguindo suas jornadas pela felicidade de Shi.
Ka Suo contemplou a sempre silenciosa Yue Shen com um olhar mais analítico, não parecia o silêncio concentrado e instintivo de costume, tampouco o afastamento preventivo que ela costumava ter no passado, enquanto caminhavam rumo à tribo dos curandeiros, a envenenadora parecia melancólica e apreensiva. Ele se perguntava se tinha participação naquilo.
※
Meses atrás
— Luna, preciso que me faça um favor.
— Shi, wang, Yue Shen está pronta para aceitar suas ordens. — Ela colocou o braço sobre o peito, a mão em punho encostada no ombro.
— Envenene a minha espada. — Disse ele, quase sem voz.
— Shenme? — O choque na expressão de Yue Shen foi tal como se o rei a tivesse esbofeteado. — Posso perguntar por que está me fazendo um pedido tão incomum, meu rei?
Ele não respondeu imediatamente, seu olhar era incapaz de encontrar os olhos inquisidores e assustados da guerreira, envenenar uma espada era um sinal de desonra, além de um insulto ao seu oponente. Se você não fosse um envenenador ou um mestre de venenos — cujas espadas eram forjadas com uma mágica específica para conter, bloquear ou expelir todos os tipos de venenos mais poderosos — o ato de envenenar uma espada era visto como um crime. Ele imaginava as coisas que ela estaria pensando naquele momento com tal pedido, contudo, embora confiasse sua vida a ela, revelar a verdade seria contrariar o pedido de Yan Da.
— Eu gostaria muito de poder lhe dizer, Luna. — Murmurou. — Acredite em mim, a coisa que eu mais queria agora era poder compartilhar esse segredo com você.
Diante da resposta, a envenenadora não fez mais nenhuma pergunta e, aceitando a espada que Ka Suo lhe ofereceu, ela usou seus poderes para envenenar a lâmina com um dos seus mais potentes venenos.
※
— Luna. — Ele diminuiu o passo, caminhando ao lado dela. — Eu sinto muito.
— Pelo que está se desculpando agora? — Quis saber ela, tentando manter a mesma pose impassível.
— Sei que está pensando no que aconteceu com Yan Da, mas não foi culpa sua, além de seguir minhas ordens, você não fazia ideia que eu usaria aquela espada contra ela. — Seu tom era apaziguador.
— Pensei que você ia ferir Lian Ji — suspirou — apesar de não concordar com o método, entendi que era por um bem maior. Nunca pensei que meu veneno acabaria no corpo de Yan Da. Isso me torna sua cúmplice na morte dela.
Lan Shang, percebendo o tom da conversa, se afastou um pouco mais a frente deixando os dois com privacidade. Ela estava diferente depois de acordar e o monarca não pôde deixar de notar — e aprovar — aquilo.
— Entendo que a princesa quis me punir ao me fazer aquele pedido, mas ela também me deu instruções para que você envenenasse a espada, ela teria alguma razão para te punir? — Perguntou o monarca e, vendo que ela não respondia, continuou. — Yan Da já morrera uma vez, ela agonizou nos braços de Shi e sofreu uma morte dolorosa no corpo e na alma. No momento que você envenenou a espada, garantiu que ela teria tempo bastante para se despedir, mas não sofreria tanto quanto da primeira vez. É um jeito estranho de encarar isso, mas acho que foi a maneira dela de pedir misericórdia a você.
Ouvindo aquelas últimas palavras, Yue Shen parou. Os olhos encarando a neve branca lentamente iam se desvinculando daquela realidade e transportando sua mente para dez mil anos atrás. A voz de Ka Suo chamando seu nome era um eco longínquo, sua mão apertou o cabo da espada que levava consigo e se permitiu ser tragada pelas memórias que desejava ardentemente poder esquecer.
— Yue Shen...
A voz de Yue Zhao era tão fraca quanto um sussurro, deitada na cama com os lábios brancos e a pele tão fina quanto um papel de seda, ela segurava a mão de Yue Shen, mas seus olhos mal conseguiam enxerga-la. Do outro lado da cama, o marido chorava silencioso a morte repentina e cruel que levava sua esposa lentamente. Yue Zhao fora envenenada, mesmo sendo uma das melhores envenenadoras já existentes na tribo xamã, Yue Shen não foi capaz de expurgar aquele veneno no corpo da irmã mais velha.
— Jiejie... — Chorou.
— Quero... que... faça isso. — Pediu a jovem em tom entrecortado a dor levando suas forças embora. — Só você... pode.
— Não, jiejie, Huang Tuo Jun vai achar uma maneira, você precisa suportar só mais um pouco, hao bu hao?
— É tarde de... demais. — Ela apertou fracamente a mão de Yue Shen. — Termine meu sofrimento... tenha... misericórdia.
— Luna!
A voz de Ka Suo arrancou-a da memória e Yue Shen mal se deu conta quando suas pernas perderam a firmeza e ele a segurou assim como Lan Shan, que agora estava a seu lado e segurava seu braço com preocupação sincera. A sensação de sua mão cheia do sangue da irmã voltou causando uma onda de náusea, Yue Shen precisou se esforçar muito para recobrar a compostura e vestir o manto de frieza que usava para manter as pessoas longe do seu poder e das suas emoções.
— Misericórdia? — A palavra soou amarga como se enchesse sua boca de fel. — Yan Da não teria porque desejar isso de mim.
Segurando o cabo da espada com força, ela avançou na frente deixando para trás um Ka Suo e uma Lan Shang cheios de confusão em seu encalço.
※※※
A princesa do fogo acordou se sentindo melhor. Não sabia que a alma podia se sentir tão desgastada daquela forma mesmo depois de deixar o corpo e aquela ser a única sensação que seu corpo sinalizava era, ao mesmo tempo, bom e aterrador. Peng Yan ainda lhe carregava nas costas, mas não demonstrava qualquer sinal de cansaço, como se leva-la fosse algo natural.
Observando a paisagem ao redor, Yan da também não viu mais a floresta impossivelmente fechada ou ouvia o som de passos nas folhas secas sob o chão. O céu acastanhado foi substituído por um de tom escuro salpicado de estrelas brilhando fortemente e uma lua cheia imponente espargindo seus raios prateados como um holofote na imensidão negra. A Lua do Abismo, pensou, recordando-se de antigas histórias que ouvia quando criança na escola. Talvez pela mente desnorteada, ela não prestara atenção nas palavras de Peng Peng quando disse que a levaria para Xuanpu, as lendas diziam que era uma terra encantada nas proximidades da sagrada montanha Kunlun, havia ali a fronteira entre o reino dos vivos e dos mortos que era proibida às almas mortais destinadas ao Diyu fosse para perecer por seus crimes ou seguir para a outra vida sem lembrar do seu passado.
— Se sente melhor? — Peng Yan perguntou ao perceber que ela acordara.
As mãos de Yan Da apertaram-se em volta dele outra vez, ela sentia seu perfume e o calor dele lhe envolvendo, fechou os olhos por um momento como se temesse que ele pudesse desaparecer a qualquer instante. Lembrou-se do seu pedido ao fogo sagrado no que agora parecia uma vida inteira atrás.
— Há mais algo que quero pedir.
“Faz-me teu último pedido e este te será concedido.”
— Estou consciente que não haverá um futuro para mim naquele mundo. Como membro da tribo do fogo, preciso perecer também para acabar de uma vez com o ciclo da maldição. — Respirou fundo. — Então, que a minha morte seja a compensação de tudo, do sacrifício que atou meus amigos, da vida de Ying Kong Shi e da alma de Li Luo. Mas, se puder me atender em um desejo egoísta, eu quero que minha alma vá para onde está Peng Peng.
“Yan Da, apesar das tuas ações no passado, considero uma atenuante tua postura nos últimos dias da glória do mundo imortal. Teu pedido será concedido e teu sacrifício aceito como o fim das amarras do passado. No momento que partires, tu não mais pertencerás a mim e aos que me servem fielmente.”
— Xiao Yan? — A preocupação na voz dele fê-la perceber que não havia respondido.
— Na verdade, estou mais preocupada pelo fato de não estar sentindo.
Uma leve e contagiante risada escapou pelos lábios de Peng Yan. Ela bateu levemente nos ombros dele como um sinal para que a pusesse no chão, assim os dois retomaram a caminhada, dessa vez lado a lado.
— Você ainda está ligada ao mundo do qual partiu. — Contou ele. — O fato de não estar sentindo nada agora não quer dizer que está livre para tomar o chá dos cinco sabores, por isso a tirei das terras de Meng Po.
— Peng Peng — ela parou de andar, uma expressão triste no seu rosto — Nǐ... xiǎng sòng wǒ hòu ma?*[11][N.A. Você quer me mandar embora?]
A forma como ele vinha falando desde que ela chegara ali, como se ela não pertencesse aquele lugar, deixava Yan Da inquieta. Ela estava morta, se sacrificara para salvar seus amigos. Se aquele não era seu lugar, então onde ela deveria estar? Peng Yan segurou as mãos dela e a puxou com suavidade para um abraço.
— Não entenda errado, Yan’er, não é que eu queira que você vá embora e nem tenho poder para isso. — Sua mão apoiou a cabeça de Yan Da, mantendo-a colada a seu peito, ela estranhou não ouvir o som ritmado do coração dele. — Por mais que você tenha feito o que fez, a sua experiência de vida ainda não acabou, foi interrompida. Ainda há coisas naquele mundo que você não consegue deixar para trás. A dor deles logo vai começar a fazer efeito sobre você e não conseguirá sair do Diyu enquanto eles não a libertarem. Especialmente ele.
— Por isso você ainda está aqui. — Concluiu. — Porque nunca te deixei ir.
— Essa não é a única razão. — Ele se afastou para olhá-la. — Na verdade... eu fiz um acordo com um juiz.
— Um juiz? — A exasperação e o medo na voz de Yan Da eram nítidos. — Por quê? Não sabe que isso pode impedir você de renascer?
Peng Yan não respondeu, sua expressão continuava serena como se as emoções dela não fossem mais capazes de atingi-lo. Ele ergueu o olhar para alguém atrás dela e Yan Da sentiu um gelo subir pela sua espinha.
— Há alguém que você precisa conhecer.
A forma como ele disse aquilo, sereno e quase esperançoso, espalhou uma onde terror por ela. Devagar, Yan Da virou na direção do olhar dele, havia uma figura parada a alguns passos deles, encarava os dois com uma expressão firme e segurava um leque em uma das mãos. Todas as emoções que antes não mostravam sinal de ainda existirem ali convergiram de uma só vez sobre ela ao encarar a figura, Yan Da não conseguia acreditar no que estava vendo.
— M-M-Mǔqīn?*[12]
※※※
— Por que tinha de ser tão longe desse jeito? — Reclamou Huang Tuo enquanto seguia atrás de Liao Jian pela floresta sob a nevasca incessante.
— Sabe como é difícil achar uma caverna com boa aura mágica para um cadáver por aqui? — Retrucou o advogado. — Você só está emburrado desse jeito porque sua cabeça está em Yue Shen.
A imagem do semblante angustiado da esposa veio à mente do curandeiro e sua expressão tornou-se taciturna. Liao Jian franziu o cenho ao ver a reação do amigo ao seu comentário, havia falado em tom de brincadeira, sabia como Huang Tuo era louco por Yue Shen e, se lhe fosse permitido, ele viveria trancado com ela em um quarto pelo resto dos seus dias. Ele tocou o braço do amigo temendo que este ficasse preso em seus pensamentos e recebeu um sorriso amarelo, muito pouco característico daquele sempre sincero, brilhante e acolhedor que ele costumava exibir.
— Tem razão, estou mesmo com a cabeça nela. — A voz de Huang Tuo soava forçada, como se falar lhe custasse muita energia.
— Ei, eu estava te provocando. — Disse o advogado em tom de desculpas. — Vocês brigaram?
— Não, nem perto disso. — Meneou a cabeça enquanto desviava de um galho baixo. — Desde o abismo do tempo, ela está... instável. A morte de Yan Da parece ter libertado velhos demônios dentro dela, acho que estou com medo de não ser capaz de ajudá-la, só isso.
— Huang Tuo, você é o melhor curandeiro de toda terra imortal, foi capaz de salvar Luna de si mesma de diversas maneiras, o que pode fazer agora é ficar ao lado dela, é disso que ela precisa, saber que você está lá. Mas não pode lutar as batalhas por ela.
— Ni ne, o que vai fazer quanto terminarmos tudo isso?
— Não sei. — Deu de ombros. — Estou tentando não pensar muito nisso.
— Liao Jian, aquele mundo é mesmo tão ruim aos seus olhos?
O advogado não respondeu. Huang Tuo não o pressionou, mas se preocupava com o amigo, todos eles pareciam ter um caminho que desejavam seguir, mas Liao Jian se mostrava até mesmo apático com tudo que acontecia à sua volta, se ele ainda se esforçava para lutar, era por causa deles, mas não parecia se preocupar com o próprio futuro.
— É aqui. — Disse após um tempo quando os dois pararam diante de uma caverna.
O curandeiro reprimiu um suspiro e seguiu o advogado para dentro, o interior era um pouco mais gelado que o lado de fora e, sobre uma pedra em forma de mesa, estava Li Luo. Huang Tuo aproximou-se dela e tomou seu pulso vendo que o coração e a respiração estavam um pouco fracos, mas era inegável que ela estava viva. Todavia, ao contrário dos demais, a energia espiritual da rainha do gelo estava muito baixa como se estivesse se extinguindo.
— Qíguài...*[13] — Murmurou ele. — O pulso mágico de Li Luo está muito fraco, como se estivesse desaparecendo.
— O que isso quer dizer?
— Ela era uma feiticeira, a veia mágica dela originalmente era mais fraca que a nossa por ser mestiça, contudo, lembro que antes da grande guerra, Ka Suo dividiu sua essência com ela na intenção de torna-la rainha do gelo. — Ele ficou pensativo. — Não sei se isso está ligado ao abismo do tempo, mas dependendo de quão profundo o poder estiver ligado ao núcleo dourado dela, ou se tornará uma mortal comum, ou...
— Vai desaparecer. — Completou o guardião vendo que o curandeiro não conseguia continuar.
— Kuáidian*[14], temos de levá-la até a tribo xamã, não tenho o que preciso aqui para ajudá-la.
※※※
Meng Xiyu sorriu para a filha, mas tão logo Yan Da fez menção de ir em direção a ela, Peng Yan a impediu, segurando-a pelo braço, a expressão da bela mulher ficou triste.
— Minha menina, que bela mulher você se tornou. — Disse, a voz era melódica e metálica, a princesa percebeu que não se lembrava mais de como era a voz da mãe. — Tenho olhado por você durante todos esses anos, agora que finalmente a reencontro não posso sequer abraça-la. Me perdoe, Yan Da, por ter falhado com você.
Ela não entendia. A mão de Peng Yan continuava firme em seu braço, apertando o suficiente para impedi-la de avançar na direção da mãe, mas não o bastante para machucar. Naquele momento, as emoções antes ausentes quando ela acordou no Diyu explodiam dentro do seu peito. Dor, angústia, raiva, indignação, medo, exasperação, revolta...
— O juiz com quem eu fiz um acordo — revelou Peng Yan — é a sua mãe. Ela abdicou da reencarnação para poder continuar olhando por você. Graças ao coração bondoso e a todas as injustiças que sofreu em vida, foi lhe dado uma posição como a juíza do décimo primeiro nível do Diyu.
— Tive acesso ao livro do destino por causa da minha posição aqui. — Continuou Meng Xiyu. — Meus subordinados interceptaram Peng Yan antes que ele fosse visto por Meng Po, ele terá a chance de seguir seu caminho quando cumprir sua missão final aqui.
— Que missão? — A voz de Yan Da era apreensiva.
— Ajudá-la a entender. — Sorriu a mulher. — Yan Da, eu tenho muito orgulho de você, da mulher forte e bondosa que se tornou.
Yan Da encarava a mãe com uma mistura de dor e apreensão, por mais que processasse as palavras dela na sua mente não conseguia fazer com que elas ganhassem um sentido. Peng Yan continuava ao seu lado, ela não tinha certeza se a expressão no seu rosto era impassividade ou tristeza, mas ele não a segurava mais, agora a própria Yan Da sabia que não podia tocar a mãe. Na sua condição de espírito, tocar um juiz significava desaparecer sem a chance de seguir para uma nova vida.
— O que eu preciso entender? — Quis saber.
— Eu vou lhe dar uma chance que nenhum outro mortal já teve ao chegar ao Diyu — Meng Xiyu esquivou-se da pergunta da filha — se após tudo que Peng Yan lhe mostrar, você sentir que é capaz de deixar essa vida para trás e esquecer, vou direcioná-la para sua próxima existência sem mais perguntas e sem um julgamento. Mas peço que pense com cuidado Yan Da, se existe ainda algum fio no seu coração ligado a essas pessoas, mesmo esquecendo tudo que passou sua próxima vida será afetada por esses laços.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Yan Da viu sua mãe desaparecer diante dos seus olhos. O reencontro tão breve e tão distante lhe causou estranheza, ao mesmo tempo que ela estava melancólica por uma saudade adormecida na infância e abruptamente despertada, a vida sem a mãe colocou uma certa barreira entre elas que dava a princesa do fogo a dúvida se aquela tristeza decorria de um laço entre elas que a morte não era capaz de quebrar ou somente o reconhecimento de sua relação aliada a um sentimento que ficara impresso no seu coração ao longo do tempo.
Ela permaneceu imóvel por algum tempo tentando assimilar tudo aquilo, mesmo depois da morte, a paz parecia algo distante de ser alcançado. Queria chorar, mas as lágrimas não vinham, parecia que todas elas tinham sido derramadas em vida e agora restava apenas aquele vazio incapaz de ser preenchido e a dor incômoda se recusando a ir embora. Peng Yan deu a volta e ficou diante dela oferecendo-lhe um sorriso solidário e segurando sua mão com carinho. Sua presença ajudava Yan Da a não perder o controle por um fio.
— Zouba. — Disse baixinho. [N.A. vamos]
— Qù nǎ'r?*[15] — Perguntou ela, sem qualquer energia. [N.A. Para onde?]
— Ao rio Jìngzi.*[16] — Respondeu. — Vou lhe contar uma história.
Yan Da anuiu sem forças para resistir ou questionar. Por um instante, pensou em gritar para a mãe que estava pronta, queria esquecer de tudo e seguir em frente, não olhar mais para trás ou precisar se sentir daquela maneira. Todavia, pensava em Peng Yan ali ao seu lado, no esforço que ele estava fazendo e no que tivera de suportar ali por causa dela, por ela não ser capaz de deixá-lo seguir em frente. A mãe dissera que o melhor amigo poderia seguir em frente quando a fizesse entender, se perguntava se teria uma nova chance ao lado dele caso seguissem juntos para a próxima vida.
Os dedos de Peng Yan apertaram suavemente sua mão enquanto caminhavam lado a lado por todo o vale de Xuanpu. Ao longe, acima do tecido formado pela copa das árvores altas, os cumes da cadeia montanhosa de Kunlun podiam ser avistados conforme os dois avançavam na clareira. A imagem da lua do abismo ainda estava vívida na mente de Yan Da, mas as chamas no seu coração ainda ardiam por ele. A princesa se lembrava das lágrimas cristalinas caindo em sua pele, da neve despencando como bolas de algodão no ar, dos fractais que brilhavam sob a luz pálida, da voz dele implorando para que não fosse embora. Se fechasse os olhos por um momento ainda podia ouvi-lo chamando seu nome e isso a torturava mais do que ser mandada para a punição no Diyu. Não se reconhecia mais, como Alice após despencar na toca do coelho.
Entrando no cerco de árvores que compunham a floresta da base de Kunlun, Yan Da apertou a mão do melhor amigo e rezou pela primeira vez.
※※※
A grossa gota de lágrima salgada pingou do queixo de Ying Kong Shi sobre a tampa de gelo do esquife improvisado de Yan Da. Ele não sabia mais há quantos dias ou quanto de água já havia perdido desde que a vida desaparecera dos olhos dela nos seus braços. Chao Ya havia insistido, ele não recordava quanto tempo atrás, para ele retornar ao mundo mortal, havia coisas a serem feitas, assuntos a serem discutidos e soluções a serem buscadas, mas Shi não conseguia se afastar de Yan Da.
Oprimido por aquela dor, ele lembrou que a sentiu quatro mil anos atrás, contudo, seu coração fechado e insensível não conseguia compreender o que era ele permitiu que ela se espalhasse por ele, mas não se permitiu realmente senti-la. Agora, todavia, a sensação era de ter todo o corpo dilacerado, os músculos rasgando-se aos poucos e os ossos se quebrando um a um. Qualquer tortura no mundo seria bem vinda ao príncipe do gelo em lugar daquela agonia martirizante no seu peito.
Buscara em sua mente, diversas e diversas vezes, todo o conhecimento adquirido no mundo imortal sobre trazer imortais de volta à vida, desde os tabus proibidos escondidos no mais profundo das bibliotecas secretas, até as magias mais recorrentes, porém nada lhe soava eficaz para o caso de Yan Da. Em seus últimos momentos, Shi percebeu que ela não desejava realmente viver e por mais medo que tivesse do seu fim, ela o abraçou com as forças que lhe restavam. O sonho que lhe deixou corroborava aquilo. Então como ele podia trazê-la de volta? Como buscar no abismo uma alma que não queria voltar?
A mágica de Huang Tuo havia fechado a ferida em seu corpo, Chao Ya vestira nela roupas limpas, olhando-a dentro daquele esquife de gelo não era muito diferente de vê-la adormecida, mas seu peito não se mexia com a respiração tampouco seu coração cantava audível a canção favorita do príncipe. Estava dentro daquela caverna há tanto tempo que não era mais capaz de lembrar a sensação do ar gelado do lado de fora, o cheiro adocicado do das pétalas de cerejeira pairando no ar ou mesmo o brilho das estrelas no manto negro da noite. Shi não comia por mais que Chao Ya viesse à caverna diversas vezes o obrigasse pelo menos a beber água. Não tinha vontade de viver, não sentia forças sequer para levantar do lado dela e temia que, em breve, não seria mais capaz sequer de chorar por ela.
Realidade e ilusão se fundiam na sua mente entorpecida. Shi se sentia um pária, rejeitado pelo inferno e pelo paraíso, vagando no vácuo sem destino. Caiu sentado no chão ao lado de Yan Da, o braço apoiado na perna flexionada.
— Eu preferia que você tivesse me condenado a morrer. — Murmurou, a garganta seca fazendo o som soar áspero e baixo. — Me salvar e me condenar a essa dor é pior que qualquer morte. Diga, Yan Da, vale a pena me salvar?
Mas não houve resposta. Shi fechou os olhos, a aura mágica da caverna se renovando e pulsando ao seu redor. Seu riso ensandecido ecoou dentro do lugar, com sorte seria sugado pela loucura e se enterraria no seu mundo de fantasia, fugindo de si mesmo, do seu crime e daquele tormento. Lembrou-se de quando foi até o fogo sagrado, seu insucesso.
“Isso em nada te cabe decidir! Se queres reverter o destino dela, traz-me em sacrifício a alma arrependida daquele que me ofendeu. Do contrário, nada me podes ofertar."
Algo começou a empurrá-lo para fora da caverna.
— Espera! — Implorou e a força invisível cessou. — Se não posso salvar a vida dela, então, suplico, ajuda-me com outra coisa.
“Nada pode impedir o destino de Yan Da.”
— Se não posso impedir o destino dela, então me dê uma maneira de trazê-la de volta.
“O rio segue seu fluxo, o vento comanda o caminho e as montanhas resistem ao tempo, mas nem mesmo a natureza em sua forma perfeita é imutável. Encontre o silêncio dentro do seu coração, príncipe do gelo, e achará a resposta que procura.”
Fechando a mão em punho, Shi golpeou com toda a força o chão de pedra fazendo-o tremer, um buraco se formou onde ele batera e sua mão sangrou, mas ele não sentia a dor. O silêncio dentro de si. Era impossível encontrar e aquele maldito espírito ancestral sabia disso. Tudo dentro de si eram vozes furiosas gritando acusações e lamentos, elas nunca se calariam.
Sua punição era viver.
Notas parte II:
[9] *Xuanpu (玄圃) é uma "terra encantada", também na montanha Kunlun.
[10] *Yu Huang [玉皇] — Imperador de Jade.
[11] *Nǐ... xiǎng sòng wǒ hòu ma? [你。。。想送我后吗?] — Você quer me mandar embora?
[12] *Mǔqīn [母亲] — mãe
[13] *Qíguài [奇怪] — Estranho
[14] *Kuaidian [快点] — Rápido; depressa
[15] *Qù nǎ'r [去哪儿] — Para onde
[16] *Jìngzi [镜子] — Espelho
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